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Boletim Eletrônico Semanal
Ano XV - nº 499
Florianópolis, 06 de maio de 2020.
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DIA A DIA DA ESCOLA

Escola Sarapiquá: reflexões e práticas durante a pandemia

“O mundo ficou pequeno”, parece ser uma das imagens que a pandemia evocou devido ao novo corona vírus; o mundo dos seres humanos ficou perplexo e exposto, seja na sua fragilidade ou na sua robustez.

Para o “mundo escolar” uma infinidade de perguntas e de ânsia por respostas emergentes e emergenciais se colocaram abruptamente, quase que num desejo desenfreado da sociedade para que, de algum lugar, pudesse advir uma organização de futuro. Afinal, o que faremos com as crianças, com os jovens e adolescentes em casa? Perdemos a segurança e não temos nem a liberdade. O que fica? Como fica?

Tempo de incertezas e de muitas manifestações. O mundo da pandemia se vestiu de muitas hipóteses para tentar compreender o momento. Pensadores, filósofos, médicos, cientistas, reis, presidentes, tarólogos…analisando, jogando, direcionando na tentativa de conduzir o incerto, talvez para acalmar, talvez para espanar a poeira, talvez para desnudar.

Com esta breve introdução vamos à intenção do presente texto/relato, escrito a várias mãos por nós, coordenadoras pedagógicas da Escola Sarapiquá, que é situar, contar, explicitar à comunidade escolar o que se passou e se passa no processo ora em curso ao se “fazer escola não presencial”. O mesmo foi desenvolvido a partir de perguntas feitas a nós mesmas: o que queremos para este momento na educação e com as aulas on-line e/ou remotas. Em que acreditamos? Como afirmamos nossos princípios? Como são e para que servem as aulas? Qual nossa visão pedagógica “do agora”?

Assim, para “nossa visão pedagógica do agora” precisamos partir da premissa que embasa os princípios pedagógicos da Escola Sarapiquá. Entendemos a educação escolar como um processo circular e contínuo dado pela relação professor-estudante-conhecimento, de maneira interdependente e, ao mesmo tempo, autônomo do ponto de vista das aprendizagens singulares, das possibilidades e repertórios dos sujeitos no seu desenvolvimento e apropriações.

Sendo o socioconstrutivismo aliado à pedagogia das diferenças a fonte do nosso projeto político pedagógico, tendo o encontro – educadores/ estudantes e estes entre si – como um suporte para a produção do conhecimento, o modelo presencial fundamenta a prática pedagógica. Cada um, em sua singularidade no encontro com o outro, perspectiva uma razão comum, aliada ao currículo para que os estudantes capturem nos costumes e nas práticas, atitudes de diversidade e respeito. Sendo assim, não existe “a verdade”, pois o conhecimento se transforma nos diferentes tempos e lugares.

Tudo isto para dizer que na vida de sala de aula são muitos os fatores que envolvem as aprendizagens: o gesto, o olhar, a troca, o calor, a espontaneidade do convívio que embasam a constituição afetiva e social dos sujeitos para o desenrolar da vida.

No entanto, com o fenômeno pandêmico que trouxe o distanciamento social, a necessidade de as escolas buscarem formas para se criar aulas e encaminhamentos mediados pela tecnologia, pela virtualidade, balizadas por outro tempo e pela relação à distância, mostrou-se imperativa.

Com isso, a Sarapiquá deu curso às aulas remotas a partir do segundo dia após decretada a suspensão das aulas (17 de março/2020) promovendo a continuidade aos estudos. Iniciativa que, mesmo em se tratando de um período temporário, entendeu a importância da troca entre professores e alunos e alunos entre si, com estudos e atividades remotas, mas dando destaque à interação com os estudantes e aos encontros dos professores e professoras com os seus alunos e alunas.

Com a ampliação da quarentena, adotamos a plataforma google-classroom para envio de atividades e encontros por chat e aulas on-line para esclarecimento de dúvidas, para o segmento do ensino fundamental 1 e 2.

Na educação infantil, os encontros inicialmente tiveram a frequência de 3 vezes na semana e, com o decorrer da suspensão das aulas presenciais passaram a ser diários, através de vídeos gravados pelas professoras e enviados por e-mail às famílias. Estes vídeos são elaborados pelas professoras com atividades e conteúdos relacionados ao projeto de cada turma, com música, arte e histórias para as crianças e famílias desenvolverem juntas, mantendo vínculos e oportunizando encontros afetivos, significativos e marcantes.

Entre os tantos cuidados apuramos o olhar à demanda de atividades, o uso da plataforma e afins para evitar expor demasiadamente nossos estudantes aos meios eletrônicos, as telas e também ao tipo de luzes a que estamos sujeitos nesses aparelhos para que as atividades remotas não aumentem a ansiedade e a inquietação dos alunos, o que não é saudável e nem positivo para o equilíbrio emocional, especialmente nesses dias em que esses sentimentos estão mais aflorados em função de todas as restrições a que estamos submetidos pelo afastamento social.

Fundamental 2

Neste segmento as aulas iniciaram com vídeos feitos pelos professores/as com descrições das atividades, com aulas remotas e vídeo-encontros, práticas que foram se colocando ao longo dos dias da quarentena. O ritmo das aulas e a apropriação das ferramentas foram se ampliando e atendimentos por chat, bem como aulas on-line passaram a ocorrer, levando em conta as dificuldades e os desafios que esse momento tão inusitado nos traz e, sabedores de que cada um está fazendo o melhor que pode, atentamos para reconhecer e acolher os esforços de cada professor e professora, aluno, aluna e das famílias para o êxito dessa empreitada.

Focados ao nosso fazer pedagógico, adaptamos cotidianamente o formato das atividades e das aulas. Como este processo iniciou de forma abrupta, literalmente, de um dia para o outro, a ideia inicial foi encaminhar atividades a serem realizadas em casa com a intenção de retomá-las no retorno às aulas presenciais.

A primeira aula on-line deste segmento, ocorreu com a realização de uma assembleia de professores e alunos com cada turma. Foram momentos cheios de saudades, falas e oportunidade de cada qual se colocar sobre como vem se organizando e se sentindo nesses dias de afastamento social. A partir daí tiveram segmento as aulas on-line semanais de cada disciplina.

A partir de então, além das atividades remotas, ocorrem encontros on-line semanais para cada turma em cada disciplina, inclusive Regência, incluindo momentos de chat para tirar dúvidas, buscando seguir o horário próximo ao das aulas presenciais. Esses encontros on-line têm duração de uma hora e, cada professor, conforme sua leitura, das peculiaridades de sua disciplina e das necessidades das turmas, organiza e determina seu formato. Assim, são oferecidas aulas expositivas e dialogadas, aulas para tirar dúvidas, retomar ou revisar atividades, encaminhar novas propostas, enfim, cada professor ou professora encaminha essas aulas de acordo com a demanda de sua disciplina e de cada turma.

As atividades propostas para estudo são enviadas pela plataforma aos alunos nos links das diferentes disciplinas e os momentos de chat ou aula informados via plataforma, no Mural da sala. Os encontros por chat são semanais e fica a critério de cada aluno a participação, pois são para esclarecer dúvidas e atender necessidades individuais.

Importante levar em conta a faixa etária de nossos estudantes e a capacidade de concentração nesse modelo de aulas e o tempo de exposição aos meios eletrônicos, bem como a demanda de tempo que acarretam essas propostas. Isso para os professores, em se tratando de preparar, disponibilizar materiais, atender individual e coletivamente os estudantes, bem como para estudantes, pois as atividades remotas demandam mais tempo para desenvolvimento e resolução que as presenciais, seja pela falta de mediação na leitura e interpretação dos enunciados, seja pela falta de feedback imediato do professor, o que é possível nas aulas presenciais.

Cabe destacar que estamos diuturnamente atentos às necessidades dos grupos, para as possibilidades de diversificação e produção de propostas; para o retorno dos alunos e alunas aprimorando e oferecendo melhores oportunidades de desenvolvimento, tanto do ponto de vista dos conteúdos acadêmicos quanto do crescimento pessoal e, na medida do possível, social, promovendo a integração de todos às propostas escolares e buscando formas de interação coletiva. Assim, mantemos a atenção ao PPP da Escola Sarapiquá, criando oportunidades para alunos desenvolverem atividades em parceria com colegas, focar para o respeito e a acolhida ao outro e ampliar a reflexão sobre suas ações e sobre a vida. Nesse sentido, ganham relevância as aulas de Regência, que visam abrir espaço de convívio, reflexão e encorajamento aos nossos jovens estudantes nesses dias de afastamento social.

Fundamental 1

No início da quarentena, nesse segmento, as atividades foram enviadas às famílias/alunos via e-mail. Os/as estudantes foram auxiliados pelos familiares e seus registros devolvidos também por e-mail. Aqui também foram respeitados os tempos e inserções dos estudantes para que as atividades tivessem significado e possibilidade de apropriação individual, somando-se ao manuseio das ferramentas digitais.

Posteriormente, passamos a utilizar a plataforma Google Classroom como espaço de aula. As atividades são postadas diariamente e/ou mais espaçadamente, dependendo do ano escolar e sendo devolvidas aos educadores na própria plataforma. Neste percurso, pudemos observar e acompanhar os alunos em suas perguntas e dúvidas, trazendo-os para mais perto, dentro do possível.

Mais recentemente (início de maio), mantemos as aulas remotas e iniciamos encontros “lives” com as Rodas de Conversas entre educadores e estudantes. Estas Rodas ocorrem três vezes na semana com as turmas dos 1°, 2° e 3° anos, intercaladas entre as professoras-regentes de classe e os professores das áreas específicas. As atividades são tecidas entre as diversas áreas do conhecimento, promovendo a inter-relação dos conhecimentos e o encontro com todos os professores.

Os grupos de 4° e 5° anos além das aulas remotas, passaram a ter aulas on-line com Rodas de Conversas diárias com as professoras, momentos de interação para proposição de estudos e debates, para conversa entre colegas e para perguntas dirigidas sobre dúvidas escolares. Estas Rodas ocorrem com as professoras regentes e com os professores das áreas específicas.

A cada experiência deste trabalho à distância, cientes de seu caráter temporário e balizados em avaliações constantes, vamos aprimorando o “encontro” para enfrentarmos os desafios que se apresentam. Estes referentes à preocupação com o contexto, ao uso da tecnologia, ao emocional das pessoas envolvidas (estudantes, professores, familiares) e à demanda das expectativas quanto aos conteúdos da matéria.

Diante de tudo isso, afirmamos que a aula se faz com os conteúdos da matéria tecidos com os conteúdos do sujeito. O que ocorre normalmente no processo presencial e em especial agora, situação atípica, quando estes encontros, mesmo que virtuais, se tornam vínculos constituidores de memória e de experiências.

Salientamos aos alunos que a presença nas aulas on-line é importante tanto pela interação, quanto para melhor compreensão dos conteúdos em estudo e que a realização das propostas é obrigatória, inclusive por serem avaliativas. Como sabemos que nem todos alunos e alunas poderão estar on-line nesses encontros virtuais previamente marcados através de horário apresentado aos alunos e suas famílias, as aulas são gravadas e depositadas na plataforma de cada turma, o que possibilita assisti-las posteriormente e, até mesmo, revê-las por aqueles que assim o desejarem.

O que fica? A convicção de que temporariamente é possível preencher o distanciamento com olhares, conversas e trocas virtuais, mas que a escola é insubstituível em se tratando do encontro presencial e do que se pode construir juntos num currículo dançante.

Educação Infantil

No ano de validação da inclusão da Educação Infantil na BNCC (2020), este segmento escolar mobiliza-se ainda mais pelo estudo e pela pesquisa para a fundamentação de nossa prática. Buscamos contemplar esse importante passo dado no processo histórico da integração da Educação Infantil ao conjunto da Educação Básica, com a inserção a partir de 4 anos de idade.

Essa discussão intenciona legitimar e refletir sobre a importância da Educação Infantil no desenvolvimento humano. Mais do que ser importante, o debate traz à luz a necessidade de se ver a infância como pilar ao saudável desenvolvimento vital. A infância como direito, dever e devir. A infância já é, já está. Os sujeitos estão no caminho, mas já na estrada.

Na Escola buscamos o desenvolvimento integral da criança, considerando suas singularidades e a relação com a coletividade, num ambiente desafiador, afetivo e estético. A brincadeira, o jogo simbólico, o desenho, o movimento, a oralidade e a escrita são conteúdos fundamentais na aprendizagem e no desenvolvimento humano. Esses conteúdos são contemplados através de ações e projetos nas diversas linguagens do conhecimento, a saber: a musicalização, as ciências naturais, sociais e exatas, a escrita, a filosofia, as artes, o movimento e o brincar. A vivência na escola infantil é um processo marcado pelo crescimento, experienciado com intensidade nos limites, no afeto, no lúdico e na potencialidade de cada criança, no que ela é capaz de fazer e aprender.

E como fazer educação infantil, cujo corpo é a linguagem central, em tempo de aulas suspensas, devido a pandemia?

Não foi e não está sendo fácil esta compreensão e ação. Inicialmente, com as aulas suspensas por quinze dias, toda a equipe de educadores da Educação Infantil, pensando na importância das brincadeiras, do jogo simbólico, do desenho, do movimento, da oralidade e da escrita para a infância, organizou sugestões de propostas que poderiam ser desenvolvidas neste período de resguardo por todas as crianças do Infantil. Essas compreendiam a participação das crianças desde o início de sua efetivação, do preparo, da vivência ao fechamento (guardar, limpar).

Esse período estendeu-se para mais quinze dias, e posteriormente para mais um mês. Hoje são 45 dias de isolamento e as estratégias pedagógicas foram modificando-se no decorrer desse período. No intuito de estreitar vínculos, acessar memórias das experiências vividas durante o primeiro mês de aula no espaço escolar e buscando significá-las ainda mais, as propostas passaram a ser planejadas para cada turma do Infantil e encaminhadas semanalmente com um vídeo da professora e da auxiliar.

Nossa comunicação conta com o e-mail da turma para retorno de registros e comunicação das famílias com as educadoras. Os vídeos passaram a ser diários e o Infantil 5 teve sua primeira Roda de Conversa on-line no final de abril, na busca do estreitamento desse vínculo. Conforme o tempo de isolamento e o distanciamento físico aumentam, também cresce a necessidade de se fazer cada vez mais presentes no desenvolvimento diário de nossas crianças. Todas as propostas e vídeos foram feitos pelos professores com muito carinho, dedicação, delicadeza, criatividade e respeito à infância, com o objetivo de trazer um alimento, uma alegria, uma conexão viva e pulsante entre criança e adulto, em família nos seus lares.

Importante salientar que este caminhar está recheado de estudos, reflexões e desejos em torno de um tema que constitui terreno firme, a educação presencial. Ela se faz no processo coletivo e individual, acompanhado pelo olhar e pela escuta, para ver, perceber, refletir e transformar os processos que as crianças realizam em seus percursos de aprendizagens. Já, ao adentrarmos no mundo de recursos tecnológicos para a relação educativa, o terreno se torna instável e improvável. O improvável chamado distância, que trouxe como tema outras reflexões. Como fazer o que acreditamos à distância? O que de fato é importante e significativo na educação infantil em tempos de isolamento e pandemia? Sabemos quais são nossos princípios e buscamos as respostas para essas questões constantemente.

Contudo, o empenho e dedicação de cada educador em fazer valer os princípios da educação infantil, mesmo com toda a adversidade do momento e das condições vividas por nós, é resultado do verbo “esperançar”. Já dizia Paulo Freire: “é preciso ter esperança. Mas tem de ser esperança do verbo esperançar. Esperançar é ir atrás, é se juntar, é não desistir. É ser capaz de recusar aquilo que apodrece a nossa capacidade de integridade e a nossa fé ativa nas obras. Esperança é a capacidade de olhar e reagir àquilo que parece não ter saída!¨

Assim, podemos dizer que nosso maior objetivo nesse momento é ESPERANÇAR, mantendo-nos juntos, mesmo que distantes, unidos por um mesmo olhar: a infância. E como não podemos estar juntos de nossas crianças, tentamos por meio de nosso trabalho, esperançar as famílias que estão junto a elas.

Concluindo

A Escola veio e vem adequando as propostas à realidade que se impõe e constantemente avaliamos, revendo e buscando o melhor modo de dar continuidade aos estudos e, especialmente, em manter os vínculos, as possibilidades de apoio e orientação a alunos e alunas para o enfrentamento deste período inusitado e, por vezes, assustador. Nossa busca é oferecer organização, rotina de estudos e assim manter bases mais firmes de sustentação aos nossos jovens estudantes nesses tempos em que tudo se esvai e nem uma realidade, até pouco minimamente confiável, se mantém de pé.

Nesses tempos em que tudo se dilui e esfacela, esperamos poder ser como um pequeno farol, que indica um porto a atingir, mesmo que desconhecido, um porto, onde possamos aportar depois desse devaneio, e iniciar um novo tempo de maior olhar para o outro e para o coletivo e para as escolhas nos modos de vida, de maneira a se considerar cuidados com o planeta em sua organicidade. Não temos a intenção da normalidade, até porque se a normalidade é essa que nos trouxe ao que chegamos, há que se pensar muito sobre.

Jaqueline Chula – Coordenadora do Segmento do Fundamental 2

Sandra Crochemore – Coordenadora Pedagógica – Fundamental 1

Mônica Grumiche – Coordenadora Pedagógica – Fundamental 1

Michele Meyer Ramos – Coordenadora Pedagógica da Educação Infantil

Mara Lúcia Bastiani – Coordenadora Pedagógica Geral

Florianópolis, 06 de maio de 2020
 
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