Há um ano atrás lançámos a petição pública “Salvar os pavilhões do Mercado do Bolhão”. A petição referia-se ao actual projecto de reabilitação do mercado, promovido pela Câmara Municipal do Porto. Deste, não obstante a promoção como “solução propositadamente conservadora”, inferíamos uma transformação radical do pátio interior.

Em Março deste ano pedimos para que fosse feito um ponto de situação numa reunião pública do Executivo. Foi-nos confirmado aquilo que temíamos: as “Barracas do Bolhão” vão mesmo ser demolidas e substituídas por uma sua interpretação contemporânea, que altera profundamente o modo como o espaço interior do mercado é vivido.
Em cima: o novo interior do Mercado do Bolhão (CMP)
Em baixo: o actual interior, se os pavilhões fossem recuperados (OPS)

Foram-nos dadas duas razões: a primeira, que pela construção de uma cave logística a sua demolição é uma inevitabilidade. A hipótese de as reconstruir foi rejeitada por ser uma atitude de “pastiche”. A segunda é a de que a CMP tem uma “visão” ou “pensamento estratégico” para o mercado que não se coaduna funcionalmente com a manutenção de pavilhões de venda. A CMP quer um mercado que responda às ”necessidades modernas” e “as barracas não o permitem” (citações da reunião).

Não sendo a reunião da CMP um espaço de debate directo com o público, gostávamos de esclarecer aqui a nossa posição.

O facto de se adicionar uma cave técnica implica efectivamente que o que estiver em cima terá de ser removido durante a construção. Ora, essa remoção temporária não implica uma destruição permanente. Não se trata de ter de “macaquear” as barracas, como nos foi dito na reunião, mas sim de cuidadosamente catalogar os elementos recuperáveis, desmontá-los, e posteriormente recolocá-los na mesma posição, usando elementos novos idênticos aos originais, apenas quando necessário para garantir uma leitura uniforme e respeitadora do existente.

O problema técnico de desmontar e remontar as barracas é assim isso mesmo, um problema técnico, que já foi resolvido noutros contextos e sem grandes dramas. Lembramo-nos, por exemplo, do arquitecto Fernando Távora defender a deslocação de todo o edifício das moagens Harmonia no Palácio do Freixo. O Porto está cheio doutros exemplos – as fontes do jardim de Nova Sintra, que vieram dos quatro cantos da cidade, a torre da igreja das Carmelitas, deslocada do lado oposto, ou a Capela dos Alfaiates, agora na Batalha e originalmente na Sé. Ninguém lhes chama pastiches, mas o processo de desmontagem e reconstrução foi semelhante – e executado há bastante mais tempo, com meios técnicos mais rudimentares.

Esq: a Capela dos Alfaiates na localização original. (SIPA)
Dir.: a mesma na localização actual, junto à Rua do Sol. (SIPA)
É inegável que os pavilhões estão degradados. Todo o mercado foi deixado ao abandono durante décadas pelo poder local, que não conseguia decidir o que lhe fazer. Na publicação “Sentir e pensar os Mercados e Feiras do Porto”, ed. CMP, de 1992, é ainda possível ver o interior do mercado com as coberturas de ardósia e sem andaimes. A falta de manutenção estimula a incúria e é natural que sejam também as barracas os primeiros equipamentos a sofrer com isso: alterações, tapumes, os plásticos que cobrem as “ruas”. Facilmente se percebe como se tornaram em “armazéns” e “palheiros”.
Em cima: O Bolhão por volta de 1992, ainda com as coberturas em soletos de ardósia visíveis. (“Sentir e pensar os Mercados e Feiras do Porto”, ed CMP)
Em baixo: o estado actual, com as coberturas escondidas por baixo de lonas "temporárias" (OPS)
Na petição explicamos porque é importante recuperar o interior do Bolhão, nomeadamente as barracas. Elas são pequenos tesouros da arquitectura revivalista do início do século XX. Desenhadas individualmente mas constituindo um todo uniforme, com pormenores simples mas criativos e coerentes de caixilharias, beirais, telhados, azulejos, respiradouros e até colunatas clássicas. São um pequeno legado de arquitectura Beaux Arts local, específico do Porto e, efectivamente, a alma do Bolhão enquanto experiência de mercado.
Pormenores existentes no interior do Mercado, agora condenados à destruição.
Como nos foi dito, a CMP tem uma “visão”, traduzida em vontade política, de outro mercado, aberto e de maior escala, que não contempla a sua preservação. Bastaria ver meia dúzia de mercados recuperados, tanto em Portugal como no estrangeiro, para perceber que a tipologia de mercado com pavilhões se adequa perfeitamente aos supracitados “tempos modernos”. Infelizmente a vontade política das entidades públicas por vezes esbarra com a preservação do Património. Obviamente já aconteceu antes – basta lembrar 1951, com a demolição do Palácio de Cristal justificada pela “visão” de albergar o Campeonato de Hóquei em Patins.
Em cima: o Palácio de Cristal do Porto. (SIPA)
Em baixo: o Pavilhão dos Desportos, que substituiu o anterior para nele se realizar o Campeonato Mundial de Hóquei em Patins em 1952, ainda incompleto. (SIPA)

O actual projecto para o Bolhão é provavelmente, e mesmo assim, o mais equilibrado e sensível dos últimos tempos. Mais uma vez, pedimos à CMP que o torne numa oportunidade para dar o exemplo em relação à reabilitação do património da cidade e recupere integralmente o seu interior com os pavilhões. Pedimos finalmente a todos que nos lêem que assinem a petição e que contribuam para o debate. A memória colectiva do Porto está em risco e precisa de ajuda.

Até há relativamente pouco tempo o Bolhão estava pintado e arranjado (a foto foi tirada nos anos 90). Este Património único prepara-se agora para ser substituído por uma experiência genérica, semelhante em qualquer parte do mundo. (“Sentir e pensar os Mercados e Feiras do Porto”, ed CMP)
Esta newsletter, dedicada ao Bolhão, é uma cooperação com a INTBAU Portugal. A INTBAU é uma rede de indivíduos e organizações dedicadas à criação de edifícios e espaços públicos mais humanos e harmoniosos, que respeitem as tradições locais. É patrocinada pelo Príncipe de Gales e a casa-mãe encontra-se em Inglaterra.
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