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Equipa de Educação Artística
Boletim Digital Março 2017 | Homenagem a Natália Pais
Natália Pais. Fotografia de Henrique Bento - Revista Noesis n.º 67 outubro/dezembro 2006.

Natália Pais (1937-2017)

Membro da Comissão de Honra do Programa de Educação Estética e Artística

Se outra razão não houvesse, esta circunstância, por si só, justificaria o cancelamento de quaisquer conteúdos preparados para a edição do Boletim deste mês. O sentimento de perda que a notícia trouxe, à Equipa de Educação Artística (EEA) e a um número infindável de outras pessoas, tornou todo o resto secundário. Natália Pais deixou-nos (com a forma a que nos habituámos a vê-la) na última quinta-feira, dia 9 de março, e, em sua homenagem, dedicamos-lhe todo este Boletim.

Natália Pais enriqueceu o PEEA quando nos deu o privilégio de, desde a sua constituição, fazer parte da Comissão de Honra, mas a sua ação não se ficou por aí. Continuou a contribuir para a consolidação deste Programa de todas as vezes que, entusiasticamente, se disponibilizou para nos honrar, com a sua presença e sábias palavras, nas muitas Conferências organizadas, ao longo dos anos seguintes.

Memórias tão recentes e presentes como as da Conferência de Rio Maior, em 2015, ou, ainda mais, as relativas à de Lisboa, em 21 de junho de 2016, começam por inundar-nos de perplexidade, remetendo-nos, numa primeira reação, para a constatação da enorme fragilidade e efemeridade da condição humana.

A força das palavras, o multiplicar das ideias, os testemunhos das ações, a tenacidade e vivacidade da mensagem, de maneira tão sublime e tantas vezes lançada, levam-nos, logo a seguir, a reforçar a convicção de que alguns, não muitos, conseguem contornar essa questão. Falamos daqueles que, como a Dr.ª Natália Pais, vivem de forma a conquistar o direito de ultrapassar as fronteiras do “seu” tempo.

Não obstante o “seu” tempo ter tido início antes do tempo de alguns, coexistido com os de muitos mais e antecedido o de muitos outros, queremos sublinhar que o Tempo de Natália Pais será aquele em que a sua mensagem continuar a ser passada, por todos aqueles a que chegou, e, cujo “tempo”, de forma indelével, alterou. O mérito do legado pertence-lhe, a responsabilidade da sua longevidade é, agora, de todos os que lho reconhecem.

Exposição de trabalhos do Atelier Pais e Filhos do Centro Artístico Infantil (CAI) | Fundação Calouste Gulbenkian.1998. Fotografia: Júlio Marques.

Síntese de um longo percurso de vida

Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e concluiu o Curso de Ciências Pedagógicas pela mesma Faculdade.

Realizou vários cursos internacionais de Psicologia e Psicopedagogia de Expressão Artística, Lúdica e Cultural, com estágios e intercâmbios.

Foi Assessora e Diretora-Adjunta do Serviço de Educação da Fundação Calouste Gulbenkian.

Enquanto coordenadora das atividades do Centro Artístico Infantil da Fundação Calouste Gulbenkian (1984-2002), foi pioneira no movimento da educação pela arte em Portugal.

Foi Consultora Pedagógica da Câmara Municipal de Cascais. Coordenou o projeto "Escola Criativa", dirigido a educadores de infância e a professores do 1.º Ciclo do Ensino Básico, que delineou a criação do Serviço Educativo do Centro Cultural de Cascais, Fundação D. Luís I, em 2002, onde foi Supervisora do Serviço Cultural e Educativo.

Foi Sócia-fundadora do Instituto de Apoio à Criança (IAC), entre outras atividades profissionais de carácter nacional e internacional.

Natália Pais defendia que "a educação deve estar inserida num contexto cultural e proporcionar a vivência de situações experimentais, a apropriação de saberes, a confrontação de opiniões e a plena realização do indivíduo." Esta frase, impressa num cartaz na sala de entrada dos Serviços Educativos do Centro Cultural de Cascais, reflete, em pleno, as linhas condutoras de todas as atividades lúdicas, artísticas e culturais dirigidas a crianças e jovens, bem como a adultos e formadores.

Atelier de Pais e Filhos do Centro Artístico Infantil (CAI) | Fundação Calouste Gulbenkian. 1999. Fotografia: CAI.
 



A razão de ser quem sou

Nós somos aquilo que fazemos de nós, mas somos, também, o que os outros fazem de nós.

Não se É sozinho.

Há quem esqueça as razões de ser quem É.

Conheci a Natália Pais há muitos anos, e, desde então, nunca mais me separei dela, mesmo quando ausentes fisicamente.

Com uma alegria resplandecente, inspirava todos, mesmo aqueles que não estavam próximo. Os seus ideais foram-se espalhando e cada um de nós deles se apropriando e traçando o seu caminho. Muitos caminhos foram abertos, pelo país, com as suas ideias.

Com a generosidade e humildade próprias das pessoas de grande sabedoria, Natália Pais, muito à frente do seu tempo, apoiou e impulsionou grandes mudanças nos modos de ver o mundo e nos modos de ver a educação e a arte.

Ainda que, por vezes, tenham parecido invisíveis, essas mudanças são, hoje, prova da sua clarividência. O tempo encarregou-se de as tirar da penumbra e de as inscrever na contemporaneidade.

Observando o que se faz hoje, em matéria de educação e arte, constata-se que Natália Pais foi uma impulsionadora de verdadeiros laboratórios de integração de saberes, apoiados em modelos integrados de intervenção, reunindo crianças, professores, pais, artistas e cientistas. Destaque-se, a título de exemplo, a sua ação no Centro Artístico Infantil, da Fundação Calouste Gulbenkian.

A alegria e o entusiasmo por novas ideias sempre a incentivaram a convocar a pedagogia e a arte para novos modos de fazer, ao mesmo tempo que, subtilmente, a afastaram de modelos únicos de pensamento e de ação.

Sublinhe-se, a este respeito, a visão que teve na iniciativa de reunir um grupo de pessoas, do qual se destaca o Professor Rui Mário Gonçalves, para elaborar o Programa Integrado de Artes Visuais- Primeiro Olhar (1997). Além de unir as coleções de arte dos dois Museus da Fundação Calouste Gulbenkian, acabou por facultar a milhares de professores, crianças e famílias a oportunidade de, pela primeira vez, contactarem com aqueles universos artísticos.

Com as características de uma verdadeira líder, Natália Pais não se impunha para revelar o seu saber. Deixava fluir as ideias, ouvia e ajudava a reformular quando julgava necessário. Acima de tudo, ENTUSIASMAVA para a criação de novos mundos.

Ensinou-me muito sobre liderança. Ensinou-me que um verdadeiro líder o É pelo saber que detém, sem dele se arrogar. Ensinou-me que a verdadeira sabedoria está na simplicidade.

Cito-a muitas vezes, mesmo que algumas das suas ideias não estejam escritas em livros, mas cito-a, porque, se não o fizesse, sentiria que estava a “esconder” o tanto que aprendi nas tantas viagens que fizemos, ao longo de tantos anos.

Cito-a por estar sempre presente no meu percurso.

Cito-a porque não esqueço a RAZÃO DE SER QUEM SOU.



Elisa Marques

Atelier de Pais e Filhos do Centro Artístico Infantil (CAI) | Fundação Calouste Gulbenkian. 1998. Fotografia: Júlio Marques.

"Abrir as Portas dos Museus"


Prestar homenagem a Natália Pais é também relê-la, voltar a ouvi-la…é partilhar com toda a comunidade educativa os seus pensamentos sobre a arte e a educação.

Procurámos na “nossa casa” e encontrámos, na revista NOESIS (2006), a entrevista feita por Elsa de Barros1 que, de seguida, se transcreve na íntegra.

Vamos, então, lembrar as suas palavras….



Qual a importância de o ensino artístico abranger todas as crianças?

É importantíssimo porque é uma forma de chegar muito directamente à criança, dando-lhe oportunidade de se exprimir de uma forma espontânea e de desenvolver a sensibilidade, aumentando a auto-estima. A criança sente uma grande satisfação por ser capaz de dominar um material ou uma técnica, descobrindo, por exemplo, que quando está a fazer uma aguarela pode conseguir um resultado completamente diferente através de uma pequena inclinação do papel. Por outro lado, possibilita o desenvolvimento integral das suas potencialidades ao nível da expressão artística, que deve ser iniciado desde cedo, caso contrário poderemos estar a prejudicar o acesso a essas capacidades de expressão. Estas oportunidades, para que se constituam verdadeiramente enquanto tal, têm de ser bem orientadas.

E serem bem orientadas significa...

Significa serem orientadas por pessoas que tenham conhecimentos, que estejam preparadas, que conheçam a infância e assumam uma atitude pedagógica coincidente com as pedagogias ativas-que estimulam a autonomia, a criatividade e o desenvolvimento do pensamento divergente, possibilitando a confrontação entre o que a criança e os outros fazem. Além dessa atitude pedagógica, é óbvio que os professores têm de ter conhecimentos de determinadas técnicas e recursos específicos, em relação a cada uma das expressões artísticas, conhecimentos esses que cada vez são mais abrangentes, com o desenvolvimento dos meios audiovisuais. Os professores têm de ter sensibilidade para estimular as sensações e a percepção na criança, para desenvolver as suas capacidades de criação e de experimentação. No fundo, no campo das artes não são suficientes as demonstrações de carácter teórico - a própria criança tem de descobrir, tem de vivenciar e experimentar de uma forma directa.

Também é necessário ter cuidado com a execução técnica?

Esse aspecto é importante, mas não é tão complicado como possa parecer. Às vezes, os professores têm um certo receio de apostar no ensino artístico precisamente porque eles próprios não tiveram oportunidade de experimentar mas, no fundo, o mais importante é estar em contacto com a arte, é ver, é ouvir, é estar disponível para aceitar coisas diferentes. Também é necessário ter formação e uma informação técnica específica em função dos objectivos a atingir porque, por mais simples que as propostas sejam, é fundamental que o professor saiba o que está a fazer para poder orientar a criança de uma forma positiva.

Às vezes, os professores dizem que não fazem porque não têm meios. São necessários meios assim tão sofisticados?

Não, podem ser até muito simples. Quanto melhor o professor dominar as técnicas, mais fácil se torna, com menos meios, atingir os objectivos que pretende. E há sempre materiais menos sofisticados com os quais é possível atingir os mesmos resultados. O caso da música é um bom exemplo. Quando surgiu a colecção instrumental Orff, verificou-se que era muito mais barato equipar uma escola inteira com esses instrumentos do que adquirir um piano.

Também é fundamental que os professores tenham contacto com a arte.

Conhecer é fundamental. Agora, que já é muito mais frequente levar as crianças aos museus, verifica-se que, muitas vezes, os adultos acompanham essas visitas com muito interesse, porque eles próprios estão a estabelecer os primeiros contactos. Mas, depois de acompanharem as visitas várias vezes e de frequentarem diversos cursos, tudo começa a ser mais simples. Torna-se mais fácil saber como estabelecer o diálogo a partir de uma obra de arte ou como tirar partido dos materiais.

Como se pode articular, na prática, a parceria entre a escola e o museu?

É necessário que o museu não adopte uma função rígida do ponto de vista didáctico, assumindo um papel que não tem de ser necessariamente idêntico ao da escola. Neste sentido, é fundamental que o museu permita que as crianças permaneçam no espaço expositivo de uma maneira diferente da forma como estão na sala de aula, de acordo com regras consensuais de comportamento num espaço que é de todos. O que não é desejável é transportar para o museu o espírito da sala de aula, baseado no inquérito pergunta-resposta. Observo frequentemente museus onde, apesar de haver um trabalho muito bem feito, a informação é demasiado escolarizada. A própria entrada das crianças nos museus, muitas vezes, é semelhante à entrada na escola: os alunos ainda não viram nada e já vão de papéis na mão para observarem, para preencherem, para fazerem exercícios. É de tal forma que acaba por não se dar espaço para criar um certo encantamento. E a visita a um museu tem de ter algo de encantatório, de feérico, de diferente.

Tem de ter um lado imaginário, surpreendente, libertador e imprevisível que estimule o desenvolvimento da criatividade e permita leituras pessoais sobre aquilo que se está a ver.

É necessário criar espaço para uma leitura mais subjectiva.

Sim, é muito importante permitir que todas as crianças do grupo dêem as suas opiniões sem que ninguém as classifique como certas ou erradas. Depois dessa percepção individual, passa-se para a percepção comum, que é partilhada e descoberta por todos. Há museus que têm boas equipas que trabalham muito bem estes aspectos mas, noutros casos, existe uma grande preocupação com a transmissão precoce do que são os estilos, a época do quadro ou a escola do pintor. Claro que estes aspectos também são interessantes, mas há muitos outros que importa valorizar. Para tal, é fundamental que os professores também tenham o hábito de visitar exposições de arte, o que nem sempre acontece.

Quer dizer que os professores também precisam de ter experiências artísticas para as poderem proporcionar aos seus alunos?

Têm de ter experiências e vivências artísticas, mas o facto de acompanharem as vistas dos alunos aos museus também contribui para a sua formação. Durante o ano lectivo, há turmas que visitam o Centro Cultural de Cascais, no âmbito do projecto Escola Criativa e o que é certo é que notamos uma mudança flagrante de comportamentos e atitudes não só nas crianças como também nos professores.

Em que se traduz essa mudança?

A mudança de comportamentos e atitudes verifica-se ao nível da motivação, do interesse revelado na observação, na atenção com que se olha para as obras. É uma mudança que se percebe tanto na postura e na fisionomia quanto na forma como se lançam para as propostas, no entusiasmo e na autonomia com que participam nas tarefas. Em Cascais, além das exposições, temos também a parte dos espectáculos de música ou de dança, onde é igualmente visível uma grande mudança na atitude das crianças. Para muitas delas é a primeira vez que vão a um espectáculo deste tipo, pelo que é importante que percebam que à porta há uma pessoa que tem uma coisa na mão que é o bilhete, que têm de entrar uma de cada vez ou duas a duas, que devem tirar o chapéu e acalmar-se, não fazendo muito barulho. Toda essa negociação é perfeitamente natural, não se veiculando a uma ideia de imposição mas sim de responsabilização pelo seu próprio comportamento num espaço que é de todos, onde todos vão poder encontrar algo de mágico e de feérico que lhes vai permitir soltar o imaginário.

Qual a grande preocupação na preparação das visitas e dos espectáculos?

Nas visitas às exposições há uma fase que é comum e, depois, há outra fase em que as crianças formam pequenos grupos. Esses grupos rodam pelo espaço expositivo respondendo a propostas de trabalho diferentes e, por fim, volta a haver um momento comum em que os alunos expõem aquilo que fizeram e trocam impressões uns com os outros. Temos, também, a preocupação de dialogar com os artistas para que adequem o trabalho à faixa etária dos alunos, tanto ao nível da duração dos espectáculos quanto do tipo de linguagem a utilizar para comunicar com o público mais jovem.

É uma forma de os espaços culturais abrirem as suas portas.

Há muitos condicionamentos, os museus ainda agora estão a abrir as portas e verificamos que, frequentemente, os conservadores continuam a encarar o seu papel como sendo o de conservar o objecto no sítio mais guardado possível, não permitindo um contacto muito directo com o mesmo. Claro que abrir as portas dos museus nem sempre é fácil e é necessário ter alguns cuidados, mas é muito importante que os primeiros contactos sejam agradáveis e descontraídos, sem assumirem um modelo demasiado escolarizado. Para alguns alunos, ir a um museu continua a ser uma continuação da própria escola, que implica posteriormente a realização de exercícios sobre o que viram e ouviram. Raramente têm oportunidade de realizar uma actividade no espaço do museu alusiva à exposição que visitaram - se for de escultura poderiam experimentar modelar em barro, se for de pintura poderiam pintar recorrendo a diversos materiais e se for de música poderiam participar num atelier de movimento e sons.

No Centro Cultural de Cascais, têm desenvolvido algumas acções no âmbito da formação de professores?

Estamos a pensar organizar cursos de formação para professores. Este ano, fizemos um curso de iniciação às artes plásticas, precisamente para os adultos perderem o medo de usar os materiais, os papéis, as tintas, os lápis grossos e os lápis finos, entre muitas outras possibilidades.

Trabalham com alunos de todos os níveis de ensino?

Começámos com o pré-escolar e com o 1.º ciclo, mas neste momento estamos a receber visitas de grupos de alunos de todos os níveis de escolaridade e, também, de estudantes das escolas superiores de educação. Principiámos a receber visitas de alunos do 2.º ciclo e, este ano, de alunos do 3.º ciclo. Para dar resposta a estes diferentes públicos, fizemos uma adaptação dos guiões em função das diversas faixas etárias, mas já tivemos oportunidade de constatar que, pelo facto de serem mais velhos, não quer dizer que os alunos tenham tido mais experiências ao nível da fruição artística. Nestes casos é necessário começar pelo princípio, familiarizá-los com o espaço, contar-lhes que dantes era um convento mas agora é um centro cultural, explicar-lhes o que é um centro cultural e o que podem encontrar no seu interior. O mais curioso é verificar que os adolescentes entre os 16 e os 18 anos, apesar de serem aqueles que têm uma maior capacidade de verbalização, se inibem se lhes é pedido que expressem uma opinião de carácter pessoal.

Não gostam de se expor?

Não gostam tanto de se expor e revelam muito mais facilmente as suas opiniões por escrito do que em confronto com os seus pares. Claro que esta situação também pode ser reveladora de alguma falta de experiência neste campo, de que é exemplo o caso de um aluno de 17 anos da área das artes que, durante a visita a uma exposição, referiu que só naquele momento é que tinha percebido que as telas não deixam transparecer apenas o que lá está pintado. Transmitem também o que o autor quis dizer e, ainda, aquilo que nós conseguimos perceber quando olhamos para o quadro. Só por descobertas como estas já vale a pena o nosso trabalho.*
 


* O texto foi escrito antes da entrada em vigor do novo acordo ortográfico.
_________________

1. Barros, E. (2006). Abrir as Portas dos Museus, NOESIS, 67, outubro/dezembro, pp. 34-37.

Excerto do vídeo “Testemunhos de alguns sócios fundadores do Instituto de Apoio à Criança (IAC)”, com a intervenção de Natália Pais.
 

 

Entusiasmo pelo Futuro


Ver a criança com outros olhos, alicerçada em perspetivas interdisciplinares e globais, foi sempre um desafio para Natália Pais, movida pelo desejo de mudança e pela promoção dos Direitos da Criança.

Ouçamos de "viva voz" as causas que sempre a entusiasmaram...

 

Atelier de Pais e Filhos do Centro Artístico Infantil (CAI) | Fundação Calouste Gulbenkian. 1999. Fotografia: CAI.

Educação Estética e Artística - Abordagens Transdisciplinares

Regressados da Viagem1 Outras iniciámos2… E Natália Pais lá estava, “movida pelo desejo”, para continuar os caminhos na defesa da dimensão Estética da Educação3.



Em 1956 era criada em Portugal a Fundação Calouste Gulbenkian, definindo-se nos seus estatutos como prioritários os fins caritativos, artísticos, educacionais e científicos.

Findara a primeira metade do século XX, intensificaram-se os movimentos que deram origem às grandes transformações pedagógicas da década de 60, entre as quais se inclui a valorização da ARTE como base da Educação, tese clássica retomada por alguns, entre os quais Herbert Read, que nesse ano (1956) publicava a 2.ª edição da Educação pela Arte, considerada pelo autor, como «um manifesto para muitas reformas educacionais necessárias».

A Fundação Calouste Gulbenkian procurou sempre, tanto através de iniciativas dos seus vários Serviços, como do apoio dado a terceiros, favorecer condições de mudança que visassem o desenvolvimento pessoal, o progresso social e a renovação dos valores culturais. Por isso aceitou nos seus programas diversas formas de promoção e acompanhamento de projectos no âmbito da investigação pedagógica, experimentação estética e da divulgação artística.

Até aos anos 50 a iniciação artística da criança restringia-se à prática dos lavores femininos, e do desenho geométrico ou à vista.

A década de 60 reconheceu a criança como um ser criador e dotado de formas próprias de expressão cujas manifestações surpreendiam e ensinavam os adultos já esquecidos da sua própria infância. A partir daí facilitava-se à criança o acesso a materiais, iniciava-se no domínio de técnicas e favorecia-se, segundo alguns, o desenvolvimento da sua criatividade e a revelação das suas eventuais potencialidades artísticas.

O contacto com a obra de arte, a sua observação, leitura e crítica, quando feita por crianças, era impensável, injustificada e, para alguns, até indesejável.

O resultado de algumas experiências feitas em museus, escolas, oficinas e centros de pesquisa permitiram o aparecimento de valiosos trabalhos de reflexão sobre questões metodológicas ligadas à experimentação pedagógica e à educação estética.

O projecto de Investigação em Desenvolvimento Estético (IDE), desenvolvido pelo Serviço de Educação desde 1997, constitui o mais recente testemunho desse percurso de 40 anos de interesse pelo acompanhamento de experiências, pela participação em programas, pela promoção de iniciativas sobre as relações da educação, da arte, do ensino e da vivência cultural.

O IDE assume-se como um programa integrado, «formaliza um valioso estudo de investigação-acção e visa responder às necessidades de inovação e formação no campo das práticas educativas na área das artes visuais, através da conceptualização de um currículo centrado em obras de arte».

O interesse da Fundação Calouste Gulbenkian em relação a este projeto, bem como em relação à Conferência sobre Educação Estética e Artística em que o IDE se inclui, é representativo de uma atitude cujo cariz pedagógico, cultural, estético, social e político nos parece oportuno referir:

  • Pedagógico - valorização de um modelo radicado nos princípios de uma pedagogia libertadora, criativa e divergente, exercida através de métodos activos, participação directa, relação dialéctica entre o educador e o educando.
  • Cultural - corresponde a um exemplo da educação inserido num contexto cultural, dinâmico, facilitador de vivências pessoais e significativas, sem preconceitos quanto ao carácter elitista dos lugares de acesso à fruição e à criação artísticas: museus, ateliers, galerias, escolas, centros de arte, salas de conferências ou bancos de jardim podem ser espaço de aprender e ensinar.
  • Estético- o que está em causa no projecto IDE, não é o contacto com a obra de arte, como objecto de contemplação, mas sim a relação dinâmica com o observador, a sua capacidade de descoberta, informação e análise, a tomada de consciência da sua dimensão participativa e crítica, a capacidade de se sentir «Sujeito», de se exprimir através de uma linguagem adequada às questões da arte e de avaliar em função de parâmetros adequados à perspectiva das suas apreciações estéticas.
  • Social - a utilização de uma linguagem universal favorece o processo de comunicação, diminui a divergência dos outros códigos e a diferença dos estatutos, favorece situações de igualdade e respeita as diferenças correspondentes a traços de identificação cultural.
  • Político - a articulação de esforços por parte de Instituições, Serviços e Técnicos com características e formações diferentes. Escola, museu, oficina, autarquia, galeria, alunos, professores, artistas, psicólogos, conservadores, críticos de arte, animadores e pais, têm um papel importante na concretização de um programa como o do IDE e da boa articulação dos seus esforços dependerá o êxito dos resultados.(…)

(…) Podemos concluir que este género de iniciativas constitui um importante testemunho do que pode entender-se por uma «dimensão estética da Educação» capaz de promover formas válidas de desenvolvimento intelectual do Homem.*


* O texto foi escrito antes da entrada em vigor do novo acordo ortográfico.




Também nós, movidos pelo desejo,
Iremos Continuar.


 

Obrigada Natália Pais.




_________________

1- Estágio sobre Metodologias de Iniciação à Arte – “Disciplined Based Art e Education (D.B.A.E.)”, ministrado por The North Texas Institute for Educators on The Visual Arts – Universidade do Texas, Junho de 1997.
2- Conferência Internacional “Educação Estética e Artística”. Fundação Calouste Gulbenkian. Setembro de 1999, cujos textos originaram a publicação da obra Educação Estética e Artística - Abordagens Transdisciplinares.
3- Pais, N. (2000). Introdução, In, Fróis, J. (coord.). Educação Estética e Artística - Abordagens Transdisciplinares. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, pp. 15-17.

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