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Revista Benedito
Domingo, 9 de agosto de 2015 - Edição nº 13
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Sumário


Artigo: A ficção permite que outros sejam os monstros que nós somos
Recortes: Shakespeare e o cigarrinho de artista | Livraria reembolsa quem comprou 'Go Set a Watchman' | Se misturar E.L. James e Padre Marcelo Rossi... | Agentes literários e machismo | Lá na Rússia, ninguém quer ler | Lá na Rússia, escritor é banido | O fim de uma livraria clandestina | HarperCollins Brasil e o protagonismo da Harlequin | Marina Colasanti é maior que John Green | Qual escritor de hoje é o clássico de amanhã? | Doação de livro pode valer inscrição em concurso público
Três perguntas: Fred di Giacomo, escritor e jornalista, sobre a campanha #livrosmudamvidas
Inspiração: Quem Valter Hugo Mãe pensa que é?

 A ficção permite que outros sejam os monstros que nós somos 

Lisbeth foi violentada de diversas formas. Os leitores de 'Os Homens que Não Amavam as Mulheres', de Stieg Larson, vibram quando ela tortura e sodomiza seu agressor. Isso seria aceitável na vida cotidiana? (Reprodução)
"Romeu e Julieta não é uma história de amor. É um relacionamento de três dias entre uma menina de 13 anos e um rapaz de 17, que levou a seis mortos."

Li esta frase uns dias atrás. Quem deixa o coração de lado por dois minutinhos enxerga na maior história de amor da literatura universal uma narrativa de vingança e morte — o namorico é apenas um elemento.

A arte tem esta função: subverter o real. "A verdade é feia: possuímos a arte para que a verdade não nos destrua." Assim falou Friedrich Nietzsche na primavera de 1888. Ele opõe a realidade concreta e o ideal estético — de um lado, feiura em estado bruto; de outro, beleza forjada pelo homem.

Talvez isso explique nossa flexibilização da moral diante de um texto de ficção. Um livro tem a capacidade de criar empatia entre uma figura desprezível e o leitor — são unha e carne, na verdade. Veja o caso de Lolita, de Vladimir Nabokov: um professor de 35 anos obcecado por uma menina de 12. Se isso saísse nos jornais de hoje, causaria revolta. Como é ficção, torcemos pelo amor e não passa pela cabeça considerá-lo hediondo.

À podridão e à violência, brindamos.

Edgar Morin delineou alguns pontos sobre tal sentimento. Em "O revólver" (capítulo do livro Cultura de massas no século XX — Vol. 1 — Neurose), ele faz a seguinte análise: a violência consumida pelo homem (por meio da literatura, de filmes, da TV, de videogames etc.) se dá como forma de compensação pela falta de violência vivida pelo próprio homem em seu cotidiano. Há, portanto, a apropriação da violência para que ele possa vivenciar, de maneira segura, a briga, o assassinato, a morte.

(Quando digo "segura", refiro-me inclusive ao mimetismo da violência deflagrado, por exemplo, no chamado "efeito Werther". Explico: logo após a publicação de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe, em 1774, a Alemanha teve um surto de suicídios. Pesquisadores chegaram à conclusão que o livro havia desinibido tendências suicidas de jovens da época.)

Por este motivo, por causa deste fascínio que tem origens ancestrais, é comum encontrar nas brincadeiras infantis os papéis em que um mata e o outro morre. A violência é, por este ponto de vista, um jogo, uma atividade lúdica. Johan Huizinga, no livro Homo ludens, afirma, talvez com certo exagero, que podemos negar a beleza, deus, a justiça e outras abstrações, mas nunca podemos negar o jogo, que é inato ao homem. No caso da violência (que, na obra de Huizinga, está contemplada no capítulo "O jogo e a guerra"), "os cachorros e os garotinhos lutam 'de brincadeira', com regras que limitam o grau de violência; apesar disso, nem sempre os limites da violência permitida excluem o derramamento de sangue ou mesmo a morte dos combatentes. Os torneios medievais sempre foram considerados um combate simulado, e, portanto, um jogo, mas parece mais ou menos certo que em suas formas mais primitivas as justas se realizavam com uma seriedade mortífera, chegando até à morte de um dos contendores, como o 'jogo' dos jovens guerreiros de Abner e Joab."

Mais do que um jogo qualquer — e um livro de ficção é um jogo entre autor e leitor —, a violência fascina tanto quanto o sexo. Em certo grau, ambos são feitos da mesma matéria: o resíduo de espírito primitivo que desconhece a razão. No livro Plataforma, o escritor francês Michel Houellebecq evoca tal estado ancestral: "É impossível fazer amor sem um certo abandono, sem a aceitação, pelo menos temporária, de um certo estado de fraqueza e de dependência."

Em leitura mais aprofundada, pode-se dizer que este abandono não se refere ao homem em si, mas sim a seu ego, aos limites impostos pela sociedade, ao adestramento do ser ao longo da história humana. A saga do homem neste mundo (saga à qual chamamos de "evolução") demanda a extinção de algumas características, como a brutalidade que encontramos, em maior ou menor grau, tanto no sexo quanto na violência; em oposição a isso, tanto em um quanto em outro, há a busca pela catarse, pelo gozo.

Soa algo sádico. De fato, é um exercício de sadismo. Quando admiramos a violência, contemplamos o desregramento perdido em outros tempos. Não fosse a brutalidade da ficção, seríamos nós os brutos. A ficção permite que outros sejam os monstros que nós somos. ●

Recortes da semana

  • Shakespeare e o cigarrinho de artista: Entre os séculos 16 e 17, fumar folha de coca peruana era algo comum — pelo menos para os artistas da Inglaterra. O período elisabetano foi o auge da renascença inglesa, pedra angular de nossa cultura ocidental, e sua explosão criativa precisava de aditivos. A folha de coca era uma das opções mais populares, mas não era a favorita de William Shakespeare: ele preferia maconha. Esta é a conclusão de um estudo publicado na edição mais recente do South African Journal of Science. Por meio de cromatografia gasosa acoplada a espectrometria de massa, método que permite analisar diferentes substâncias em uma amostra, os pesquisadores estudaram fragmentos de cachimbos encontrados na casa de Shakespeare, na cidade de Stratford-upon-Avon. Dos vinte e quatro fragmentos analisados, oito deram positivo para maconha e dois para coca.

  • Livraria reembolsa quem comprou 'Go Set a Watchman': De acordo com o Guardian, a Brilliant Books, uma livraria independente em Traverse City, no Michigan, está devolvendo o dinheiro de todo mundo que comprou Go Set a Watchman, romance perdido de Harper Lee publicado no último mês. O livro, que está entre os mais vendidos nos EUA e no Reino Unido, foi escrito nos anos 1950 e deixado de lado depois que o editor sugeriu a Lee que desse foco nos flashbacks do personagem Scout — o que deu origem ao clássico O Sol É para Todos. A crítica tem pesado a mão sobre Go Set a Watchman e a Brilliant Books também. Em seu site, a livraria explica: "É decepcionante e honestamente vergonhoso ver o nossa nobre indústria desfilar e celebrar este livro como sendo 'o novo romance de Harper Lee'. Isso é pura exploração tanto dos fãs de literatura quanto de um adorado clássico americano (que, esperamos, não tenha sido irrevogavelmente manchado). Por isso, encorajo todos a ler Go Set a Watchman com curiosidade intelectual e alguma ressalva; como um começo difícil para um clássico, e apenas isso."

  • Se misturar E.L. James e Padre Marcelo Rossi...: Nas listas dos mais vendidos aqui no Brasil, sempre figuram livros religiosos e literatura erótica. DiShan Washington juntou as duas coisas e, com os livros The Preacher's Wifey e Diary of a Mad First Lady, pode ser a precursora do gênero erótico-cristão. À NPR, ela contou um pouco sobre sua história. Filha de pastor, Washington se casou aos 16 anos com um ministro da igreja. "Ela não conhecia muita coisa sobre sexo", conta o texto, "menos ainda o que ela chama de 'coisas picantes'. Agora, as 'coisas picantes' são seu negócio." Depois de ser traída pelo marido, Washington concluiu que, se conhecesse mais sobre sexo, poderia agradar a seu homem e a si mesma, e talvez o relacionamento não tivesse termindado em divórcio. Portanto, faz literatura erótica-cristã com o objetivo de salvar casamentos.

  • Agentes literários e machismo: A escritora Catherine Nichols estava cansada de receber respostas negativas de agentes literários — quando sequer havia resposta. Ela mandava e-mail apresentando a obra e não tinha retorno. Nichols leu bastante coisa sobre viés de gênero (uma forma elegante para rotular o machismo) e teve uma epifania: usar um pseudônimo masculino. Ela mandou exatamente o mesmo texto que enviara anteriormente, apenas trocando o nome para George. De cinquenta agentes, dezessete responderam — uma parte deles positivamente, pedindo para conhecer um pouco mais do trabalho do pseudônimo. "Ele [George] é 8,5 vezes melhor que eu escrevendo o mesmo livro", ela contou em artigo publicado no Jezebel.

  • Lá na Rússia, ninguém quer ler: Em Moscou, cidade que mais tem leitores na Rússia, existem 226 livrarias para uma população de 12 milhões de pessoas. E o número não para de cair. "Em Paris, cuja população é cinco vezes menor, há 700", afirmou Boris Kupriyanov, editor e dono da livraria Falanster ao Moscow Times. A história é a mesma de outros lugares — e o Paradoxo Tostine da literatura parece mais vivo que nunca. Oleg Filimonov, vice-presidente da Associação Russa de Editores, explica o círculo vicioso: as livrarias que fecham reduzem o espaço disponível para editoras, que respondem a isso publicando menos livros, o que torna o preço por unidade maior e leva à queda nas vendas, fazendo com que mais livrarias fechem as portas.

  • Lá na Rússia, escritor é banido: Autoridades da região de Yekaterinburg, na Rússia, obrigaram escolas locais a retirar de circulação os trabalhos de dois autores britânicos, segundo informações do Guardian. Elas alegam que os escritores promovem estereótipos nazistas e fomentam o "mito da propaganda de Joseph Goebbels". Antony Beevor e John Keegan são dois historiadores que desenvolveram trabalhos bastante apurados sobre a Segunda Guerra Mundial — não apenas sobre a participação da União Soviética. Algumas das obras citam, por exemplo, estupros em massa cometidos pelos soldados soviéticos. Para o governo russo, tirar essas obras de circulação é uma tentativa de apagar o passado, diz Beevor.

  • O fim de uma livraria clandestina: Imagine um apartamento comum em um prédio residencial. Este apartamento não tem cozinha ou banheiro: apenas pilhas de livros que vão do chão ao teto. Perambulando entre as obras, há pessoas bebendo, lendo, batendo papo. Durante sete ano, a livraria Brazenhead Books operou a partir de um apartamento residencial no número 235 da East 84th Street. "Ela era, a rigor, ilegal e, portanto, tinha de ser secreta", conta Brian Patrick Iha em artigo saudosista na New Yorker. Vale a leitura.

  • HarperCollins Brasil e o protagonismo da Harlequin: A HarperCollins, segunda maior editora do mundo e parte do conglomerado News Corp., do bilionário Rupert Murdoch, anunciou no último dia 3 uma joint venture com o Grupo Ediouro para formar a HarperCollins Brasil. O anúncio ocorreu exatamente dez meses depois de a gigante norte-americana se tornar sócia majoritária da Thomas Nelson Brasil, editora de livros cristãos controlada desde 2006 pela Ediouro e Thomas Nelson Publishers. (Uma divagação banal, mas deliciosa: a editora que publica A Bíblia Satânica, de Anton LaVey, e Making Out: The Book of Lesbian Sex and Sexuality, de Zoe Schramm-Evans, é dona de uma das maiores editoras cristãs do mundo. O capitalismo tem um deus de muitas faces: as faces de Benjamin Franklin, Ulysses S. Grant, Andrew Jackson etc.) Também ocorreu três meses depois da HarperCollins adquirir a Harlequin que, aqui no Brasil, atuava devido a uma sociedade com o Grupo Record. O contrato entre Harlequin e Record acabou na última semana de julho e a Harlequin automaticamente retornou à HarperCollins. Ao PublishNews, Tod Shuttleworth, vice-presidente de International Publishing da empresa norte-americana, afirmou que a composição do catálogo da HarperCollins Brasil será mista: "A Ediouro vem com seus títulos trade e a HarperCollins vem com a Thomas Nelson Brasil, a Harlequin e nossos títulos globais." Por ano, a HarperCollins Brasil deve lançar 350 títulos no País — 100 a mais do que estava previsto pelas editoras envolvidas. O proceso de expansão das operações da empresa ocorre em outros pontos do planeta e, em todos, a Harlequin teve protagonismo. Apenas no primeiro semestre deste ano, foram criadas HarperCollins Holland (na Holanda), HarperCollins Japan (Japão), HarperCollins Nordic (Suécia, Noruega, Finlândia e Dinamarca) e HarperCollins Polska (Polônia, República Checa e Eslováquia) — regiões onde já existiam operações da Harlequin. O CEO da HarperCollins, Brian Murray, admite a importância da marca: "A aquisição da Harlequin foi transformadora para nós. Ela nos ajuda a aumentar nosso alcance internacional." Era questão de tempo a HarperCollins fincar o pé mais fundo no País. Supõe-se, entretanto, que o fim do contrato entre Harlequin e o Grupo Record tenha sido fundamental para a criação da HarperCollins Brasil neste momento.

  • Marina Colasanti é maior que John Green: Pelo menos nos sebos da Estante Virtual, a escritora Marina Colasanti, vencedora do Jabuti de Livro do Ano de Ficção em 2014, é best-seller e vendeu 294 cópias apenas em julho. Segundo reportagem n'O Estado de S.Paulo, ela vende mais que John Green, onipresente nas listas de mais vendidos e que, em julho, vendeu 139 exemplares.

  • Qual escritor de hoje é o clássico de amanhã?: O usuário do Reddit IllegalLemons começou uma discussão que serve de provocação: "que autor relativamente novo — com obras publicadas entre 1980 e 2015 — poderá ser, um dia, considerado um dos melhores escritores da nossa geração?" Ali surgiram nomes como Cormac McCarthy, Jeffrey Eugenides e David Foster Wallace. E aqui no Brasil? Que escritor de hoje poderá ser um clássico amanhã? Façam suas apostas.

  • Doação de livro pode valer inscrição em concurso público: Em julho, o deputado federal Veneziano Vital do Rêgo (PMDB-PB) — o mesmo autor do projeto de lei que obriga livrarias e sites a disponibilizar ao menos 10% do espaço de divulgação à literatura brasileira, conforme nota na Benedito nº 9 — apresentou PL que dispõe sobre a isenção ou redução de taxa de inscrição em concursos públicos promovidos pela Administração Pública Federal aos candidatos que comprovarem a doação de livros a bibliotecas públicas. O projeto foi apensado a outro, que oferece o mesmo benefício às doadoras de leite materno e está em trâmite na Câmara dos Deputados.

 Três perguntas 

Fred di Giacomo, escritor e jornalista, sobre a campanha #livrosmudamvidas

Em 2012, Fred di Giacomo e Karin Hueck, escritores e jornalistas bem sucedidos com um futuro promissor na editora em que estavam, perceberam que faltava algo. Algo que carreira nenhuma é capaz de garantir: felicidade. Por isso, deixaram seus empregos e foram para a Alemanha. Nascia nesse momento o Glück Project, uma investigação sobre a felicidade.

Chegar à felicidade é o verdadeiro drama humano. Sempre foi. E apesar de anos de existência neste mundo, de extinções em massa e saltos evolutivos, não conseguimos desenhar fórmula ou equação para isso. O que temos são percursos que podem nos conduzir à felicidade. E todos os caminhos passam pela conscientização de si e do outro, coisa que educação e literatura podem assegurar.

Por isso, o Glück lançou a campanha Livros Mudam Vidas. Diversas personalidades — da internet, da música, do jornalismo etc. — deram testemunhos sobre quais livros deixaram marcas no espírito e como eles alteraram o curso de suas existências.
Os relatos estão disponíveis no site do Glück Project. A Benedito bateu um papo com Fred para enter melhor a campanha.
O Glück entrevistou personalidades para entender como livros transformaram suas vidas em algo mais positivo. Por outro lado, há livros que desencadeiam reações negativas: crimes motivados por obras e afins. Livros salvam, mas também condenam. Como explica esse poder que um livro pode exercer sobre o leitor?
Acho que a narrativa tem a força de nos fazer experimentar o mundo pelos olhos de outras pessoas. Através de uma boa história podemos sofrer e gozar coisas que nunca nos aconteceram. Isso é mágico, é um poder de simulação fantástico e que custa muito pouco para ser produzido. Não dá para comparar com cinema ou games, por exemplo. Os livros são muito importantes para que criemos empatia por culturas e povos distantes. No seu grande estudo sobre a violênca, Os Anjos Bons da Nossa Natureza, Steven Pinker, inclusive, aponta os livros como um dos motivos pelos quais a humanidade foi se tornando mais pacífica. Os livros, também, são excelentes aulas ministradas pelos melhores professores de todos os tempos. São um forma primitiva da humanidade acumular conhecimento e criar um inteligência coletiva, muito antes de internet e dos HDs. O exemplo negativo que você citou é muito mais uma exceção do que a regra, mas também reforça esse poder dos livros. Claro que alguns livros fizeram muito mal: o Mein Kampf, do Hitler, ou alguns trechos da Bíblia condenaram milhões à morte, mas, também, teve gente que se matou depois de ouvir uma música do Ozzy. Acho que essa influência "negativa" pode ser obtida com todas formas de contar história: quadrinhos, vídeo-games, cinema, canção, publicidade etc.

No texto de apresentação do projeto, você afirma que "a educação, aliada ao hábito de ler livros, é a melhor arma numa revolução pacífica". A qual revolução se refere, especificamente, e como ela pode ocorrer no Brasil, um país que lê pouco e cuja educação está em frangalhos?
O Brasil precisa passar por uma grande mudança, né? Precisamos, principalmente, reduzir as desigualdades e criar uma nação realmente democrática onde todos tenham oportunidades. Hoje a falta de educação é uma barreira. Dificilmente o cara que não tem acesso ao estudo, ao inglês, às leituras vai conseguir mudar de condição social, deixar de ser marginalizado. Os livros são uma ponte para uma vida melhor. Livros têm poder e empoderam. Muitas mulheres descobriram o feminismo através da Simone de Beauvoir, por exemplo. Conversei com muitos rappers para a campanha #livrosmudamvidas e eles me contaram que descobriram o movimento dos direitos civis e o Malcom-X pelos livros. É dessa revolução que estou falando. Por isso escolhi entrevistar pessoas que conversam com os jovens, especialmente com jovens mais pobres que não têm acesso à educação. Isso tanto vale para uma blogueira popular quanto para um rapper. Não adianta o professor ficar dizendo que livros são legais. Tem que ser os Racionais, o Dexter, a Karol Pinheiro. Quer coisa mais legal que o Dexter que saiu da cadeia para virar artista e diz que a autobiografia do Malcom X mudou a vida dele? Se um moleque de uma quebrada distante começar a ler por causa dessa campanha, já vai ter valido a pena. Agora, como essa revolução pode ocorrer? Acho que é por isso que estou tentando o #livrosmudamvidas, para fazer alguma coisa, saca? Meus pais são professores, passaram a vida dedicados à educação pública e, vire e mexe, algum aluno diz que eles mudaram suas vidas. Acho que o movimento tem que partir da sociedade, não adianta esperar que os políticos queiram tornar a população mais inteligente e crítica. Isso não é do interesse deles. Ficando parado é que a coisa não vai acontecer.

Você perguntou a onze pessoas e agora é minha vez de devolver a questão: que livro mudou sua vida e por quê?
Putz, entre tantas leituras importantes, acho que se sobressaem dois livros: pra começar, A Ilha do Tesouro, de Robert Louis Stevenson, que foi o primeiro livro "não infantil" que li, quando tinha uns 7 anos, e por muitos anos foi meu favorito. É um livro clássico, mas muito divertido, uma aventura com piratas que faz qualquer moleque pirar. Ele me estimulou a começar a ler loucamente e me fez ter vontade de escrever. Muitos anos depois, já na faculdade, li Misto Quente, de Bukowski, e ele mudou minha vida profundamente. Se muito moleque montou uma banda depois de descobrir que era possível fazer música com apenas os três acordes do punk, eu descobri que podia ser escritor lendo o melhor “romance de formação” da história. Me identifiquei muito com o personagem esquisitão e sua infância loser e meio falida, aquela coisa dos pais se acharem superiores ao resto dos moleques do bairro, a descoberta do amor pela leitura... Misto Quente me deu asas, provou que era possível escrever mesmo que você não fosse um gênio ou um virtuoso, foi uma faísca que me fez escrever o Canções para Ninar Adultos, o Glück e tudo que fiz fora do "emprego oficial".

 Inspiração 

Quem Valter Hugo Mãe pensa que é?

Valter Hugo Mãe no QUEM É QUE TU PENSAS QUE ÉS?
Valter Hugo Alves Pimenta de Lemos tem uma relação forte com as mulheres. "Os homens são necessariamente a parte fraca da humanidade, a parte desfavorecida", diz. Por ter uma ligação íntima com o lado materno da família, resolveu colocar "mãe" no nome. E assim temos Valter Hugo Mãe.

Neste episódio da série portuguesa "Quem é que tu pensas que és?", de 2013, Valter Hugo Mãe fala sobre sua origem.
A Benedito é uma publicação semanal. Sua missão é promover reflexões sobre literatura e mercado editorial por meio de conteúdos originais e curadoria de textos encontrados em publicações nacionais e estrangeiras. Os artigos nos links aqui apresentados são de responsabilidade de seus autores e/ou dos veículos onde foram originalmente publicados. Se você gostou desta edição, envie a Benedito para um amigo.
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