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Chegou a hora da 1ª HQ desta newsletter!

Abandono

Você vê o copo?



Não sei se você já esteve na rodoviária do Plano Piloto, <<Primeiro Nome>>, mas não é muito difícil imaginar o cenário: movimento, filas, bagunça, gente, um monte de gente, todo tipo de gente, gente do entorno e das satélites indo ou voltando para algum lugar no quadradinho do Distrito Federal. Eu, uma delas.

Na época, eu estava pegando dois ônibus para chegar ao trabalho. Era bem cedo e eu estava na fila esperando meu segundo ônibus, naquelas filas que duram vinte, trinta minutos, e só fazem crescer.

Filas de pessoas com uma paciência linda, mas só porque não tem outro jeito; se não esperar aquele ônibus, não tem outro que vai parar no mesmo lugar. Paciência, é Brasília.

Então eu estava lá, esperando. Esperando e observando as pessoas subindo e descendo escadas, engrossando filas, olhando as mercadorias dos ambulantes, pedindo um pastel na Viçosa.

Foi quando eu notei um copo de café-com-leite pousado em um banco vazio.

Um copo daqueles descartáveis, transparentes, pequenos, cheio de café-com-leite quase até a borda. Embaixo dele, um guardanapo. E só. Não havia uma mão, uma boca ou uma pessoa que estivesse de qualquer forma ligada ao copo.

Era um copo de café-com-leite intocado, imaculado, novinho, mas já abandonado.

Aquilo me intrigou profundamente. Olhei para os lados procurando alguém que pudesse reclamar a posse daquele copo de café-com-leite, alguém que o procurasse ou estivesse voltando a ele porque só foi ali buscar um pastel. Nada.

Tanta gente circulando ali e o mais espantoso era que ninguém parecia sequer notar a existência daquele copo solitário em um banco vazio em plena rodoviária do Plano Piloto às sete e meia da manhã.

Uma senhora sentou no banco, bem ao lado do copo, e por um momento achei que o café-com-leite fosse dela. Mas ela nem tchuns. Pouco depois ela se levantou e entrou num ônibus que acabava de chegar. O copo lá.

Você vai me achar boba, mas aquele copo me deu uma tristeza estranha. Considere que eu já estava tempo o suficiente na fila para criar intimidade com o copo. Então eu olhava pra ele naquela posição em cima do concreto sujo e riscado do banco e via algo bonito e triste, como as coisas que sempre estiveram na mesma posição antes de nós existirmos e que vão continuar lá, do mesmo jeito, quando a gente não existir mais – e que, durante esse tempo incalculável, ficarão lá sem serem notadas.

Eu poderia ter jogado o copo numa lixeira mais próxima, como manda a civilidade. Mas eu não toquei no copo.

Parecia haver um acordo tácito entre as pessoas da rodoviária para ignorar o copo; acordo que se quebraria no momento em que eu, com um gesto ou toque, chamasse novamente a atenção para a existência dele.

Preferi ficar do lado da multidão, ainda que não entendesse a lógica daquilo. Pareciam ignorar o copo deliberadamente, como quem tem tanta raiva e desprezo por alguém que decide sabotar essa pessoa, fingir que ela não existe, deixar que o eco solitário de sua voz morra no silêncio de uma não-resposta.

Não podia ser, podia? Era só um simples copo de café-com-leite.

Lembro de ter tirado uma foto. Na época, com meu celular de tela estreita, impraticável, que nem era touch ainda, coitado.

O copo não sorriu para a foto. Ele ficou lá, parado, o guardanapo embaixo dele, o concreto sujo embaixo do guardanapo, o café com leite já frio, apesar de estar sendo aquecido por um sol que batia nele e que deixava no chão a sombra dos ônibus, com uma floresta de pernas e pés ao redor disso tudo.

Tirei a foto, mas não fiz nada com ela. Não postei em lugar nenhum. Nem tenho mais essa foto. É como se a foto nunca tivesse existido. 

Da janela do meu ônibus, enquanto ele manobrava para sair da vaga, eu ainda podia ver o copo de plástico, o líquido pardo dentro dele. Abandonado, definitivamente abandonado, como deve ter ficado mesmo quando cheguei ao trabalho, bem longe dali. Como deve ter ficado até hoje. 

Será?

fotografia: Thiago Melo

Não, não deve ser. Já faz anos. Alguém deve ter tirado o copo dali. Nem que fosse um pombo. Mas alguém tirou o copo dali.

(se você tiver a chance de ir à rodoviária do Plano Piloto, pode dar uma olhada e conferir isso pra mim?)

Pode não estar mais lá. É possível. Mas o copo de café-com-leite ficou tanto tempo naquele lugar que deixou uma marca, uma fissura, um arranhão profundo na malha da realidade.

O copo pode não estar mais lá, mas a marca com o exato formato dele vai permanecer não importa quantos anos se passem. Mesmo daqui a duzentos mil anos, quando não houver mais uma rodoviária do Plano Piloto. Mesmo daqui a bilhões de anos, quando o nosso sol se apagar.

É isso o que acontece quando uma coisa está tão profundamente imersa em abandono: até o tempo a ignora.

Então começo a achar tudo isso muito absurdo e desisto da teoria de que o copo estava sendo deliberadamente ignorado; era natural que um copo de café-com-leite tão pequeno numa rodoviária tão grande passasse despercebido. Na memória, a anos de distância, o copo me parece ainda menor. Encolheu a nível molecular. Praticamente sumiu. Muito fácil não ver. Faz sentido.

O que ainda estou tentando entender, de volta àquela manhã na rodoviária do Plano Piloto, é a sensação bonita e triste (mas igualmente inexplicável) de que o gigantesco abandono de um pequeno copo de café-com-leite possa, surpreendentemente, me fazer sentir menos sozinha.

Afinal, de alguma forma, ele está lá.

Ninguém me vê

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Leia a história de apresentação das heroínas misteriosas acima, o Esquadrão Estrelar das Minas, na edição anterior de Bobagens Imperdíveis.

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Escrever essa newsletter e enviá-la todos os sábados é um dos compromissos que mais levo a sério atualmente.

Isso às vezes significa ter que ficar trabalhando até mais tarde (como agora, sexta à noite, momento em que termino essa edição – fazer uma HQ deu mó trabalhão!), mas é uma delícia.

Faço isso porque tenho uma responsabilidade com o meu trabalho – e com as pessoas que acreditam nele.

Sobre isso, escrevi um texto essa semana: A Responsabilidade do Artista.

O esforço que eu invisto no meu trabalho é porque ele já é importante e significativo pra mim. Mas quando o que eu faço passa a ser importante e significativo para outras pessoas, a dimensão dessa responsabilidade fica ainda maior.

Não sei o que pode ter significado para você as histórias que contei hoje. Mas vou gostar muito de saber.

Beijos pingados,

Aline.
 
 
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