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Uma newsletter para ouvir (e cantar junto).

As Bruxas do Silêncio



O silêncio é simplesmente insuportável para alguns. Por isso tantos tentam preencher com ruídos, uma TV ligada, uma timeline que nunca cala, comentários sobre o clima, buzina e panelaço, alguma opinião, qualquer opinião.
 
É preciso falar alguma coisa. Mesmo que ninguém ligue. Mesmo que não acrescente nada. É preciso falar porque é o que todos estão fazendo, e a gente não quer destoar. É preciso falar para nunca ser penetrado pelos pensamentos do outro.
 
O poder do silêncio nunca foi tão desprezado.
 
No silêncio, somos capazes de ouvir. E ouvir é o maior requisito se quisermos buscar uma conexão. Com nós mesmos, com o outro, com o mundo ao nosso redor.
 
Ouvir. Já ouviu falar das Bruxas do Silêncio? Talvez não. Como o nome sugere, elas não são muito de falar, e pouco se fala a respeito de sua história. Mas algumas lendas sobre elas são sussurradas por aí.
 
Dizem que elas conseguiram dominar o poder do silêncio para escutar os segredos do Universo e usufruir do que eles oferecem. Que elas ouvem tão profundamente que você nem precisa articular sua voz para elas saberem o que você quer falar. Que são capazes de ler com precisão as intenções de alguém só pelas batidas de seu coração. Que elas são capazes de se vestir de silêncio e criar campos de força contra o som. 
 
Dizem que elas têm ouvidos tão sensíveis que entendem sons como o da água corrente e do crepitar do fogo como se fossem idiomas, e ouvem os elementos contarem histórias. Dizem também que as mais poderosas e antigas são capazes de identificar a composição de um elemento só de ouvir o som dos átomos se batendo e ouvem até explosões de mundos a bilhões de anos luz de distância.
 
As Bruxas do Silêncio estão espalhadas por aí, vivendo escondidas em meio à nossa sociedade. É impossível identificá-las, a menos que elas queiram, embora dê para imaginar que sejam mulheres muito sagazes e atentas – que certamente conseguem ouvir uma agulha caindo do outro lado da sala!
 
Em seus rituais de meditação, elas não ficam sentadas quietas em posição de lótus. Céus, elas são bruxas, não monges. Elas meditam dançando, como as bruxas que se reuniam na floresta ao redor da fogueira. E elas dançam porque deixam as músicas e os sons fluírem através de seus corpos, em movimentos livres e espontâneos. É o ritual máximo da escuta. É lindo.
 
Por esse motivo, a música é um poderoso artefato para os feitiços das Bruxas do Silêncio.
 
E é também por isso que essas bruxas não possuem livros sagrados, e sim mixtapes sagradas. Combinações de músicas que as energizam e que podem trazer mensagens secretas. São hinos de evocação que elas usam em seus rituais.
 
Uma dessas playlists chegou ao meu poder (por meios que é melhor não revelar) e convido você a se desligar dos ruídos do mundo e se concentrar, por uma hora, nestas 13 músicas.
 
Você pode meditar sobre elas, ouvindo com atenção à sua maneira, ou dançando como elas fazem. Fique à vontade. Tomei a liberdade de deixar alguns comentários sobre o que me toca em cada uma delas.
 
Ouça a playlist aqui, no Spotify. Ou aqui.
 
Ilustração: Amanda Mocci
 
 

What’s Up? – 4 Non Blondes

 
Uma das melhores cenas de Sense8 é quando os oito protagonistas se conectam e cantam juntos essa música, mesmo que fisicamente separados.
 
Então você consegue ouvir? Ouça. Há outras pessoas neste mesmo momento cantando essa música com você. Onde elas estão, quem elas são, o que estão sentindo? 
 
“Eu percebi bem rápido assim que pude que o mundo era feito para essa irmandade de homens, seja lá o que isso signifique. (…) E eu rezo, ai meu deus como eu rezo, eu rezo todos os dias por uma revolução.” 
 
Se você cantar em voz alta, vai sentir: há outras vozes perguntando: “what’s going on?” 
 
 

Diferente – Gotan Project

 
O tango é uma conversa. Seus movimentos – ação e reação, como num diálogo com respostas – lembram de que precisamos do outro para uma história acontecer. 
 
Há um mundo diferente, em algum lugar, a música diz. Será possível? Talvez precisamos, como no tango, do outro para chegar lá.
 
Qué bueno, che! Que lindo é rirmos como irmãos. Por que esperar para mudar de banda e de compasso?” 
 
 

Serpente – Pitty

 
“Logo mais o amanhã já vem”, Pitty anuncia, feito uma sacerdotisa do roque.
 
E é tão fácil imagina-la toda pintada, dançando ao redor da fogueira com uma serpente enrolada no braço. A serpente que troca de pele e que devora a cauda, num eterno recomeço. Que é exatamente o que temos que fazer para chegar renovados a esse amanhã.
 
A vontade é se unir a ela e cantar "ooooh oh oh oh” até o final!
 
 

Animal Instinct – The Cranberries

 
Dolores O’Riordan, a maravilhosa vocalista da banda, conta que escreveu essa música depois de uma crise emocional quando teve seu primeiro filho.
 
É uma música que fala de maternidade de uma forma mais humana, sem a idealização que fazem de mãe como a mulher santa, perfeita e infalível. Apesar do instinto animal de proteção, há dúvidas e desespero, tristeza e stress, porque pessoas são complexas & controversas e as relações humanas também são feitas disso.
 
“Então pegue na minha mão e vem comigo, vamos mudar a realidade. Então pegue na minha mão e venha fazer uma prece, eles nunca vão tirar você de mim.” 
 
 

Por quem os sinos dobram – Raul Seixas

 
Uma playlist preparadíssima até para aquele que sempre grita: “Toca Raul!” Além disso, Raulzito passa a mensagem em tão bom português que nem é preciso comentar nada. Já está tudo na música.
 
E não é que é encorajador ouvir tantas vezes a palavra Coragem? Quando você realmente escuta, é como se a coragem fosse absorvida pelo seu corpo e fizesse, um pouco mais, parte de você.
 
 

Falling – Haim

 
Você pode até me achar maluca, mas tem algo nas músicas dessa banda que me lembram a fase boa do Michael Jackson. Talvez porque eu também me pegue balançando no ritmo da música sem pensar.
 
E a música fala sobre um chamado. Há vozes. E uma necessidade incontrolável de perseguir esses sons. É preciso ouvir!
 
Tem um clima meio bruxaria, se tem até fogueira: “piso no fogo me sentindo mais alta que a verdade, posso sentir o calor, mas não estou queimando. Sinto desejo, o cansaço e a fome também. Sinto como se estivesse caindo. Ouço eles chamando!” 
 
 

Time is On My Side – The Rolling Stones

 
Parece uma música romântica, baladinha, mas me faz arrepiar de uma forma meio assustadora. Deixa eu contar por quê.
 
A primeira vez que eu ouvi essa música foi no filme Fallen, com o Denzel Washington. É sobre um demônio que possui as pessoas e vai sendo “transmitido” de uma pessoa para outra através do toque.
 
O primeiro “possuído” é um assassino que foi capturado pelo Denzel, que faz um policial. Ele é condenado à morte, e enquanto é conduzido à cadeira elétrica, ele canta essa música, quase como uma provocação.
 
“O tempo está do meu lado – sim, está! Agora você fica dizendo que quer ser livre, mas você voltará correndo. Você voltará correndo pra mim”. E o demônio sempre voltava, em outra pessoa. Imaginar um espírito demoníaco cantando essa música muda tudo!
 
As Bruxas do Silêncio bem sabem que às vezes pode haver mais de um significado nas coisas que a gente escuta. 
 
 

Slow Motion – PHOX 

 
Uma vez, trabalhando no balcão de uma cafeteria, Monica Martin sentiu que o seu ritmo não estava mais sincronizado com a velocidade do mundo à sua volta. Que estranho.
 
“Me desculpe, hoje tô meio em câmera lenta”, ela dizia. E então escreveu essa música, que nos chama para desacelerar – até porque né, ritmo mó gostosinho.
 
“Anos atrás, eu não conseguia manter meus olhos nas estrelas, sobrecarregada pelo modo como elas dormiam tão longe. Agora eu vejo que isso é melhor de tantas formas. Tudo o que brilha é fogo, queima a pele e te deixa com pressa.” 
 
 

Nightwalker – Thiago Pethit

 
Não precisa nem ter uma fogueira na floresta. Quando seus pés te chamam para dançar, você simplesmente os segue, tira os sapatos e vai dançando na rua, feito a Alice Braga no clipe do Thiago Pethit.
 
Aliás, Alice Braga, que mulher. Será que ela é uma Bruxa do Silêncio?
 
“Quão triste é um dançarino sozinho? (…) Um dia, espero estar certo, em uma noite, como qualquer outra noite, seus sapatos te levarão para uma caminhada e te conduzirão até a minha porta.” 
 
 

Losing my Religion – REM

 
Dizem que no sul dos Estados Unidos “losing my religion” é uma expressão para dizer que você não bota mais fé em alguém, que foi até o limite com aquela pessoa e não dá mais. Ou seja, não exatamente tem a ver com literalmente perder a religião, rs.
 
“Pensei ter ouvido você rir, pensei ter ouvido você cantar. Acho que pensei que vi você tentar.” 
 
Ouça e perceba como ele alterna entre o falar e ouvir: ele ouve o outro rir e cantar nos sonhos, mas ouve apenas sussurros nas horas despertas. Ora ele fala que “já falou demais”, ora ele fala que “acho que não falei o suficiente.” 
 
Ele nunca sabe. E nisso dá para ouvir a angústia de uma conexão que não deu certo, da nossa incapacidade de nos comunicar com o outro.
 
 

Shadow of the Moon – Blackmore’s Night

 
As letras de Blackmore’s Night, banda formada pela vocalista Candice Night e por Ritchie Blackmore, que já foi guitarrista do Deep Purple, nos levam a tempos longínquos – e, pessoalmente, a uma época em que eu ouvia muito a banda.
 
Ouvindo essa música não dá pra pensar em outra coisa a não ser em procurar a floresta mais próxima e ir dançar nua com os bichos à luz do luar e, quem sabe, se transformar em outra coisa.
 
“Sentindo-se só, sentindo-se triste, ela chorou para a luz da lua. Conduzida por um mundo que enlouqueceu, ela alçou voo”.
 
 

Anunciação – Ellen Oléria

 
A música original é do Alceu Valença, mas a versão da Ellen Oléria traz um sentimento completamente novo para a história.
 
“A voz do anjo sussurrou no meu ouvido – eu não duvido, já escuto os teus sinais – que tu virias numa manhã de domingo. Eu te anuncio nos sinos das catedrais.” 
 
Aquilo que mais desejamos pode estar perto, bem perto, mas para saber precisamos escutar com atenção. Você escuta os sinais? Ou estamos preocupados ouvindo outras coisas?
 
As Bruxas do Silêncio sempre escutam. Elas sabem sintonizar no canal certo.
 
 

What a Feeling – Irene Cara

 
Nenhum ritual está completo se você não soltar as bruxas completamente. Essa música é para arrastar o sofá da sala, cantar bem alto e se soltar no seu próprio momento Flashdance!
 
Primeiro há medo, solidão e uma alma endurecida por um mundo feito de pedra e aço. E então você ouve a música, fecha os olhos e sente o ritmo e… que sentimento!
 
Você ouviu? Você também é música. E que tipo de música você quer ser quando chegar ao ouvido dos outros? Você consegue ouvir quem você é?
 
E é por isso que é tão difícil chegar ao nível dos poderes das Bruxas do Silêncio: é preciso ouvir o outro, sem nunca deixar de prestar atenção na sua própria voz. 
Conselhos da Dona Mexerica
 

“Exercer poder é falar, mas principalmente ESCOLHER a quem você vai ouvir”. 
 




*Dona Mexerica pode ser velha, mas ainda não é surda. Em uma realidade alternativa, ela é a gata laranja e silenciosa de uma amiga.

Papagaísmo



"Seja bem-vinda ao templo do Papagaísmo. O culto vai começar em alguns minutos, então escolha um poleiro e fique à vontade. Enquanto espera, gostaria de ler este folheto sobre o Papagaísmo?
 
O Papagaísmo é tão antigo quanto a própria humanidade. Você talvez só tenha ouvido sobre isso por causa da internet, que possibilitou que a gente descobrisse tantas coisas novas e ao mesmo tempo tivesse contato com tanta repetição, não é mesmo?
 
Por isso a internet foi escolhida como lugar para a construção deste templo. Não só porque é fácil de chegar e os terrenos são mais baratos, mas porque é um lugar que respira o Papagaísmo. Sem a internet, talvez o Papagaísmo não tivesse a mesma força."

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Leia o texto completo lá no blog e repita comigo: Repetição é poder! Repetição é poder! 

Nas edições passadas

 

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A edição de hoje foi uma mistura doida que fiz com algumas sugestões dos leitores lá no grupo do Facebook, quando pedi ideias para a newsletter. Espero que tenha achado legal, porque eu me diverti à beça fazendo :)
 
E eu só tenho a agradecer por todas as lindezas que me ajudaram nessa semana em que eu estava realmente desanimada e sem vontade de falar sobre nada. Às vezes, tudo o que a gente precisa é realmente ouvir ♡
 
Ah, o grupo de leitores de Bobagens é secreto, então, se você quiser entrar, responde esse e-mail me mandando o link do seu perfil no FB. Assim eu posso te adicionar aos meus amigos e te inserir no grupo, belê?
 
Espero que tenha gostado da mixtape sagrada e que realmente possa ter arrumado um tempinho para ouvir as músicas. Depois me conta o que achou, o que sentiu, o que as músicas fizeram você pensar :)
 
Beijos silenciosos,
 
Aline. 
 
 
Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, todos os direitos reservados.

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