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Uma entrevista com a escritora Jarid Arraes.

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 102


Hoje Bobagens Imperdíveis será diferente. Dessa minha vontade – não – desse impulso que me faz querer experimentar, surgiu a ideia de trazer, nessa newsletter que é principalmente meu laboratório, edições especiais com entrevistas. Mas são conversas. Histórias. E eu convido você a participar da primeira. Bora?

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De pantufas roxas, ela apareceu à porta. Eu poderia começar com “de pantufas roxas, ela me recebeu”, mas quem me recebeu primeiro foi Hope, um golden retriever de onze anos que mal a porta se abriu foi ao meu encontro dar as boas vindas da maneira que ele acredita ser a mais adequada para um anfitrião de respeito. Com uma sapatilha entre os dentes.

Você sabe que está entrando no mundo de Jarid Arraes pela cor: o roxo começa a despontar aqui e ali, nas paredes, almofadas e até no seu cabelo, crespo e volumoso, recém-cortado na altura do queixo. Lembro dos filmes do Wes Anderson, que sei que são dele só de olhar, a escolha de cores, os planos, uma linguagem muito própria. Não dá pra confundir. Acho que o mesmo se aplica a ela.

Como escritora, Jarid também tem muito a revelar sobre sua identidade através de seu trabalho. Foi exatamente para descobrir isso que fui até ali – juro que não foi só pra comer bolo.
 
Comecei perguntando sobre sua rotina, como era seu dia-a-dia. Antes de me dizer o que faz pela manhã, o que preenche suas tardes ou do que suas noites são feitas, ela confessou que não é muito organizada.

– Mas deveria ser, me ajudaria a produzir. Porque acredito cada vez menos em inspiração. 

Então ela explicou que na Psicologia – que atualmente cursa na faculdade – há o conceito de “insight”: quando várias informações e referências que a pessoa vai reunindo, juntando, acumulando na cabeça, uma hora surgem como ideia; mas não é como se fosse uma “eureka”, algo que surgisse do nada. É técnica. Trabalho.



Desaparece a imagem da escritora esperando pela inspiração, essa que gostam de idealizar, essa que faz com que achem que é um trabalho para quem tem dom, e começa a se desenhar a imagem de uma escritora sentada na mesa da sala – porque ainda não tem um escritório, um lugar só para escrever – tentando cumprir os prazos apesar de gatos e carência canina e barulho e calor.

– E como você programa seu trabalho no meio disso?

– Olha, vou ser sincera – e ri, pensando na melhor forma de explicar. – É o desespero que me move.

Tive que concordar: poucas coisas são tão motivadoras quanto um prazo se apertando, as contas a pagar esperando sobre a mesa, a necessidade desesperadora de concluir algo. É com base no desespero que ela se programa: “AI. MEU. DEUS. Não fiz nenhum cordel ainda, preciso escrever mais dez cordéis esse mês para conseguir lançar uma coletânea ainda este ano”.

Do lado de fora, começava a chover no bairro de Perdizes, dessas chuvas que deixam as pontas dos prédios invisíveis. Mas só reparamos bem depois. O mundo desapareceu um pouco quando começamos a falar de cordéis, seu ponto de partida na literatura.

E de repente estávamos no Cariri. Foi onde ela começou, afinal.

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– Fui uma criança diferente dos meus amigos, porque eu cresci cercada de cultura popular nordestina – Jarid começou a contar. – Meu avô fundou uma associação de artesãos em Juazeiro do Norte, a Associação de Artesãos do Padre Cícero, que funciona num lugar chamado Centro de Cultura Popular Mestre Noza, que é muito famoso na região. Meu avô foi diretor, depois minha avó, depois meu pai. E eu cresci lá. Então sempre gostei muito de tudo o que as outras crianças não gostavam: cordel, xilogravura, maracatu, banda cabaçal

– Os jovens acabam se identificando mais com “cultura pop”, né? E o que chamamos de “cultura pop”, é, na verdade, cultura americana.

– Isso. Você quer se aproximar do que está na moda, do que aparece na televisão, do que é considerado legal. E cultura popular nordestina não é visto como algo “legal”. Mas era até engraçado. Porque às vezes os trabalhos de escola aconteciam lá no Mestre Noza, e chegando lá todo mundo ficava maravilhado porque eu conhecia tudo, me pediam para meu pai dar entrevista. E eles ficavam surpresos quando descobriam, porque eu nunca mencionava isso pra ninguém.

As referências que a cercavam começaram a apontar um caminho. Desde criança, Jarid lia muito cordel. Ouvia o pai declamar cordel. Mas começou a escrever cordel só de uns quatro anos pra cá.

– Eu achava que não tinha talento para escrever. Achava que era difícil. Mas eu fiquei incomodada pensando: meu avô é bem idoso, ele está com 80 anos. Meu avô em breve vai morrer. Um dia meu pai também vai morrer. Se eles morrem, acaba com eles a tradição do cordel na família, porque ninguém mais escreve. Resolvi então começar a escrever.

Foi num sábado à noite que ela, decidida a praticar a arte do cordel, sentou na frente do computador para escrever. Nunca havia feito isso. Tinha ao seu lado um cordel do pai para usar como referência, mas, quando começou a digitar as palavras, percebeu que não ia precisar. Os versos saíram dela com tanta naturalidade – uma vida inteira lendo cordel, pegando intimidade com as rimas e o ritmo, acumulando conhecimento de como se faz – que, dez minutos depois, estava pronto seu primeiro cordel. “Dora, a negra e feminista.” 

xilogravura do pai ilustrando seu primeiro cordel

– Parece que oh, saiu magicamente, mas não! Estava na minha memória, era algo que fazia parte de mim, da minha construção como pessoa. Por isso eu tenho mais facilidade pra escrever cordel. Levanto desesperada e penso “tenho que fazer cordel hoje!”, sento e faço.

“Sento e faço”, no caso, é a versão resumida de “ao longo do tempo, vou anotando ideias soltas no computador, uma lista de títulos, temas e histórias, que guardo nesse arquivo gigante e então, no dia que preciso escrever, escolho as ideias que quero desenvolver, sento e faço”. Não é exatamente simples, mas a coisa se complica quando ela escreve cordéis biográficos, sobre figuras históricas, como Tereza de Benguela, Dandara dos Palmares, Aqualtune, Antonieta de Barros:

– É mais difícil porque não posso inventar a história, tenho que pesquisar sobre a história daquela mulher para poder transformar em cordel. Também porque tem datas, nomes de cidade, é mais limitador na hora de rimar.

– Mas é um desafio, não?

– Acho que é o que eu me sinto mais realizada quando termino de escrever. É um desafio, principalmente para escrever datas. 

– Lembro que no cordel sobre a Carolina Maria de Jesus você escreveu algo como “era o ano de quatorze / inda de mil e novecentos”. Assim quebrado.

– É isso mesmo. Tenho que fazer uns “migué” para caber no ritmo. Outra “trapaça” é comer sílabas das palavras. Mas acho que faz parte da técnica. Até nas oficinas de cordel que dou, falo para as pessoas se sentirem à vontade para escrever “errado”. Quanto mais errado, mais legal fica. Dá identidade.

– Você incorpora o erro no processo?

– Especialmente se o meu erro fica bem regionalista. Acho legal. Por exemplo, nas minhas oficinas de cordel aqui em São Paulo, vejo as pessoas usando muitas gírias paulistas. Treta. Mano. Mina. Vira um rap com cordel, acho massa.

Sobre escrever literatura de cordel em São Paulo, Jarid me surpreendeu: as pessoas se interessam mais aqui do que no nordeste. Há mais alcance. 

E o público que mais procura por seus cordéis são professores. O que ela acha ótimo: ver seus cordéis usados em sala de aula como referência para ensinar métrica e rima, ou para abordar temas da cultura afrobrasileira. Mas fica mais feliz quando são usados em aulas de literatura. É uma forma de reconhecimento do cordel, que geralmente não é considerado literatura.

Por isso falar em “cordelista e escritora” chega a ser redundante. Jarid faz literatura. E, no seu trabalho, isso também significou ir além do cordel.

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No ano passado, Jarid atravessou um portal: lançou seu primeiro livro de ficção. Na verdade, pulou de um precipício: lançou seu primeiro livro independente.

A ideia foi resgatar uma heroína brasileira negligenciada pela história, ao ponto de não haver registros sobre ela – muitos acreditam que ela nem chegou a existir, que não passa de lenda. Assim Jarid deu forma ao livro “As Lendas de Dandara”, imaginando histórias épicas que preenchessem essa lacuna sobre a heroína de Palmares. 

O livro foi ilustrado por uma tal de Aline Valek, cof cof, o que torna difícil tomar um distanciamento para perguntar sobre o projeto – sobre o qual, aliás, escrevi aqui, contando sobre o making of e tudo o mais.

Mas senti, em meio ao papo sobre cordéis, a oportunidade de perguntar a ela sobre as diferenças no processo de escrita entre os dois formatos de literatura.

– Escrever ficção em cordel é outra lógica. É mais fácil porque não preciso editar, me preocupar com a profundidade dos personagens. A história é transmitida pelo efeito de humor, ou o impacto de raiva, ou da própria sonoridade. Escrever “As Lendas de Dandara” foi complicado porque eu nunca tinha escrito ficção em prosa maior que uma página. Eu também não tinha muita referência, porque as coisas que eu lia eram muito diferentes do que eu queria fazer: ou eu lia muita poesia (muita poesia MESMO) ou livros como “O Conde de Monte Cristo” ou “Um amor de perdição”. Os livros que tem mais a ver com o que escrevo hoje só fui conhecer adulta.

– Mas “As Lendas de Dandara” tem um toque de fantasia.

– Tem, mas também é bem diferente do que eu estava acostumada a ler: “Senhor dos Anéis”, “As Brumas de Avalon”. Mitologia nórdica, europeia. E também não sei se dá pra considerar “As Lendas de Dandara” como fantasia, porque muitas pessoas acreditam em orixás. Também não acho relevante dar o rótulo de fantasia. Até porque, sinceramente, não vejo o público que lê fantasia se interessando tanto por mitologia africana.

– Mas será que não há uma carência do público por histórias com mitologia afro? Claro que vai ter gente que só vai se interessar por histórias com elfos e fadas… Mas histórias com deuses africanos são muito difíceis de achar.

– Esses dias eu estava procurando mais livros de fantasia para ler. Fui procurar em alguns sites para ver o que me interessava e era tudo a mesma coisa. Castelo, dragão e mago. Castelo, dragão e mago. Castelo, dragão e mago. Minha gente, até na mitologia europeia tem mais coisa do que castelo, dragão e mago.

– Já que entramos no assunto, o que você acha que é boa literatura?

– É quando eu não percebo que as cenas estão mudando. Quando a história consegue fluir de um jeito que eu nem percebo como ela foi parar naquele ponto. Acho muito mágico. O “Kindred”, da Octavia Butler, tem muito isso. Mesmo com todas as idas e voltas no tempo, quando a personagem por exemplo vai parar na casa do senhor de escravos, as coisas são muito fluidas, vão se emendando de uma forma natural. 

Refletimos sobre como isso é parecido com o que faz um diretor de cinema. Escolher o ângulo e os cortes para transmitir a passagem de tempo em uma história. Escrever é sobre escolhas, afinal. Porque não são os cortes o problema, Jarid explicou, mas a forma como isso é feito.

Pedi outras referências do que ela considera bom na literatura. Leituras que a inspiraram.

– Além da Octavia Butler, os livros da Chimamanda. “Americanah”. Mas esse nem é meu favorito dela. Gosto muito do “Hibisco Roxo”, mas juro que não é porque tem roxo no nome, haha! É uma história protagonizada por uma garota, filha de um homem muito rico na Nigéria. Um homem muito religioso e abusivo. Apesar de ser violento, ele não é exatamente um vilão. Enfim, a história é sobre os relacionamentos e conflitos da vida dessa garota. Os personagens são muito interessantes e a narrativa, em primeira pessoa, tem muita dessa fluidez que eu estava falando.

Sua atenção se voltou ao celular por um momento, quando ela começou a procurar a capa de outro livro para me indicar: “Mel e Amêndoas”, de Maha Akhtar. Um livro com várias personagens que têm suas histórias interligadas, e gira em torno de uma mulher que tem um salão de beleza em Beirute.

– Considero boa literatura não só histórias com narrativas envolventes, como esses exemplos, mas também o que consegue me impactar. Não necessariamente a história, mas o jeito que se conta. Tem um livro muito bom que li de um autor negro independente, que conheci na Feira Preta, o Plínio Camillo. Espera.

Ela voltou ao celular e, com alguns toques, colocou na tela a capa do livro, que me chamou bastante a atenção: “Outras Vozes”, escrito numa caligrafia branca sobre um rosto negro.

– É incrível – Jarid começou a contar. – Ele usa anúncios reais de venda de escravos que eram publicados na época da escravidão. Tem até imagens desses anúncios no meio do livro. E ele se baseia nesses anúncios para criar a história desses escravos. É uma coisa louca, Aline. Uma página é o anúncio, a história que ele escreveu. A outra é uma poesia. Na outra, um diálogo. E sempre personagens diferentes. Eu lia e ia parando no meio da leitura pensando “nossa, isso é muito bom”. 

Jarid pensou e deu uma risada, como que subitamente dando conta de suas respostas. Seu riso também o gesto espontâneo de quem vai dar uma resposta carregada de honestidade:

– Olha o clichê: mas o que considero boa literatura é aquilo que me emociona.

O que ela chamou de clichê pode ser considerado, na verdade, algo profundamente humano. Todas as pessoas buscam na literatura aquilo que as emocionam. Ainda que se emocionem de formas diferentes. Ainda que algumas se emocionem com histórias de castelo, dragão e mago. Acontece.

indicações de leitura da Jarid

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Outra iniciativa de Jarid na literatura é o Clube da Escrita para Mulheres, um grupo gratuito que reúne exclusivamente mulheres para escreverem juntas e aprenderem umas com as outras.

Quando ela me contou no início da conversa sobre a forma que incorpora o erro ao seu processo, aquilo fez todo o sentido. Porque quem se propõe a experimentar e se libertar de regras para encontrar a própria voz precisa estar aberta ao erro. E com a proposta de ser um espaço de experimentação, exercícios e prática, o Clube da Escrita também acaba transformando o “erro” em possibilidade de aprendizado.

– Tive a ideia de criar o Clube porque eu tinha essa necessidade de mostrar o que eu escrevo para as pessoas de forma segura, sabe? Não queria publicar, colocar na internet. Queria compartilhar com amigas. Até porque eu vi que crítica construtiva é realmente possível, e pensei que o Clube seria uma oportunidade para esse tipo de troca, que é muito incrível.

– Mas essa crítica sincera exige uma certa confiança para ser feita – ponderei. – Uma intimidade até. Não é o tipo de coisa que você consegue ser sincera com todo mundo; com você, por exemplo, que já fiz esse tipo de troca, me senti à vontade para ser sincera. Mas com outras pessoas já não deu muito certo. Precisa existir um “lugar” seguro entre as pessoas?

– Sim, e no caso do Clube isso foi acontecendo. Aos poucos fomos nos conhecendo, nos sentindo mais à vontade para opinar sobre o texto da outra.

Jarid começou a contar, resumidamente, como funcionam as atividades do Clube da Escrita: lá elas fazem exercícios de casa e de sala. Levam os textos escritos em casa, com um tema igual para todas, e leem no Clube, onde as outras comentam o que elas acharam. Um baita remédio para a insegurança, para aqueles momentos que se deixa de escrever algo por pensar que ninguém quer ler – para chegar lá e descobrir que as pessoas gostaram!

Depois ela faz o papel de mediadora, porque não há professora, são todas iguais; e assim ela chega a novos temas para a atividade de sala, que todas fazem com um objetivo em conjunto, por exemplo, narrativa em terceira pessoa. Todas então têm que fazer um texto em terceira pessoa usando um ou mais dos temas da lista. 



– Percebo que é nesse texto feito na hora, em trinta minutos no máximo, que ninguém pode revisar ou editar, que reside a criatividade genuína. O que você sente que quer criar. A sua voz de verdade. O que tem na sua cabeça. E vem do que tem que ser criado ali, naquela hora.

– Olha o desespero aí, rs.

– É o parto, haha! Dali surge a matéria bruta que vai ser moldada. E é nesse momento que a gente começa a perceber os estilos. As palavras que cada uma usa. A forma de contar as histórias. Dá para notar a identidade da pessoa.

– E como você percebe sua própria voz na escrita?

– Uma coisa que eu já percebi – ela disse, depois de pensar um tempo – e que outras pessoas já comentaram é que coloco muita poesia nas coisas. Muita metáfora. Que escrevo de forma poética. Com certeza isso tem a ver com a minha formação, por eu ler muito cordel e muita poesia. É como me sinto mais à vontade para escrever. Quando não estou preocupada em agradar, em explicar. O que também tem me ajudado a desenvolver bem mais a voz dos personagens, a voz que realmente vem deles, e não a que eu digo que eles têm que ter, sabe? Mas isso tudo vem da prática.

– O que acontece no Clube da Escrita… fica no Clube da Escrita? – perguntei. Mas felizmente não existe regra como “a primeira regra do Clube da Escrita é não falar sobre o Clube da Escrita”, ou eu nem estaria escrevendo sobre isso agora.

Ela respondeu com duas histórias:

A de uma das participantes que resolveu criar um blog porque perdeu a vergonha de mostrar os textos dela – o que levou à ideia de criarem um blog juntas, do Clube da Escrita, para publicarem textos das participantes do encontro.

E a de outra mulher que nem lembrava que escrevia; que não lembrava sequer de já ter escrito um livro, porque a vida e o trabalho e os compromissos foram sufocando sua escrita. Depois do Clube, ela voltou a escrever, tirou seu livro da gaveta – Jarid, que leu, não poupou elogios e adjetivos para descrever sua originalidade, para dizer o quanto o livro a emocionou – e que agora ela queria arrumar um jeito de publicar. Imagina só: de nem lembrar que escrevia a publicar um livro.

A própria Jarid é uma dessas histórias: ela tem aproveitado os exercícios do Clube da Escrita para ensaiar textos e desenvolver personagens para seu próximo livro, sobre o qual me contou um pouco na parte final da conversa – a que viajamos para o futuro, e então, para um passado distante.

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Apesar de ser um trabalho que se faz sozinha, lembrei, pela minha própria experiência, que escrever é uma profissão que envolve exposição. Porque escrever é se expor, colocar sua verdade no trabalho; mas também porque exige visibilidade para promover livros, chamar a atenção das pessoas para lerem os textos. Queria saber a relação dela com essa questão, então perguntei:

– Mesmo com essa exposição, o que você acha que as pessoas não veem ou não imaginam sobre o trabalho de escritora?

– Elas nem imaginam que às vezes você não quer visibilidade. Você quer que seu livro seja famoso, seja lido. É diferente de querer ser celebridade. O que quero é que as coisas que escrevo alcancem as pessoas e façam diferença para elas. Elas também não imaginam que escrever é difícil pra caramba, que não tem nada a ver com dom. E seria muito legal se as pessoas entendessem isso, porque elas veriam que elas podem escrever também.

– Bato tanto nessa tecla. Até porque essa história de “dom” desvaloriza o que, na verdade, é trabalho puro.

– Acham que não há esforço, que você não estuda, não se dedica, que não precisa reescrever as coisas mil vezes até ficar bom. Muitas não entendem que trabalhar em casa não é assim tão fácil quanto parece. Se você é uma pessoa que se mantém da escrita, você não tem férias remuneradas, plano de saúde. As pessoas acham que você tem que ser grata por ter sido chamada para participar de um evento que não vai pagar nem o transporte para você chegar lá. Você tem que agradecer, afinal, é visibilidade. Mas a que custo? Então, falando por mim, o que quero não é ser uma estrela pop, mas pelo menos conseguir lançar meus livros sem precisar ficar endividada.

– Depois de ter lançado o seu livro, a experiência de lançar independente ainda por cima, o que você aprendeu e acha que vai conseguir fazer com mais facilidade?

– Agora consigo ser mais fiel à minha voz. Não estou mais perdida sobre como se faz isso, essa história de escrever e publicar livro, e estou tentando me desprender dessas regras, expectativas, da crítica; tento pensar no que eu gostaria de ler se eu fosse a leitora daquele livro. Na verdade, estou escrevendo para pessoas que se parecem um pouco comigo, que se emocionariam com o que me emociona. Estou focando em fazer algo que seja bonito, verdadeiro.

– Vamos agora viajar muito no futuro: não importa se for algo muito megalomaníaco ou impossível de se realizar, mas qual é o seu objetivo dentro da literatura? O que você gostaria de alcançar?

– Tenho pensado muito nisso. É algo que vem desde o cordel, bem antes de “As Lendas de Dandara”, e tem a ver com eu me reconhecer como negra. O que quero fazer hoje com minha literatura é honrar minha ancestralidade. Não só a parte negra da minha família, mas a parte branca e como elas se misturam. E aí que entra o cordel, que faz parte da minha família nordestina. É algo que me emociona muito e acho que essa é a minha verdade. A verdade que coloco na minha literatura.

Abraçada à sua almofada roxa de franjinhas, Jarid pareceu olhar para um tempo muito distante. Futuro ou passado? Talvez os dois.

– Espero que quando eu tiver uns sessenta anos, que é uma idade que considero “top”, rs, eu possa ver que publiquei muitas coisas que honraram minha ancestralidade. Porque acho que nunca vou conseguir conhecer exatamente a minha origem, saber realmente quem foi a pessoa negra da família do meu pai que fez com que só ele e eu nascêssemos negros. Não sei se vou saber, então vou usar a escrita para imaginar várias versões dessa pessoa. Pode ser a Dandara, pode ser a protagonista do meu novo livro que estou escrevendo, pode ser alguma personagem dos meus cordéis, pode ser a Luísa Mahin, a Tereza de Benguela, todas elas. Já que eu não sei quem foi, então foram todas. Já que eu não sei se veio da Angola, da Nigéria, de outro lugar, então veio da África inteira. Quero contar a história dessas pessoas que não puderam contar a história delas. Acaba sendo uma forma de ativismo, né?

Ela gargalhou, disse que é coisa de aquariana não conseguir fugir de ativismo, que affe, não tem jeito mesmo. E continuou: 

– Mas, brincadeiras à parte, acho que na literatura, quando a gente conta a história de um personagem, a gente conta a história de um ser humano. Como os personagens que escrevo hoje são pessoas que tiveram a humanidade roubada delas, contar essas histórias é uma forma de torná-las humanas de novo. Tem um personagem que gosto muito em “As Lendas de Dandara”, o Kambo. Pra mim, aquele rapaz representa a pessoa que foi da minha família. Porque imagino que esse meu ancestral não foi uma pessoa grandiosa, como Zumbi dos Palmares, mas mesmo assim teve uma história linda, que acho que merece ser contada. A protagonista do meu novo livro também: ela é uma mulher de uma linhagem de “feiticeiras”, digamos assim, que foi trazida como escrava para o Brasil. Ela é o que chamavam de “preta de casa”, que ficava na Casa Grande.

Jarid parou antes de continuar, ponderando se contava mais da história. Fez suspense.

– Não vou dar spoilers do livro, mas o que acontecia muito nessa época é que quando uma escrava era violentada e engravidava, se o filho nascesse branco, ou mais claro, provavelmente seria tomado dela – e é o tipo de coisa que deve ter acontecido na minha família. Uma pessoa filha de escravos que nasceu branca, casou com outra pessoa branca, e em algum momento nessa linhagem nasce alguém negro, porque está no DNA. Por isso pra mim é difícil encontrar quem é a pessoa negra na origem da minha família, e por isso eu tenho carinho por essa protagonista. É como se eu estivesse escrevendo a história da minha ancestral. Mas não só nesse livro, acho que sempre vou estar voltando para a minha origem, para as coisas que aprendi quando criança. É uma tentativa de me conectar às pessoas que não pude conhecer.



A narrativa fluida que mais cedo ela disse gostar na literatura também estava ali, enquanto ela me contava sua própria história. Fui sendo conduzida sem notar, subitamente me percebendo emocionada por ver, de forma tão transparente, que a escritora diante de mim tinha um propósito. Que tinha uma enorme consciência do por quê ela escrevia.

A conversa, que levou quase a tarde inteira, chegou ao fim com bolo de mandioca (macaxeira ou aipim, fica ao gosto do freguês) e com Ylvis como trilha sonora, se perguntando por que diabos alguém construiria o Stonehenge.

Entrei no apartamento sozinha, mas o que ela pode não ter reparado quando nos despedimos é que saí de lá acompanhada: com você. Não que seja um problema termos entrado em um espaço tão íntimo para conhecê-la. Porque, na escrita, Jarid vai continuar se revelando – e convidando as pessoas para conhecer as histórias que ela tem para contar.


Bonus track

Se você já me lê há algum tempo sabe que eu não tenho exatamente LIMITES quando se trata de escrever textos gigantescos. Mesmo assim, eu sabia que não conseguiria contar nesta edição tudo o que conversamos numa tarde chuvosa em São Paulo.

Jarid e eu conversamos também sobre ficção científica e sobre verdade na literatura. Você pode escutar trechos dessa conversa clicando neste link. Oito minutinhos extras desse papo que você leu aqui.


Stalkeie

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:: Conheça os cordéis dela no site.

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:: Para participar do Clube da Escrita, entre para o grupo no FB (só mulheres).

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Termino de escrever a newsletter adorando a experiência de ter escrito uma entrevista, da forma que gosto de escrever: contando uma história.

Gostei tanto que, em uma das notas que guardo no Evernote, vizinha à que uso no momento para escrever esta edição, escrevi uma lista com nomes de próximos entrevistados. Minhas próximas vítimas (espero). Quando você menos esperar, trago mais uma edição especial com entrevista.

O que você achou da conversa de hoje? Pode me contar! Se também quiser mandar algum recado para a Jarid, só escrever que eu encaminho.

Tudo isso também me fez pensar em como histórias são sempre recortes – como essa entrevista: é o recorte da minha percepção sobre o papo com a Jarid.
 
Histórias são uma versão da realidade, que não é necessariamente a verdadeira. Muitas vezes, uma mesma história tem espaço para múltiplas versões da realidade, porque se abre para inúmeras possibilidades de interpretação.

Tem a ver com o último texto que escrevi lá no blog, sobre “As possibilidades invisíveis da literatura”, em que comento minha leitura de “Alif, o invisível”, falo sobre as propriedades da literatura e da linguagem de multiplicar significados e ainda conto o que computação quântica tem a ver com isso.

(muita gente acha esse negócio de ler textos direto de blogs algo fora de moda, inconveniente, nada sexy, mas entenda esse texto como parte da newsletter, de um raciocínio maior que não vai caber apenas aqui)

Esse texto no blog também é o ponto de partida de uma reflexão que eu tenho desenvolvido nas últimas semanas, que será o assunto que vou abordar na próxima edição. Quer saber sobre o quê?

Já já estou de volta e te conto!

Beijos entrevistadores,

Aline.


Para ver o arquivo com as edições passadas, clique aqui.

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