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"Não troco o meu 'oxente' pelo 'ok' de ninguém!"

Mundo louco, escritores mui vivos e festival de ibagens


<<Primeiro Nome>>, me ajuda: eu precisava saber se não estou sonhando. 

Se você leu uma das edições passadas, sabe que meu inconsciente é poderoso no quesito sonhos malucos, especialmente envolvendo eventos apocalípticos e a normalidade com que todo mundo ao redor encara a situação periclitante.

Essa semana acho que tive um desses sonhos apocalípticos, mas parecia MUITO real.

Vê: começa com um avião caindo, da mesma companhia aérea que teve um avião desaparecido há alguns meses e que não encontraram até hoje. Coincidência demais para ser verdade, certo? Esse avião, cheio de civis, foi atacado em uma região de guerra. Nenhum sobrevivente.

Esse foi o primeiro sinal de que algo muito errado estava acontecendo.

Enquanto isso, em outro canto do mundo, uma zona em guerra há mais tempo que sou capaz de enumerar, uma grande nação começa a bombardear a outra, muito menor em tamanho e poderio, matando centenas de civis. Pessoas inocentes. 

Ligo no canal de notícias e 1) os repórteres se referem ao caso não como o massacre que é, mas como um “conflito”, como se fosse uma disputa de igualdade de forças militares; 2) um comentarista diz que não há tantas mortes de um lado quanto há do outro (àquela altura, mais de 200), porque “a defesa de Israel é muito boa”, assim, nesse tom, como se estivesse falando de futebol; 3) um colunista declara que os palestinos só estão morrendo porque gostam de ser mártires. Tudo muito surreal.

Mudo de canal. As notícias são sobre a prisão de alguns ativistas que atuaram em diversas manifestações no Brasil. O jornal mostra o inquérito com todas as provas irrefutáveis de que aquelas pessoas estavam envolvidas em manifestações violentas e em crimes ainda não-acontecidos. Nunca tinha visto tamanha eficiência para prender e julgar bandidos, um sinal de que eu só poderia estar sonhando. 

Nesse ponto meu inconsciente desistiu de fazer sentido e eu comecei a descobrir que só a Globo teve acesso a tal inquérito, que nem os advogados de defesa puderam ler, que algumas das provas consistiam em uma ligação entre as ativistas falando sobre comprar marmita para a galera do movimento (algo certamente perigosíssimo) e que o inquérito fundamentava-se principalmente no depoimento de um agressor de mulheres. Fiquei me perguntando se eu poderia ser presa também, se descobrissem que tenho planos de vandalizar o patriarcado.

Enquanto isso, mais um avião cai. 47 pessoas morrem em Taiwan.

No espaço de duas semanas, pessoas importantes do cenário político e artístico começam a morrer. Plínio, Vange, João Ubaldo, Rubem, Ariano. Um atrás do outro. Três deles, imortais da Academia Brasileira de Letras. Não deveriam ter o poder de se regenerar?

Outro avião some dos radares. Descobre-se que caiu, com 116 pessoas a bordo, em algum lugar na África. Mas o quê??

Eu já estou atordoada demais para lidar com essas informações, quando um figurão de Israel chama o Brasil de “anão diplomático”, talvez em referência ao Tyrion, de Game of Thrones? O que gera uma repentina revolta nas pessoas da internet, que parecem ter esquecido de todas as situações da semana que indicam um cenário totalmente apocalíptico.

Alguém nos ajude, Lázaro, a entender.

Se não é tudo um sonho, então o roteirista desse grande seriado chamado VIDA ficou louco.

Sério


O governo israelense, aquele que está bombardeando a Palestina e matando centenas de civis, chamou o Brasil de “anão diplomático”. A declaração foi dada pelo porta-voz do ministério das Relações Exteriores de Israel, após o governo brasileiro condenar o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza.

Pelos comentários que vi na internet, as pessoas tiveram a mesma reação de quando Jaime Oliver falou mal do brigadeiro. Ofendidíssimas, ergueram seus escudos, tal qual Capitão América, na defesa do Brasil, munidas de um fervoroso senso patriótico.

Em outra edição da newsletter, eu já disse o quanto acho patriotismo uma coisa tonta.

Porque de repente “anão diplomático” se tornou um insulto mais gritante do que o massacre que está rolando por lá, ofuscado pela reação a essa declaração.

Francamente, “anão diplomático” não ofende. O que me ofende, e o que deveria ofender toda a comunidade mundial, é a violação aos direitos humanos. Tem que ver isso aí.

Fantástico Suassuna


Ariano Suassuna deitou-se no chão e todo mundo ficou preocupado. Só estava descansando, ele explicou.



Agora ele também descansa. Curiosamente, ele se deita derradeiramente dias após concluir um romance que ele escrevia há 33 anos: O Jumento Sedutor. Deve ter ficado tranquilo, satisfeito.

Então não adianta chorar o escritor morto, como escreveu Biajoni: "Em seu estúdio, entreaberta está a porta, / mas só há ausência lá, um espaço desocupado. / Nas estantes, porém, o escritor está físico / e ainda pode ser visto, apalpado e considerado. / No caixão, está amarelo e tísico, / E não há o que se chorar se ele ainda pode ser lido."

Não morreram as histórias que tanto me fizeram rir e pensar. Não morreu Quaderna, aquele brilhante e amalucado Dom Quixote do sertão. Não morreram seus amigos Clemente e Samuel, com seus duelos hilários de ideologias de esquerda e de direita. 

Lembro algumas passagens do Romance d’A Pedra do Reino que deixei marcadas:

“(…) na Arte, a gente tem que ajeitar um pouco a realidade que, de outra forma, não caberia bem nas métricas da Poesia.”

“Minha sede de caçador é tanta que, vendo a caça menor, perto, nem me lembrei que podia espantar a maior! Mas isso é de quem é caçador, mesmo, e, como diz o ditado, ‘é melhor uma rola na mão do que duas no cu’!” 

“(…) Você fala aí, dessa perseguição que lhe fizeram, da denúncia que mandaram contra você ao Juiz, por causa da briga que você teve com aquele seu colega. Acredito que ele tenha agido mal e dado muitos erros, praticando maldades e injustiças contra você. Mas ele também tem razão: você também agiu mal, também deu muitos erros em toda esta história! E por quê? Porque você, em tudo, se preocupa com essas malditas questões de honra e vive querendo apurar quem tem razão! Como se o fato de ‘ter razão’ pudesse servir para alguma coisa! Que é que importa a ele que você tenha razão? Que é que importa a você ter razão ou não? Você, ganhou a briga imperdoavelmente, e, por cima, ainda quer ter razão? Que é que lhe interessa que seus inimigos ‘não tenham razão’? Que importância tem que eles sejam lacraus e piolhos-de-cobra, como você diz? Por um lado, Dinis, razão completa só quem tem é Deus! Por outro lado, todos nós somos lacraus, e mesmo os piolhos-de-cobra têm, lá, suas razões! Se você tem menos culpa em relação a eles do que eles perante a você, isso não significa que você esteja pagando inocente, Dinis, porque todos nós (e seus inimigos também) somos, ao mesmo tempo, terrivelmente culpados e inteiramente inocentes!”

Suassuna, tal qual um Dom Sebastião, voltará ressurecto para fundar seu reino fantástico toda vez que abrirmos uma de suas obras: o seu Reino da Escrita Encantada.

Com Carl Sagan sentei e chorei



Recentemente, terminei de ler Contato, do Carl Sagan. No final da história, eu chorei. Mas chorei como nunca antes chorei com nenhum livro. As lágrimas correram e ensoparam o meu rosto, enquanto eu nem conseguia articular palavras pra explicar pro namorado, que veio me dar um abraço, o que tinha me feito chorar tanto.

A história é sobre uma cientista que detecta um sinal enviado por extraterrestres. Entre as tentativas de decifrar a mensagem e várias discussões que isso gera ao redor do mundo, a prova da existência de vida fora da Terra confronta tudo que até então sabíamos e chacoalha a base de muitas crenças, enquanto cria outras. O que os cientistas descobrem ao decifrar a Mensagem os levou mais perto de uma outra civilização, mas o que eles veem do outro lado mudaria completamente a perspectiva sobre nossa própria existência – isso se alguém acreditasse na história.

Tudo isso está no filme também. Eu ainda não vi, mas o Marcos me contou e descobri que o que mais me tocou na história do livro não está presente no filme. Claro, toda a coisa de conseguir contato com uma civilização mais avançada e a aula que o autor dá sobre o nosso universo são, por si só, emocionantes.

Mas, ao meu ver, a grande virada do livro é sobre um pequeno detalhe da vida de Ellie, a protagonista. Foi o que me levou às lágrimas. Foi o que me fez admirar Carl Sagan ainda mais por sua sensibilidade e, em uma obra de ficção científica, conseguir evocar algo tão humano.

Claro que eu não vou contar. Quero deixar que você possa viver essa experiência, e super recomendo que você leia o livro.

Porque é impressionante, em Contato, como o autor faz com que vejamos, de uma perspectiva cósmica, como somos pequenos. Nos consideramos o centro do universo, quando não passamos de habitantes de um pixel irrelevante, com uma existência absolutamente momentânea. Olhando para a grandeza do Universo que Sagan nos apresenta, nos colocamos em nossos devidos lugares. Mas, ao mesmo tempo em que mostra a nossa insignificância, Carl Sagan consegue ampliar a importância do que nos cerca, das nossas relações uns com os outros. Dessa outra perspectiva, o amor e a empatia ganham tanta importância que ficam do tamanho do Universo.

Quanto mais leio e aprendo com Carl Sagan, mais tenho saudades de um ser humano que nunca cheguei a conhecer e que já não habita o nosso planeta. Como isso é possível?



"Diante da vastidão do tempo e da imensidão do universo, é um imenso prazer para mim dividir um planeta e uma época com você."

Carl Sagan

A imortalidade dos escritores



Os personagens são as horcruxes dos escritores.

Nesse feitiço conhecido como escrita, eles colocam um pedaço deles em cada personagem que criam. E, assim, podem viver indefinidamente.

Só para poder falar com a gente.

 

Só imagens


A indicação dos links da semana dessa vez vai ser assim, totalmente visual.



Sherif Samy é um artista do Cairo com um trabalho de ilustração bem interessante. Seu site está cheio de esboços de corpos femininos nesse estilo meio geométrico, tão peculiar.


http://www.sherif-samy.com/



Vitor Flynn é quadrinista. Em seu site, uma porção de quadrinhos inteligentes, sensíveis e em uma variedade de estilos impressionante. Foi difícil escolher um só para colocar aqui.

http://quadrinhosbe.wordpress.com/



A fotógrafa britânica Eleanor Haswell tem um trabalho incrível sobre corpo, especialmente o feminino. Em obras provocadoras, ela celebra nossos corpos em cada detalhe, especialmente nos pelos das mulheres, que são demonizados pela nossa cultura.


http://dropr.com/eleanorhaswell/



Ilustração de Andrew DeGraff para uma matéria no NY Times chamada “Love People, Not Pleasure”, sobre felicidade, infelicidade, por que essa busca constante por prazer, sobre a insatisfação nos impulsionando a querer mais, e sobre esse ciclo que nos leva a amar coisas e usar pessoas.


http://www.nytimes.com/2014/07/20/opinion/sunday/arthur-c-brooks-love-people-not-pleasure.html



O artista holandês Theo Jansen criou uma forma de vida: esculturas que se movem com o vento, e andam pela praia como criaturas vivas. O movimento delas é tão orgânico que é difícil não acreditar que de fato estão vivas. Faça uma busca por “strandbeests” ou conheça um pouco do trabalho dele
neste vídeo.


 
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Ariano Suassuna, há muito tempo

A Olivia Maia, na última edição de sua newsletter (o quê? Você ainda não assina?), perguntou aos amigos escritores quais são os “demônios” de nossas vidas que se infiltram em nossas obras. Quais seriam os temas que se repetem em nossos textos de ficção? Certamente já estou pensando numa resposta e ainda vou escrever sobre o assunto.

Mas pensei tanto que me perguntei: se escritores têm um tema, será que leitores também têm? Algum tema que se repete nos livros que alguém busca para ler?

Tem algum tema que te interesse mais? Algum que te toque mais profundamente (como a mensagem de Contato me tocou)? Um tipo de personagem com o qual você costuma se identificar?

Me conta?

Obrigada pela hospedagem tão carinhosa que você me oferece em seu e-mail. Espero que tenha uma boa semana e nos encontramos semana que vem, combinado? :)

Beijos de alegria suassúnica,

Aline.

 

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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