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Um passeio pela minha cabeça.

Despertar para si mesma

Sobre ser careca



De cabeça raspada e com aquela blusa largadona, ele disse, eu estava parecendo o Neo quando desperta da Matrix e embarca na Nabucodonosor. E eu concordei, achando o máximo.
 
Porque raspar a cabeça, de certa forma, foi como despertar da Matrix de mim mesma – e começar a olhar diferente para essa pessoa que sou.
 
Desde que comecei a usar o cabelo curto, eu já sentia que aquele visual tinha muito mais a ver comigo. Eu reconheci ali meu próprio rosto. Não o rosto que todo mundo vê, mas o rosto que eu acho que eu tenho. Minha persona.
 
Aí eu passei a máquina. Vi meu rosto mudar ainda mais e, mesmo eu tendo usado cabelo curto tanto tempo, a mudança foi impactante.

 
Parece que sem o cabelo para chamar a atenção, meu rosto tem mais espaço para se expressar. Descobri um bocado de expressões faciais novas que eu não sabia que eu tinha. É como se eu tivesse me despido de tudo que não fosse eu e, minimalisticamente, ficado com o que importa.
 
Também aconteceu uma curiosa inversão. Quando encontro com alguém, sinto a outra pessoa meio insegura. Ou será apenas a minha segurança que cresceu?
 
O negócio é que não me sinto mais do lado que se sente intimidado, com medo de julgamentos. Agora sinto que passei para o lado intimidador. Não porque eu assuste as pessoas, mas por sentir que o que sou desafia, de alguma forma, a ordem das coisas.
 
(e, pensando bem, isso pode assustar algumas pessoas sim)
 
Acho que nunca me senti tão poderosa quanto agora; um Sansão às avessas. Parece algo meio babaca e egocêntrico de se dizer, mas quando a gente passa a vida tendo a autoestima jogada pra baixo, é algo muito importante para se afirmar.

 
Também tenho achado divertido ver as pessoas fazendo elogios que fogem do básico “linda”. Corajosa. Furiosa. Atitude. Combinou com você. Revolucionário. Foda. É interessante porque nenhum desses elogios são direcionados ao meu cabelo, agora praticamente inexistente; mas à pessoa que eu sou.
 
Bonita ou feia é o que menos importa sobre mim. Eu sei que sou alguém que tem algo a dizer. E expor o meu verdadeiro rosto ao raspar a cabeça foi só uma consequência natural de eu já me expor tanto no que escrevo, especialmente por aqui.
 
Só tem um problema nisso de raspar o cabelo: affe, como cresce rápido esse negócio, hein?
 
***
 
Fotos por Marcos Felipe. Veja as outras fotos no tumblr dele. 

Motivos para assistir Advantageous

 
 
Na verdade, é basicamente um motivo: porque é um dos filmes de ficção científica mais feministas que eu já vi.
 
O filme é recente, de 2015 (assisti na Netflix), e de cara eu soube que eu estava diante de uma ficção científica bastante diferente do que eu estou acostumada a ver em termos de produções americanas.
 
Para começar, o filme é escrito e dirigido por mulheres. Jennifer Phang dirigiu e escreveu, e Jacqueline Kim, além de roteirista, atuou como a protagonista do filme.
 
A história se passa num mundo super futurista, apesar de parecido com o nosso em vários aspectos, e é sobre uma mulher tentando sobreviver às instabilidades econômicas e garantir um futuro digno para a filha.
 
Sim, Advantageous é protagonizado por mulheres. Mãe e filha, como é tão difícil de ver na ficção no geral. E uma mãe solteira, ainda por cima. Além disso, são personagens de ascendência asiática.

 
O filme passa no Bechdel Test com louvor, tipo, nos dez primeiros minutos do filme. A maioria das personagens da história são mulheres. Basicamente, só existem 2 homens no filme (inclusive, um deles é o Mr. Chow de Se Beber, Não Case, então no início achei meio esquisito ver o cara num papel mais dramático).
 
Gwen, a protagonista interpretada por Jacqueline Kim, é uma mulher na casa dos 40 que trabalha para um laboratório de biomedicina como uma espécie de porta-voz. Quer dizer, trabalhava. O filme se desenvolve partindo do conflito principal que é ela sendo demitida e tendo que arrumar formas de cuidar da sua filha Jules em meio a uma economia em crise.
 
O filme aborda a questão da vulnerabilidade da mulher no desemprego, pois vemos como as mulheres são as primeiras a serem descartadas e as mais afetadas por isso. Tente reparar em quem aparece como pessoa desempregada ou falida no filme.
 
Há até um diálogo no filme que reforça isso, quando o superior de Gwen explica a ela que demitir as mulheres tem sido um movimento em várias empresas, como uma resposta da sociedade para que elas voltem a cuidar da casa e da família – e que isso era melhor do que ter vários homens desempregados na rua. Ao que Gwen responde: “melhor pra quem?” 
 
Não dá para ignorar o fato de que Gwen é demitida por ser “velha demais”. A empresa procura por rostos mais jovens (o produto principal deles é uma nova forma de cirurgia estética, ou seja, eles literalmente vendem aparência) e eles decidem que Gwen não tem mais utilidade ali.
 
Quando tenta se candidatar a novos empregos, ela recebe uma única indicação, que é ser uma doadora de óvulos. Ou seja, naquele mundo (tanto quanto no nosso), uma mulher só vale alguma coisa enquanto tem uma aparência adequada ou serve para a reprodução. 
 
O filme também mostra mulheres muito jovens, praticamente crianças, tendo que recorrer à prostituição para sobreviver. É essa imagem que faz Gwen temer pelo futuro da sua filha adolescente se ela não conseguir matricular Jules em uma boa escola.
 
A educação é uma questão muito importante para as mulheres também abordada em Advantageous. Isso porque uma garota que tenha acesso à educação formal está menos suscetível ao trabalho infantil, violência doméstica, escravidão, tráfico sexual e casamento infantil (sobre isso, recomendo ver o documentário Girl Rising, com várias histórias e estatísticas sobre garotas & educação).
 
Por isso a preocupação de Gwen faz tanto sentido e a motiva a fazer um grande sacrifício para que Jules tenha alguma perspectiva que não seja desemprego, miséria e prostituição. Então, de certa forma, a história é sobre mulheres que se salvam.

 
O envelhecimento e o padrão de beleza também estão presentes entre os questionamentos do filme. No mundo de Advantageous, é esperado que as mulheres não envelheçam e que se submetam a processos absurdos, capazes de modificá-las completamente, apenas para que elas se adequem a uma aparência mais agradável. Essa obsessão pela juventude é levada ao extremo pela empresa onde Gwen trabalha, que oferece cirurgias estéticas que consistem basicamente em transferir o cérebro da pessoa para um corpo jovem e bonito.
 
Isso também levanta outras questões sobre memória & identidade. O que somos nós? Somos nosso corpo ou o nosso conjunto de lembranças? Podemos continuar a ser nós mesmos mesmo sem nosso corpo?
 
Além de tantos questionamentos que podem ser considerados feministas, de uma protagonista extremamente humana e de uma história bem construída, Advantageous também vale ser visto por conter uma estética e linguagem bem diferentes, que mostra que o filme não está ali para dar tudo explicadinho e mastigadinho para o espectador.
 
É um filme que provoca reflexões. Por isso, Advantageous honra a ficção científica e faz valer o tempo de quem, assim como eu, procura algo do gênero que fuja do mais do mesmo. 

De novo, fiquei do lado do monstro



Durante a semana, assisti a Jurassic World e senti mais ou menos o que senti quando li Moby Dick. Precisava escrever sobre isso.
 
Não vou nem dizer aqui se gostei ou não gostei. Se confirmo as críticas de que o filme é ruim ou se achei exatamente o contrário. Não digo porque não sei, risos.
 
Mas vai lá ler. Deu um textão maior que um tiranossauro e cheio de spoilers. Leia por sua conta e risco. 

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(ah, e tenho que agradecer pelo amor e pelas energias positivas que recebi durante a semana, sério! Meus leitores são firmeza <3)
 
Espero que tenha coisas legais para te contar semana que vem. Até a próxima edição!
 
Beijos carecas,
 
Aline. 
 
 
Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, todos os direitos reservados.

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