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Não aguento mais tanta perfeição

Lado monstro

 
 

Tenho um monstro que aprendi a esconder. Todos temos. É o que em nós existe de inacabado, de mal feito, de feio e mantemos longe da vista para não perturbar os outros.
 
Escolho sempre meu melhor ângulo para mostrar ao mundo. Todos escolhemos. De preferência, usando um bom filtro para que esse ângulo fique ainda mais colorido, mais agradável, mais interessante.
 
Sai no autorretrato o cabelo arrumado, o sorriso e o olhar sugestivo, mas fica de fora a unha do dedão do pé que passou da hora de cortar. O monstro nunca pode aparecer na foto.
 
O monstro incomoda, é inconveniente, porque revela alguma incoerência, algo que nos contradiz de forma constrangedora. E as pessoas, Aline, têm uma obssessão por coerência que nem te conto.
 
É preciso ser pronta, bem resolvida, evoluída, não fracassar. Agir de acordo com o que se fala. Saber o que está fazendo, ter certezas, fazer sentido. Existir de forma correta.
 
Quase posso ouvir as vozes, uma patrulha imaginária dentro da minha cabeça  que faz questão de lembrar que não sou ficha limpa, que tenho meus podres. Ela não sabe o que está fazendo. Ela tem medo. Ela fala porque é fácil. Ela é uma fraude.
 
E quem não é?
 
Até quando vamos levar a vida como se fosse a merda de uma propaganda?
 
***
 
Tem um programa na MTV que adoro assistir, o seriado Catfish (e talvez o Nev ser um fofo tenha algo a ver com isso). Nesse programa, pessoas que se relacionam com alguém na internet pedem para os apresentadores investigarem e descobrirem se estão mesmo falando com uma pessoa real.
 
Nev e Max são os “detetives” que vão em busca de pistas e contatos para tentar revelar quem é a pessoa de verdade por trás de determinado perfil. O programa é, basicamente, a pergunta: você é quem realmente diz ser?
 
São impressionantes as histórias contadas ali: pessoas que descobrem que a outra com a qual se relacionavam há oito anos na internet não existia, não passava de uma máscara para uma pessoa muito insegura; rapazes apaixonados por moças sensuais e meigas que ficam arrasados quando veem que o tempo todo estavam conversando com um homem gay; moças que descobrem que o galã por quem estavam apaixonadas tinha uma aparência completamente diferente; pessoas que se fingiam famosas ou influentes para conseguir a atenção, amor ou até dinheiro de outras; pessoas mentindo ou se escondendo pelos mais variados motivos. 
 
É fácil pegar essa narrativa para mostrar como são horríveis essas pessoas que fingem ser outra coisa, que enganam, que mentem. É fácil odiá-las, pintá-las como más ou vilãs.
 
Mas não é o que Catfish faz; sempre há uma tentativa de entender a pessoa do outro lado, de mostrá-la humana, com suas inseguranças, medos e problemas (o Nev ser um fofo compreensivo tem tudo a ver com isso).
 
Há nelas a angústia de parecerem melhores, de mostrar seu melhor lado para aquela outra pessoa na internet. São pessoas que, não muito diferente de mim ou de tantas outras, aprenderam a esconder seus monstros. 

 
***
 
Na busca de ser uma pessoa melhor, muitas vezes perco de vista que isso não significa me tornar uma pessoa mais foda, mais completa, que não erra, que não tem sentimentos ou opiniões contraditórias, que é linda, se veste super bem ou atrai a atenção de todos numa conversa.
 
Uma amiga muito sábia um dia me lembrou que essa busca tem mais a ver com ser alguém pequena, perdida, cheia de dúvidas e erros, mas ver que tudo bem.
 
Resolvi parar de esconder o monstro e dançar com ele. O monstro incomoda, é inadequado e pouco fotogênico, mas é o meu monstro.
 
Sou dentuça, sedentária, não faço as unhas, fico escrevendo contra idealização romântica mas sinto ciúmes, escrevo sobre padrão de beleza e me sinto insegura com minha aparência, não sei me vestir;
 
Tenho enorme carinho pelas pessoas mas não consigo expressar isso pessoalmente, não reconheço as pessoas na rua, e, dependendo de quem for, até reconheço, mas finjo que não;
 
Fico calada quando ouço uma coisa muito absurda, nunca sei o que dizer quando alguém morre ou tem filho ou faz aniversário ou fica doente, não gosto de dar presentes, especialmente em datas feitas para dar presentes;
 
Minto que está tudo bem quando estou na merda, minto que tenho tudo planejado quando estou completamente perdida na vida, mando o gato calar a boca, gosto de me dizer feminista ou esquerdista mas não curto ir em manifestação, aliás, em nenhum lugar que tenha aglomeração de gente;
 
Pego ranço de algumas pessoas pelos motivos mais idiotas, sinto raiva de quem escreve melhor que eu, às vezes me pego rindo de coisas que eu não deveria, fico zoando sozinha algumas coisas que as pessoas postam no instagram, por mais que eu saiba que fazem o mesmo comigo;
 
Tenho medos e problemas e erro o tempo inteiro e tantas outras coisas que nem sei, mas tudo bem. Tudo bem porque não tenho que ser modelo pra ninguém, não tenho que saber de tudo, não é minha missão de vida ser perfeita se somos afinal todas pessoas em construção e é o monstro quem fica misturando o cimento com a pá.
 
Tudo bem ter um monstro. E daí que os outros vão se incomodar, vão ficar perturbados, vão achar horroroso? Como se eles também não tivessem seus próprios monstros debaixo do tapete, dentro do armário ou atrás da porta, rá.
 
Um amigo meu, professor, um dia estava me contando como ele perdeu o medo de falar para muita gente (coisa que tenho pavor). “Pegue a pessoa mais incrível, mais bonita ou mais intimidadora que você conhece. Agora imagine, como se você fosse dotada de visão de raio-X, o interior dessa pessoa. Imagine que essa pessoa tem um intestino e dentro dele um monte de bosta sendo processada. Cara, isso muda tudo! Porque ninguém que você sabe que é um saco ambulante de merda tem o direito de te julgar.” 
 
Não há idealização ou perfeição que resista à consciência de que estamos todos cheios de merda por dentro. Veja que até eu, enquanto escrevo, estou com a barriga cheia de cocô. Só isso já seria o suficiente para não me tomar como alguém que está acima dos demais, que é melhor ou correta.
 
E nem poderia; tenho um monstro, afinal.
 
Ao colocar o monstro pra fora, me sinto protegida. Se eu o abraço, se eu o aceito e não nego sua existência, fica mais difícil alguém usar meu monstro para me ferir, me atacar, me atingir.
 
Que efeito pode ter alguém que fica atrás da moita só esperando o momento de eu errar para me expor, se eu já tiver exposto tudo?
 
Há pouco, enquanto eu falava disso aqui em casa, meu namorado deu de ombros e disse que nosso monstro nem sempre vai ser assim tão horripilante, que é tudo uma questão de perspectiva: “o negócio é que a gente se vê de perto demais e no espelho toda imagem é distorcida”. Quer dizer, o que eu acho que é um monstro pode ser algo fofo, adorável, um pouco desajeitado é verdade, mas adorável.
 
E aí passamos o tempo todo tentando maquiar, esconder ou corrigir algo que nos tornava interessantes, diferentes ou adoravelmente errados. Daí percebo que o monstro pode não ser o pior de nós, mas uma preciosa lição: a de que não podemos ser inteiros se tentarmos ser perfeitos demais.

Entrevistando a entrevistadora

 


Na edição passada, eu quis conhecer um pouco mais quem está do outro lado lendo as bobagens que escrevo. Eu ri, gargalhei, chorei (sério), rodopiei, me emocionei e me apaixonei pelas respostas. As pessoas, elas são maravilhosas.
 
Aí que a Giza, o Buda e o Victor deram a ideia de eu responder às mesmas perguntas que eu fiz, e achei que poderia ser interessante fazer um “De frente com Aline”. Bora?
 
Ah, e se você ainda não respondeu à minha ~entrevista~ e quiser participar, pode fazer isso aqui.
 
Qual é o seu e-mail?
escreva@alinevalek.com.br (pode me escrever sempre que quiser)
 
Por qual nome posso te chamar?
Aline, Valek (pronuncia-se Válek), ou os dois.
 
Qual é a sua idade?
28 pra 29, às vezes perco a conta
 
Como é o seu cabelo?
É peruca.

 
Qual rede social você mais usa?
E-mail, com pitadas de Twitter – ou vice-versa
 
Tem twitter?
@alinevalek
 
Onde você mora?
Vila Madalena, SP
 
Qual é o seu trabalho?
Escritora
 
Estuda? Já se formou? Qual é a sua área?
Sou formada em Publicidade e Propaganda, trabalhei como redatora publicitária alguns anos até quase definhar e ver que aquilo não era pra mim. 
 
Onde você está no mapa ideológico?
Esquerda Libertária
 
Qual sua casa em Hogwarts?
Corvinal
 
Se você fosse um Pokémon, de que tipo seria?
Psíquico

tipo esse
 
Qual é o seu alinhamento?
Super neutro
 
Tem religião? Acredita em algo?
Minha religião é a literatura, acredito no poder da ficção, amém.
 
Qual a coisa mais marcante a seu respeito?
Meus enormes tentáculos.
 
Tem algum projeto pessoal?
Meu trabalho é meu projeto pessoal, meus projetos pessoais também são trabalho, as coisas se misturam. Meu último projeto pessoal é o blog Todo Mundo Come e tem sido uma delícia escrever lá.
 
Tem alguma coisa que você não come de jeito nenhum?
A maioria das frutas. Sou enjoada pra fruta, como pode? Não é nada contra o sabor, gosto do sabor de praticamente todas elas, o negócio é a fruta mesmo. Acho que a fruta é só um troço que não teve oportunidade de virar suco. Até acho gostoso, mas a textura, o tamanho, os caroços, o jeito de comer, nossa, não sei lidar. Queria ser menos bicho de cidade.
 
O que você mais gosta na newsletter?
Ser semanal, os leitores, as respostas, escrever :)
 
Tem alguma edição favorita? Algum texto que te marcou?
Minha edição favorita é sempre a que estou escrevendo.
 
Qual é o seu personagem favorito?
Pode eu ter feito uma pergunta que eu mesma não consigo responder? Porque veja, eu tenho tantos favoritos, geralmente gosto mais dos personagens errados, os imperfeitos, os que têm algum tipo de problema de caráter e ainda assim seriam o tipo de pessoa que eu gostaria de ser amiga, mas nossa, como responder isso se são tantos e só se você apontasse uma arma pra minha cabeça e me pressionasse pra responder logo, socorro, só assim eu conseguiria forçar algum nome e aí seria Rei Gelado, Loki, Ron Swanson, agora vira essa arma pra lá.

Ron<3
 
Está assistindo a algum seriado?
Considero “assistir” também aquele período de ansiedade de esperar por novos episódios ou temporadas, então: House of Cards, Game of Thrones, Orange Is The New Black, Hora de Aventura, The Walking Dead, Parks & Rec (queria morar nesse seriado), Masters of Sex, 30 Rock, Girls, Modern Family, Sherlock, Mad Men, American Horror Story, Marco Polo, Homeland (blé) e Felizes Para Sempre? (sem contar os que já terminei de assistir se não a lista ficava gigante). Desisti de Agents of S.H.I.E.L.D e Under The Dome (muito ruins) e estão na fila para eu assistir: Legend of Korra e Orphan Black.
 
Que livro você está lendo?
Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie; Ancillary Justice, da Ann Leckie; e Dança de Dragões do George R. R. Martin (sou nova nesse negócio de ler vários livros ao mesmo tempo).
 
Que gênero você mais gosta de ler?
Ficção Científica
 
Se sua vida virasse um filme, que ator/atriz ficaria com o papel principal?
Ricardo Darín, óbvio.

 
Qual princesa Disney te representa?
Pocahontas

 
Casa comigo?
Sim
 
Conte qualquer coisa sobre você.
Há alguns anos, fui atropelada por um ônibus na W3-sul. Era um dia de trabalho normal, eu estava indo para a parada, atravessava a rua na faixa, assim que o sinal para os carros fechou. O ônibus que passou por cima de mim, nem vi, nem lembro. Só sei que o ônibus, depois da batida, morreu. Eu fiquei com algumas costelas quebradas, um joelho fodido e um dente quebrado. Minha testa também afundou na hora, mas depois voltou ao normal. Desde então adquiri estranhos poderes. A super visão, com certeza, não é um deles.

Coisinha horrível

 

Quero ser coisinha horrível, monstrinho impossível de domesticar.
Selvagem, crua, uma força da natureza.
Quero trovejar!
 
Não me cabe a perfeição, não fizeram uma do meu tamanho
(tão pequena até as botas sobram dum jeito estranho)
e aqui onde eu vivo melhor nem usar o que não vou poder sujar.
É só olhar em volta.
Terra, mato, com sorte, lugar pra fazer horta;
o rio não é muito longe e se chove, transborda;
o que tem é improvisado, aqui se vive amontoado;
os bichos, são meus amigos, eles comem do meu lado.
 
Na escola aprendi história antiga.
História de bichos gigantes que invadiram a vila.
Enormes, cheios de dentes, eram coisas apavorantes.
Qualquer coisa menor que eles era devorada num instante.
Bichos pequenos, coitados, tinham nem chance!
Foi quando tremi de medo;
perto deles, eu seria do tamanho dum dedo.
 
Quero ser coisinha horrível, estou aprendendo, espia.
Coisinha horrível é bicho pequeno que não choraminga.
Tem que ser terrível pra botar medo e não virar comida.
Tem que ser monstrinho pra não mexerem com a sua vida.
Coisinhas horríveis rugem, gritam;
Sabem ficar sozinhas, nadam, espreitam;
Sabem fazer de tudo e os outros a respeitam.
 
Não quero fazer as coisas esperadas.
Nem usar vestido, laço, essas coisas comportadas.
Blé.
Quero é subir na mesa,
rugir e mostrar o muque,
dar murros, pontapés,
explodir um jacaré,
chupar caranguejo com fúria,
fazer trovejar,
gritar pra chuva parar,
fazer as coisas pegarem fogo,
salvar bicho menor,
ser menina e ainda ser herói.
 
Quero ser coisinha horrível, rugir, gritar, bater.
E aí quando o monstrão vier, eu não vou nem tremer.
Vou encarar ele nos olhos, sem medo.
Vai ficar manso, inofensivo igual brinquedo.
Se a vida é dura, serei rochedo.
E aí, mesmo tão pequena, vou conseguir sobreviver.
Porque serei coisinha horrível, e vai ser a vez dele de temer.

 
***
Ilustração: Bryan Lashelle
 
Texto inspirado em The Beasts of Southern Wild.
 
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No próximo domingo, dia 15, Bobagens Imperdíveis completa seu primeiro ano de existência.
 
Cinquenta e duas edições não é pra qualquer um e, ao mesmo tempo em que fico emocionada por chegar a essa marca e saber que tanta gente linda me acompanha (algumas, desde o início!), fico muito empolgada para continuar esse trabalho por mais uma temporada.
 
Obrigada por continuar lendo minhas bobagens, Aline, e conto com você para mais um ano de aventuras e confusões todo sábado no seu e-mail.
 
Agradeço especialmente a quem financia o meu trabalho, contribuindo generosamente com R$ 10 por mês para que eu continue escrevendo (nunca terei agradecido o suficiente, sério!).
 
Se você acha que eu mereço um presente por fazer um ano de Bobagens Imperdíveis, considere fazer uma assinatura mensal também, entrando neste link e clicando no botão azul.
 
Além de estar apoiando uma escritora independente, vai concorrer a sorteios de presentes especiais, como um exemplar da coletânea Amor – Pequenas Estórias, publicado pela Confeitaria com um texto e ilustra de minha autoria.

 
Lembrando que dia 14 de fevereiro faço o sorteio e envio o resultado por e-mail para os assinantes pagos, como funcionou no último sorteio que fiz. Um presente de Valentine’s Day bem adequado para quem me manda amor todo mês, né? ♡
 
Agora solta vinheta de season finale da newsletter! HOJE É UM NOVO DIA, DE UM NOVO TEMPO QUE COMEÇopa, música errada. Porque é claro que a trilha de encerramento da primeira temporada de Bobagens Imperdíveis é esta aqui.
 
Até a próxima!
 
Beijos monstruosos,
 
Aline.

 

Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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