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Calma, eu explico.


Eu os acho detestáveis. Não concordo com suas escolhas, acho suas opiniões questionáveis. Muitas vezes morro de raiva deles, do que dizem, do que fazem. São difíceis de engolir. Mas às vezes é justamente ISSO que vai me fazer gostar de suas histórias.
 
Não sei se você já viu The Office, um seriado de comédia genial ambientado numa firma que vende papéis, mas a história tem um ótimo exemplo disso que tô falando. Michael Scott, o chefe do escritório, é aquele cara que venceu como profissional justamente por espelhar e representar a falta de bom senso, de lógica e de profundidade contidas no mundo corporativo.
 
Ele se acha o melhor chefe do mundo, super inteligente e engraçado, e parece inconsciente do quão ridículo ele realmente é em suas falas e atitudes. O olhar dos funcionários, que ele nunca parece captar, revela para a câmera o absurdo e o constrangimento que é lidar com uma pessoa que não tem noção do quão egocêntrica, preconceituosa e pirada ela realmente é.
 
Michael Scott diz coisas racistas, machistas e babacas no geral, achando que está abafando, que está dizendo o certo, enquanto todo mundo se entreolha chocado e ofendido no escritório. O ridículo disso tudo é ele nunca perceber como isso o torna uma pessoa detestável, e não o chefe super legal que ele é na cabeça dele.
 
Em uma das reuniões absolutamente non sense que ele conduzia, uma das funcionárias diz que Michael está sendo misógino e ele responde “obrigado”, como se ela estivesse fazendo um elogio! “Quis dizer que você está sendo machista”. Ele diz: “não, estou sendo misógino. Isso é uma loucura, não sou machista”. Ai, Michael.
 
Lembro de outro episódio em que ele, para provar que não era homofóbico, beijou na boca, à força, um funcionário gay. Foram tantos momentos absurdamente errados que a minha relação com esse personagem durante a série pode ser resumida em uma palavra: constrangimento.
 
Mas quando o personagem saiu do seriado, The Office não foi mais a mesma coisa. Senti saudades sinceras dele e das coisas horríveis que ele falava, apesar de em vários momentos aparecer fagulhas de um cara generoso e com alguma sensibilidade. Pessoas nunca são uma coisa só.

 
Outro dia, eu estava ouvindo um podcast muito interessante cujo título já diz muito: Batman, um fascistinha supervalorizado?. Os apresentadores analisam o personagem por um ponto de vista que não é comumente abordado, porque o Batman é sempre glorificado como um grande herói, embora ele não seja tão correto e coerente quanto possa parecer.
 
Na vida real, a gente sabe o quanto é completamente errado, em tantos níveis, fazer justiça com as próprias mãos. Amarrar bandido em poste é o tipo de coisa que nos aproxima perigosamente da barbárie. E é exatamente o que o Batman faz. O fato dele ser um milionário só atenua mais o problema. Se criminalidade está intimamente ligada à desigualdade social, tanto poder e dinheiro concentrado na mão de uma pessoa faz o Batman, esse ó grande herói, estar justamente na raiz do problema.
 
O que está por trás da motivação desse playboy milionário combatente do crime (por mais paradoxal que seja) não são boas intenções e a vontade de proteger as pessoas, mas uma grande perturbação mental causada pelo traumático assassinato de seus pais na infância. Pensa bem: o cara é podre de rico e se veste de MORCEGO para sair à noite dando porrada em bandido. Pra mim essa parece exatamente a definição de LOUCURA.
 
Como apontado no podcast, um cara com a influência e a grana do Wayne teria várias outras formas mais responsáveis de tornar Gotham um lugar mais seguro, e ainda ser uma inspiração para os mais jovens muito melhor do que adotar alguns garotos órfãos, vestir uma fantasia colorida nos rapazes e arriscar a vida deles diariamente em missões de super-heróis.
 
Por tudo isso, acho muito mais interessante ver o Batman como mais um dos loucos perigosos que andam por Gotham tocando o terror, com a única diferença de que é um bandido pirado que bate em outros bandidos, mais ou menos como um Dexter, um serial killer que mata outros serial killers – e ele não deixa de ser um assassino por causa disso! O negócio é que, por um mero acaso, que é o fato de ter se tornado conveniente para a força policial de Gotham, é que o Batman não vai parar na cadeia ou no Asilo Arkham, junto com os outros criminosos pirados, onde seria o seu lugar.
 
Também não vejo essas críticas como um “não pode gostar do Batman”. Pelo contrário, acho que negar essas incoerências e a loucura do personagem é perder de vista o quanto ele é profundo, múltiplo em camadas e o quanto ele revela o que de mais sombrio existe em nós.
 
Claro que também não dá pra falar de UM Batman, porque o personagem muda drasticamente dependendo da história ou do autor, como bem lembrado no podcast. Um dos convidados lembra o Batman da TV dos anos 60, que é completamente diferente disso que eu falei.
 
Ele é um herói exemplar, politicamente correto, tão correto que chega a ser chato. Queriam criar um personagem que servisse de exemplo e que inspirasse os jovens a seguir a lei, a moral e os bons costumes. Mas, convenhamos, o Batman “errado” é muito melhor.
 
Por mais que pareça incompatível com o meu posicionamento feminista, eu adorava acompanhar a série Californication, especialmente porque o personagem era um tanto baseado no Bukowski. Hank é um escritor porralouca que vive em Los Angeles e que se mete em altas confusões simplesmente porque ele é imaturo e irresponsável demais.
 
Sim, Hank é um babaca. O mais interessante é que ele SABE que é um babaca e ele até tenta não ser, mas fracassa redondamente todas as vezes. Ele tem uma filha adolescente e um relacionamento conturbado com Karen, a mãe de sua filha, e tenta ser um bom pai e um bom marido, mas ele faz burrada atrás de burrada.
 
Ver que ele se ferra justamente pelas escolhas idiotas que ele faz e por persistir nos seus erros dá até um sentimento gostoso de schadenfreude e, ao mesmo tempo, raiva por ele ser tão burro, teimoso e babaca. Eu queria esbofeteá-lo e perguntar “será que você nunca vai aprender, cara??”
 
Você representa tudo que eu odeio, mas te acho altamente divertido, por favor continue
 
Personagens errados, cheios de fraqueza, falhas, que fazem escolhas estúpidas e que, não raras vezes, possuem opiniões equivocadas e são absolutamente detestáveis não só têm o direito de existir na ficção como têm uma importante função. Eles conseguem expor o que há de pior em nós, mostrar aquela área depois dos limites que a gente não gostaria de ir, e nos fazem refletir sobre como algumas atitudes são inaceitáveis, ridículas e ofensivas.
 
Sem eles, a ficção seria apenas propaganda, mostrando personagens corretos e ideais que servissem de modelo aspiracional para o público. Perderíamos as possibilidades que a ficção oferece de refletir, desconstruir, olhar uma questão por outro ângulo, enxergar os diversos ângulos de um personagem, imaginar situações absurdas, ser confrontado por personagens que pensam e fazem escolhas diferentes de nós.
 
Não é compromisso da ficção dizer “seja bom”, “seja correto”, “seja perfeito”, mas de levantar questionamentos mais profundos, mesmo que precisem ser desconfortáveis e desconcertantes: “por que ele fez isso? Quais as consequências dessa escolha que ele fez? Isso é aceitável? Como lidar com essa pessoa? O que você acha disso? O que sua reação diz sobre você?”. Com isso, a ficção joga com nossos sentimentos e ideias sobre o mundo e, no processo, a gente acaba tendo que repensar sobre nós mesmos.
 
Então o problemático, ao meu ver, não é o personagem detestável em si, mas a pessoa não perceber a babaquice que há nele. Se a pessoa, tanto a que cria o personagem quanto a que o lê, não é capaz de perceber por que aquela atitude ou escolha de determinado personagem é ofensiva, babaca ou reprovável, o personagem se torna superficial, apenas mais um reforço de um comportamento ou discurso questionável.
 
É preciso uma enorme consciência e sensibilidade para criar um personagem desses que consiga de fato levantar questionamentos, provocar incômodo e fazer a história ganhar profundidade.
 
E uma consciência ainda maior para ver o nosso pior refletido naquele personagem, como um lembrete da pessoa que a gente não quer ser, ou, a exemplo do Hank, ver o tipo de babaca que somos e não conseguimos deixar de ser.
 
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Estou lendo um livro ótimo da Ana Maria Machado, o “Silenciosa Algazarra”, e em um dos primeiros capítulos ela fala sobre como o convívio com a crítica deveria fazer parte da formação de um artista.
 
“Não temos o hábito de debater na escola, educadamente, como parte do processo mesmo de aprendizagem. Diferentemente do que ocorre em outras culturas, não faz parte de nossa experiência educacional argumentar, defender um ponto de vista, fundamentar uma opinião, procurar exemplos que as ilustrem, desenvolver um raciocínio para convencer o outro. Não aprendemos a, em seguida, parar para ouvir, ponderar, pesar os argumentos alheios, avaliá-los, ver em que medida eles devem ser refutados ou podem ser aceitos. Não nos ensinaram a construir sínteses nem consensos. Qualquer discussão entre nós descamba logo para o pessoal, o agressivo, o hostil. Vence quem ganha no grito.” 
 
Esse trecho da Ana Maria Machado, uma das minhas autoras infantojuvenis preferidas, me lembrou de um textinho antigo que escrevi sobre os quadrinhos de Calvin & Haroldo e da importância de formar crianças mais críticas. (momento vale a pena ler de novo!)
 
A capacidade argumentativa e o raciocínio afiado do Calvin (mesmo que para fins questionáveis, como deixar de fazer a lição de casa) fazem desses quadrinhos quase uma aula de filosofia e debate para crianças. Embora, pensando bem, elas corressem o risco de ficar tão terríveis quanto o Calvin.

super argumentativos
 
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Esta semana, a Val, mascote de Bobagens Imperdíveis, entregadora da newsletter, e, segundo a leitora Rebeca, uma Indiana Jones espacial (amei), recebeu a primeira cartinha endereçada a ela!
 
Ela ficou toda saltitante e felizinha com o e-mail que Julian escreveu pra ela, tão felizinha que pediu para entregar a cartinha que ela recebeu nesta edição.
 
Ela agradeceu Julian efusivamente pela mensagem fofa e por ter feito ela sentir essa gostosa sensação de EXISTIR. "É assim que se sentem as pessoas de carne, osso e pele rosada, quando percebem que a existência delas IMPORTA? Então existir é daora. É maneiríssimo. Quero existir mais!"
 
Abaixo da carinha de felicidade que ela fez, o e-mail que ela recebeu <3

 
Oi, Val! Tudo bem?
 
Desde que você contou seu apelido, eu tive vontade de conversar, mas ahhhh, a vida. Ou minha falta de organização mesmo. Vi uma galera conversando sobre você, seu visual, sua idade, e fiquei feliz em saber que você chama a atenção de várias pessoas, não só a minha (calma, gata, isso não é um xaveco). Por mais que a Aline escreva, é você quem entrega; todo sábado, você entra aqui e cumpre sua tarefa. Você é mais pontual do que o Papai Noel, se pá.
 
Você é silenciosa. Entra sem me acordar (rá, acordei mais cedo nas últimas semanas pra te esperar) e me observa até que meu olhar tenha sido absorvido pelo texto. Quando te procuro, você já se foi; está lá em cima, satisfeita com a minha satisfação.
 
E, poxa, nunca achei sua cor azul esquisita - mesmo que achasse, que poder teria eu de julgar? Você já me viu de ressaca, com tosse, chorando, rindo, já até chegou em casa antes de mim e esperou tranquilamente. O fato de VOCÊ não ter me julgado e ainda aparecer semanalmente é maravilindo.
 
Já falei pra Aline que eu mergulho na escrita dela de imediato, e acho que você dá um empurrãozinho, Val. Nas primeiras vezes, você olhava pro texto e ameaçava não soltá-lo. Eu já apertava o botãozinho da curiosidade, enquanto você insistia em segurar o jornal. Agora, você resolveu encarar, provocar com esse meio sorriso. Depois de todo esse tempo me visitando, você aparece com essa expressão de cumplicidade, de quem divide uma receita secreta e sabe que a melhor forma de protegê-la é cozinhando e aprimorando.
 
Val, você já deve ter recebido esse pedido inúmeras vezes, porém: cuida bem da Aline, tá? Ela se esforça, se cobra, sem nunca deixar de confiar em você pra fazer as entregas. Ela é tão cuidadosa, que iria pessoalmente, de casa em casa, se a timidez e a ciência deixassem. Garanto que ela está muito feliz por poder confiar tanto em você.
 
Beijos, beijos!
 
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Os tempos mudam e as capas de revista contam essa história. Abaixo, a primeira capa da New Yorker e uma recriação dela em 2015. De todas as revistas mostradas no post, a New Yorker é a que manteve o estilo de suas capas mais consistente ao decorrer dos anos.
 
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Você deve saber que sou uma grande fã da Amanda Palmer. Vivo falando sobre ela na newsletter, nunca me canso disso e hoje será mais um dia em que trago ela para a roda de conversa.
 
Ela é uma artista que consegue manter uma produção artística consistente e original graças ao suporte e financiamento dos próprios fãs, que pagam uma quantia mensal para garantir que ela continue trabalhando. E eu bem sei o quanto isso é realmente importante e significativo!
 
Além de artista, Amanda também será mãe em breve. Atualmente ela está com 36 semanas de gravidez, e uma barriga tão grande que parece uma bomba-relógio capaz de explodir em forma de bebê a qualquer momento! Não vejo a hora disso acontecer <3
 
Aí que ela recebeu um e-mail de um “fã” bastante “preocupado” com a sua carreira depois do nascimento da criança. Não dá pra saber se é um ou uma fã, porque ela não divulgou o nome nem o gênero da pessoa, mas cabem muitas aspas nesse “fã”, porque tamanha falta de sensibilidade não parece compatível com alguém que respeite a vida ou o trabalho de uma artista. Ou de um ser humano, sabe.
 
O e-mail dessa pessoa e a resposta da Amanda você pode ler aqui.
 
Mas, resumindo: o “fã” disse que a ama, que admira o trabalho dela há muito tempo, MAS (sempre tem um mas) Amanda tem o deixado preocupado. Isso porque, de acordo com ele, suas últimas músicas são canções bobas de ukulele que ele “sabe” que “exigem menos esforço para compor” e que “oferecem menos estímulo cerebral e sentimental para quem ouve”.
 
Depois de dizer que o trabalho dela é “decepcionante”, ele diz que ela “não precisava” criar um Patreon para receber contribuições mensais dos fãs. Além disso, ainda sugere que ter aberto um Patreon semanas antes de anunciar sua gravidez teria sido proposital. E, prepare-se, faz a mais absurda, desrespeitosa e maldosa pergunta: “os seus financiadores estão pagando por nova música ou eles estão pagando por um novo bebê?"
 
Nossa.
 
Sério.
 
Eu não sei nem.
 
Respira.
 
A grande “preocupação” deste “fã” é que os cuidados com a criança vão exigir muito dela e ainda SENTENCIA (como se fosse algo dado como certo) que OU a carreira dela vai sofrer OU a criança vai sofrer. Pois é, uma vez aberta a torneira do chorume, ela não para de vazar, porque depois de todo esse rebosteio ele ainda tem a cara de pau de perguntar no e-mail: “isso é justo com seus fãs? Quando você vai ter tempo pra música?”.
 
Agora vamos imaginar uma inversão. Neil Gaiman, marido de Amanda, pai da criança, por acaso é um escritor famoso (do qual também sou fã). Será que ele recebeu muitas cartinhas de fãs “preocupados” com sua produção literária agora que ele terá (mais) um filho?
 
“Caro Neil, soube que em breve você vai ser pai e isso me deixa preocupado. Crianças exigem muita atenção, sabe. Já não bastava seus três filhos? Desde que eles nasceram, tenho sentido seu trabalho mais bobo e infantil e tenho medo de que agora, com uma quarta criança, você não tenha tempo para escrever novos livros que sejam realmente complexos e expressivos. Isso é justo com seus fãs? Como você vai conseguir conciliar a literatura com um bebê a essa altura da sua vida? Os seus leitores estarão pagando por um novo livro ou por um novo bebê? Com amor, do seu devoto fã”
 
Você consegue conceber uma situação dessas?
 
Talvez, invertendo a situação, fique mais fácil perceber o quanto é absolutamente ridícula, paternalista e cruel esse tipo de “preocupação”.
 
Essa percepção de que a mulher tem que sacrificar a carreira para cuidar dos filhos parte da ideia cagada de que cuidar de uma criança é obrigação somente da mãe. Mas olha quanta gente pode dividir a responsabilidade de cuidar de uma criança: a mãe, o pai, os avós, os irmãos, os tios, os amigos da família, os professores, quer dizer, basicamente todos os adultos em volta da vida criança. Alguns vão ter mais contato e mais responsabilidade nessa criação, mas o ideal seria que toda uma comunidade ou grupo de pessoas se comprometesse com o bem-estar e com o desenvolvimento de um pequeno ser humano.
 
Mas o que acontece é que despejamos sobre os ombros das mães toda essa imensa responsabilidade e forçamos que elas abdiquem de alguma coisa, porque alguém definiu que só é possível ser mãe de verdade sacrificando sua vida pessoal no altar da maternidade. Ou você é mãe ou você é artista. Ou você fode com sua carreira, ou você faz seu filho sofrer. Ou você serve aos seus fãs/ sua empresa/ seu chefe/ seus clientes, ou você serve às necessidades de uma criança.
 
Também não acho que a mãe tem que provar alguma coisa pra alguém assumindo heroicamente carreira e criança ao mesmo tempo, não. Se ela escolher se afastar de uma carreira para se dedicar aos filhos: NINGUÉM TEM NADA A VER COM ISSO.
 
Porque não tem como acertar nesse negócio de ser mãe, né? Se ela segue com a carreira, é uma irresponsável que vai fazer a criança sofrer ou comprometer a qualidade do trabalho. Se ela ESCOLHE abrir mão da carreira, é vista como alguém submissa, inferior. E se ela escolhe NÃO ter filhos, vishe, vai ser lembrada a todo o momento que ela é incompleta. Enquanto isso, é normal enxergar um pai que trabalha apenas como um pai que trabalha e um pai que larga tudo para ficar com os filhos como um super-herói, um modelo de homem.
 
Essa balança tá muito desequilibrada.
 
E tem o outro lado dessa questão, porque o tipo de raciocínio que leva alguém a escrever uma carta tão abusada quanto o desse “fã” da Amanda é também a lógica que envolve o trabalho.
 
Nesse mundo de produção e consumo desenfreado, o trabalho acaba se transformando em uma máquina de moer gente, regido por regras e lógicas bizarras que espremem cada gota de sangue e suor de um ser humano para gerar lucro, lucro e mais lucro. É uma sociedade altamente utilitarista, em que você precisa “servir” pra alguma coisa (já que não passa de uma ferramenta) e produzir sem parar.
 
E, realmente, se para atender à voracidade insana desse mercado de trabalho já é difícil cuidar da própria vida, o que dirá então da vida de uma criança?
 
Tem que repensar papéis de gênero em relação a filhos? Tem sim. Mas também urge repensar o modelo de trabalho e produção desse mundo onde vivemos, porque ele parece ser incompatível com esse negócio de ter uma VIDA. É preciso pensar em formas de trabalho e consumo mais sustentáveis, não no sentido vazio que as empresas adoram usar para dizer que elas são legais com o meio ambiente, mas no sentido de ser algo que um ser humano consiga sustentar sem ser esmagado.
 
E uma das coisas mais perversas desse modelo atual é a ideia de posse relacionada ao trabalho: estou te pagando, então você é meu/minha. A outra pessoa acaba se transformando num objeto, numa coisa, que precisa estar ali batendo ponto para reforçar a sensação do empregador de que ele a possui. E não poucas vezes isso se estende para exigências sem limites, trabalhar até mais tarde, ter que anular a própria vida, trabalhar até a exaustão ou até ficar com sequelas físicas e psicológicas e, em casos extremos, sofrer abuso e assédio dos patrões.
 
No post, Amanda conta o caso de uma banda que entrou com financiamento coletivo para fazer uma turnê, mas começou a ser muito criticada porque, como algumas integrantes tinham filhos, foram acusadas de gastar a grana do crowdfunding com leite e comida de bebê durante a turnê. Como se fosse um absurdo, como se a banda estivesse roubando os financiadores!
 
Mas por que elas não poderiam comprar o leite das crianças com aquele dinheiro? Se as artistas têm filhos, esse é exatamente o tipo de coisa que elas precisam para sobreviver numa turnê, junto com combustível, comida, hospedagem e todo o resto. Amanda questiona: “seria o mesmo que um cantor diabético prometer aos seus fãs que ele não gastaria o dinheiro do Kickstarter para a turnê em insulina”.
 
E essa crítica dos fãs vem justamente dessa ideia: “eu estou te pagando, você me pertence”. Como se o fato de eles darem dinheiro em troca de arte significasse também que eles têm o direito à VIDA daquelas pessoas.
 
“Como você ousa engravidar? E como fica a música que eu paguei pra ter? Eu paguei por música, não por um bebê!”
 
Pessoas não são maquininhas em que você coloca dinheiro de um lado e sai produção pelo outro. Bem que muito empresário gostaria, pelo bem de seus lucro$, mas pessoas não funcionam assim.
 
Amanda chega a dizer em sua resposta ao “fã” sem-noção:
 
“Pode demorar um tempo para eu me recuperar, sabe como é, de um PARTO, antes que eu possa começar a compor novamente, mas só me dê um tempo. Não me estrangule se eu decidir ir parir sem um notebook na mão, anotando ideias inspiradoras de músicas”.
 
Fazer arte não é bem embalar um produto com tamanho e peso bem definido, produzido durante 8 horas de expediente com uma hora de pausa para o almoço. Arte pode vir em formatos inesperados e bem diversos, como a própria produção da Amanda: pode ser música, um álbum novo, mas pode ser também uma animação baseada em um áudio que ela gravou no celular no meio da madrugada, ou ainda uma performance na rua reproduzindo, com seu próprio corpo nu pintado, a réplica de uma estátua famosa.
 



 
Então sim: artistas precisam de dinheiro e precisam de experiências humanas. O que não precisam é de fã vindo escrotizar, achando que tem algum direito sobre a vida de quem está sendo pago por um trabalho artístico (ou seja ele qual for).
 
E deixem a mulé parir sossegada, plmdds.
 
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“Dar histórias às pessoas não é um luxo. É na verdade uma das coisas pelas quais você vive e morre.” Neil Gaiman. 

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Um dia eu quero saber criar personagens tão detestáveis quanto aqueles que me fazem passar raiva e amar uma história ao mesmo tempo. 

Pra isso, eu posso buscar inspiração na vida real. O mundo está cheio dessas pessoas – e na vida real, ninguém é completamente herói nem vilão, mas uma mistura doida de coisas erradas e adoráveis. E não posso esquecer que eu mesma tenho muito de detestável. Talvez de formas que eu nem me dê conta, no melhor estilo Michael Scott sem noção. Medo.

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Beijos detestáveis,
 
Aline. 
 
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