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Ainda me lembro como se faz isso

Bons Tempos

 

Viver em Riotinto é tranquilo, até agradável. A vizinhança é barulhenta: mas só na época das cigarras. Lembro que um dia já me incomodei muito com esse som; hoje não ligo tanto.
 
A gente vai ficando velha e vai redefinindo nossas preferências, né.
 
Nossa comunidade não é tão grande, o que é uma vantagem e tanto nos dias de hoje. Umas duzentas e trinta pessoas? Sem previsões de aumentar esse número, por enquanto. Nossa população é perfeitamente ajustada à quantidade de recursos que temos disponíveis.
 
Minha casa é a de número 56. Se um dia você aparecer por Riotinto, lembre-se desse número. E olhe pra cima: construímos essa casa suspensa entre árvores.

 
Ou então pergunte por mim; aqui todos se conhecem. Às vezes me sinto até em Brasília, a cidade onde cresci, claro, porque a de hoje se resume a ruínas e a uma cidade subterrânea superpopulosa. Não me vejo mais vivendo em um lugar cheio de gente. Riotinto está bom.
 
Aqui batizaram uma cachoeira com meu nome, que é quase a maior honra que alguém da comunidade pode receber em vida, especialmente se estivermos falando de uma fonte de água limpa, coisa tão difícil de achar. Claro que a Cachoeira Valek não existia há quinze anos, sabe-se lá o processo que levou ela a brotar, um conjunto de fatores que inesperadamente deu origem a algo novo e até bastante recente; mas, sabe, a vida sempre encontra um jeito.
 
Árvores centenárias, igualmente raras de se achar, também recebem nomes de figuras importantes, gente que fez algo marcante, gente que merece ser lembrada. Aquele jequitibá-rosa, por exemplo, recebeu o nome da nossa primeira líder. Núbia. A sombra dela é a melhor para tirar um cochilo depois do almoço.
 
É lá que a Dina vem me encontrar para perguntar coisas. Mostrar o que ela anda inventando ou resolvendo, ainda que eu não entenda nada de bioprogramação. Ou simplesmente pedir para que eu conte alguma história.
 
Tenho sorte de ter uma pupila tão inteligente, essa Dina. Em Riotinto, quando os jovens atingem determinada idade, lá pelos dezesseis, podem escolher uma espécie de “orientador”, um adulto mais velho para trocar experiências. Não “ensinar”, porque essa juventude é bastante autodidata e aquele modelo educacional “professor-aluno” baseado em autoridade foi extinto há um bom tempo.
 
Ah, e nessa idade eles também podem escolher o próprio nome.
 
Esses dias Dina veio me encontrar debaixo da Núbia me perguntando como eram as baleias. “Mas que pergunta é essa? Sua Wiki não está funcionando?” eu estranhei, porque as perguntas de Dina costumavam ser mais desafiadoras do que isso, como “por que reality shows faziam tanto sucesso?”.
 
“Eu sei como eram as baleias”, ela disse, e é claro que ela sabia, se já havia visto tantos filmes e lido tantos livros sobre essas criaturas. “O que eu queria saber é como elas eram de perto. Como era ver uma baleia?"
 
Aquela pergunta veio meio dolorosa, porque é claro que em minha vida inteira eu nunca tinha visto uma baleia, embora eu pertencesse à época em que elas ainda existiam. Senti os olhos ficando úmidos e, antes que ela percebesse a verdade por trás daquela minha reação, abri a boca: “elas eram gigantes. Se o barco estivesse a uma boa distância dela, dava até para sentir na pele um pouco das gotas que ela esguichava. E o canto delas? Minha nossa, era um som tão profundo que você ouvia não com os ouvidos, mas com o corpo inteiro. Pulsava dentro de você, inexplicável.” 
 
Dina deve ter achado a resposta satisfatória, se ficou um tempão calada e era afinal algo que a gente tinha em comum: ficarmos confortáveis com o silêncio uma da outra, sem aquela urgência irritante de preencher cada centímetro de silêncio com um palavrório sem fim.
 
O comunicador dela vibrou. Era um aviso de fim de quarentena e ela explicou que estava no grupo que iria mapear o local. Pesquisas de rotina.
 
“Tem algum espaço na expedição sobrando?”, perguntei, justificando meu interesse dizendo que estava entediada. Claro que não era isso, era mais curiosidade do que tédio; fazia uns oito anos que eu não ia a uma dessas cidades inabitadas… e aquela que Dina visitaria tinha ficado em quarentena por quase trinta anos. Imagine as coisas que veríamos ali!
 
Dina sacudiu os ombros como quem diz “por que não” e me ajudou a levantar.
 
Um dia achamos que seria uma boa ideia fazer bebês loucamente, mas talvez tenhamos perdido um pouco a mão (ou as contas). Bons tempos aqueles em que as pessoas simplesmente engravidavam quantas vezes quisessem, até por acidente. Imagine, uma gravidez não planejada! Até estranho usar essas palavras juntas, se o termo caiu totalmente em desuso.
 
E pensar que as crianças do último boom populacional já são adultas e algumas já começam a ostentar os primeiros fios grisalhos. Que loucura. Nem parece que faz muito tempo que as redes sociais eram inundadas de fotos e vídeos engraçados de bebê. Nascimentos sendo anunciados no Instagram. O crescimento de um ser humano sendo acompanhado na timeline.
 
Aliás, redes sociais são outra história. Dina passou uma semana me perguntando sobre o Facebook. Aquilo era tão fascinante pra ela quanto estudar uma civilização que foi extinta (embora fosse exatamente isso). Ela ficou obcecada um bom tempo com o tema depois que mostrei a ela um acervo de prints para ela ter uma ideia do tipo de comentários e postagens que rolavam por lá. Acho que ela tentou recriar a experiência em laboratório, mas como não me mostrou nada, presumo que tenha jogado fora, talvez horrorizada com o resultado e com o potencial destrutivo daquilo.
 
Dina faz parte de uma geração mais jovem, quando bebês não eram mais tão disseminados. Ela pertence a uma época de dificuldades, transformações, escassez. Talvez por isso os jovens de hoje sejam tão independentes, autodidatas, adaptáveis e criativos, quase super-heróis. Isso me dá esperanças. Sim, aparentemente estou na idade de ter esperanças, de esperar que o melhor venha depois de mim, porque fracassei.
 
Fracassamos, é o que dá pra ver quando chegamos à cidade-fantasma. O que um dia foi superlotada, hoje era vazia. Quem vivia ali ou morreu na epidemia que tomou aquele lugar ou fugiu, formando novas comunidades ou se juntando às já existentes.
 
O concreto quase desaparecia por baixo das plantas, o asfalto despedaçado formava um novo relevo cheio de picos e crateras e era difícil acreditar que por ali já passaram carros. Outra loucura dos meus tempos: veículos movidos a combustível fóssil, haha, onde estávamos com a cabeça?
 
Aquilo me lembrava um pouco a Reserva Chernobyl.

 
Deixei o pessoal fazendo as medições e fui dar uma volta. As lojas ainda estavam de pé, embora suas fachadas, irreconhecíveis, se erguessem em verde, com suas estruturas retorcidas de galhos e raízes abrigando olhares curiosos de pequenos animais.
 
Só vinte anos sem presença humana e a cidade era novamente vida. Não era preciso muito tempo para que fôssemos esquecidos, foi o que concluí ao passear por aquelas ex-ruas.
 
Diante daquele cenário, difícil não pensar em como somos, enquanto espécie, apenas um soluço na existência, um incômodo passageiro, algo a ser desfeito com a facilidade com que se desmancha esculturas de areia. Esquecíveis. Apagáveis.
 
Entrei numa das construções e foi com surpresa que achei, sobre uma das mesas, um computador antigo, daqueles modelos ainda com teclado, quase parecido com o que eu usava para trabalhar.
 
Tentei ligar só pelo hábito, porque é claro que estaria sem bateria e eletricidade não era mais obtida pelos mesmos meios. Taurel, um rapaz que estava na expedição para recolher peças e sucatas que pudessem ser aproveitadas, aproximou-se e examinou o computador.
 
“Acho que consigo adaptar pra você” e senti como se ganhasse um presente de aniversário.
 
É do sol que tiramos nossa energia para tudo, veículos, comunicadores, máquinas de clima, supercomputadores, pisca-piscas, chuveiros. Quando eu era criança, eu tinha uma calculadora com bateria solar: era uma lástima. Naquele ponto, eu jamais imaginaria que essa forma de energia poderia ser usada pra valer, pra tudo, pra coisas grandes, sabe? Eu mal conseguia fazer todo o dever de matemática sem ter que ir para o lado de fora apontar a merda da calculadora para o sol.
 
Não que isso seja muito inovador, se uma escritora bengali do início do século XX já tinha pensado no sol como principal matriz energética numa história de ficção científica. É um negócio tão óbvio, vai ver por isso ignoramos por tanto tempo.
 
Quando Taurel conseguiu ligar o computador a um adaptador, a primeira tela que apareceu foi a do e-mail. “Nossa, era tão funcional isso”, comentei cheia de nostalgia. E-mails eram, sem dúvidas, a melhor rede social.
 
“Uma pena que não há mais para quem se mande um e-mail."
 
“Posso cuidar disso também”, Taurel disse, pegando o computador emprestado e conectando a ele um aparelho pequeno, cheio de botões e setas. A tela ficou azul e eu soube que ele estava reprogramando o computador; ele é um escultor habilidoso.
 
Ah, perdão pelos termos que podem lhe soar confusos. Na minha época, ele seria chamado “hacker” ou coisa do tipo, mas hoje programar máquinas é sinônimo de esculpir.
 
Então lá estava ele esculpindo, buscando uma passagem para a internet do passado e bebendo um pouco do chá de gengibre que preparei. As cigarras não paravam de cantar.
 
Agora perceba que o que ele estava fazendo, na verdade, não era nada de mais. Já era sabido há tempos que a única forma conhecida de viajar no tempo era através da internet. Dentro do computador, era possível enviar mensagens ou se comunicar com pessoas do passado, o que já foi uma grande coisa até verem que isso não teria nenhuma serventia prática.
 
Qualquer tentativa de alterar o passado acabava levando as coisas a acontecerem exatamente como deveriam ter acontecido, não importava o que se tentasse alterar. Além disso, a janela para aquele tipo de viagem no tempo era bem curta, já que a internet não existiu desde sempre.
 
Viajar no tempo pela internet acabou virando mais um passatempo de adolescentes que viam alguma diversão em mandar mensagens para pessoas de outra época. Boa parte dos tumblrs do início do século XXI já eram criações de jovens que estavam postando de um futuro distante quando não tinham nada mais importante para fazer, inundando o passado de imagens que não fariam o menor sentido; mas naquela época, quem poderia imaginar?
 
Também não faz sentido levar tão a sério esse tipo de obssessão com o passado. Acredite, a lógica mudou muito. As novas gerações são muito mais focadas no futuro, empolgadas demais em construir um mundo que ainda não existe. No máximo, veem o passado como um fetiche bizarro, uma preferência excêntrica – como o interesse de Dina por reality shows, redes sociais e filmes dos anos 80.
 
Quando Taurel finalmente conseguiu uma conexão com o passado, ele saiu da cadeira e abriu espaço para eu sentar. Parecia animado em me ver mandar um e-mail para alguém da minha própria época – eu também estava, embora não soubesse exatamente o que escrever (e que estranho é digitar de novo num teclado físico).
 
Então resolvi falar um pouco de como é viver aqui, no futuro. De como as coisas mudaram. Do que te espera daqui a alguns anos. Se por um lado há tragédias, por outro há avanços.
 
A vida encontra um jeito, sempre.
 
Também porque é boa a sensação de entrar em contato com alguém que veio do meu mundo, que não ache estranho quando eu falo de coisas como “receber likes”, “preço da gasolina”, “título de eleitor”, “selfie” e “ovo de chocolate”.
 
Haha, olha só minha nostalgia falando alto, estou mesmo velha.
 
Mas também escrevo porque eu queria aproveitar minha posição privilegiada de estar no futuro para contar algo para você.
 
Não, não seria nenhuma dica de algo que aconteceu no passado (e que pra você ainda é futuro), de forma que você possa alterar o rumo das coisas ou tirar alguma vantagem disso, porque já sabemos que isso é inútil.
 
As coisas vão acontecer exatamente como deveriam ter acontecido e talvez por isso devamos (eu, você e todo o resto) nos concentrar mais em construir um futuro do que consertar as merdas do passado.
 
Se passamos por coisas ruins, destruímos nosso próprio planeta, fomos burros, intolerantes e violentos, também fizemos coisas boas, inspiradoras, novas. Passamos por muitos colapsos, mas estamos sobrevivendo. Fizemos o nosso melhor para estar aqui, e tenho certeza de que estou falando com alguém que contribuiu para isso.

 
Viver em Riotinto é até agradável. A época das cigarras está acabando. Ontem choveu bastante e Dina está bastante ocupada manipulando água no laboratório (fazendo alguma coisa de bioprogramação que sou incapaz de explicar), o que me deu algum tempo para caminhar sozinha depois da refeição.
 
Acabei indo parar num ponto da comunidade que eu não conhecia muito bem e acho que foi a primeira vez que notei aquela araucária solitária, erguida como um monumento vivo contra a extinção. Uma árvore chamada <<Primeiro Nome>>.
 
Achei que você gostaria de saber.

Vencedores Oscar 2015


 
Se o Oscar fosse uma premiação séria, as categorias e prêmios seriam os que listei abaixo. Quem apresentaria seria o Aziz Ansari. E a estatueta seria recheada de chocolate.
 
Melhor Scarlett Johansson
Scarlett Johansson Under The Skin

 
Melhor trilha sonora
 
Melhor Ficção Científica
Noé
(já estava na hora dos épicos bíblicos entrarem nesta categoria)
 
Melhor remake
 
Melhor filme que não vi
Hoje eu quero voltar sozinho
 
Melhor filme nojentão
Wet Lands
 
Melhor criatura alada
Malévola
 
Melhor criatura 3D
Johnny Depp

 
Melhor edição
(três filmes de 3 horas reduzidos a 01 filme sem tanta encheção de linguiça)
 
Melhor musical de animação em curta-metragem
(Mashup Frozen e Breaking Bad)
 
Melhor filme sobre aborto
Obvious Child
 
Melhor documentário sobre aborto
Clandestinas
 
Melhor filme brasileiro com boa parte dele ambientado em outro país
Praia do Futuro
 
Melhor figurino 
Distrito 13


emocionadas com o prêmio
♥︎
♥︎
O tempo é físico.

O tempo é um lugar.

Habitamos não cidades, casas, apartamentos ou comunidades, mas uma época. Vivemos não num espaço, mas num momento.

Não importa para onde a gente se mude. Não importa onde a gente resolva morar. Não importa para qual cidade a gente vá.

Porque carregamos para esse lugar quem nós somos, se somos nós mesmos um endereço fixo. Porque levamos na mudança não apenas coisas, mas um período das nossas vidas.

O que vai tornar esse lugar bom ou ruim, especial ou banal, não são suas construções, ruas, ou, na falta delas, árvores ou cachoeiras; mas sim o tempo.

Se não estou satisfeita com o lugar onde estou, o problema não está nas coisas que estão fazendo desse espaço uma experiência miserável. Afinal, esse lugar já foi outro bem diferente em algum passado – e ainda será outro, ainda mais distante do atual, um dia no futuro. Talvez eu só esteja nele numa hora menos agradável.

Cidades, ruas, países, continentes; é tudo transitório.

A única constante onde podemos apoiar nossos pés é essa coisa que não podemos ver, mas sentimos se mover através de nós, um segundo de cada vez.

Tempo. É lá onde a gente se encontra sempre.

Beijos futurísticos,
 
Aline.

 

Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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