Copy
Não vem não, meteoro.
Já cuidamos disso sozinhos.
Bobagens Imperdíveis

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 128

Eu como apocalipse no café da manhã

 
De todas as loucuras deste ano, uma das maiores talvez seja o efeito oposto que os desejos das pessoas e seus discursos sempre conseguem quando se encontram com a realidade.

Disseram “não vai ter golpe”. Teve. Disseram “não passarão”. Mas passaram, atropelando.

Olha as merda que o Trump fala, claro que ele não tem chances de ganhar. E ganhou. Vai ter virada, disseram. Não só não teve como o outro candidato ganhou no primeiro turno.

Nem que a vaca tussa, também disseram. Mas tá aí, tendo crise de tosse, a coitada. 2016 não tem como piorar depois dessa! Aí vai e piora.

Vem meteoro, pediram. Mas até hoje não veio.

Talvez seja a hora de começar a brincar de psicologia reversa com o Universo? Quem sabe assim funcione.

•••

Num dos últimos eventos que fui, perguntaram como comecei a escrever ficção científica.

Bem, deixando de lado o fato que há quem não aceite de jeito nenhum que eu escreva ficção científica, que ainda tenta me ignorar como autora, apesar de eu ter um livro que reúne sim especulação e ciência, publicado no selo de ficção científica da Rocco (o que posso dizer a essas pessoas a não ser “lamento muitíssimo”?), respondi que escrevo mais por ser fruto das minhas referências do que por uma firme decisão de produzir algo do gênero.

Leio ficção científica, natural que isso se reflita no que escrevo. Mas ao escrever qualquer coisa, sempre miro na história. Minha preocupação e compromisso é com o que quero contar. Se vai se encaixar nesse ou naquele gênero, é algo que descubro depois.

Já escrevi aqui que meu objetivo com a ficção é criar situações absurdas onde eu possa jogar os personagens e testar a reação deles.

Para criar esse absurdo, posso recorrer a elementos da ficção científica, ou da fantasia, ou ainda do realismo fantástico, que tem sido minha maior fonte de inspiração atualmente.

Às vezes isso resulta numa expedição nas profundezas no oceano. Ou em dinossauros que se recusam a sumir de quintais. Ou de um ácaro que tem um fim trágico por não acreditar em horóscopo.

Ou em pessoas que escolhem o que vão sonhar à noite tomando pílulas, como quem escolhe filmes ou livros pela categoria da história.

Essa é justamente a premissa do meu conto “O que sonham as pílulas”, que foi publicado na edição número 12 da Revista Trasgo. Dá para ler online? Dá sim. Dá para ler em e-book? Opa, dá demais, jovem! Só clicar aqui.

A revista pode ser lida gratuitamente, só o que pedimos em troca é que você ajude a compartilhar nas suas redes. Histórias por um share, uma pechincha. Ainda mais com as ações do share em baixa, com tanto clique de indignação correndo solto.

gif com a capa da Trasgo 12 piscando com os dizeres LEIA GRÁTIS

•••

A Clara Madrigano, que foi a editora desta edição especialíssima com molieres produzindo desde os contos até a arte, perguntou se acho que toda literatura começa com o mundo conhecido pelos personagens acabando.

O que respondi você lê na Trasgo, mas o que acabei percebendo com esta pergunta é que escrevo mais sobre o fim do mundo do que eu imaginava.

Jogar personagens em situações absurdas, eu disse. Mas curiosamente essa situação acaba envolvendo extinção, apocalipse, fim do mundo – ou do próprio personagem.

Trabalhar com literatura é um jogo de destruição. Afinal, toda criação é destruição.

Nas histórias que escrevo, esse jogo acaba sendo uma forma de eu tentar entender a ideia do fim. Do meteoro que resolve vir, mas está todo mundo tão imerso nas merdas do cotidiano que nem percebe que ele finalmente veio.

Feito sonho recorrente, minhas histórias, no final das contas, são todas muito parecidas.

•••

Pausa para morcego comendo uva.

gif animado de um pequeno morcego, coberto por uma toalhinha, mastigando uma uva verde.

Agora ele está com uma uva roxa na boca, mas apenas olha com seus olhões para a frente e dá uma piscadinha.

E então volta a mastigar com dedicação.

Agora voltemos à nossa programação normal e com nosso tema, que espero que você ainda se lembre qual é.

•••

“A história principal do ‘Por escrito’ não é bem uma história. Nada acontece com a Valderez, que é a narradora. Ela perde o emprego e isso é mais ou menos tudo. O emprego dela inclui viagens, participação em eventos. Antes de perder o emprego ela fica parada esperando o avião que atrasa, o motorista do evento. Depois que perde o emprego, piora. Fica parada sem álibi mesmo. Fica porque fica.

Não é fácil escrever um livro desses e levei um tempão só parada, igual à Valderez.

O que me fez escrever foi algo que aconteceu na minha vida presente. Esse algo me fez lembrar algo da minha passada e que eu havia meio que esquecido. E aí consegui entender melhor esse ficar parada da Valderez. Ou seja, o meu. Porque é para isso que escrevo livro. Para ver se consigo entender o que nunca entendi.

Não funciona. Aí escrevo outros livros. Eles se parecem sempre, um pouco.”

– Elvira Vigna, daqui.

•••

Lá vamos nós outra vez: estou escrevendo um romance, que ainda não tem nome, gênero, nem ideia se um dia chegará a ser publicado.

Começa com uma fotógrafa que resolve voltar para a cidade onde cresceu, que agora afunda, sendo engolida aos poucos por um lago. Só isso, basicamente.

Nesse fim de mundo (porque é uma cidadezinha no cu do universo mesmo), a narradora vai registrar os últimos momentos do lugar (mas acaba esbarrando em como as pessoas estão lidando com a situação), antes que a cidade deixe de existir de vez.

“Ah, mas lá vem ela de novo com esse tema de fim de mundo”. Pois é, foi sem querer querendo.

Imagino se no futuro alguém vai ler o que escrevo e se perguntar por que eu escolhia esse tema ou me interessava tanto em buscar pequenos fins do mundo nas minhas histórias.

Na verdade, duvido muito que essa pessoa hipotética do futuro chegue a se perguntar isso. Mas a resposta está em tudo ao meu redor.

Sou do tempo que se comia apocalipse no café da manhã, querida.

•••

“Incapaz de comprar uma coca cola com seus recursos próprios mas sabe várias palavra inventada”.

Isso me define tão bem.

•••

Depois de muito cortar, finalmente cheguei às 84 mil palavras que irão compor o livro de Bobagens Imperdíveis.

Se você chegou agora, é isso mesmo: essa newsletter vai virar um livro, desses que servem para cheirar, para tirar foto e postar no Insta ou para deixar na mesinha de centro da sala. Eventualmente, para ler.

São cerca de 90 textos, o que parece muito até olhar o que ficou de fora: tive que tirar muitos textos bons (muita tranqueira também) e outros tantos que sei que alguns leitores gostam.

Três anos escrevendo quilômetros de texto toda semana, né mores? Mas livro de papel não tem espaço infinito e apenas os melhores conseguiram sobreviver a essa pequena gincana sangrenta Jogos Vorazes que é o processo de edição.

Agora entra em cena a Aline ilustradora, que vai definir as ilustras e onde elas vão entrar, além de soltar o braço na produção desses desenhos. Ou sentar no chão e chorar por não dar conta de tanta coisa ao mesmo tempo :)

Ah, o livro também vai contar com ilustradores convidados – pelo menos essa é a ideia!

No mundo das ideias tudo é possível, inclusive livros com gifs animados, sons e que sabem o nome do leitor, mas tudo muda quando as ideias se encontram com a dura realidade do temível orçamento.

Porém sim, estou trabalhando com a viabilidade da ideia de trazer outros ilustradores para dentro dessas páginas, para deixar esse livro de encher os olhos e aquecer o coração – sem pesar o bolso.

Acompanhe os próximos capítulos para saber o que vai sair dessa emocionante aventura e das confusões em que ainda vou me meter para arrumar letrinhas e imagens numa numerosa sequência de páginas de papel.

•••

“Veja como a playlist do Matanza previu a situação atual”

Print do Spotify com uma playlist com as seguintes músicas do Matanza: "Boys from the County Hell", "Estamos todos bêbados", "tempo ruim", "Pior cenário possível", "o que está feito está feito", "orgulho e cinismo", "odiosa natureza humana", "e tudo vai ficar pior"

via @moret_

•••

O que você está escrevendo para o NaNoWriMo? Me conta.

•••

Tenho um espacinho novo na internet, o Literatura Ilustrada, onde vou trazer debates literários, trechos de livros e falas de autores em forma de quadrinhos. O mundo da palavra traduzida em ilustras.

(o tipo de coisa que eu queria tanto fazer que me fez pensar por que diabos não pensei nisso antes)

Fica o alerta: estarei cada vez mais no Medium, então me siga por lá.

E pode ficar sussa, o mundo não vai acabar. Vai ficar tudo bem.

Como diria um ditado budista: se algo tem solução, não há porque se preocupar; se não tem solução, também não há porque se preocupar; de qualquer forma, nada disso é real e é bem provável que a esta altura estejamos vivendo dentro de uma simulação alienígena para um experimento de faculdade, então por que se preocupar?

Algo assim.

Beijos finais,

Aline Valek

Nas edições passadas


Para ver o arquivo com as edições passadas, clique aqui.

Se curte receber meus e-mails, indique prazamiga, mandando este link. Obrigada!



Email Marketing Powered by Mailchimp