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Uma newsletter simplinha

Das coisas que não preciso



Imagine que as coisas que você acumula durante a vida vão nas suas costas. Se a caminhada será longa, você vai querer garantir que vai carregar apenas o essencial, certo? Aproveitando esse nosso encontro, Aline, proponho olharmos para dentro dessas nossas mochilas e ver o que tem dentro. Será que precisamos de tudo?

Começo falando da minha carga. Porque o tempo passa e percebo que as coisas mais me sobram do que me faltam – e não tenho muito. Eu já tenho tudo o que eu preciso e, pensando bem, tenho bem mais do que isso.

Tenho tanto que pude me livrar de muitas coisas.

Eu achava que era importante manter a minha aparência alinhada com o que é considerado “bonito” para uma mulher. Que eu precisava me manter depilada e com as unhas pintadas, que as visitas ao salão eram um mal necessário, um remédio amargo que, no fim das contas, me faria bem. Foi um processo de muitos anos até eu me perguntar “pra quê isso?”. Eu não preciso esconder sempre meus pelos. Eu não preciso ter unhas bem feitas. Deixei pra trás.

Eu carregava a vergonha de ter dentões. Nunca tive dinheiro para colocar um aparelho, mas também não me sentia bem sendo dentuça. Porém o meu dentucismo, pensei bem, não me atrapalhava em nada. Eu não preciso consertar meus dentes. Eu não preciso consertar o que não é um defeito.

Eu carregava a imposição de não poder sair sem maquiagem. De me sentir mal por não saber me produzir como uma mulher deveria saber. Mas eu não preciso pintar a minha cara de outra cor pra enfrentar o mundo lá fora. Eu preciso sim de um bom filtro solar (todas precisamos). Mas não preciso usar maquiagem, não preciso usar sempre, nem preciso usar tudo o que disseram que eu devo. Essa imposição, deixei pra trás.

Odiava usar sutiã: me incomodava, ficava saindo do lugar, me cutucando. O que eu mais gostava era de chegar em casa e poder tirar, curtir a sensação de alívio e liberdade que vinha. Se era isso que me fazia bem, porque não fazer sempre? Então taquei fogo no sutiã (metaforicamente).

Lutava contra meu cabelo para que ele fosse menos volumoso, menos enrolado, menos eu. Abandonei meu cabelo (ou boa parte dele) com algumas tesouradas e foi como descobrir o meu rosto pela primeira vez. Descobri a vantagem de não precisar de muito para deixá-lo de um jeito que eu goste. A necessidade de sempre retocar a pintura também ficou pra trás.

Comprava livros e livros e me orgulhava deles na estante, até precisar me mudar e ter que encaixotá-los todos. Eu não preciso de tantos livros. Doei quase todos e parei de comprar livros físicos. Pra quê, se comprando e-books eles vão me custar menos dinheiro e espaço? O que eu preciso é de ler.

Achava que o único caminho possível para ter alguma coisa na vida era me matar de trabalhar a vida inteira. Mas eu não precisava trabalhar tanto com algo que eu não gostava, com algo que me fazia mal. Eu não precisava daquele tanto de dinheiro como eu precisava de tempo para escrever. Deixei pra trás uma carreira e, com ela, a ilusão de que tal coisa como “segurança” existisse.

Comprava a ideia do amor romântico e cheguei a acreditar que ciúme era parte essencial de um relacionamento. Olhei para o papel de ridícula que eu fazia nas minhas crises de ciúme e percebi o quanto me fazia mal acreditar que era possível que uma pessoa, livre e autônoma, pudesse estar sob o controle de alguém em nome do “amor”. Deixei pra trás o ciúme e a própria ideia do amor romântico.

Achava que eu tinha obrigação de fazer os outros mudarem de ideia. Que eu era obrigada a responder, a brigar, a debater com quem me procurasse pra bater boca. Mas, parafraseando Alex Castro, percebi que debate é ego, pura imposição de ego, e por isso não me envolvo mais. Debater, assim como ler comentários onde quer que seja, não vai me levar a lugar nenhum. Nunca entrei em um debate (ou numa caixa de comentários) que depois não me deixasse profundamente arrependida. Deixei esse peso pra trás.

Descobri que eu não precisava de religião para o meu mundo fazer sentido, para eu tentar ser uma pessoa boa e para eu me sentir bem. Não acho que eu precise de dogmas, mitos e de um mundo sobrenatural para que eu possa ser uma pessoa com mais empatia, compaixão e aberta para a possibilidade de descobrir coisas novas e maravilhosas sobre nosso universo.

Não preciso continuar a me relacionar com pessoas que não tem nada a ver comigo, que reproduzem preconceitos, que me impõem coisas. Eu não sou obrigada a continuar seguindo alguém no Twitter se eu não quiser ler o que ela escreve, porque apertar o botão de “seguir" não é contrato. Amizades não têm que durar pra sempre se alguém não quiser e não tenho que falar com quem não quero. Eu não preciso fazer coisas que me desagradam para agradar os outros; eu não preciso nem agradar ninguém.

Descobri que não preciso aceitar nem seguir as regras que me impõem. Não tenho que fazer concurso público, não tenho que fazer festa de casamento, não tenho que ser mulher de verdade (seja lá o que isso signifique), não tenho que comprar algo que não preciso, não tenho que acatar ordens, não tenho que fazer as coisas como manda a cartilha, não tenho que seguir algo que escolhi até o fim, porque nada me impede de desistir. Não tenho que nada. Deixei a obediência automática pra trás.

Foram pequenas coisas que abandonei pelo caminho e que abriram um bom espaço na minha bagagem para preencher com uma vida mais livre, mais simples, com mais tempo e disposição mental para criar. Coisas que não foi com facilidade que abandonei; é com algum esforço que diariamente cuido para que não voltem a pesar nas minhas costas.

Mas ainda há muito que eu poderia deixar pra trás. Muitos pesos ainda tornam difícil a caminhada, às vezes me fazendo parar alguns dias, sem vontade de avançar.

Poderia me livrar dos quilos de ansiedade, da minha teimosia em me preocupar com o que não posso controlar. Poderia me livrar do medo de que as pessoas vejam que eu não sou o que elas acham que eu sou. Poderia me livrar do hábito de ser tão sedentária e de ainda depender tanto dessa sociedade de consumo. Poderia me livrar ainda das mesquinharias cotidianas, de ser tão autocentrada, de me sentir ameaçada por pessoas que são apenas pessoas.

Podemos encarar a vida como uma jornada de acumular coisas, mas prefiro ver como uma caminhada em que a gente vai progressivamente se despindo. Uma jornada de abandono. Porque o que a gente precisa pra viver é pouco, praticamente nada – e quanto mais avançamos, mais adquirimos sabedoria para saber o que realmente importa.

E saber o que importa é o que a gente pode descobrir com clareza depois de deixar pra trás esses excessos que ficam na nossa frente.

Ilustração: Nicoleta Ceccoli

Zen não-praticante



Uma coisa que me encanta, pelo pouco que já li, é a prática zen. 

Talvez seja puro fetichismo de uma pessoa urbana classe média que acha linda a proposta de viver mais simples enquanto vai usufruindo de um pouquinho de capitalismo aqui e um pouco de consumismo ali. Mas que me fascina, me fascina.

Um dos meus textos preferidos sobre o assunto está aqui. Ele fala sobre a coceira que surge bem na hora da meditação em que se deve ficar imóvel e esvaziar a mente. A coceira aumenta, fica do tamanho do universo e ele resiste, não se mexe. É quando a coceira some que ele percebe que, como tudo no universo, a coceira também passa.

"se eu sinto coceira e não preciso coçar, então eu posso sentir fome e não preciso comer. posso sentir cansaço e não preciso sentar. posso sentir ira e não preciso gritar. posso sentir desprezo e não preciso humilhar.

porque a fome, o cansaço, a ira, o desprezo também passam."


Aprendo muito com o pouco que leio sobre zen, embora eu tenha uma ideia de que ele faz sentido mesmo quando é praticado. Isso, por si só, mostra que eu não sei absolutamente nada sobre zen.

Mas talvez eu me encante pelo zen quando fala sobre simplicidade – e simplicidade é universal. Nascer é simples. Morrer é simples. Escrever bem é também escrever simples. Boas comidas são simples. Vida que brota da terra é simples. Gatos são simples.

(aliás, gatos praticam zen como ninguém, como escrevi em “Zen Gatismo”)

Alguns podem pensar que “simples” é algo pobre, reduzido, fácil, óbvio. Mas simples eu vejo como algo que chegou à sua essência, como o que é central, como o núcleo indivisível de algo – e é justamente por não precisar de nada além desse essencial que o “simples” se sustenta como algo tão fantástico. Algo tão completo que não precisa de mais nada.

Somos, nós mesmos, completos; se somos os outros e se somos uma partezinha autônoma do mundo que anda, come e faz coisas, então não precisamos de muito para viver. Já somos o que precisamos. Está tudo aqui. Inclusive a capacidade de nos perguntar: do que realmente precisamos?

Donde concluo que, mesmo em minha infinita curiosidade e fascínio, talvez eu não precise de zen. Depois de alcançar o essencial, nem zen é necessário. Ou não?

Mas lembre-se que quem diz isso sou eu, alguém que sabe lhufas sobre o assunto.

 
Sou só uma criança deslumbrada imitando gestos que ainda não entendo.

Fotas, fotas



Não é todo dia que a gente é fotografada por um profissional, né? Por isso, queria compartilhar algumas fotos super íntimas com você, feitas pelo meu amigo Leon Rodrigues.

Acho foda a sensibilidade de quem capta somente com a luz as histórias das pessoas, porque fotos contam muito. Disso o Leon manja, já que trabalha com fotografia de casais.


Só mesmo sendo muito querido para ter tato para me fotografar, porque né, eis aqui o maior bicho-do-mato da paróquia.

Espia as fotos. Tem mais no
site do Leon, vai lá conhecer o trabalho dele ;)
 

Olar, esse é o Marcos
 

sendo hétera

imagina o que falam pra gente rir nesse tanto


tírmida

Coisas demais



:: Ouça o som que o espaço faz.

:: Um texto sobre vida
minimalista.

:: Sobre olhar para uma obra de arte e se encantar com as
estruturas que a sustentam.

:: Recado para amigues que escrevem: alguém vai achar seu livro uma
merda. Lide com isso.

:: Trecho do
novo livro da Clara Averbuck.

:: Sentimento da semana: #FicaBemTigre.

:: Uma
música sobre vida simples.

:: Estes pokemóns de crochê.


 
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Coisas simples que custam muito pouco e fazem a vida ficar melhor:

Cheirar barriga de gatinho. Pés descalços na grama. Ler um livro. Sentar na praia de frente para o mar. Entrar no mar. Café. Exigir nada dos outros. Beijar. Transar. Ir a exposições gratuitas. Assistir seriados em casa. Tapioca. Caminhar pela vizinhança. Dançar até suar. Ver o sol se pôr para lembrar que o chão sob nossos pés não está parado.

Espero que tenhamos uma semana para aproveitar essas (e outras) pequenas coisas da vida.


Beijos de simplicidade,

Aline.

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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