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São Paulo, frio, ao som de Johnny Cash

Cartas, privilégios e segredos


<<Primeiro Nome>>,

26 semanas de e-mails e acho que já podemos nos considerar correspondentes, não? 

Apesar de faltar tinta, papel, envelope e selo, Bobagens Imperdíveis não deixa de ser uma carta: são palavras íntimas que envio na esperança de que você as encontre em algum momento, ainda que você não precise responder sempre.

Então eu fico feliz que, com você, eu possa retomar um costume antigo. Na minha adolescência, eu era uma enviadora e recebedora assídua de cartas. Eu tinha vários correspondentes e escrevia sei lá quantas cartas por semana, que me levavam a frequentar a agência de Correios com bastante regularidade.

Lembro que era costume colocar no topo da carta um “cabeçalho” com a hora em que começou a ser escrita, o clima, o humor, a música que estava tocando. Lembro que se era uma carta sem muito assunto, “de rotina”, a gente limitava a uma só folha de papel para poder enviar como “carta social” e pagar pelo selo de 0,01 centavo (isso ainda se usa?).

As cartas sozinhas não faziam muito sentido; muitos parágrafos faziam referência a assuntos que estavam na carta da outra pessoa. A gente não falava só de assuntos próprios, mas comentava os assuntos colocados pela outra, respondia, dava conselhos.

Em um livro escrito em 1876, chamado “How to Write Letters”, o autor comenta a importância da carta como gênero literário (minha tradução abaixo):

“A literatura epistolar é valiosa, em primeiro lugar, para os estudantes de História e biografias. (…) Para o biógrafo, esta literatura é praticamente indispensável; mais do que em qualquer outro meio, é pelas cartas que chegamos perto do interior da vida de um homem – às suas motivações, princípios e intenções. (…) Em segundo lugar, é valiosa para o público em geral por três razões: 1) Devido ao conhecimento transmitido pelas pessoas e eventos descritos. 2) Devido à sua influência moral. Ela nos leva a uma íntima companhia dos bons e grandes que viveram antes de nós; desnudando, por assim dizer, seus corações para nossa inspeção; mostrando como eles pensavam, sentiam, sofriam e triunfavam; e guiando-nos para emular suas virtudes e evitar seus erros. 3) Porque é um meio de cultura literária. Além da influência literária que ela tem em comum com outras boas leituras, a carta tem um efeito poderoso e direto na formação de um bom estilo epistolar. O que quer que seja dito em contrário, o estilo de cada pessoa é formado, em grande extensão, pela imitação inconsciente.”

E ainda acrescentou que “a carta não deve ser encarada apenas como meio para comunicação da inteligência, mas também como uma obra de arte."

Essa comparação me faz lembrar de uma outra conversa, a que originou um texto recente sobre os demônios da minha escrita, de que a literatura e a arte são meios em que dialogamos com nossos conflitos, com o mundo, com o que é humano. Diálogo que é também a essência da carta.

Mas não entenda esse trecho enaltecendo a carta como saudades-de-um-tempo-que-se-foi-e-não-volta-mais.

Não acho que era o papel ou o fato de escrever à mão que fazia da carta algo tão profundo; mas sim a busca por um contato mais humano. A ânsia pela troca de histórias. A vontade de ouvir. E essas são coisas que atravessam o tempo, adaptando-se às tecnologias e plataformas que vão surgindo.

E é também um pedacinho disso que acaba indo em cada edição dessa newsletter.

Cartas


Escrevendo sobre isso aí em cima, acabei achando no site Brain Pickings duas cartas lindas, cheias de sensibilidade, que gostaria de compartilhar com você.

Esta, da artista Frida Kahlo para seu amado Diego (clique aqui para ler outras cartas):


“Meu Diego:

Espelho da noite.

Seus olhos espadas verdes dentro da minha carne. Ondas entre nossas mãos.

Tudo de ti em espaços cheios de sons – na sombra e na luz. Tu te chamavas AUXOCROMO o que capta a cor. Eu CROMÓFORO – o que dá a cor.


És todas as combinações de números. A vida. Meu desejo é entender a linha a forma a sombra o movimento. Tu preenches e eu recebo. Tuas palavras percorrem todo o espaço e chegam às minhas células que são meus astros e vão até as suas que são minha luz.”

(carta cheia de referências científicas pra falar de amor, como não amar essa mulher?)

***

E esta, da cantora Fiona Apple para os seus fãs, sobre cancelar uma turnê para cuidar da sua cadela, que estava morrendo (clique aqui para ler inteira – em inglês):


“Eu sei que ela está perto da hora em que ela deixará de ser um cachorro para começar a ser parte de tudo. Ela estará no vento, na terra, na neve, e em mim, para onde quer que eu vá.

Eu não posso deixá-la agora, por favor entendam.

Há escolhas que fazemos que nos definem. Eu não serei a mulher que põe sua carreira a frente do amor & amizade.


Eu sou a mulher que fica em casa, cozinhando tilápia para minha mais querida e antiga amiga. E ajudá-la a estar confortável & confortada & segura & importante."

Papo de privilégio




Eu estava aqui pensando que usar privilégio como argumento para falar de desigualdade pode não ser uma boa ideia.

Eu já escrevi textos sobre privilégio, como este. Já usei o chamado para refletir sobre privilégios em diversos outros textos. Mas me ocorreu pensar do lugar da pessoa privilegiada que tem contato com esses temas e me pergunto do que adianta debater privilégio se essa postura faz ela se sentir “acusada” e assumir uma posição defensiva – o que acaba impedindo que veja o que realmente deveria ser mostrado. Vou tentar explicar.

Normalmente, essa pessoa não vê seus privilégios como privilégios e sim como algo natural, algo que ela sempre teve ou que ela “batalhou” muito para tê-los (quando o máximo que fez para conseguir a maioria deles foi nascer no lugar certo, na classe, gênero e na cor certa). Dar-se conta dos privilégios é perceber que só são privilégios porque outras pessoas não os têm. Isso acontece porque nossa sociedade se estrutura em um sistema desigual, que concede benefícios para algumas pessoas enquanto explora, oprime e exclui outras. Bem, é esse sistema que tentamos mostrar, certo?

Mas quando você aponta para a lua, algumas pessoas só enxergam o dedo.

Privilégios são coisas boas (menos o fato de serem exclusivos). Todo mundo quer tê-los (ou a gente não estaria aqui lutando por mais direitos, né). Mas mostrar que esse sistema é o que oferece tantos benefícios para algumas pessoas não é exatamente algo que motive essas pessoas a se indignarem contra ele. E se for justamente isso que faça essas pessoas defenderem mais ferrenhamente o estado das coisas como elas estão (ou seja, uma merda pra muita gente?). Afinal, elas não iam querer que isso acabasse e de repente se vissem do lado que mais se ferra. Ninguém gostaria. Ninguém gosta.

O dilema pra mim é estar apontando para algo que ou 1) faça a pessoa se convencer de que é especial (e a gente sabe como as coisas funcionam, estamos só procurando um motivo para sermos especiais, mas isso fica para outro texto) e com isso ela entender, erroneamente, que lutar contra a desigualdade é querer arrancar os direitos DELA; ou 2) faça a pessoa se sentir culpada e logo tentar se justificar, se colocar na defensiva, dizer que ela não é como as outras e acabar, com isso, voltando a questão para ela em questões que não estão em um nível individual e sim estrutural.

Sem falar que rola muito de reduzir uma pessoa a seus privilégios. Eu não acho que seja possível (ou aceitável) dizer que alguém é “privilegiada” e pronto. É sempre tênue a linha que separa o apontamento de privilégios do ad hominem puro e simples. Lembrando que ranquear as pessoas levando em consideração a quantidade de privilégios que ela tem (ou não tem) é justamente o que essa sociedade cagada JÁ FAZ.

São esses os empecilhos que acho mais difícil contornar ao falar de desigualdade.

Claro que há as pessoas que reconhecem seus privilégios e tentam mudar as coisas. Vejo muitos discursos defendendo que quando você os reconhece, tenta “abrir mão” deles. Mas? Num texto que li esses dias (de uma pessoa com a qual eu costumo discordar, a Juliana Cunha), veio um questionamento que fez acender a luzinha de alerta aqui na minha cabeça:

"Ninguém abre mão de privilégio. Ninguém quer ou mesmo pode fazer isso. Um privilégio histórico não é aquele ⅓ do apartamento de papai que você considera abdicar em favor do irmãozinho desajustado.”

É uma boa pergunta: como se abre mão de privilégio? Na prática? De quantos privilégios você já abriu mão, assim, concretamente? Dá pra deixar de ser visto como alguém mais capaz por ser branco? Ou deixar de ser visto com naturalidade beijando a namorada ou namorado na rua, por ser hétero? Se não escolhemos os privilégios que a sociedade desigual resolve nos dar por sermos de determinado grupo, não acho que seja possível escolher não recebê-los. Por mais que um homem seja simpático ao feminismo, ele não pode simplesmente me transferir o privilégio de poder andar na rua sem medo de ser estuprada, assim como ele pode. Me parece não levar a lugar nenhum ficar debatendo em torno de coisas que são alheias à nossa vontade.

O que dá pra fazer é conscientemente não ser parte do problema: não julgar um negro como menos capaz, ou não hostilizar pessoas do mesmo sexo em demonstrações de afeto, ou não ser o cara que vai me estuprar, etc.

Esse discurso já não passa pelo caminho do privilégio. Porque tanto faz se eu tenho um, dois, vinte ou nenhum privilégio na hora de tomar uma atitude mais concreta. A responsabilidade não cabe a quem tem mais ou menos privilégios; todos, igualmente, temos a responsabilidade de mudar as coisas (afinal, não é a desigualdade que deve ser combatida?).

Ninguém precisa concordar, mas eu, pessoalmente, questiono o meu discurso e tento tirar dele as partes que pouco acrescentam. Centrar meu discurso no privilégio, por exemplo, me parece mais atrapalhar; então mudo o caminho.

Aprendi isso no meu trabalho de redatora: se uma construção de frase está estranha ou, por mais que esteja gramaticalmente correta, é de difícil compreensão, eu elimino completamente e reescrevo de outra forma.

(ou vai ver tudo isso é uma grande viagem, as coisas que são ditas precisam ser ditas e pronto, quem sou eu para colocar isso em questão, então nesse caso esquece)

Eu não sou o Batman



“Você viu essa notícia que absurdo?”

Vi, sim.

“É só isso que você vai dizer? Olha bem, é um A B S U R D O!”

Ué, você quer que eu faça o quê?

“Alguma coisa!”

Eu não posso fazer mais do que qualquer outra pessoa pode fazer. 

“Mas, mas. Você escreve TEXTOS!”

Tá. Isso não faz de mim o Batman. Que você acende o bat-sinal e eu surjo das trevas para combater todo o mal e vilanismo com os meus bat-textos. Não é esse o meu trabalho. Não é pra isso que eu escrevo. A mesma impotência que você sente e que te leva a me mostrar esse absurdo também é a minha impotência. Eu não tenho poderes especiais. Ou uma fortuna, equipamentos e habilidades de luta. Eu não tenho nem onipotência para combater todos esses absurdos que aparecem. Aliás, eu não tenho nem obrigação de me indignar com cada absurdo que me mostram. Ou de ter qualquer opinião sobre esse absurdo. Eu não sou o Batman, nem o Robin, nem o Comissário Gordon, sou no máximo um Alfred. Então desculpa amigs, mas nem adianta me mostrar isso se eu posso fazer o mesmo que você.

“Absurdo. Vou chamar o Super-Homem." 

Tatuagem



Há anos quero tatuar esse texto e finalmente fiz. Quer dizer, quem fez foi a Mika, talentosíssima.

Segredos



Tem coisas que não temos coragem de contar mas que em um mundo um pouco melhor não precisariam ser um segredo.

Outras coisas são tão baixas, impublicáveis e preconceituosas que não faz sentido serem consideradas um segredo em um mundo que as aceita tão bem.

 

Indicações da semana




Esta terra é minha

O conflito que hoje vemos na faixa de Gaza é muito antiga e já foi protagonizada pelos mais diferentes povos ao decorrer dos séculos. Neste vídeo animado, a ilustradora Nina Paley mostra quem matou quem na disputa por esse pedaço de terra, tudo ao som de “This Land is Mine”. No link ela também explica direitinho que povo cada bonequinho representa.


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Roube como um artista

O Ramon fez uma resenha excelente sobre o livro “Steal like an artist”, com vários conselhos bacanas sobre criatividade (que servem para todas as pessoas).

"Você tem que se cercar de pessoas incríveis e o melhor jeito de fazer isto é acompanhar o trabalho delas. Faça amigos, elogiando as pessoas pelas coisas que você gosta. Ignore os haters e eles sumirão. Se você não gosta de algo, faça melhor, porque este é o melhor jeito de reclamar. Reparei que compartilho isto com o autor. Quando fico com raiva de algo, uso isto para criar algo. Este é o tipo de conselho que eu daria: não gostou de um texto? Não fique propagando ódio nas redes sociais, escreva o seu próprio texto."


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Eu mereço

"chegamos à conclusão que sempre, sempre, que usamos a frase 'eu mereço', é porque estamos prestes a fazer uma merda. pior: normalmente é uma merda relacionada ao consumo."

Cláudia Regina, sobre como a gente talvez mereça mais do que uma vida pautada pelo consumo.


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O racismo brasileiro pelos olhos de um congolês

“O Brasil não é o que pensávamos ser. O negro brasileiro não faz parte da elite”.

Jarid Arraes entrevista Abed Nzobale, um congolês que estuda no Brasil, para ter uma perspectiva diferente sobre o racismo que muitos aqui ainda não conseguem ver.


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Histórias reais não existem

“Quando você começa a contar uma história, tornando-a relevante e interessante para mim, enganchando-a em minhas visões de mundo e gerando emoções e memórias, ela deixa de ser verdadeira."

Tradução de um post interessante do Seth Godin.


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Literatura em Paraty

"Estou na estrada voltando para São Paulo. Ainda é quatro de agosto, mas é como se fosse o primeiro dia do ano. Continuo cansada, mas não é mais aquele cansaço que beira a desilusão. A Flip é uma espécie de ano novo que começa, assim que ela termina."

Francine Bittencourt foi na FLIP deste ano e escreveu uma crônica bem interessante sobre o que aconteceu no evento. Aliás, dá pra ver os vídeos das mesas literárias aqui.


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Carta à avó de Saramago

"Estou diante de ti, e não entendo. Sou da tua carne e do teu sangue, mas não entendo. Vieste a este mundo e não curaste de saber o que é o mundo. Chegas ao fim da vida, e o mundo ainda é, para ti, o que era quando nasceste: uma interrogação, um mistério inacessível, uma coisa que não faz parte da tua herança: quinhentas palavras, um quintal a que em cinco minutos se dá a volta, uma casa de telha-vã e chão de barro."

Aproveitando que falamos de cartas nesta edição, uma carta escrita pelo Saramago à avó Josefa.


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Ilustradora



Brianna Gilmartin é ilustradora e seu site está cheio de trabalhos incríveis (e eu super me identifiquei com essa tirinha)


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Ilustrador



Max Pepper faz ilustras muito massa. Gostei do traço descompromissado dele.


 
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Mais uma newsletter chega ao fim e espero que tenha gostado desta missiva (céus, como eu gostava de usar a palavra "missiva" quando eu escrevia cartinhas).

Bem, a vantagem desta carta é que você pode responder sem precisar gastar nem 0,01 centavo em selo. Nem ter que ir à agência de Correios mais próxima. Nem gastar papel.

E-mail, coisa maravilhosa.

Até a próxima edição, tenha uma boa semana e STOP THE CLIQUE DE INDIGNAÇÃO. Sério, clique de indignação nunca nos levou a lugar nenhum.

Beijos absurdos,


Aline.

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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