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É hora das HQ's. 
Bobagens Imperdíveis

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 122
vida / arte / escrita

Aline Valek deixa a escrita

No primeiro quadro euzinha coloco no rosto os óculos que estavam em cima da mesa, enquanto falo “Pelo menos nesta edição, em que resolvi não escrever, só desenhar”. / Me escoro na mesa onde há uma resma de folha de papel, e gesticulo, falando “porque mesmo que eu não escreva, ainda terei histórias para contar”. / No quadro seguinte, pego as folhas e jogo para o alto, como a Xuxa fazendo sorteio de cartinhas, super empolgada. “Então que se fodam os parágrafos, o arial corpo 12, as frases bem articuladas, os travessões! Aqui é rabisco doido, balão, corzinha e plano americano! Rá, rá, rá!” / Olho para a frente, me dando conta da besteira que fiz, em silêncio total, enquanto as últimas folhas caem ao fundo. / Em plano aberto, é possível ver a mesa de trabalho e os papéis espalhados pelo chão, uma bagunça. Me agacho e começo a recolher os papéis, subitamente percebendo que: “pera, ainda vou precisar disso”.

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Título: O acidente me jogou no tempo / No primeiro quadro, um ônibus de frente com o letreiro “W3-Sul”. “Foi um ônibus. Ele furou o sinal vermelho em alta velocidade”. / O ônibus visto de trás, com uma propaganda “Passe já num concurso”. O semáforo está vermelho e ele se choca contra uma garota. “Não vi ele vindo. Não lembro de nada”. / A garota sou eu, de cabelo chanel escuro, e toda dolorida em cima de uma cama, joelho enfaixado, olho roxo. “Três dias no hospital, um mês de cama, toda quebrada. Mas porra, não morri!” / Estou lendo “A Hora do Vampiro”, enquanto o livro “Insônia” está fechado no criado-mudo, com um copo d’água e alguns remédios do lado. “Deu tempo de ler dois livros de Stephen King”. / “Eu ainda não sabia, mas anos depois descobri que Stephen King também já foi atropelado.” / Folhas preenchidas com desenhos e textos, um lápis vermelho. “Bom, fiquei tanto tempo à toa que fiz uma HQ”. / Eu de bruços, deitada na cama, digitando num notebook. “E escrevi um livro”. / Estou no escuro, recostada na cama, meu rosto iluminado pela tela do computador. Ao meu redor, vários “tec tec” indicando uma digitação frenética. “Eu achava que o acidente não tinha me mudado (fora o joelho estragado, as costelas quebradas, a cabeça amassada, etc”. / No quadro, minhas pernas estão voando sobre uma faixa de pedestre e estilhaços de vidro. “É verdade que voei uns 15 metros”. / O resto do meu corpo está fora do quadro, flutuando no espaço, todo preenchido de vermelho. “Mas o acidente me jogou no tempo.” / “No agora”. / A Morte dos Perpétuos, uma garota toda branca, vestida de gótica, em uma pose simpática de conversa. “Você quase morreu. A vida passa num segundo. E aí, o que você vai fazer?” / No quadro seguinte, estou eu digitando num computador, como se não houvesse manhã. A resposta, está logo abaixo do notebook: “escrever”.

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Título: Memória é ficção / No primeiro quadro, a escritora Elvira Vigna sentada numa poltrona, segurando um microfone. Ao lado, uma mesinha com seu novo livro, “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas”. “Lá estava eu, no bate-papo com Elvira Vigna, quando ela falou: só escrevo sobre coisas que aconteceram”. / Plano aberto mostrando o palco do bate-papo. O mediador está atento ao que Elvira fala, mas atrás dela algo que não dá pra identificar muito bem está caindo. “Uma vez eu estava no meio das escadas do prédio onde morava minha amiga quando vi algo cair pela janela”. / Uma mulher cai do lado de Elvira, o mediador leva um susto, a mesinha com o livro balança. “Eu era criança, não entendi que o caiu foi uma noiva.” / A noiva está caída ao lado, o mediador olha incrédulo, o livro agora está jogado no chão. “Achava que tinham jogado um colchão velho. Não tinha idade para saber que às vezes acontece de noivas se jogarem pela janela” / A noiva está ajoelhada, parece se levantar. O mediador leva a mão à testa, e Elvira continua, sempre como se nada tivesse acontecido: “Tempos depois, li uma notícia sobre uma noiva que havia se jogado daquele prédio, naquela época.” / A noiva está de pé, toda descabelada, machucada, mancando. “Mas não liguei os pontos. Só depois de anos caiu a ficha. Foi quando resolvi escrever sobre isso em um dos meus livros”. / A noiva sai andando e agora está quase completamente fora de quadro, o mediador volta a prestar atenção em Elvira. “Então quando me perguntam: isso é verdade? Digo que sim. Isso é mentira? Também”. / Corta para eu no sofá de casa, descalça, sentada em posição de lótus. Há uma amiga ao lado, cabelo cacheado e óculos, segurando uma xícara de café. Ela está incrédula: “calmaê, cê tá me dizendo que caiu uma noiva enquanto ela falava? Uma noiva? Sério?” / Eu dou de ombros e respondo: “Que eu me lembre sim”. Ela comenta baixinho: “Puxa, deve ter sido foda”. “Falei pra você ir”.

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Título: “avisos finais” / Estou sentada num banquinho, segurando uma xícara de café. “Bienal do livro: eu vou. Você vai? Estarei lá no dia 31/08, quarta, no estante da Submarino, e no dia 01/09, quinta, no estande da Editora Rocco” / capa do meu livro “As águas-vivas não sabem de si”, ao lado, o texto: “será sua chance de levar águas-vivas rabiscadas com meus garranchos cheios de carinho! Mesmo se você não for comprar o livro, passa lá, diz que lê minhas Bobagens, me deixa saber que você existe, vamos conversar.” / imagem de um jornalzinho com o título Bobagens Imperdíveis. “Gosta do que escrevo? você sempre pode deixar alguns trocados no meu chapéu e eu agradeço”. / “Mas se você prefere financiar o trabalho da moça que ilustrou esta edição, só clicar aqui no coração, ó.” Ao lado, estou eu, ainda segurando a caneca de café, mas agora estendendo a mão direita, sobre a qual flutua um coração verde.” / Até a próxima! Beijos ilustrados,

Aline Valek

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