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Vai ter historinha ilustrada sim, e vai ter muito!

Trabalho em equipe

Não é fácil ser integrante do Esquadrão Estrelar das Minas



Imagine que você está em um trem desgovernado, <<Primeiro Nome>>. Você vê que a qualquer momento o trem vai perder o controle e sair dos trilhos. Você vê a maldita alavanca para diminuir a velocidade bem na sua frente. Há outras pessoas no vagão, mas todas parecem estar esperando que alguém tome uma atitude. Você assumiria a droga do comando?

Sendo bem sincera, eu gostaria de ser uma das pessoas que continuam gritando “ai meu deus vamos morrer alguém faça alguma coisa”, mas fatalmente eu acabo me tornando a pessoa que vai lá e faz alguma coisa, mais por falta de paciência pela imobilidade dos outros do que por qualquer fagulha de heroísmo e liderança que exista em mim (não existe).

Eu não tenho muita paciência com as pessoas. Pra mim, é um esforço gigantesco deixar que os outros façam algo no meu lugar, do jeito delas. Eu começo a mastigar meus dedos de nervoso, porque vem aquela sensação de que elas vão fazer cagada se eu não me envolver. É por isso que eu simplesmente não consigo deixar pra lá. Porque não tenho paciência.

Qualquer pessoa sensata veria que esse meu “jeitinho” é totalmente incompatível com o que se espera de um líder. Mas aí consigo um emprego novo, bacana, até promissor, e fazem o quê? Me colocam pra ser líder de uma equipe. Só podem estar loucos.

Eu pensei em contar pra eles, meus empregadores, das minhas experiências trabalhando em equipe. A começar pela escola.

Qual o problema de só fazer provas e trabalhos individuais? Pelamor. A professora tinha que inventar “pessoal, formem grupo de quatro pessoas!” – e aí sempre, sempre, SEMPRE, vinha alguém com “professora, pode ser de cinco?” Não tem como sair coisa boa de algo que já começa assim.

Por isso eu ficava até feliz de me juntar com os coleguinhas que não estavam nem aí pra nada. Assim eu podia fazer o trabalho sozinha, do jeito que eu achava certo, e eles faziam o papel deles assinando os nomes na capa só para a professora aceitar o trabalho. Todo mundo ficava feliz.

Mas num emprego a coisa muda de figura. Afinal, cada um está sendo pago pra fazer a sua parte, não tem drama. Mas o que pude observar nas empresas por onde passei é que esse negócio de trabalhar em equipe serve mais pra diluir responsabilidades e para todo mundo ser um pouco o cara que grita “ai meu deus vamos morrer alguém faça alguma coisa” sem nenhuma culpa (e ainda com a sensação de estar fazendo o seu trabalho).

Veja, eu me sinto plenamente adaptada a esse sistema. Eu estava começando a me sentir segura no ambiente corporativo, a aceitar que eu não preciso tomar a frente nem fazer tudo sozinha; e que, se algo desse errado, se o trem saísse dos trilhos, eu poderia sossegar e justificar que não puxei a alavanca porque meu gerente não mandou eu puxar.

O problema é que agora eu sou a “gerente”.

Perdão por te atropelar com tanto mau humor. Nem me apresentei. Meu nome é Regina, mas por aqui me chamam de Regis. Sou a integrante Vermelha do Esquadrão de Rangers Ainda Sem Nome. O que significa isso mesmo que você pensou: que eu sou a líder.

Muito prazer!

Foi meio por acaso que vim parar aqui. Recém-desempregada, acabei interessada por uma vaga que me encaminharam por e-mail. Quem anunciava era uma multinacional japonesa que estava abrindo filial no Brasil, chamada Sentai Corp.

Mandei meu currículo, mas nem estava botando muita fé. O salário era bom, mas tinha um monte de exigências. Demorou tanto para responderem que eu já tinha esquecido da vaga; mas como disseram que eu fui uma das vinte selecionadas para a entrevista, não ia deixar a oportunidade escapar.

Fiz a entrevista e aparentemente ficaram muito satisfeitos. Me contrataram. Eis-me aqui. Uma das cinco vagas que a Sentai Corp. estava oferecendo.

O curioso é que a empresa só contratou mulheres. Parece até que era vaga para “promotora de eventos” ou um desses trabalhos que exige um sorriso feminino para atrair mais clientes. Na verdade, quase isso.

Nesse ponto você deve estar se perguntando por que eu ou as outras aceitamos tão fácil um trampo sem antes saber exatamente o quê faríamos. Em tempos de crise, claro que a gente estava interessada mesmo era na estabilidade do trabalho.

Tinha um bocado de exigências, como disponibilidade total para fazer treinamentos e convocações de emergência, mas tá tão puxado pagar o custo de vida cada vez mais alto dessa cidade, que ser contratada por uma empresa gringa já estava lindo demais.

Quando levamos as carteiras de trabalho e as documentações que o RH sempre pede, juntaram as cinco para nos explicar como seria o trabalho.

Sentamos numa sala com um projetor e um japonês abriu um Power Point para nos apresentar a empresa, organogramas, objetivos, missão, entre outras coisas corporativas.

Resumindo: a Sentai Corp. é uma franquia que resolveu abrir no Brasil um grupo de super-heróis aos moldes japoneses – com uniformes, poderes, robôs, etc – mas não para enfrentar ameaças alienígenas (que o Brasil não tem estrutura para sediar eventos desse porte); e sim para promover a venda de bonecos. No caso, bonecas. Bonecas inspiradas em nós cinco.

Tudo pra dar errado



Só mesmo um acaso como uma vaga de emprego improvável para juntar pessoas tão diferentes. 
 
O que mais me chamou a atenção, de cara, foi as outras quatro serem pessoas normais. Gente como a gente, sabe? Nenhuma tinha cara de heroína ou de patrulheira que sai por aí combatendo o mal. Bem, pelo menos não a cara de uma heroína como eu estava acostumada a ver. Talvez por isso eu estivesse tão insegura sobre essa equipe funcionar.
 
Você já assistiu a algum seriado de super sentai? Sei lá, um Flashman, um Changeman, um Maskman, até um Power Rangers? São sempre jovens escolhidos por alguma força superior e que funcionam tão bem em equipe que até seus movimentos são coreografados.
 
Só depois de ser contratada pela Sentai Corp. é que percebi o quanto isso não podia estar mais distante da realidade.
 
Na nossa primeira reunião de pauta, já tendo passado pela primeira fase de treinamentos, já tendo nossos papeis definidos, quando a coisa já deveria estar começando a fluir, me vejo em um trem desgovernado prestes a sair dos trilhos – e o pior, não faço ideia de qual alavanca puxar.
 
Já estamos nessa sala de reunião há pelo menos quatro horas. Nosso trabalho hoje é pensar num objetivo e num nome para a nossa equipe. Mais sussa do que enfrentrar monstros gigantes, né? Hmmm, acho que não.
 
Até que começamos bem, fazendo um levantamento do histórico de equipes super sentai que já fizeram sucesso. Todos eles tinham um tema e um nome que remetia a isso. Por exemplo, o primeiro de todos se chamava Esquadrão Secreto Goranger – o tema era espionagem. Ou o Goggle V, que misturava os temas Ginástica Rítmica com civilizações antigas (???). Enfim, todos tinham algum tema e precisávamos pensar no nosso.
 
Dinossauros? Aves? Magia? Pratos típicos brasileiros? Mitologia grega? Memes de Twitter? Esportes? Mulheres que marcaram a história mundial?
 
Mas não demora muito para sairmos completamente do foco. Nem uma hora de brainstorming, alguém pega uma curva errada no caminho da reunião e de repente o assunto da mesa vira seriados de TV. Socorro.

 
Paciência, Regis, paciência – digo para mim mesma. Resolvo sair da sala, digo para elas que preciso ir ao banheiro, mas o que eu preciso mesmo é pegar um ar.
 
A verdade é que eu não estou nem um pouco a fim de fazer o papel de líder. Não acho que eu esteja pronta para a responsabilidade de conduzir esse grupo. Parecem peças que não se encaixam – e quebra-cabeças nunca foram o meu forte.
 
Eu percebi isso no dia em que foram definidas as cores de cada uma. Te contei a confusão que foi?
 
Os engenheiros da Sentai Corp. foram nos apresentar os uniformes, mostrar as funcionalidades deles, etc. Foi o dia em que a Núbia, a primeira com quem troquei alguma ideia, ficou mais empolgada.
 
Pelo pouco que a gente conversou, dava pra ver que ela se amarra em tecnologia, ficção científica, essas coisas de nerd. O que achei engraçado, porque ela era bastante carismática e extrovertida para alguém com esses gostos.
 
Lógico que ela foi a primeira a experimentar os trajes; estava doida para ver como funcionava o visor computadorizado do capacete.

 
– Que demais! Tem integração com o Twitter, migas! – ela gritou quando ativou o visor.
 
A gente tinha que concordar que o uniforme era bem legal, com aquele design claramente inspirado nos collants que a Beyoncé usa nos shows; mas não conseguimos entrar em consenso quanto às cores que cada uma ia usar.
 
Isso porque, num grupo só de mulheres, ninguém queria ser a ranger rosa.
 
Foi Alexa quem levantou a polêmica, dizendo que se recusava a usar essa cor porque, em todos os super sentais, o rosa era usado para distingir a única mulher em um grupo de maioria masculina.
 
– Acho meio sexista! – ela disse. Todas se entreolharam meio desconfortáveis. Ninguém queria ser a diferente.
 
A discussão teria durado mais tempo se eu não tivesse me lembrado que nos super sentais sempre tem um sexto integrante, geralmente um “anti-herói” que aparece ao decorrer da história. Lá fui eu ver se achava um sexto uniforme. E não é que achei? Era branco.
 
Se elas estavam fazendo tanto caso com as cores, não iam decidir nunca aquela questão. Por isso resolvi entregar os uniformes eu mesma e acabar logo com aquilo. Affe.
 
Dei o verde para a Núbia. O azul para a Alexa. O amarelo para a Misha. E já ia entregar o vermelho para a Margô, quando ela devolveu ele pra mim:
 
– Não, você fica com o vermelho.
 
– Por que eu??
 
– Porque todo mundo sabe que o vermelho é o líder. Você já começou a tomar as decisões, fia. O vermelho só pode ser seu.

 
O pior é que todas concordaram. Até os chefes da Sentai depois concordaram.
 
Margô ficou com o branco, o que até fez sentido, se ela fazia tanta questão de ser a “desgarrada” entre nós cinco.
 
Eu quase quis dizer pra ela que esperava que não lavassem nossos uniformes juntos. Seria bem chato se o vermelho desbotasse e o uniforme dela ficasse logo da cor que ninguém quis.

Nós cinco



As lembranças desse episódio do dia do uniforme até me fazem rir, quando lembro que preciso voltar para a reunião.

Entro na sala e, para meu desespero, percebo que ninguém tomou decisão nenhuma. O assunto agora é horóscopo.

– Aposto que a Regis é leonina.

Margô está certa, mas em vez de confirmar a hipótese dela, que de alguma forma quer me lembrar que eu seria algum tipo de predestinada pelos astros a assumir o comando da coisa toda, resolvo resgatar o nosso objetivo dos escombros da procrastinação.

– Acho que vamos ter bastante tempo para fazer os mapas astrais uma da outra, mas assim, só pra saber, nem é querendo colocar nenhuma pressão, mas… alguém teve alguma ideia para o nosso tema?

– Acho que horóscopo é um tema super válido – diz Margô.

– Na verdade, quando você saiu, eu estava propondo que o nosso tema fosse Ciência – Núbia diz – mas acho que elas não curtiram muito a ideia.

– Nada contra ciências – justifica logo Alexa – mas acredito que o nosso tema precisa ser uma causa, sabe? Se o objetivo disso tudo é vender bonecos, precisamos aproveitar para levar às crianças e jovens algum tema inspirador. Ou então seremos só mais um símbolo de consumismo… e não acho isso legal.

– Gente, pra mim tanto faz, na boa – diz Misha, super tranquila.

Enquanto elas se engajam em mais uma discussão, fico prestando atenção nelas. Na personalidade de cada uma.

Margô é a que mais me intriga. Ela é a que se abriu menos até agora e sinto que ela é um tanto solitária. Parece que essa coisa de pertencer a uma equipe é algo totalmente novo pra ela. Talvez isso explique porque ela goste tanto de contrariar, de questionar. Vai ver é só a forma que ela encontrou de reforçar essa barreira que construiu em torno dela. Queria saber qual é a dela.


Misha também é caladona, mas é diferente. Ela é mais observadora, fica só captando o ambiente com as anteninhas bem ligadas, como se fosse uma espectadora mesmo. O curioso é que nada irrita ela. Às vezes parece que ela é só descompromissada, não gosta de se envolver, como meus coleguinhas da época da escola; mas talvez ela seja apenas calma demais (alguém nesse grupo tem que ser).

Núbia, bem, você já tem uma ideia. Ela tem umas referências que às vezes só ela conhece, bem coisa de nerd mesmo. Tipo, que diabos é “xp”? Enfim. Mas é fácil lidar com ela. Ela fala o que pensa, é super aberta. Ah, e tem muitos seguidores no Twitter.

Alexa é a que mais se aproxima de uma super-heroína; ela tem um senso de justiça bastante aguçado, é muito sensível, pensa sempre em como fazer o bem. Sinceramente, isso a torna meio chatinha. Quando ela acredita que algo está errado, ela insiste, ela vai tentar fazer do jeito certo. Pensando bem, eu também sou um pouco assim. Ser chata às vezes é bom.


É então que tudo começa a fazer sentido. A alavanca. Eu vejo a alavanca que vai colocar o trem nos trilhos novamente!

Elas continuam a discutir como se estivessem discordando, mas percebo que, o tempo todo, suas ideias não são conflitantes – e sim complementares. Assim como suas personalidades. Quer dizer, nossas.

– Finalmente podemos ir jantar! – e elas até se assustam quando grito isso do nada – Já temos a ideia do nosso tema!

– Qual? – nem Núbia parece ter entendido.

– A ideia de vocês. Juntas. Algo que una Ciência, uma causa inspiradora e até horóscopo. Nosso tema são as estrelas. Poderíamos escolher estrelas ou constelações para representar cada uma de nós, quase como signos. Então usaríamos isso para fazer os jovens se interessarem pelo espaço, por Ciência. E esta seria, afinal, a nossa causa.

Elas ficam bem caladas. Trocam olhares. Eu congelo meu sorriso no aguardo de uma resposta. Não me deixem no vácuo, plis.

– Lacrou.

Depois do comentário de Misha, elas concordam. Acho que gostaram, afinal. Daí pra pensar num nome foi fácil.

Assim surge o Esquadrão Estrelar das Minas.

Até que faz sentido. Se por um lado parecemos sóis de mundos muito distantes, se você olhar com atenção, juntas formamos uma constelação.

E o desenho dessa constelação só faz sentido porque nossas qualidades e talentos se completam: a ética e consciência da Alexa; a calma e disposição para ouvir da Misha; a inteligência e o carinho da Núbia; o jeito que Margô nos  provoca para termos um outro ponto de vista.

Já eu... bem, sou isso aqui que você está vendo. Reclamona, impaciente, meio durona. Mas essas minas me fizeram descobrir uma qualidade até então  nova pra mim: de alguma forma, eu encaixo todas essas peças maravilhosas juntas.

Pela primeira vez, eu me sinto à vontade para puxar a alavanca desse megazord desgovernado. Sim, já estou prevendo mais confusões pela frente. Pensa bem, se foi a maior dificuldade pra escolher cores e um nome, céus, imagina quando a gente tiver que criar coreografias de batalha? Deus que me ajude.

Mas algo me diz que ainda vou aprender muito com elas. Por exemplo, a ser líder. Ainda não sei como se faz isso. É muito difícil. Não me sinto à vontade. Mas vou me esforçar, juro.

Posso ainda não ser a líder que elas merecem. Mas uma coisa eu te digo: já tenho muito orgulho de fazer parte dessa equipe.

Meu nome é Regis, a Estrelar Vermelha do Esquadrão Estrelar das Minas. E a gente – espero – se vê por aí.

Nas edições passadas

 



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Começou com uma ideia boba. Um grupo super sentai só com mulheres em que ninguém quer ser a rosa. Acabou virando uma história sobre aprender a ser líder e sobre as merdas de trabalhar em equipe.
 
As personagens foram crescendo na minha cabeça desde o início da semana. Foram ganhando forma, cores e temperamento. Eu tinha que fazer alguma coisa com elas, né? Deu nisso que você leu :)
 
Vou adorar saber o que você achou. Gostou das personagens? Acha que a história rende? Ficou muito grande? O que achou das ilustras? Qual será o signo das outras quatro?
 
E pra não dizer que não te deixei com nenhum link essa semana, aí vai:
 
Um texto em que conto as lendas da origem do café – e o que cabras saltitantes tem a ver com isso.
 
Uma entrevista para o Motherboard em que eu e Sybylla falamos sobre Universo Desconstruído e ficção científica feminista.
 
Essa música, pra ficar no clima dessa edição.
 
Beijos estrelares,
 
Aline.
 
 
Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, todos os direitos reservados.

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