Copy
Uma trilogia de textos sobre revolução, rebeldes e desigualdade

Revoluções



Histórias sobre injustiça mexem com a gente, <<Primeiro Nome>>. É difícil não ser tocado por personagens revolucionários quando eles refletem a nossa própria indignação, uma inconformidade às vezes contida, o nosso desejo de mudar as coisas.
 
Encontramos na figura desses justiceiros, rebeldes e inimigos da ordem a grandiosidade que não sentimos em nós, quando somos tão apequenadas pela opressão de quem realmente detém o poder. Podemos nos projetar neles. Podemos nos apropriar de sua força. Podemos vibrar com suas conquistas ainda que na vida real a gente continue a se foder.
 
Por isso resolvi falar de algumas dessas histórias nesta edição; duas em especial que fizeram muito sucesso e acho que compartilham de uma mesma essência. São muito parecidas, especialmente porque se tratam de revoluções – de lutar contra a injustiça, de se levantar contra o poder e a ordem.
 
Você já assistiu (ou leu) Jogos Vorazes, <<Primeiro Nome>>? Li todos os livros e assisti recentemente ao último filme “A Esperança – Parte 1” (mas calma que não vou comentar o filme com detalhes aqui). Quando Jogos Vorazes começou a estourar, confesso que vi com desconfiança e fiquei com medo de ser mais uma historinha aos moldes de Crepúsculo – mas assim que me percebi enganada, virei fã imediatamente.
 
Na época, até escrevi um texto sobre a série de livros e conto por que me surpreendi com a trilogia de Suzanne Collins: ela conseguiu criar não apenas um universo rico e assustador, mas também uma trama sobre xóvens que não gira em torno de romance; além disso, também me surpreendi com o fato de um livro tão violento e extremamente político ser direcionado a adolescentes. O primeiro filme até que foi bem ameno, enquanto do livro escorre sangue (claro que isso foi evoluindo, de forma que esse último filme é muito violento. Achei pesadíssimo, filme de guerra mesmo. Algumas cenas até pareciam tiradas daquele jogo Counter Strike).



A história é escrita por uma mulher, protagonizada por uma mulher e vendida para um público adolescente, o que pode fazer com que muita gente não leve Jogos Vorazes a sério, considere uma história menor, coisa boba.
 
Para essas pessoas, talvez eu vá cometer uma heresia agora ao ousar comparar com outra história sobre revolução e política que já foi alçada ao status de cult: V de Vingança.
 
V de Vingança é uma história em quadrinhos (em três partes) criada por Alan Moore e também teve sua adaptação para o cinema (com Hugo “Agente Smith" Weaving e Natalie Portman, como não amar?). Basicamente, é a história de um terrorista mascarado de peruquinha que quer acabar com o estado fascista da Inglaterra distópica de Moore e se vingar dos algozes que o torturaram.
 
O simbolismo é a primeira das semelhanças entre essas duas histórias. V de Vingança é, sem dúvidas, um marco, especialmente por ter se transformado um símbolo de anarquia, revolução, protesto. É emblemática a cena em que os cidadãos de Londres saem às ruas usando a máscara de V, que conseguiu transcender a ficção e invadir manifestações na vida real.
 
Nesse sentido, Jogos Vorazes também pode se considerar um símbolo: o filme mais recente não foi exibido na Tailândia porque os cidadãos que se opõem ao golpe militar que houve em maio no país começaram a usar a saudação do Distrito 12 como sinal de protesto. Teve até prisão de estudantes que fizeram esse gesto em público – exatamente o que o presidente Snow faz contra seus opositores.

 
(acho que isso já seria o suficiente para mostrar a força política contida em Jogos Vorazes, né)
 
O “símbolo” é especialmente importante em ambas as histórias: V e Katniss encarnam esse símbolo de enfrentamento ao poder, embora de formas diversas. V não mostra o rosto, não se sabe quem é – o que ele usa a seu favor para enganar a polícia e se tornar mei que “imortal”; ele chega a dizer “você acha que pode me matar? Não há carne e osso por trás dessa capa que você possa matar. Há apenas uma ideia. E ideias são à prova de balas”. Já Katniss se torna o símbolo da revolução justamente por ser um rosto, por ser uma pessoa de carne e osso que deu a cara à tapa e desafiou a Capital na frente de todo mundo. Aliás, essa é a premissa do terceiro filme (e livro): ela se tornar o Tordo que vai guiar a rebelião, usando sua própria imagem como arma.
 
No entanto, as semelhanças entre V e Katniss não vão muito além; acho que V tem muito mais a ver com Snow do que com o Tordo. “Mas Aline, Snow é o cara mau, o tirano, etc!” Sim. Mas convenhamos que V não é exatamente um herói (e sobre isso falo mais no próximo texto). Além disso, os dois são unidos por algumas semelhanças curiosas (apesar de um ser anarquista e o outro um ditador): ambos são homens muito eruditos, com gostos sofisticados; ambos usam rosas para ameaçar seus inimigos e como um aviso de morte (V usa rosas vermelhas e Snow, brancas); e, por fim, ambos são conhecidos por matar seus inimigos com veneno (V chega a matar um bispo fazendo-o engolir uma hóstia envenenada).
 
Katniss guarda alguma semelhança com Evey. Primeiro, porque nenhuma das duas, por mais marcadas que tenham sido pela tirania de seus mundos, tinha a intenção de fazer revolução; foram empurradas para o meio dessa história meio sem querer, mas acabaram se tornando as peças protagonistas na execução dos planos rebeldes (seja do Distrito 13 ou de um terrorista anônimo).
 
Outra: Katniss e Evey foram o tempo inteiro manipuladas para cumprir esses planos. Foram torturadas física e psicologicamente para se tornarem parte da revolução – e como podem dizer que V é um herói depois do que ele fez a Evey? Elas foram transfiguradas. Toda a violência que sofreram, todo o sofrimento a que foram expostas, toda a dor e raiva de um sistema opressor foram se acumulando para transformá-las. É o que as fortalece – ou o que eventualmente as arruina?
 
Há alguns outros detalhes deliciosos que as duas histórias compartilham: na distopia de Moore, o governo tirânico se divide em departamentos nomeados como partes do corpo humano – The Voice (a mídia), The Head (o centro de comando), The Fingers (ou “dedos”, a força policial). A divisão em distritos de Panem obedece à mesma lógica e Snow chega a evidenciar isso em seu discurso: “os distritos são o corpo. A Capital é o coração pulsante. Seu trabalho duro nos sustenta e, em retorno, nós os alimentamos e protegemos."
 
É genial como Moore e Collins mostram o sistema político opressor como um corpo. Uma unidade bem coordenada, gigante, capaz de esmagar as pessoas embaixo dela. Claro que a força desse corpo se manifesta também de formas diferentes: em V de Vingança seu poder está estruturado no controle, enquanto em Jogos Vorazes está estruturado na desigualdade.
 
Sem falar que as duas histórias estão cheias de intrigas políticas e muita violência (embora eu ache muito mais chocante a forma como adolescentes e crianças são assassinadas pela Capital em nome do entretenimento em Jogos Vorazes).
 
São histórias que tocam fundo na ferida, com uma crítica política e social que vai fazer com que sejam lembradas durante anos, enquanto puderem dialogar com o revolucionário que há dentro de nós. 
 
E como não levar a sério uma história que traduz tão bem o grito dos oprimidos? “If we burn, you burn with us”.
 

V de Vorazes

V e Guy Fawkes

 
(este texto foi escrito originalmente em junho de 2013, na época das manifestações, lembra? Resolvi republicar porque achei super condizente com o tema desta edição. Se não conhecia, espero que goste!)

Nas últimas semanas, um ícone dos quadrinhos tomou as ruas e não era nem evento de cosplayer. Nos protestos que vimos e participamos em várias cidades brasileiras, além das palavras de ordem e cartazes expondo todo tipo de indignação dos brasileiros (todo tipo mesmo), um elemento se destacava e até chegou a fazer parte de “kits de protesto” vendidos por aí: a máscara do V de Vingança, um clássico dos quadrinhos criado por Alan Moore e David Lloyd, posteriormente adaptado para o cinema.

A máscara do V, personagem dos quadrinhos, faz referência a Guy Fawkes, personagem histórico, e passou a ser ostentada por manifestantes como um símbolo de revolução. Mas por que o V? Mais importante: quem é o V? E, afinal, o que ele tem a ver com Guy Fawkes?

I.
“Remember, remember, the 5th November / The Gunpowder Treason and Plot / I know of no reason why the Gunpowder Treason / Should ever be forgot”.

Guy Fawkes foi um inglês que viveu entre os séculos XVI e XVII e participou da Conspiração da Pólvora (a “Gunpowder Treason” dos versinhos acima). Em 5 de novembro de 1605, ele foi pego pelos homens do rei Jaime I guardando uma imensa quantidade de barris de pólvora que seriam usadas para explodir o Parlamento.

Guy Fawkes foi preso, torturado e condenado à forca por traição.

o tal do Gai Fauques

Mas só tem um detalhe: Guy Fawkes não era um anarquista. Ele não estava tentando destruir uma teocracia maligna; ele estava tentando substituir por outra. Fawkes era um soldado católico inglês aliado dos espanhóis (que eram muito católicos) e a Inglaterra, como você sabe, era protestante. Jaime I era um rei protestante. Só que, na Inglaterra protestante, os católicos eram reprimidos e suas crenças eram consideradas subversivas.

Com a Conspiração da Pólvora, os católicos liderados por Robert Catesby pretendiam assassinar o rei Jaime I e substituir por um monarca católico que pudesse converter a Inglaterra. O objetivo era simples: restaurar a dominação da Igreja Católica, que tem um histórico, digamos, nada favorável à liberdade e à democracia.

Se a Conspiração da Pólvora tivesse dado certo, a Inglaterra talvez se parecesse mais com o estado fascista sobre o qual Alan Moore tentou nos alertar em V de Vingança do que com um estado anárquico.

II.
Em um artigo para a revista Warrior publicada em 1983, chamado “Behind the Painted Smile”, Alan Moore contou todo o processo de criação de V de Vingança.

Foi um processo de anos e que contou com a ideia de várias pessoas. Ele revela que ele teve a primeira ideia quando era mais jovem, sobre uma terrorista transexual com a cara pintada chamada “The Doll”, mas a ideia foi recusada e ele acabou engavetando o projeto. Alguns anos depois, indicaram Alan Moore como roteirista para trabalhar com o artista David Lloyd e a ideia de um terrorista lutando contra um sistema totalitário veio à tona novamente.

Moore estava tendo dificuldades para criar o personagem (que já tinha desistido de chamar de “Vendetta”) e resolveu começar pela criação do cenário da história. Ele queria criar um futuro distópico para o ano de 1990, em que, após uma guerra nuclear da qual a Inglaterra conseguiu sobreviver, os fascistas tomavam o poder. Mas Moore só conseguiu avançar nas ideias depois que um amigo da editora ligou para ele com o título que ele considerava perfeito para a série: “V for Vendetta”. O nome deu o incentivo que ele precisava para criar o resto da história, que teria foco numa vingança (e não numa revolução).

Moore e Dave estavam decididos a criar algo que fosse essencialmente britânico, fugindo da tonelada de referências americanizadas que invadiam o mercado de quadrinhos. Foi isso que levou Moore a fazer a ambientação na Inglaterra, como dito acima – e também o que levaria Dave à concepção do visual do personagem.

David Lloyd teve a ideia de resgatar um personagem histórico britânico. Sim, foi dele a ideia de dar ao protagonista o rosto de Guy Fawkes.

Em carta que deixou Alan Moore empolgadíssimo com a ideia, David Lloyd escreveu:

“Eu estava pensando... por que não representamos [o protagonista] como um Guy Fawkes ressurecto, com uma daquelas máscaras de papel machê, uma capa e um chapéu cônico?”

“Essa foi a melhor ideia que eu já ouvi a minha vida inteira”, Moore respondeu. A partir daí, ele conseguiu dar forma e profundidade ao protagonista que estava procurando para a sua história.

III.
“First, you must discover whose face lies behind this mask, but you must never know my face” (V, em V de Vingança)

V é um terrorista. Ele atenta contra um estado totalitário e fascista, mas o seu principal objetivo é se vingar dos responsáveis pelo sofrimento de seu passado (que, não por acaso, são membros desse mesmo estado fascista). Para isso, ele mata, tortura, destrói, chegando a ferir até mesmo quem ele deveria amar: Evey.

V não é o mocinho. V não é um revolucionário preocupado com o povo em primeiro lugar. Ele simplesmente busca vingança, promovendo morte e caos. Porque faz parte do seu processo de vingança fazer com que, através de tortura e sofrimento, outras pessoas compartilhem de seus ideais; afinal, ele acredita que a “iluminação” que ele alcançou só foi possível através da dor – e é o que ele busca fazer com os outros.

“Não é Guy Fawkes em si que V deseja ser, mas o que Fawkes representa: rebelião”. De fato, V e Fawkes são completamente diferentes. Suas histórias, seus objetivos, suas ideologias. O que esses personagens têm em comum é basicamente uma coisa: são indivíduos que foram ao extremo para enfrentar um regime totalitário (seja a monarquia protestante do século XVI ou o estado fascista da distopia de Moore).

E é daí que surgiu o ponto de partida para o uso da máscara em protestos mundo afora.



V e Evey


IV.
Essa icônica máscara, de um personagem de quadrinhos fazendo referência a um personagem histórico, acabou ganhando um novo significado depois do Anonymous, sendo ainda apropriada (e ressignificada) pelos manifestantes que tomaram as ruas nessa recente onda de protestos no Brasil.

Mas não deixa de ser curioso que, para resgatar o orgulho de ser brasileiro, os manifestantes tenham usado um símbolo britânico, e que, em um movimento marcado pelos gritos de que a violência e o vandalismo não os representavam, manifestantes tenham usado o rosto de um personagem dos quadrinhos que era (veja só) anarquista e violento.

A máscara do V passou a ter um significado completamente novo, em um contexto bastante distinto daqueles aos quais pertenciam V ou Guy Fawkes. Porque os símbolos, assim como a linguagem, acabam se tornando o que a gente faz deles.

Água para todos

 


Nas florestas de matagal do Chaco Boreal, região entre Paraguai e Bolívia, vivem os Ayoreo, povo indígena caçador e cultivador, que nas últimas décadas vêm sido sistematicamente expulsos de suas terras por grandes criadores de gado.
 
Contam os Ayoreo que a avó de seus ancestrais era um grilo chamado Direjná e que dela vinha toda a água; onde ela estava, lá estava a água também.
 
Um dia, seus netos a expulsaram da terra – mas quando ela se foi, tudo ficou quente e seco; o que explicaria o clima do Chaco, uma planície muito quente, com vegetação típica de savana e com escassez de água.



Abuella Grillo decidiu ir para o céu, de onde mandaria água em forma de chuva toda vez que alguém contasse sua história.
 
Daí que fizeram um curta animado contando uma versão moderna dessa história e acho que você deveria assistir (reza a lenda que toda vez que alguém der um play nesse vídeo, Abuella Grillo manda um pouco de chuva para a Cantareira).
 
A animação foi feita na Dinamarca por um time de animadores bolivianos e não é só porque ficou super bem feita (e tem um áudio incrível) que resolvi falar sobre ela, mas sobre a crítica contida na história: a água pode ser de alguém?
 
Acontece que em vez de ir para o céu, nesse curta Abuella Grillo vai para a cidade grande onde é capturada por empresários que começam a explorar a coitada. Forçam a vovó a produzir água para eles, que a engarrafam e vendem a preços abusivos para as pessoas mais pobres.
 
Foi inevitável não lembrar do filme También La Lluvia (Even the Rain, ou em português Até a Chuva), filme com o Gael García Bernal que se passa na Bolívia e trata exatamente da crise da água.
 
É sobre uma equipe de gravação espanhola que vai rodar um filme sobre a chegada de Colombo na América (ou seja, é um meta-filme), e decidem fazer na Bolívia porque podem pagar uma merreca para os miseráveis de lá fazerem o papel dos índios.
 
O lance é que eles acabam chegando em um momento de crise no país, em que os trabalhadores e pessoas mais pobres, revoltadas com a privatização da água, começam a protestar e entram em confronto com a polícia, no que ficou conhecido como a Guerra da Água – e apesar da história central se tratar de uma ficção, essa situação realmente aconteceu.
 
"Em Cochabamba apenas metade da população na zona urbana tem acesso a água tratada e na zona rural os camponeses, quase na totalidade indígenas, foram expropriados do seu sistema de irrigação e abastecimento que eram utilizados há séculos, um bem comum que se transformou em uma mercadoria muito cara, ou inacessível, de uma hora para outra. A privatização da água (e não somente do sistema de abastecimento, pois até a água da chuva passou a ser propriedade do Consórcio), em Cochabamba, se caracterizou pela transferência direta da renda dos mais pobres para os lucros das transnacionais."
 
Olha, um dos melhores filmes com crítica social que já vi (e muito mais próximo de nós do que os mundos distópicos de V de Vingança ou Jogos Vorazes). Não vou nem me estender sobre ele porque eu realmente quero que você veja. E o Alex escreveu sobre ele aqui (e o que o filme nos diz sobre as ações serem mais importantes que o discurso).

– será que chove hoje? – sei não, migo
 
Dentro desse contexto, a animação da Abuella Grillo faz todo o sentido do mundo: as empresas literalmente se apropriaram de toda a água para poder lucrar em cima de uma necessidade básica e da exploração dos mais pobres.
 
A Guerra da Água na Bolívia parece um cenário distante de nós, se 14 anos nos separam daquele acontecimento, além de um esquecimento tipicamente brasileiro de que fazemos parte dessa mesma América Latina (porque às vezes achamos que Brasil é um continente à parte, se mal conhecemos e pouco nos identificamos com a história e com a cultura de nossos países vizinhos).
 
Mas a água já começa a bater na nossa bunda (ou pelo menos a falta dela).
 
A falta de água em São Paulo tem sido tema de grande preocupação, mas é claro que quem vive na capital ainda pode se dar ao luxo de “economizar”. Porque em Itu, por exemplo, nem água na torneira as pessoas têm: lá, o racionamento já é uma realidade desde fevereiro.
 
Aliás, a Camila Pavanelli mantém um tumblr atualizado com as notícias sobre a crise da água, o Boletim da Falta D’Água em SP, e por lá dá para ter uma ideia de que além de água, faltam também soluções para sair dessa crise. Simplesmente não há o que fazer a curto prazo (olha que animador), porque já estamos no longo prazo que não pensaram lá atrás.
 
Não dá pra culpar entidade guardiã da chuva se foi vacilo nosso – por eleger governador que foi totalmente irresponsável nessa questão e também por nós mesmos só sermos conscientes quando o bicho pega.
 
Precisa chover? Precisa, mas só chuva já não vai nos salvar. Até porque as reservas ficaram tão secas que se chover um dia e não chover no outro, a água não consegue se acumular porque é absorvida pelo solo (o chamado efeito esponja). Aliás, volume morto devia servir para isso, uma lâmina d’água para ajudar na recuperação da reserva, e não para ser consumida de canudinho.

efeito esponja

Quer cenário mais favorável para quem está sempre de olho no lucro do que oferecer um item de primeira necessidade em um lugar onde não tem? 
 
E aí a mesma história se repete na Bolívia ou no Brasil: quem sempre se fode são os mais pobres. Quem tem dinheiro pode encher sua picape de luxo com galões de água e garantir o abastecimento por alguns dias. E quem não tem dinheiro? Chora para ter água pra beber.
 
A desigualdade que permite que isso aconteça é tão preocupante quanto a escassez. Porque a água própria para consumo vai acabar – e já rolaram previsões de que este será o motivo de uma próxima guerra mundial –, mas até lá, alguns vão ter mais acesso a ela do que outros.
 
De quem é a água? É possível ela ser de alguém? Enquanto houver desigualdade, ela tem dono sim: é de quem pode pagar.
 
Tenho a impressão de que a preocupação com a escassez de água acaba fomentando a especulação sobre o seu valor – e quanto mais raro é um item, mais caro fica seu preço no mercado. Não sou muito chegada a teorias da conspiração, mas não seria estranho se depois chegássemos a descobrir que isso que estamos vivendo hoje foi o terreno sendo preparado para alguém lucrar muito amanhã.
 
E não parece tão absurda a ideia de privatizarem até a chuva porque isso já aconteceu. Logo ali, do nosso lado.
 
Chega a ser chover no molhado (dsclp, não resisti) dizer que um direito humano básico não deveria ser restringido a uma parcela da população ou a quem pode pagar. Mas é algo que não podemos perder de vista se é um mundo mais justo e humano que queremos construir: a água tem que ser para todos.
 
Porque Abuella Grillo não se esquece de ninguém – mesmo que a gente às vezes se esqueça o quanto ela é importante.
 

la la la

Enxurrada de coisas




:: Nunca me canso de indicar os textos do João Luís – e quando vem com uma bela crítica esfregada na nossa cara, fica melhor ainda: sobre a nossa irritação com o comum, com a “cultura da mediocridade” e o que isso diz de nós mesmos.
 
:: Um texto daorinha sobre a hipsterização urbana e como isso reforça a desigualdade – empurrando as pessoas negras e mais pobres para viver em lugares com condições de vida ainda piores.
 
:: Como esta semana fiquei viciadíssima em Zelda (a Link to the Past, tô quase zerando), fiquei apaixonada por essa animação em 8-bit explicando realidade e a teoria da caverna de Platão com todo o estilo de The Legend of Zelda, muito amor.
 
:: Achei maravilhoso esse texto-ilustrado sobre o pajubá, dialeto falado pelas travestis no Brasil, especialmente por ter sido apresentado como uma expressão cultural, e não como algo “divertido” e “exótico” para quem é de fora poder usar também.
 
:: Apesar do título brega, me identifiquei bastante com esse texto porque também reflete o próximo passo que quero dar na minha vida: poder morar num lugar mais tranquilo. Como diz a autora: não é a geografia que nos torna mais interessantes, e se decidimos morar num lugar que não seja uma das cidades mais badaladas do mundo, não significa que estejamos levando vidinhas simplórias.
 
:: Como o link da baleia jubarte sendo salva de uma rede de pesca deu ruim na edição passada, segue de novo, porque me emocionei tanto que vale a pena linkar mais uma vez (espero que agora dê certo).
 
:: Aproveitando o tema da edição, não poderia deixar de indicar dois textinhos sobre Jogos Vorazes; um absolutamente genial falando da inspiração botânica na composição da história, na criação das plantas e até de personagens (e não sei se gosto mais desse post com abordagem inusitada ou de perceber como Suzanne Collins caprichou na pesquisa para seu livro); e este texto comentando a primeira parte de A Esperança.
 
:: A Tadsh fez uma descoberta genial: dá para ler Bobagens Imperdíveis no Kindle! Ela me ensinou: você pega o link da newsletter (clicando no “deu ruim?” ali no topo) e joga nesse site. Depois é só clicar em “send” que ele manda para o seu kindle mail (e ele dá as instruções tudim). Obrigadíssima pela dica, Tati <3


ilustração: Nous Vous
♥︎
♥︎
Está muito enganado quem acha que só precisa de uma capa, uma bela máscara, uma arma maneira e sair por aí com uma super disposição de combater o mal para ser um herói. Ouça o que estou te dizendo, <<Primeiro Nome>>: não é o bastante.
 
Quer ser um paladino da justiça, um defensor dos mais fracos e oprimidos? Arranje uma frase de efeito. Sério, é muito importante.
 
Imagine como você vai intimidar os inimigos se chegar sem nada a dizer; além de despreparo, vai soar grosseiro, como entrar no elevador com o vizinho e nem dar um oizinho! Vamos lá, você pode estar enfrentando caras maus, mas eles também merecem alguma consideração.
 
Veja o impacto que é um justiceiro que já chega arregaçando com os seguintes dizeres: “mesmo que a Justiça o perdoe, eu não o perdoarei – jamais! Lutarei enquanto existir amor. Até o fim da minha vida. Estrela Fascinante Patrine!"
 
Ou ainda: “sou uma guerreira que luta pelo amor e pela justiça! Sou Sailor Moon e vou punir você em nome da Lua!"
 
(sério, quem é que vai se opor a alguém que tem o poder de punir os outros EM NOME DA LUA?)
 
A Katniss, por exemplo. É uma menina esforçada, quase uma boa heroína. Falta o quê? Isso mesmo, uma boa frase de efeito. “If we burn, you burn with us” pode ser usado, mas não tá redondo ainda, sabe. Temos um caminho, temos um caminho.
 
Seria bem mais arrombador se fosse algo do tipo “O fogo da revolta arde em meu coração! Pelos 12 distritos e contra a opressão, sou Katniss o Tordo e vou queimar você com a chama da revolução!” Contundência, con-tun-dên-cia.
 
Mais heróico ainda é quem consegue sacar frases de efeito não só para sua apresentação, mas para situações variadas. Melhor exemplo disso é um herói latinoamericano sem dinheiro no bolso, como nós, que já dizia “suspeitei desde o princípio”; “sigam-me os bons”; “não contavam com a minha astúcia”; “todos os meus movimentos são friamente calculados”; e ainda o poderosíssimo “minhas anteninhas de vinil estão detectando a presença do inimigo”.
 
Eis aí um justiceiro preparadíssimo.
 
Miremos em Chapolin e aprendamos a lição: antes de sacarmos as armas e irmos tretar a boa treta, combater inimigos, proteger os mais fracos e fazer revolução, não esqueçamos de nos armar também de uma poderosa frase de efeito.
 
Palavras bem colocadas podem vencer guerras – ou não, mas é maneiríssimo falar em amor e justiça antes de descer a porrada no vilão.

Beijos rebeldes,

Aline.

 

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
Email Marketing Powered by Mailchimp