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dasde chaporfetas.

Não abra a porta para o carteiro

Coisas ruins podem acontecer



Com quem falar? Pensei muito nisso, porque eu precisava falar a respeito, mas seria perigoso me abrir para qualquer pessoa. Me percebi sozinha, desesperadamente sozinha, e quase fiquei paralisada por essa solidão devoradora até me lembrar de você. 

<<Primeiro Nome>> vai acreditar em mim, eu sei, eu sei. Pensei. É a única pessoa com quem eu posso falar. Posso contar com você, não posso?

Por isso escrevo esse e-mail, para te contar. Não, espera. Espera. Contar não, avisar. Isso, preciso te avisar. E-mail é a única forma segura no momento, não confio no telefone, e no papel definitivamente não dá. Também não é uma boa ideia você vir aqui. Não, não venha. Apenas leia o e-mail até o final e prometa que vai levar isso a sério.

E não abra a porta para o carteiro. É importante você entender isso.

Já me disseram que não era bom ficar muito tempo em casa. Primeiro porque o corpo precisa de sol, espaço, ar livre, contato humano. Ficar olhando para as mesmas paredes começa a danificar o cérebro, dizem (isso também vale para quem passa tempo demais no trabalho, dizem). Não sei se é o caso. Queria acreditar que sim.

O lance é que eu passei vários dias sem sair de casa, porque coisa para fazer aqui não faltava, o tempo foi passando rápido demais e nem me dei conta que não cheguei a atravessar a porta para o lado de fora nenhuma vez nos últimos tempos.

Depois disso, eu ainda ficaria uma semana sozinha em casa. Nenhum problema; inclusive, acabou se tornando mais uma desculpa para eu não sair. O ruim de ficar sozinha em casa é só na hora de dormir. Os barulhos, o escuro, fico numa paranóia tremenda. Demoro a pegar no sono. Qualquer bobagem me acorda. Horrível.

Nem é medo de assombração, capeta, monstro, que meu ceticismo não deixa. Era medo de bandido mesmo. De alguém entrar na casa, achando que estivesse vazia, boa pra invadir. E eu lá dentro.

Quando eu era criança, tinha um pesadelo recorrente. Sonhava que invadiam a casa que eu morava com meus pais. Às vezes eu estava sozinha, às vezes não. Às vezes era um cara armado, às vezes uma quadrilha, às vezes só uns moleques atrevidos. Às vezes pulavam o muro, às vezes entravam pelos fundos, às vezes forçavam o portão da frente. Aquilo me apavorava.

Meu maior medo era de bandido. Ah, eu não sabia de nada. Meu ceticismo não deixava.

Lembra de Garotos Perdidos? Clássico da Sessão da Tarde. Filme de vampiro na época em que ainda existiam bons filmes de vampiro. Tem uma hora que um dos adultos avisa: “nunca convide um vampiro para sua casa, seu garoto tolo. Isso deixa você vulnerável a ele”. Eu devia ter lembrado disso. Mas quem dá ouvidos a filme de Sessão da Tarde?

Era isso. O que eu deveria temer não seria algo que invadisse a minha casa; mas algo que eu mesma deixasse entrar.

Não abra a porta para o carteiro.

Era de tarde e eu não estava esperando ninguém, por isso eu levei um susto quando bateram na porta. Ainda mais porque o porteiro não anunciou, nem o interfone. Geralmente eu consigo ver a sombra dos pés da pessoa por debaixo da minha porta, quando a luz do corredor se acende. Não tinha sombra nenhuma, então provavelmente era alguém batendo na porta do vizinho. Normal.

Aí bateram de novo. Definitivamente era na minha porta. Gritei “quenhé?”. Demorou pra vir resposta: “Correio”.

Primeiro olhei pelo olho mágico: realmente tinha alguém ali. Um cara uniformizado. Uns papéis na mão. Uma bolsa a tira-colo. Mesmo assim fiquei desconfiada. Apesar de achar bem provável que ele estivesse trazendo alguma encomenda que comprei pela internet, meu sensor de perigo disparou forte.

Da outra vez que meu sensor disparou assim, eu era adolescente, morava com meus pais, estava sozinha em casa varrendo a sala e ouvindo música quando a maçaneta da porta dos fundos começou a mexer. Pronto: era alguém que havia pulado o muro e estava tentando invadir a casa. Saí de casa na mesma hora com vassoura na mão para chamar ajuda. Quando voltei pra casa com a vizinha me acompanhando, não tinha ninguém, nem na casa, nem do lado de fora. A porta de trás lindamente trancada. Ufa.

Mas lá estava um carteiro esperando eu abrir a porta e de alguma forma aquilo me pareceu tão errado que hesitei, a chave na mão. Já tinha ouvido histórias de bandidos que se disfarçavam de agentes de combate à dengue para entrar nas casas e assaltar as pessoas. Vai que agora estavam se disfarçando de carteiros?

Não abra a porta para o carteiro.

Na hora não pensei direito, acho. Abri. Não veio com uma arma na minha cara nem nada do tipo. Olhou pra mim e ficou calado um tempo, até me estender um envelope. O engraçado é que ele me olhou por um tempo considerável, mas eu não consigo me lembrar do rosto dele nem fodendo.

E aí o envelope, suspenso, esperando que eu o pegasse, como se eu tivesse a opção de não pegá-lo, porque o carteiro não fez nenhum gesto no sentido de me empurrar o envelope, ele só ficou lá, esperando que eu pegasse a droga do envelope. Esperando de um jeito que parecia que esperaria a tarde inteira, simplesmente segurando o envelope na minha frente. Dava pra ver meu nome nele. Peguei. Obrigada, boa tarde, tchau.

Não abra a porta para o carteiro.

E o mais importante: não pegue o envelope.

De um lado, meu nome e meu endereço, afinal, a correspondência havia chegado até ali. Ok. Mas no verso algo que não pude compreender. Estava escrito o seguinte:

DASDE CHAPORFETAS
SEUS NINAO OSEM SADEMO

Mas quem diabos era Dasde Chaporfetas? Aliás, esse era o nome de uma pessoa? De uma empresa? Um endereço? Não havia nenhum número nem CEP daquele lado, apenas aquelas duas linhas, do jeitinho que escrevi aqui.

O mais estranho ainda estava por vir. Abri o envelope, rasgando a lateral. Olhei lá dentro, enfiei o dedo. Não tinha nada. É sério. Nadinha. Nem uma folha de papel em branco, nem poeira, nem nada que fosse me dar um susto. Apenas um grande vazio.

Abri a porta, mas o carteiro não estava mais no meu andar. Aí me ocorreu que também não adiantava falar nada pra ele, se o homem só entregava as cartas. O que ele poderia fazer a respeito daquilo?

Não abra a porta para o carteiro. Apenas não.

Tentei não pensar mais naquilo ou a minha semana sozinha no apartamento ficaria mais tensa. Sou cagona. Vai que aquilo era uma ameaça de alguém que planejava invadir minha casa? Eu e minha ideia fixa com assaltante entrando em casa, né. O pior é que nem fazia sentido como ameaça. Só tentei não pensar mais. Abafei.

Mais tarde, já tinha acabado a novela, e começou uma bateção insuportável no andar de cima. Ou no andar de baixo, sei lá. Parecia alguém com uma marreta abrindo um buraco na parede, mas àquela hora? Sou do tipo vizinha tolerante, então decidi não reclamar e deixar que batessem o quanto precisassem, pensando que uma hora iam parar com o barulho. Mas não. Meia hora depois e ainda o TUM TUM TUM.

Alguém vai reclamar, pensei. Não precisa ser eu. Mas já se passava de quarenta minutos de marretadas e nada de parar, nem para descansar o braço, como aquilo era possível? Eu tinha que fazer algo.

Liguei para o porteiro e pedi para que ele falasse com o morador acima ou abaixo de mim para parar com as marretadas, já era tarde, que recomeçassem as obras pela manhã. Poucos minutos depois o porteiro liga de novo, me dizendo que falou não só com meus vizinhos de cima e de baixo, mas com outros moradores dos andares próximos. Ninguém estava batendo nada não, senhora.

“O senhor se incomoda de vir aqui em cima rapidinho pra ouvir o barulho? Está insuportável, não sei de onde pode estar vindo”, ele gentilmente concordou e assim que coloquei o interfone no gancho, o barulho parou.

Claro que quando o porteiro chegou, estava tudo normal e eu já havia bancado a surtada. Pedi mil desculpas pelo incômodo dele ter subido, ele disse que tudo bem e ainda tentou justificar o barulho com “prédio velho, sabe como é, encanamento às vezes faz barulhos estranhos”.

As marretadas ficaram ecoando na minha cabeça a noite inteira, mesmo horas depois de terem sumido. Quase não consegui dormir. Quando consegui, foi um sono denso, sem sonhos.

Não abra a porta para o carteiro.

No dia seguinte, estava trabalhando quando lembrei do envelope. Fiquei um bom tempo tentando entender o que significavam aquelas palavras estranhas, joguei no Google Tradutor e tudo, mas não pareciam pertencer a nenhum idioma existente. Elas se recusavam a fazer qualquer sentido.

Foi quando comecei a sentir cheiro de gás.

Corri para a cozinha. O cheiro era forte demais para não estar vindo do meu próprio apartamento. Os botões acendedores estavam todos virados para cima, na posição de desligados. Para garantir, fechei também a válvula do cano que trazia o gás encanado do prédio para o meu fogão.

Abri todas as janelas, mas o cheiro persistia. Andei a casa toda tentando descobrir de onde vinha o cheiro, se da rua, do corredor, de outra casa. Liguei rápido para o porteiro, avisando que estava rolando algum vazamento, tentando disfarçar o desespero da minha voz. Ele prontamente saiu para checar a parte central do encanamento, ver se estava tudo ok.

Rapidamente ele ligou me tranquilizando, dizendo que estava tudo certo e que mais ninguém estava sentindo cheiro de gás. Eu agradeci, disse que realmente o cheiro já tinha sumido. A verdade é que não. Eu ainda estava sentindo o maldito cheiro de gás.

Fiquei com a impressão de ter lido em algum lugar que sentir cheiro de gás inexistente era sinal de um curto-circuito no cérebro. Achei que eu ia ter um derrame. Ou foi a minha forma de processar aquela informação conflitante no momento. Não sei. Mas o corpo todo dizendo que sim, tá vazando gás e eu tentando dizer não, isso é uma alucinação.

Não abra a porta para o carteiro, tô te falando.

Tomei um copo d’água em goles grandes, depois deitei e fechei os olhos. Poucos minutos depois, o cheiro sumiu. Fiquei algumas horas deitada, olhando para o teto, depois voltei a trabalhar.

No outro dia, fui preparar o almoço. Catei umas batatas na geladeira, coloquei em cima da mesa. Estava pensando em cozinhar e depois refogar na manteiga, com salsa e cebolinha.

Fui até a janela da lavanderia, onde deixava minhas plantas, para arrancar um pouco de salsa e cebolinha para lavar, mas elas estavam murchas. Mortas. Uma pena, eu pensei. Nem o manjericão salvava. Não é possível, eu reguei no dia anterior. Vai ver não fez sol. O tempo realmente estava uma merda.

Daí reparei na terra. Estava mofada. Cheia de fungos, sabe? Não bastava as plantas terem morrido, suas raízes tinham apodrecido na terra. Teria que jogar tudo fora.

Voltei pra descascar as batatas e, assim que toquei a primeira, senti meus dedos afundarem em uma textura pegajosa. Podre. Pela casca, não parecia estar estragada, mas por dentro estava preta, mole, um cheiro horroroso. Todas estavam assim.

Dei uma olhada na gaveta de legumes: tudo mole, murcho, mofado, uma tristeza. Peguei um saco de lixo grande e despejei a gaveta ali dentro, sem tocar nas coisas podres, porque fiquei morrendo de nojo. Não entendia como tudo apodreceu tão rápido, de uma vez.

Não abra a porta para o carteiro.

Bem, ainda tinha um bife. Preparei na frigideira. Bife e arroz, seria o suficiente. Servi num prato e fui almoçar na frente da TV, assistindo às notícias. Alguém tinha pulado de um prédio na zona sul, os repórteres estavam lá ao vivo tentando entender o que aconteceu.

Eu devia ter amaciado melhor o bife, porque estava dureza de mastigar. Um pedaço grande ficou preso no meu dente de trás, de um jeito que não ficaria se eu já tivesse arrancado a droga do siso. Tentei arrancar com a unha mesmo, e consegui puxar o fiapo de carne pela pontinha. Mas eu puxei e puxei e ele continuava preso. Parecia um chiclete. O pior: um chiclete infinito. Porque eu puxava, ele esticava, ficava comprido, feito lenço de mágico saindo pela manga, mas a outra ponta continuava presa no dente!

Aquilo foi me dando um desespero. A boca aberta, meus dedos enfiados dentro dela, eu quase engasgando com tanta saliva e a gordura da carne que eu puxava ia só grudando nos outros dentes. Quase todos estavam presos naquele negócio nojento, e eu comecei a sentir que se eu puxasse mais, eu ia começar a arrancar meus próprios dentes, nem fio dental àquela altura poderia me ajudar.

Corri para o banheiro, vontade de chorar, de vomitar, o desespero de estar amarrada pela boca. Precisava do espelho para ver como iria soltar meus dentes, mas ao mesmo tempo, estava morrendo de medo de olhar pra ele. Me deu uma sensação ruim. Eu senti que, assim que eu olhasse para o espelho, eu veria algo que eu não gostaria de ver, algo que não deveria estar ali, algo que estivesse me esperando do outro lado do reflexo.

Não abra a porta para o carteiro.

Reuni alguma coragem me agarrando com força na pia e então levantei a cabeça. Olhei para o espelho e me vi. Nada além de mim. Nada estranho. Abri a boca e vi um fiapinho de carne preso no meu dente de trás. Tirei sem muito esforço.

Comecei a duvidar da minha própria sanidade. Já não sabia nem se eu tinha comido algum dos vegetais estragados, algo que tivesse causado um efeito alucinógeno. Intoxicação alimentar? Vai que. A outra alternativa era assumir que eu estava ficando maluca.

Ou que tinha algo na minha casa. O envelope. As palavras indecifráveis.

Não abra a porta para o carteiro!

No outro dia, a coisa foi bem pior. Tento organizar os fatos na minha cabeça, pensar em um jeito de contar que não faça você perder completamente o respeito por mim. Achar que é piada. Que estou tirando uma com a sua cara.

Eu mesma demoro para acreditar no que aconteceu, se tão clichê essas coisas perturbadoras sempre acontecerem dentro de casa. Quantos filmes de terror não usam isso: algo estranho que acontece na casa da pessoa, o lugar que deveria ser o mais seguro, um lugar que.

Alguém já bateu na sua porta hoje?

O tremor. Eu ia falar do tremor. Eu estava sentada no sofá, o computador no colo, quando senti uma tontura. Não, primeiro achei que fosse tontura. Mas não era meu corpo balançando, desequilibrado. O sofá estava balançando junto. Pra um lado e pro outro. Olhei para as coisas em cima da mesa e elas também estavam balançando, no mesmo movimento horizontal e longo. De um lado para o outro.

Mas que porra? O prédio está sacudindo, pensei. O prédio está sacudindo e vai cair. Saí do apartamento descalça, no susto. Desci correndo oito lances de escada, porque pegar o elevador em um prédio desabando não seria uma boa ideia.

Cheguei lá embaixo sem fôlego, descabelada, o porteiro me olhando com espanto. “Aconteceu alguma coisa?” E eu perguntei se ele não tinha sentido. O prédio sacudiu. Você não sentiu? Ele não sabia se ria ou se arregalava os olhos com preocupação. Daí eu pensei que não, certamente ele não tinha sentido, se ele estava no térreo. “Daqui não senti nada não, senhora”. 

Vai ver houve um pequeno tremor de terra. Talvez eu encontrasse outras pessoas falando sobre isso na internet. Mas naquele momento, eu saí do prédio e fiquei olhando pra cima um tempão, para verificar se o prédio não estava balançando. As nuvens se moviam lentamente atrás dele. O prédio parecia intacto, firme, inabalável. Talvez fosse seguro voltar.

Dei a volta e fui para a parte lateral do prédio, do lado que ficava meu apartamento. Procurei o oitavo andar. Era muito em cima, mesmo assim eu vi. Eu vi. Tinha alguém olhando através da janela, por trás da cortina. Olhando através da janela da minha sala.

Não abra a porta para o carteiro, não abra a porta para o carteiro, não abr

Eu não pensei direito, a gente nunca pensa direito. Se tem um bandido na sua casa, você não volta pra ela. Mas eu voltei e passei correndo pelo porteiro sem falar nada. Eu nem lembrava que ele estava lá.

A porta estava aberta, porque quando desci no desespero nem me passou pela cabeça trancá-la. O prédio ia cair. Ou eu achava que ia cair. Não pensei que alguém poderia entrar.

Entrei. A cortina esvoaçava com leveza, mas o ar estava pesado. Não tinha ninguém na sala, meu computador estava na mesma posição desajeitada que eu tinha largado quando saí correndo do prédio. Seria a primeira coisa que um bandido mexeria, não?

Peguei o celular, que também estava na mesma posição. Não ousei entrar nos outros cômodos, não ainda. Liguei para o meu namorado e depois para a polícia. Quer dizer, não lembro a ordem. Mas nas duas ligações algo estranho aconteceu. A pessoa atendia, eu começava a falar e do outro lado: “alô? Alô? Tem alguém na linha? Alô?” para então desligar na minha cara.

Meu estado de perturbação era tal que eu não tinha nem certeza se eu estava emitindo algum som. Quer dizer, eu achava que eu estava falando, mas não sei se eu realmente estava falando, entende?

Que violenta é a sensação de estar sozinha. Completamente sozinha. Comecei a torcer para que tivesse um bandido ali em casa, nem que fosse pra me aterrorizar com um revólver na cara. Pelo menos eu não estaria só. Pelo menos eu saberia que o bandido é real, que o revólver existe.

Mas não. Não tinha bandido. Não tinha ninguém. Olhei para o envelope em cima da mesa, o envelope vazio, o envelope das palavras estranhas. 

Não. Abra. A porta. Para. O carteiro.

Soube então que o envelope tinha a ver com aquilo. Soube que não havia alguém tentando invadindo a minha casa, mas que algo já estava dentro dela. Algo ali dentro tentando me fazer sair. Me cuspir pra fora.

Não era pra eu ter voltado. Não era pra eu ter aberto a porta para o carteiro. Não era pra eu deixar aquilo entrar.

Não abra a porta para o carteiro. Nunca.

Ainda estou em casa, mas arrumando minhas coisas para dormir na casa de um casal de amigos. Então nem adianta vir pra cá. Não vou estar. Não consigo. Você ficaria? Não sei se seria uma boa ideia.

DASDE CHAPORFETAS
SEUS NINAO OSEM SADEMO

As palavras. Se eu soubesse o que elas significam, o que elas querem me dizer, talvez essas coisas parassem. Talvez minha cabeça voltasse para o lugar. Mas não consigo desvendá-las, não consigo achar algo que faça sentido por trás delas. Você consegue entender o que elas significam? Você saberia traduzi-las? Ordená-las?

Melhor não. Não, não mexa com isso. Pode ser arriscado. Não estou escrevendo para envolver você nisso, nem pedir sua ajuda. Apenas para te avisar.

Se você estiver em casa, dê uma olhada por debaixo da porta. Dá pra ver se tem alguém ali atrás? Olhe. Você vai achar que tudo bem se não ver sombras de pés. Mas esse é justamente o problema.

Não vai haver sombras de pés por debaixo da sua porta quando o carteiro chegar. Ele pode já estar ali te esperando. Com algo para te entregar.

Então.

Por favor.

NÃO ABRA A MALDITA PORTA PARA O CARTEIRO.

A fórmula do horror

 
 
Não sou muito fã de filmes de terror. Não tanto por medinho. Mas porque são filmes, sobretudo os americanos, muito apelões.

Fazem de tudo só para te dar sustinhos. Exageram na história, na trilha, nas cenas que mostram os monstros. É um terror meio pornográfico, sabe? Tudo escancarado na sua cara.

A sutileza me dá mais medo. E eu sou muito cagona. O susto passa, mas a dúvida fica lá, uma sementinha que o filme planta na cabeça e depois te deixa meio bolada quando vai abrir um armário, entrar numa casa, olhar no espelho.

Da última vez que fui ao cinema (pra ver Mad Max pela segunda vez, isso mesmo), passou o trailer de um filme de terror que me fez pensar bastante nessa questão. Nem lembro qual era o filme, o trailer mostrava apenas uma mulher chorando, agachada no escuro, com uma câmera bem no estilo Bruxa de Blair.

Aliás, mulheres são sempre as vítimas perfeitas dos filmes de terror, já reparou? Elas gritam, choram, se desesperam, correm, tropeçam, fazem as escolhas mais burras possíveis, morrem.

Enfim. O trailer tinha uma mulherzinha e ela chorava, depois virava a câmera para o pescoço, que estava em carne viva (o tipo de cena pornográfica que adoram colocar nesses filmes). Aí surge um vulto no fundo da cena que joga uma corda no pescoço da moça e a puxa feito bezerro em rodeio, ao mesmo tempo em que a trilha faz um PAM ruidoso, na tentativa de te assustar.

Isso me fez pensar não só nessa receitinha batida, mas na estrutura do horror como um todo. Porque o medo, creio eu, é o sentimento mais difícil de transmitir para um leitor/espectador. Fazer chorar ou rir é muito mais fácil.

Da mesma forma, também é mais difícil transmitir o medo só com a escrita. O filme acaba sendo uma ótima ferramenta para o terror, porque é possível explorar mais recursos (de som e imagem) para envolver o espectador. 


Só existem dois escritores que conseguem escrever terror a ponto de me dar medo: Lovecraft e Stephen King. Os contos do Lovecraft trabalham com um sentimento muito visceral, que é o medo do inominável. Algo tão apavorante que você não consegue definir, explicar, algo que te enlouquece.
 
No entanto, o livro mais apavorante que eu já li era do Stephen King. Eu não me atrevia a ler O Iluminado à noite. O Cemitério (Pet Sematary, no original) é outra história bem assustadora.

Aliás, uma das minhas histórias favoritas de terror é dele: Carrie, a Estranha. Curioso que ele tenha escrito um terror em que a mulher não é a vítima indefesa, mas o próprio monstro. Quebrar expectativas também é um elemento importante no horror.

A quebra de expectativas pode acontecer de várias formas. Você achar que vai ter alguma coisa no armário e o autor fazer essa coisa aparecer, sei lá, embaixo da cama. Você ver uma pessoa falando e fazendo coisas e o autor mostrar que ela não está viva. Você ouvir o barulho de uma porta se abrindo, mas o autor mostrar que ela está fechada. Ou o autor te mostrar um monstro e você não saber se ele é real ou coisa da imaginação do personagem.

Esse é o ponto em que eu queria chegar: o terror trabalha principalmente com esse desnorteamento dos sentidos. O que assusta não é o sangue pelo sangue, o grito pelo grito, o monstro do porão em si. Mas a sensação de não estarmos no controle, de estarmos diante de algo que não podemos entender.

Talvez porque não haja coisa mais assustadora para nós, que evoluímos dependendo de nossa percepção para sobreviver, do que não poder confiar nos nossos próprios sentidos.

Este curta é um ótimo exemplo. Melhor ainda se você assistir à noite.


Falando mais uma vez de Garotos Perdidos, tem uma cena que me marcou muito, além daquela fala sobre não convidar vampiros para dentro da sua casa. O protagonista está com a gangue dos vampiros motoqueiros e eles estão comendo comida chinesa. Uma caixa de arroz. Daí o vampirão líder pergunta se os vermes estão gostosos. O rapazinho olha de novo pra caixa e não há mais arroz, apenas um monte de vermes gordos e brancos, que até parecem arroz, mas se mexem de uma forma nojenta. Quando criança, aquilo me apavorou demais. Era ser colocada diante de uma situação em que não dava para saber se o arroz era a alucinação ou os vermes eram a alucinação. 

O sobrenatural acaba sendo isso: uma “pane” nos nossos sentidos. Vultos, fantasmas, monstros escalando o teto, cheiros misteriosos, barulhos, vozes. Coisas que façam a gente se perguntar: que diabos está acontecendo? Eu estou imaginando isso ou é real? E apenas flertar com a possibilidade de que algo seja real, por mais absurdo que seja, é o suficiente para a gente se cagar de medo. Por exemplo, este outro vídeo que de uma forma inimaginável consegue tornar ainda mais assustador o ato de olhar embaixo da cama.

Mas esse mecanismo só funciona se o leitor/espectador conseguir se colocar no lugar da personagem. A gente só consegue sentir medo se estiver posicionada ao lado da pessoa que está com medo dentro da história. Ou seja, criar histórias de terror exige uma imensa capacidade do autor em gerar empatia. 

No humor, é possível rir com a personagem ou da personagem. Não sei se isso é possível no horror, por mais que ele tenha algumas coisas em comum com o humor (como a quebra da expectativa). Como você vai sentir medo se você não estiver com aquele personagem? Não sei.

Claro que essa confusão dos sentidos não é a única coisa que faz uma boa história de terror. Deve haver outras mil formas de entender esse gênero. Inclusive tenho uma questão sobre o elemento solidão, que é muito explorado em histórias do tipo, mas vou deixar para outro texto.

Que eu vou escrever, de preferência, quando eu não estiver sozinha à noite.

Não deixe o Babadook entrar



Esta semana, alguns comentários lá no grupo do FB me chamaram a atenção. Alguns leitores estavam conversando sobre os blogs pessoais e vi alguém elogiar uma resenha que o Rodrigo Emanoel escreveu sobre o filme The Babadook.
 
Favoritei o texto para ler depois e fui atrás do filme para assistir. Sem nem saber do que se tratava. Sem nem ter ideia que era um filme de terror.
 
A história é realmente assustadora, mas não porque é aquele tipo de filme de “sustinhos” ou de terror pornográfico. É um filme cheio de ambiguidades. Uma história bem servida de quebra de expectativas e confusão de sentidos.
 
Não vou nem comentar muito porque 1) quero que você leia o texto do Rodrigo, que fez uma análise excelente; 2) não quero dar spoilers do filme; e 3) a newsletter já está gigantesca.
 
Mas acho importante destacar algumas coisas aqui. Primeiro, o filme é dirigido por uma mulher, Jennifer Kent. Como em tantos outros meios, dos quadrinhos à ficção científica, o horror também é um meio dominado pela perspectiva masculina. O fato de ser uma mulher dirigindo (e outra produzindo) já torna o filme bastante diferente do que a gente está acostumada a ver por aí em matéria de terror.
 
Outro detalhe: o filme é uma produção australiana, o que também o diferencia das produções norte-americanas que costumam dominar o mercado. Outra coisa mais legal: a verba para produzir o filme (ou boa parte dela) foi arrecadada por financiamento coletivo, via Kickstarter. Ou seja, não foi uma produção viabilizada por um grande estúdio, mas por pessoas que de fato acreditavam na história.
 
O filme foi baseado no curta “Monster”, escrito e dirigido por Jennifer Kent. Vale a pena ver os dois para comparar. Porque os elementos principais do curta estão no longa, mas acabam sendo duas histórias bem diferentes.

 
The Badabook é sobre uma mãe solteira que passa por várias dificuldades para criar seu filho de sete anos, e sofre por não conseguir se adequar às expectativas de ser uma boa mãe.
 
Um dia, ela encontra um livro infantil sobre o Mister Badabook, uma entidade que ameaça entrar na casa da criança e lhe fazer mal, o que deixa o filho dela apavorado. Mas quanto mais ela nega a existência dessa entidade, mais o Badabook ganha forças para entrar na sua própria vida.
 
Você, na pele da protagonista Amelie, passa o filme se perguntando o que é real e o que é coisa da sua cabeça, perdida no labirinto de sua própria percepção. Essa confusão aterroriza e incomoda tanto que várias pessoas chegaram a perguntar à diretora se o Badabook é real ou existe apenas na imaginação. “A minha resposta é: ‘sim’ (risos)” 
 
Você não sabe se o monstro é sobrenatural, ou uma projeção da criança, ou uma projeção dela, ou se representa a falta do pai, ou se representa as expectativas da sociedade sobre ser mãe, ou se o verdadeiro monstro era a televisão. E toda essa ambiguidade torna The Badabook um filme de terror não só assustador, mas com profundidade. Dá muito o que pensar.
 
Nessa entrevista, a pessoa que está conversando com a diretora apontou que cada pessoa acaba criando sua própria versão da história. Jennifer diz que acha isso ótimo. E – pra encerrar – eu queria destacar esse trecho da entrevista, porque dialoga bem com o que tenho percebido ultimamente sobre as pessoas estarem perdendo sensibilidade para interpretar arte, que é o que acho realmente assustador:
 
“No desenvolvimento do filme, as pessoas diziam: ‘você tem que deixar muito claro o que isto é'. E eu dizia: 'Mas isso não é assustador'. Nós precisamos dar crédito ao público pela sua interpretação. Para mim, o cinema é uma conversa. Não é 'eu te digo o que é isso e você que aceite'. É antes: 'o que você pensa sobre isso? Como você se sente a respeito disso?’"

Nas edições passadas

 



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Não sei escrever terror. O que fiz nessa newsletter, com Não Abra a Porta Para o Carteiro, foi uma experiência baseada nas reflexões que fiz esta semana sobre medo e histórias de terror.
 
Eu adoraria saber o que você achou. O que você sentiu com a história? Algo te assustou? Isso me ajudaria bastante a entender como o horror funciona e como escrever melhor nesse gênero.
 
Também me tranquilizaria muito saber se você olhou ou não debaixo da porta. Se viu ou não sombras de pés.
 
Não deixe de fazer isso assim que fechar esse e-mail.
 
E não se preocupe: o e-mail ainda é um meio seguro para receber mensagens. Espero que seja. Ou abrir esta newsletter pode ter libertado algo para dentro da sua casa. Será?
 
Beijos apavorados,
 
Aline. 
 
 
Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, todos os direitos reservados.

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