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A mão de clicar chega treme.
Bobagens Imperdíveis

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 112
internet / dicas / livros

Não deixe o link morrer


A internet muda rápido e muda sempre. Normal. Faz parte de sua natureza. Dia desses estávamos add só com scrap; hoje damos mute pra manter as amizades. Noutra época esculhambávamos o miguxês; hoje todo mundo é miga.

A impermanência é o estado fundamental da internet. Isso e os memes, atualmente.

Então tudo bem mudanças e transformações. A gente aceita e dói menos. Mas algumas dessas esquinas que a internet dobra para pegar um caminho novo e inesperado me deixam triste. Até preocupada, como é o caso do avanço do comentarismo de portal que comentei na edição passada.

A outra tendência que tem me incomodado é a do print. Print pra tudo. Só existe compartilhar print. Print everywhere.

Vem cá: a pessoa vê um texto, acha legal, quer que o mundo leia também. Ela pega o u-érre-éle daquele texto para colocar em seu post e fazer surgir aquela mágica do textim sublinhado que conduz a outra página? Não. Ela tasca um PRINTÃO e compartilha a IMAGEM.

Já vi: textão compartilhado em print de três, quatro partes e nenhum linkzinho para o post original. Não era mais fácil linkar?

Acho que isso explica a dificuldade de fazer meus textos chegarem nas pessoas. Se eu quiser ser lida, melhor fazer um print do texto. Links saíram de moda.

E é triste que a internet esteja perdendo a cultura de linkar e compartilhar links, para favorecer a imagem, sempre a imagem, nessa nossa cultura de aparências e de consumir as coisas rapidinho para já passar para a próxima.

Vejo alguns problemas nisso.

Primeiro, porque os links são a base da internet e são eles que nos permitem explorar tudo o que ela tem para oferecer em seu mundo. Bem antes de existir o Google, os primeiros blogs funcionavam como centralizadores de links; uma página onde a pessoa guardava as páginas interessantes que ela encontrava no faroeste internético, quando boa parte de tudo isso aqui ainda era mato.

Imagine, era uma época em que não era possível apenas digitar palavras num campo de busca e esperar a internet te devolver os sites que você queria. Era uma época em que você tinha que pegar os sites na unha. Para acessá-los, era preciso saber o endereço (o que hoje em dia, quando sequer precisamos digitar "www" ou decorar números de telefone, parece uma loucura). Então os blogs que faziam essa curadoria de links facilitavam a aventura de explorar a world wide web.

Em 1994, um jovem da Pensilvânia chamado Justin Hall criou o que foi considerado o primeiro blog. Você pode ver uma amostra de como era esse ancestral dos blogs neste link: uma página simples, cheia de textos e muitos, muitos links. Aliás, o endereço era www.links.net. LINKS. PONTO. NET.

Neste vídeo, aliás, você pode ver o esquisitão criador do blog contando um pouco dessa história.

Em 2001, no Irã, o blogueiro Hossein Derakhshan criou uma lista que reunia todos os blogs em persa. Ele era uma espécie de “padrinho” dos blogs iranianos, e essa rede de troca de links e interação entre blogueiros fez do Irã um dos cinco maiores países em número de blogs.

Hossein viveu o auge dessa era. Neste texto (traduzido para o português), em que ele conta como a internet mudou nos seis anos em que ele passou na cadeia como preso político, Hossein explica que, em sua época, o hyperlink era moeda:

"Decorrente da ideia do hypertexto, o hyperlink oferecia uma diversidade e uma descentralização que o mundo real não tinha. O hyperlink representava o espírito aberto, interconectado da World Wide Web — uma visão que começou com seu inventor, Tim Berners-Lee. Era uma maneira de abandonar a centralização — todos os links, linhas e hierarquias — e substituí-la por algo mais distribuído, um sistema de nós e redes."

Mas vieram as redes sociais e os links passaram a perder valor. As pessoas são incentivadas a postar o conteúdo diretamente nas redes sociais, e desencorajadas a postar links que levem para outras páginas.

O Zuckeberg é um que odeia links. O Facebook não permite que posts com links circulem tanto quanto posts com imagem ou vídeos nativos. No Instagram, links nem são possíveis. A ideia é que as pessoas passem a ver Facebook como sinônimo de internet. Ele faz isso porque quer que você não saia do ambiente do Facebook ou do Instagram; não porque goste de você, mas porque deseja centralizar o máximo de poder e lucro só pra ele.

Essa centralização ajudou a atrofiar os blogs e iniciar uma nova era, onde a livre navegação pelos mares da internet foi dando lugar a uma passiva rolagem de tela para ver o que cai ali.

Como apontado pelo blogueiro Hossein:

“Os hyperlinks não são somente o esqueleto da web: eles são seus olhos, um caminho para sua alma. E uma página web cega, sem hyperlinks, não consegue ver ou observar outra página — e isso têm sérias consequências para a dinâmica de poder na web."

E olha como os prints tem a ver com isso de novo. Porque quem dera os prints que circulassem fossem de outras páginas e sites mundo afora. Mas em sua grande maioria são prints de posts e comentários em redes sociais. Não basta rolarmos apenas dentro dos limites dessas redes que concentram toda a circulação de gente na internet; ainda ficamos olhando só para elas em tudo o que compartilhamos.

Bem parecido com o mundinho autocentrado que a Globo cria; é como se fosse o Vídeo Show, que em vez de falar sobre o mundo do entretenimento, existe para falar apenas o que acontece dentro do Projac. É este o nível de bitolamento.

O outro problema do compartilhamento de prints que muita gente ignora é a falta de acessibilidade. Porque pessoas com deficiência visual (cegas ou com visão comprometida) não podem ver imagens.

Agora o Twitter (a versão web e aplicativo para celular) permite que se adicione legendas na imagem para que possam ser interpretadas por leitores de telas que essas pessoas usam para navegar pela internet. Mas não é automático: você precisa escrever a descrição da imagem para que os migos com deficiência visual possam saber qual é a figura que você está postando. Ou seja, exige que você saia do automático e ATIVAMENTE se lembre que elas existem.

(aliás, para ativar essa opção, vá em Configurações > Acessibilidade > Descrições de Imagem. Toda vez que você postar uma imagem – ainda não funciona para gifs – vai aparecer um campo para você digitar a descrição)

Por fim, essa tendência de compartilhamento adoidado de prints está criando uma cultura do “apócrifo”, em que não é possível mais verificar a origem e a autoria de nada.

Porque ao printar e compartilhar a imagem, você está desvinculando aquele texto/comentário da fonte original. E isso é acabar com uma coisa importantíssima: a capacidade de checar fatos e rastrear informações.

De onde vem essa info? É fonte confiável? Qual é a data? De quem é a autoria? Mas quem se importa em checar infos hoje em dia, não é mesmo? Aliás, quem produz conteúdo também está linkando cada vez menos; de onde tirou aquela informação que usou no texto? De onde saíram aquelas aspas? Pluft.

Atribuir e checar referências é algo que desde a escola as pessoas já não gostam muito de fazer. “Ain, referência bibliográfica, que saco”, mas é justamente o que nos permite expandir e disseminar o conhecimento. Algo que aliás, também está fora de moda: no império das redes sociais, o expandir dá lugar ao restringir, limitar, centralizar; disseminar, só aquilo que gera likes e audiência. Conhecimento não é prioridade.

Há o argumento de que se compartilha o print para não dar ibope para a fonte original ou para conseguir compartilhar algum comentário/post revoltante. Pois é, substituímos o clique de indignação pelo print de indignação. E dá na mesma: porque é gastar energia com o que gera raiva e ajudar a disseminar mais raiva. É realmente de raiva que a gente quer que seja feita a internet?

Imagine se as pessoas compartilhassem com o mesmo gosto aquilo que elas acham bacana e construtivo. Muitos blogs e projetos não teriam morrido. A internet talvez estaria mais suportável de se habitar.

Então não deixe o link morrer. Não deixe o link acabar. A internet é feita de links; de link pra nóis navegar.
animação de Link do Zelda fazendo uma dancinha
eu não ia perder esse trocadilho


Proposta


A primeira parte do que eu queria propor esta semana é: comece a descrever as imagens que você posta. Bora usar essa ferramenta do Twitter para legendar as imagens?

Exemplo de como inserir descrição de imagens no Twitter
Você pode escrever seu tuíte normalmente e escrever a descrição de imagens clicando nela. A descrição só vai aparecer pra quem usa leitor de telas.

Se você tem blog ou newsletter, também é possível descrever as imagens para leitores de tela. Para isso, use o campo “alt text”. Algumas dicas de como fazer isso neste link ou neste, em português.

Segunda parte da proposta: separe uma horinha do seu dia para fazer isso (aquela hora que você gastaria rolando a timeline do Facebook, por exemplo, que não vai te fazer nenhuma falta): partindo de um texto da sua preferência, comece a explorar mais o assunto clicando num link contido nele, e depois em outro link dentro do próximo e assim sucessivamente.

Pode ser divertido se perder pela internet indo de link em link, tendo uma postura mais ativa de buscar a informação que te interessa.

Também é um exercício para sairmos um pouco do ambiente das redes sociais e observarmos o quanto as pessoas estão linkando seus textos a boas referências – e o que de novo podemos descobrir pelo caminho.

(as propostas também valem pra mim)
 


Só links, sem prints


:: O blog Sem Formol, que honra a origem dos blogs ao postar, semanalmente, uma linkagem bem bacana.

:: Textos antigos da coluna “morrendo de rir, minha vida de intelectual”, da Elvira Vigna, uma das minhas escritoras favoritas.

:: Um livro ilustrado que você pode jogar como Romeu ou Julieta e acabar com um milhão de possibilidades de aventuras. Um texto sobre o livro-jogo aqui.

Ilustração de Romeu e Julieta com caras esquisitas acenando enquanto passeiam pela cidade

:: Sente falta dos anos 90? A Rashida Jones fez um clipe maravilhosamente brega para matar saudades. Rashida Jones é amor.

:: Sabe musiquisinha de game 8bit? Neste link, uma lista de vídeos com os artistas pioneiros do gênero musical chiptune.

:: Este texto (traduzido) do Hossein sobre a consequência da morte dos links.
 


Caçando águas-vivas


A Gabriela viu meu livro numa livraria em Petrópolish no RJ e veio me mostrar:

@venturieta: "Olha quem eu achei em Petrópolis, @alinevalek! Brilhando muito na serra do Rio."

Viu meu livro por aí? Não precisa nem ter comprado, basta ter visto numa livraria enquanto você estava de bobeira. Ou o livro chegou na sua casa e você está lendo debaixo das cobertas? Posta uma foto e me marca, vou adorar ver! Meu instagram é este aqui, ó.

Bob Esponja caçando águas-vivas


É hoje!


Se você está em São Paulo, esse alô é para você: hoje é a tarde de autógrafos em que farei alguns garranchos no seu exemplar de As águas-vivas não sabem de si!

Será na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista nº 509 (próximo à Estação Brigadeiro), às 15h.

Espero te ver por lá :)

As águas-vivas não sabem de si – Rabiscarei livros em SP – Tarde de autógrafos

Espero que tenha gostado da edição desta semana, e saiba que 1) você sempre pode responder meus e-mails e 2) você sempre pode compartilhar o link desta edição internet afora (e agradeço!)

Se você está vendo esta edição na WORLD WIDE WEB e não na sua caixa de entrada, basta clicar aqui para receber Bobagens direto no seu e-mail.

Até a próxima e viva os links.

Beijos linkados,
 


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