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Hoje duas historinhas que não têm nada a ver uma com a outra

Vida selvagem



Ei, para onde vai tão cedo, por que toma o caminho de saída da Cidade? Para onde vai com essas duas pernas e calças jeans, se elas foram feitas para andar pelas calçadas da Cidade e não pelas estradas de terra, sujas, empoeiradas, lamacentas? Cuidado ao meter essas pernas estrada afora, hein; são caminhos perigosos!

Já entendi tudo. Cansou da agitação, da vida urbana, da rotina, dos custos, da poluição, da correria, dos horários, do concreto, da coisa toda. A Cidade não é mesmo para os fracos. Entendo, entendo. Ah, você procura a natureza, então. Isolar-se dessa loucura e entrar em contato com o que te faz ser humano. Árvores, bichos, silêncio, viver do que a natureza dá pra gente, aprender a se virar, pensar só no momento presente.

Corta essa. Besteira.

Sério, você não precisa de nada disso. Você precisa é de contato humano, cercar-se de pessoas, ter faces humanas esfregadas na sua cara em tanta abundância até que se pareçam parte da paisagem. É de pessoas que você precisa; pessoas e um carro novo. As pessoas da Cidade vão parecer bem menos ameaçadoras se você as olhar do seu banco de motorista. Não?

Certo, você não aguenta mais a Cidade. Você quer algo mais “natural”. Mais isolado, mais tranquilo. Então não devia ir por aí. É, aí mesmo pra onde você está indo.

Antes de você pegar o caminho da Roça, deixe eu te dizer uma coisa: você não vai gostar nada disso. Calma, tranquilidade, contemplar o tempo? Pfff. A Roça é burocracia pura. Você quer comer e não pode simplesmente passar num mercado e comprar o que te apetece, aquela variedade gostosa de iogurtes, tudo tão fácil, tão disponível. Qualquer merdinha de salada que você quiser almoçar dá o maior trabalhão. Demora semanas, meses. Tem que preparar a terra, plantar a semente, cuidar até ela sair da terra e virar folha, cuidar para os bichos não comerem, colher, lavar, pra só então levar ao prato. Nem fila do INSS demora tanto – e na Roça não vai dar pra esperar isso numa sala com ar-condicionado não, violão.

Viu, eu te falei. Então o que você quer é um lugar mais “puro”. Com menos traços de civilização. Um lugar selvagem, que te desafie a sobreviver, que faça você encarar a pequeneza da sua existência diante de um ecossistema que não precisa de você e sequer precisa te temer.

Certo, então o seu caminho é aquele ali. Vê? Dá pra ler na placa: vida selvagem. Acho que é exatamente o que você procura.

Aquele é um lugar tão fascinante quanto hostil. No início, você terá dúvidas se vai conseguir sobreviver ou mesmo se adaptar ao ambiente. Sua principal preocupação, no início, será conseguir um abrigo com boa localização e arrumar um jeito de conseguir água e comida. Não será fácil, mas viver na selva tem um preço alto.

Cuidado também para não se perder nos caminhos labirínticos desta selva. Este lugar vai te engolir com vida se você ficar dando bobeira. E os animais que vivem ali? Talvez você não queira cruzar com um predador naquele lugar. Ali vale a lei do mais forte; e pode ter certeza que você não estará no topo da cadeia alimentar. O melhor a fazer é pisar em cima dos menores para garantir a sua alimentação – isso, assim como se curvar a um predador se ele meter as garras em você, é respeitar a hierarquia, as leis da “natureza”.

Não dá pra reclamar de tédio nesse lugar; há muito o que fazer. Você vai se ocupar de lutar pela sobrevivência e isso, colega, não é pouca coisa. Mas logo você não será capaz de imaginar outro modo de vida. Depois de algum tempo, você também se sentirá um animal, uma coisa que nasceu para viver e morrer nesse lugar, uma parte do sistema, um selvagem. Você será a selva.

Agora você parece se excitar com a promessa de aventura, de integração com a “natureza”. Decidiu? Ótimo, ótimo. Siga por esse caminho, boa sorte em sua jornada. Até mais ver.



Oh, aí está você. Não, você não errou o caminho. Vida selvagem é aqui mesmo, pode entrar! Pra quê essa cara de espanto? Sim, você está de volta à Cidade. Aliás, sentimos sua falta. O que você esperava? Se te disserem que existe lugar mais selvagem que a Cidade, olha, vão estar te enganando. Então welcome to the jungle, baby. Agora pode continuar a correr: é isso que as presas fazem.

Ilustração: Peter Brown

A adolescência me fez rockera



A adolescência tem a função social de nos prover um repertório de histórias constrangedoras e de nos mostrar que não somos tão ridículas na vida adulta porque né, já atingimos o fundo do poço lá atrás, na adolescência. Não ter alcançado esse nível mais baixo da cafonice e da vergonha durante essa fase é como pegar catapora ou sarampo depois de velha; há doenças que é melhor ter o mais cedo possível para nos privar de desastres futuros – e digamos que a adolescência seja uma dessas enfermidades.

Na pré-adolescência eu até que era tranquila, mais por falta de vida social e de más influências do que por ser uma pessoa que demonstrasse qualquer sinal de maturidade, e foi a fase em que eu curtia loucamente os Backstreet Boys; que, basicamente, é o máximo que pode ser usado contra mim nesse período.

(meu gosto por essa boy band, inclusive, pode ser melhor entendida como a evolução de gostos que eu já nutria. Eu era fã de todo tipo de tokusatsu e super sentai, achava realmente fascinantes grupos de cinco idiotas com roupas coloridas fazendo poses sincronizadas para combater monstros espaciais. Os Backstreet Boys eram quase isso; estavam também em cinco, tinham coreografias e o super poder de músicas carregadas de romantismo. Natural então eu ter migrado de fã de Power Rangers para fã de Backstreet Boys).

Mas algo aconteceu e aquela garotinha que ouvia Quit Playin’ Games With My Heart sem parar e era apaixonada pelo Kevin passou a rejeitar tudo o que antes mais amava. Não sei como nem por quê, mas virei roqueira.

É uma daquelas coisas tontas que a gente faz só para se posicionar como alguém que não é mais criança. Lembro de um episódio que talvez tenha a ver com a história, agora, olhando em retrospecto: eu tinha um belíssimo chaveiro do Squirtle (meu pokémon favorito à época, até eu começar a jogar Pokémon Red e virar treinadora de um Charizard) e resolvi ostentar na minha mochila. Um dia (isso na quinta ou sexta série), voltava pra sala no intervalo e havia um certo reboliço, uma aglomeração no meio da sala, onde eu sentava. Um dos idiotinhas da sala estava perguntando: “de quem é esse chaveiro?”, e eu respondi, com naturalidade e até um certo orgulho “é meu!”. Pra quê. Começaram a me zoar dizendo que eu gostava de desenho de criança. Fui humilhada, infernizada, comecei a me achar uma idiota por gostar de Pokémon. Mas eu precisava fazer algo a respeito.

Devo ter pensado, munida do raciocínio típico da pouca idade, que talvez me respeitassem se eu me tornasse uma pessoa dark, uma pessoa trevosa, uma pessoa da pesada, sabe? Com alguns spikes, roupas pretas, um all-star (óbvio) e algum conhecimento musical, pronto: eu começaria a me transformar nessa roqueira.

Meu primeiro CD de rock foi do Silverchair. Aquela que quer ser “da pesada” e começa com Silverchair: você está fazendo isso errado. Porque veja, Daniel Johns com aquela carinha de irmão mais velho dos Hanson cantando Ana’s Song não é exatamente o que se pode chamar de roque pesado.

(aliás, reparou como é coerente minha trajetória? De super sentai para Backstreet Boys, que é praticamente um Power Ranger de boys magia, e de Backstreet Boys para Silverchair, que é praticamente uma boy band de roque).

Mas logo eu adicionei alguma pauleira (ai, adoro esses termos) à minha dieta musical. Meu segundo CD foi o Brave New World do Iron Maiden, o que logo me encaminharia para o roqueirismo que me definiria mais tarde. Aprendi a valorizar bons e intermináveis solos de guitarra, estripulias vocais (mas não vocais guturais) e músicas com letras obscuras, sobre ruindades, medos e outras coisas dark.

No roqueirismo, uma vez iniciado, você vai progredindo e conquistando reconhecimento à medida que seu gosto vai evoluindo e ficando menos e menos mainstream, além de mostrar que você de fato vive o roque. Não era só uma questão de ouvir música, não. Era sobre se provar, mostrar que você era truzera, e se você não era true você só podia ser poser. Sim, coisa de adolescente.

Usavam-se bandas como distintivos, ou seja, reconhecíamos se alguém merecia respeito pelas bandas que curtiam. Em minha jornada em direção à darkitude completa, cheguei a um ponto em que gostar de Nirvana era um demérito, motivo para gozação (a mesma gozação que me submeteram os panacas da quinta série por eu curtir Pokémon, porque na vida a gente periga se tornar o tipo de pessoa que a gente não quer ser). Detalhe: eu tive uma fase de ouvir e gostar muito de Nirvana. Era, portanto, subir um degrau para logo em seguida rejeitar o que você curtia até então.

Tal qual pokémon, evolui de “roqueira” para “metaleira”. Aliás, o termo metaleira me soava pouco adequado, tendo mais a ver com quem trabalhava com metais ou vendia panelas; não, não. Eu era headbanger. Se não me engano, tinha uma revista com esse nome, que aliás eu usava para ler os “classificados” e procurar amigos com os mesmos gostos musicais para trocar cartas. CARTAS. Na época, um anúncio meu certamente incluiria alguma dessas bandas: Metallica, Iron Maiden, Angra, Shaaman, Nightwish, Within Temptation, Blind Guardian, Edguy, Masterplan (meu deus como eu amava), Rhapsody, Ramnstein, Marilyn Manson.

Eu refletia toda essa cultura em um figurino de péssimo gosto, baseado em roupas pretas, camisas largas com estampas de bandas, coturno, all-star (preto!), spikes de todos os tamanhos, muitos anéis, brincos gigantes, calças que eu mesma rasguei (em uma delas inclusive fiz vários desenhos para mostrar que eu era perigosa, por exemplo, uma pantera negra escalando minha perna. Ui, que dark), uma corrente que eu sempre pendurava na calça, bandanas de caveira e olhos bem marcados com lápis preto, algo que sequer podemos chamar de maquiagem. Primeiro, porque eu considerava maquiagem coisa de patricinha; segundo, porque era realmente mal feita demais para ser algo que servisse pra me deixar bonita. O objetivo era apenas transformar meus olhos no abismo profundo que eu acreditava que residia em minh’alma (mas tudo que as pessoas viam era, na verdade, uma adolescente ensebada com sujeira na cara).

O que eu fazia com todo esse roque? Eu não ia a cemitérios (porque isso era rolê de gótico, e já disse eu era headbanger, não gótica), eu não tinha uma banda, eu não fazia sexo nem usava drogas, eu mal ia a shows! Na época quase não ia show que prestasse pra Brasília e se tinha algum, eu não tinha dinheiro e nem a permissão da minha mãe. O máximo de show que eu experimentei na época foram festivais de rock cristão e um show do Shaaman, onde fiquei bem na frente cantando loucamente e acreditando que o André Matos cantou um pedacinho de uma música olhando pra mim.

Ser roqueira exigia muito esforço e dava pouco retorno. Me rendeu o quê? Um namorado e alguns amigos que nem no mesmo estado moravam. Escalei a montanha do roque apenas para chegar ao topo e me perguntar: e agora, o que eu faço com tudo isso que conquistei, caras? O que eu faço com aquele “reconhecimento” de meia dúzia de adolescentes tão sem futuro quanto eu? Céus, roqueira nem era uma carreira.

Acho que cansei de brincar depois que terminei com meu namorado guitarrista (que, coitado, também se achava especial por ser rockero) e quando comecei a pensar em entrar pra faculdade & arrumar algum trabalho. O roque perdia espaço à medida que a adolescência ia acabando; e era um estilo de vida que também não me deixava curtir Pokémons. E poxa, todo aquele tempo me vestindo de preto e ouvindo metal pesado, mas o que eu realmente queria era poder curtir Pokémon em paz.

(talvez isso explique a fita ainda mais constrangedora que veio depois: uma adolescência tardia representada por minha fase otaku, mas aí é história pra outro dia).

Eu tenho um cadim de vergonha ao relembrar o que fiz da minha adolescência. Mas deve ser recíproco: penso que se aquela Aline headbanger truzera visse o que me tornei hoje, ia querer morrer de desgosto. Afinal, sou dessas que montam playlist com divas pop sem o menor remorso. Who run the world?

Maratona de escrita



Este ano resolvi participar do NaNoWriMo. Tomei essa decisão porque eu não precisava só de um empurrãozinho para escrever meu livro; estava mesmo precisando ser arremessada em direção a ele.

NaNoWriMo é o National Novel Writing Month, algo como o Mês Nacional de Escrever Romance: participar dessa iniciativa significa se comprometer a escrever, entre os dias 1º e 30 de novembro, 50 mil palavras de um romance.


Como eu já contei por alto em alguma edição passada, atualmente estou trabalhando em um livro. Já tenho até bastante coisa desenvolvida (especialmente em relação a background e personagens), mas a história vai avançando ao ritmo de eras geológicas. Vou devagarinho, com cuidado, como quem ainda aprende a mergulhar. O problema é que isso vai virando uma punheta eterna (ou melhor, uma siririca eterna; desculpe o falocentrismo), porque se eu continuar nesse ritmo, capaz de o filme da Captain Marvel ficar pronto primeiro que meu livro (e olha que o primeiro filme da Marvel protagonizado por uma mulher tem previsão só pra 2018!). 

Não que seja um problema demorar; há livros que demoram anos pra serem escritos e tudo bem. Normal. Mas se, pra mim, esse processo está se transformando em ansiedade, posso experimentar fazer diferente e ver o que acontece. Não significa que terei um livro pronto em dezembro. Terei ainda muito o que fazer (e refazer). Também faz parte.

Faz 3 anos que descobri o NaNoWriMo, mas nunca tive nem tempo nem ideia para participar. Dessa vez, tenho uma necessidade: um livro pra terminar e pouco tempo. Resolvi aproveitar e trazer para esse desafio o livro que já estou escrevendo, para terminar novembro com mais 50 mil palavras nessa história.

Tenho, no entanto, várias dúvidas.

Não sei se vou conseguir alcançar a meta do desafio. Não sei quanto, de fato, serei capaz de escrever. Não sei que tipo de história eu terei ao fim de novembro, porque certamente será bem diferente do livro que eu escreveria sem pressa, tendo todo o tempo do mundo (e ninguém tem todo o tempo do mundo, né).

Sei que não vou gostar do que vai sair, disso tenho certeza. Vou achar ruim, tosco, uma bosta. Mas pelo menos vou ter uma base para reescrever, editar e trabalhar a partir de dezembro. Vou ter alguma coisa pra trabalhar de forma mais consistente e isso já me parece uma perspectiva bem otimista (coisa que não consigo ser nunca, então é um avanço).

Só o que verei no próximo mês

Vou precisar de todo apoio que eu puder conseguir: para alcançar a meta, vou precisar escrever insanamente e vou agradecer muito a paciência e compreensão das pessoas para entenderem que estarei em imersão. Isso também significa que, durante novembro, as newsletters serão bem sucintas e talvez pouco criativas; por isso já te peço desculpas. Também vou demorar mais a responder seus e-mails e vou me ausentar um pouco mais das redes sociais – mas vou tentar dar sinal de vida, rs. 

Espero que entenda, <<Primeiro Nome>>, continue comigo e segure minha mão.

50 mil palavras, lá vamos nós.

Coisas, mil coisas



:: 40 escritoras para ler antes de morrer – e estou na lista das escritoras feministas da atualidade com outras minas que muito admiro :’)

::
Recadinho do Lula para quem é contra as políticas sociais e babou de raiva nas eleições deste ano: “mais generosidade e menos preconceito vai fazer um bem enorme para esse país”.

::
Perdemos. Foi a conclusão do melhor texto sobre o fim das eleições.

:: O
ódio à democracia é sinal de que ela se consolida e começa a incomodar.

:: Um
blog (em inglês) pra ficar de olho.

:: Aproveitando que domingo é Dia de La Muerte, assista
esse curta INCRÍVEL sobre um menino no nordeste que tem uma teoria sobre as 7 formas de morrer. Assista, sério.

:: Um aplicativo grátis para se divertir horrores editando fotos no celular: Cat Wang.

::
Esse vídeo, wow, such psicodélico, very cores, wow, e as luzes!

:: Por que tememos o
oceano.

:: Uma exposição pra quem curte quadrinhos: Ocupação Laerte, em SP.


:: Um filme pra NÃO ver (a não ser que queira passar raiva): Garota Exemplar.

:: Um filme que eu queria muito ver, mas ao que tudo indica não vou ver: um filme solo da Viúva Negra.

:: Deu
nesse teste que em Game of Thrones eu morreria atacando a Muralha. Sou uma selvagem de espírito livre que encontraria seu destino final ao tentar transpor a Muralha e encontrar lá 4 idiotas da Patrulha tentando virar heróis. Risos.

:: As artes
desse cara (contém imagens que podem ser perturbadoras).

♥︎
♥︎
Quando esse e-mail chegar em suas mãos, estarei em Brasília, numa distância segura para quando essa newsletter se autodestruir em 5… 4… 3… 

Mentira, essa newsletter não vai explodir.

Mas sim, estarei em Brasília, o que significa que preparei e agendei essa newsletter com bastante antecedência para viajar tranquila sabendo que você teria uma leitura para o seu final de semana. :)

Quando eu voltar, já caio de cara no NaNoWriMo, mas espero estar de volta na sua caixa de entrada no próximo sábado.

Beijos novembrinos,

Aline.

 

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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