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Sultana, ilusões e mania de se achar especial


Olar, Aline! 

Hoje quero começar falando de uma novidade que eu aprontei durante a semana. Lembra que na última edição eu até deixei um suspense sobre isso? Pois é. 

Tive a honra de lançar, junto com minha parceirona Sybylla, mais uma obra pelo projeto Universo Desconstruído: a tradução da obra pioneira da Ficção Científica feminista “O Sonho da Sultana”, escrito em 1905 pela escritora e ativista bengali Roquia Sakhawat Hussain.

Disponibilizamos o e-book no site do projeto, e pode ser baixado em três formatos: pdf, epub (compatível com Kobo) e mobi (para Kindle).

Sim: é de graça. O nosso propósito ao resgatar essa preciosidade, que inclusive foi uma de nossas inspirações para criar o Universo Desconstruído, foi justamente o de facilitar o acesso à obra. Queremos que mais pessoas conheçam Roquia e suas ideias!

Tudo o que pedimos é que, ao baixar usando o pagsocial, você poste uma mensagem no seu Twitter ou no Facebook para aumentar o alcance da divulgação. Para que mais pessoas saibam sobre O Sonho da Sultana :)

E poxa, tanta gente usando um tuíte para divulgar texto merda ou dando visibilidade pra gente preconceituosa, por que recusar dar um tuíte em nome de algo bacana?

Vai lá no site fazer o download. Aliás, o site novo ficou lindão graças ao Marcos Felipe.

Ah, e atendendo a pedidos, disponibilizamos a versão impressa pra quem prefere papel. É em formato pocket, pequenininho e fofo :) O preço é apenas o valor de custo da impressão pelo Clube de Autores (é meio carinho porque eles fazem impressão sob demanda), e toda a compra é feita por lá.

Escrevi no meu blog um texto sobre a Roquia e também conto porque sua obra, que trata, entre outras coisas, do direito das mulheres à educação, ainda dialoga com a nossa realidade – mesmo aqui no mundo ocidental! Dá uma olhada.

A Sybylla escreveu uma boa introdução sobre a Roquia e sobre O Sonho da Sultana, que você pode ler aqui.

E já escreveram uma resenha incrível sobre o conto! Amei como a Samantha, do blog Meteoropole, aprofundou a análise em alguns detalhes da história, especialmente nas tecnologias imaginadas por Roquia. Ela também dá bons motivos para ler O Sonho da Sultana:

“Porque é Ficção Científica ‘antiga’: adoro ver o que as pessoas pensavam em termos de ‘modernidade' e como elas imaginavam as tecnologias avançadas que ainda não dispunham. Porque é um trabalho de uma cultura diferente da nossa: isso é muito importante! Sair um pouquinho do universo dos escritores ocidentais e tentar ver os mesmos assuntos sob outra perspectiva."

Bem, espero que goste. Vamos adorar se você contar pra gente o que achou, escrever uma resenha, recomendar para as amigues, etc.
 
Boa leitura e bons sonhos feministas, Aline ;)

Não vai ficar tudo bem



Filme ou seriado que tem tragédia & criança eu tenho quase certeza que vai ter a famosa cena do “tá tudo bem, filhão”. Você deve saber como é. O pau tá quebrando, o mundo acabando e o adulto vira para a criança para dizer que vai ficar tudo bem.

Por exemplo: no filme “O Nevoeiro”, história do Stephen King, as pessoas estão presas dentro de um supermercado por causa de um nevoeiro do lado de fora matando gente e tem criaturas bizarríssimas tentando invadir o mercado e o que o pai diz pro garoto? Vai. Ficar. Tudo. Bem. Filhão.

Nada, absolutamente nada na situação indica que qualquer coisa vá ficar bem. Pais e mães da ficção apocalíptica devem achar que crianças são idiotas ou o quê? 

Nessa hora eu me irrito sinceramente com o personagem (não que a história seja ruim, veja, há até um mérito em construir um personagem com hábitos tão convincentemente humanos), quero dar uma bronca, falar de como é irresponsável essa atitude, dizer que não, cara, não vai ficar tudo bem!

Claro que eu lembro que é só um filme e continuo a assistir. Mas não posso deixar de observar o quanto de “tá tudo bem, filhão” há na nossa vida. Essa vontade de acreditar, de pensar positivo, de em momento nenhum assumir que se está na merda.

“A ‘confiança’ não é uma das minhas palavras favoritas. Muitas vezes, ela é o falso sentimento que você tem antes de entender a situação.”

Quem escreveu isso foi Bob Knight, um treinador de basquete universitário americano, famoso por suas vitórias e por ser um defensor do pensamento negativo.

Lendo o livro dele, achei interessante a visão de que o basquete é um jogo de quem erra menos (o que pensando bem, vale para outras coisas): “a vitória favorece a equipe que comete menos erros”, era o que escrevia nos cartazes que ele colava no vestiário de suas equipes. Bob Knight nunca seria o pai “vai ficar tudo bem, filhão”.

“Quem pensa negativo sempre sabe que tem uma possibilidade de ser vencido, então trabalha para reduzir ao máximo essa possibilidade. O treinador empenhado em difundir mensagens boas e criar imagens positivas corre o risco de nunca deixar a verdadeira possibilidade lhe passar pela cabeça. Então ele tem a tendência de se descuidar dos problemas para os quais precisa se preparar.”

Na hora eu lembrei da Copa do Mundo e da seleção masculina. Quem sou eu pra dizer “eu avisei”, mas bem que escrevi sobre isso na edição que falei sobre a jobber aura, lembra?

"Agora imagina só se a seleção brasileira, representando o país que sedia a bagaça toda, perde. Porque convenhamos, pode ser uma equipe forte e tudo o mais, mas assim como tem chances de ganhar, tem chances de perder. Com toda essa expectativa que estão criando com 'rumo ao Hexa', se a seleção brasileira não ganha, ah, vai ser só choro e ranger de dentes.”

Daí veio o 7 a 1 e não adiantava nada abraçar as pessoas chocadas no estádio dizendo “vai ficar tudo bem, filhão”.

(e veja o quanto é fácil profetizar quando se trata de expectativas altas. Expectativa é a mãe da frustração, isso é quase tão certo quanto as leis do Universo)

vai ficar tudo bem filhão (não)

Antes de você achar que eu estou defendendo que todos virem rabugentos pessimistas e não acreditem que há esperanças, pera lá. 

A questão que trago aqui é outra: como Bob Knight falou ali em cima, é preciso encarar nossos erros e o fato de que sim, as coisas podem dar errado. Mas estamos preparados para abrir mão de ilusões confortáveis, como a de que “vai ficar tudo bem, filhão?"
 

A ilusão do talento



Eu não gosto da ideia de talento. Pra começar, acho que talento não existe.

Entenda que não falo aqui sobre alguém fazer bem alguma coisa, mas a ideia de que se ela faz bem alguma coisa é porque “nasceu” pra isso.

Ninguém nasce com o poder de criar textos, desenhos ou músicas geniais, como se fosse uma espécie de mutante com talento artístico no lugar de visão de raio laser. Não existe um deus distribuindo dons na fila da existência. 

Não há nada tão difícil que só possa ser feito por algumas poucas escolhidas pelo cosmos. Qualquer pessoa pode fazer qualquer coisa.

Acreditar que alguém escreve, toca, canta, desenha, joga ou cozinha bem porque tem talento é se apoiar em uma ilusão. O talento é um tipo de “vai ficar tudo bem, filhão” das habilidades: vai ficar tudo bem, meu texto vai ficar ótimo, porque eu tenho TALENTO. Vai ficar tudo bem, você vai ganhar o jogo, porque sua equipe tem TALENTO. Vai ficar tudo bem, você vai arrumar um trabalho de ilustrador porque você tem TALENTO.

É um tipo de pensamento positivo. O que a pessoa fizer vai dar certo porque sim. Porque talento. Mas talento não existe. Sabe o que existe? Vontade de fazer. Vontade de aprender. Trabalho duro.

sim

Um grande amigo meu, também técnico de basquete (olha só), também já me disse o quanto se incomodava com esse discurso. Ele dizia que é cômodo poder acreditar que um craque surge por combustão espontânea ou que um recordista brota do chão: muito mais confortável do que investir em equipamentos, em infraestrutura, em garantir condições adequadas de treino para aquele atleta – para que mais e mais gente quebre recordes e não apenas as poucas escolhidas que “nasceram” com o dom.

(outros motivos pelos quais não acredito em talento você pode ler aqui, que aliás é um dos meus textos que mais encontrou resistência. E, apesar de todos os argumentos que já me apresentaram, nenhum deles me convenceu a mudar de ideia)

Esse meu amigo ainda disse:

“Acreditar que o ‘topo’ está reservado apenas para os ‘habilidosos natos’ é uma forma de se sabotar”.

Além de ser um baita tapa na cara, uma forma de acordar e ver que a gente precisa trabalhar se quiser ser bom em alguma coisa, tem outra crítica inserida nessa fala que me chama a atenção: a ideia de que o “topo" é reservado a alguns poucos escolhidos.

A narrativa do escolhido



Faz algum tempo eu escrevi uma crítica sobre o seriado Girls e fiz algumas comparações com outras representações sobre jovens de outras épocas, como o filme Reality Bites e o livro On The Road.

Tem um pouco a ver com o assunto: nele falo sobre como essa juventude retratada em Girls se acha especial. Acreditam que merecem o mundo simplesmente porque sim, e que “vai ficar tudo bem” – enquanto não se esforçam nem um pouco pra isso. São totalmente conformadas.

Você pode ler o
texto completo aqui, mas destaco um trecho:

"Hannah acredita ser a voz de uma geração, embora aja como se a obra de sua vida simplesmente vá cair em seu colo. Ela e suas amigas ficam tão envolvidas em suas próprias questões existenciais, problemas no relacionamento e outras coisas que orbitam ao redor de seus umbigos que, diante de qualquer contato com a realidade e de qualquer obstáculo que precisam superar para sobreviver (como prazos de entrega ou pagamentos de aluguel), elas simplesmente piram. Quebram-se, frágeis. Nesse ponto, quase romper o tímpano com um cotonete ou fazer um estrago irreparável no cabelo representa a incapacidade de lidar com a ansiedade, bem como com a frustração de perceber que apenas se achar especial não é o suficiente para sê-lo – e, invariavelmente, quem se acha assim tão especial tende a quebrar a cara.”

Em Girls eu não tenho exatamente certeza se esse comportamento é criticado ou glamourizado. Mas pelo menos as coisas que acontecem na história não dão base para a Hannah se achar essa gênia toda que ela acha que é. Hannah pode ter todos os defeitos, mas jobber aura ela não tem – diferente de outros protagonistas por aí, que não só se acham especiais, como tem todo uma história feita para a gente acreditar que eles são mesmo. 

Nesses casos, a jobber aura, essa aura de invencibilidade que faz esses personagens parecerem mais fodões do que realmente são, é o próprio escritor ou roteirista dizendo pra gente “vai ficar tudo bem, filhão” quando o protagonista fica numa situação difícil.

Outra coisa: geralmente o protagonista com uma jobber aura é o grande herói da história mas não tem o porquê ser o grande herói da história. Ele é o escolhido porque sim. 

Interessante é que a maioria dos exemplos que me lembro são de histórias criadas para o público adolescente.

Quando assisti ao filme Ender’s Game, foi o que mais me incomodou (antes de continuar: não, não li o livro). A história é sobre uma raça alienígena, as Formics, que estão ameaçando a Terra e sobre uma escola de combate, na órbita da Terra, que se destina a treinar jovens para enfrentar esses inimigos.

Ender, o protagonista, é um menino franzino que sofre bullying e aquela coisa toda que praticamente todo herói adolescente tem que ser. Por algum motivo, ele é naturalmente bom em batalhas estratégicas e é escolhido para ir para essa escola. Lá ele não precisa se esforçar muito para conquistar o respeito dos colegas e muito menos a confiança do comandante do lugar, o Harrison Ford.

Fiquei o filme todo esperando alguma justificativa para ele ser assim tão especial. Mas não veio. Não tinha sequer motivo para serem adolescentes nessa base de treinamento, em vez de adultos (a não ser, é claro, o justíssimo motivo de fazer os adolescentes irem ao cinema).

o Harrison Ford se convenceu, eu não

Foi a mesma coisa com o Harry Potter, que aliás, é o personagem mais fraquinho de toda a história.  Ele é colocado como o grande herói, mas a maioria de seus “feitos” são pura obra do acaso (ou de uma autora muito generosa com ele), quando não é puro mérito da Hermione que vai lá e carrega a história nas costas.

Não existe nada que justifique que eles sejam tão especiais, tão acima dos outros. Mas vá lá, a gente acredita que são porque, né, se dá pra acreditar em varinhas mágicas e formigas alien, que que custa acreditar nisso também.

Mas, pensando bem, é interessante notar como é atraente essa ideia de que existam pessoas mais ESPECIAIS que as outras. Porque temos, de alguma maneira, essa necessidade de nos diferenciarmos, de acharmos que somos especiais – e a história do talento ali em cima é só uma das maneiras de nos iludirmos com isso.

A ilusão de ser especial



A gente só está procurando por um pretexto, qualquer coisa, para mostrar que somos especiais.

Há algumas semanas, uma editora (!) publicou no Facebook uma foto da Valesca (a Popozuda) lendo um livro de Flaubert e ironizando a imagem, insinuando que ela não saberia ler, quanto mais um clássico da literatura como aquele!

Deixemos de lado o fato de não fazer sentido uma bunda grande ser um impeditivo para você saber ler. A questão pra mim é outra: esse foi um ato ridículo e desesperado de alguém que acredita que a Valesca desvaloriza o ato de leitura; que se ela lê, então qualquer um pode ler, o horror!

Somos levados a acreditar que quem lê é especial, e isso é reforçado por uma certa glamourização da leitura. Quando a pessoa vê que não é bem assim, que ela não está fazendo nada assim tão grandioso ao ler um livro por mais clássico e cabeção que seja, bem, aí ela surta, né?

A gente precisa entender que: não somos especiais porque lemos um livro.

Outro episódio parecido aconteceu esses dias, quando a Beyoncé, em pleno palco do VMA, declarou com todas as letras (e letras bem grandes no telão), que ela é feminista.

Claro que ia aparecer gente pra reclamar. Nem Beyoncé consegue agradar todo mundo. Veio gente dizer que ela não era feminista. Ou que não era feminista suficiente. É, porque se a Beyoncé não age e não fala exatamente o esperado por algumas feministas, então ela não pode fazer parte do clubinho.

(sobre isso, eu continuo defendendo o que
disse sobre a Anitta, em uma edição passada da newsltter. A Fabi Secches também escreveu um texto sobre isso para o Think Olga).

Eu sei como deve ser legal se sentir diferente por ser feminista. Mas essa sensação só é possível enquanto poucas escolhidas puderem ser. Quanto mais gente for feminista e se posicionar contra a merda toda que é esse mundo machista, mais comum vai ser. Logo não vai ter nada de especial em ser feminista – e acho que tem muita gente que teme um pouco isso.

Mas olha só: não somos especiais porque somos feministas.

Chateadíssima por não ser especial

Ser feminista não nos torna especiais muito menos dá licença a ninguém para ser Fiscal do Feminismo e determinar quem merece ou não o título – mais ou menos como a editora tentando dizer quem é digno de ser leitor e quem não é!

Somos, sim, pessoas cheias de defeitos, entre eles, essa mania de se achar especial por um motivo ou outro. Somos uns iludidos, isso sim. Nunca seremos um herói de filme pra adolescente que vence simplesmente porque a gente acha que merece. 

E, por saber que “não vai ficar tudo bem, filhão”, é que podemos, pelo menos, olhar para os nossos erros e tentar evita-los. Dia após dia. Não há talento que nos ajude nisso: é preciso trabalhar para ser alguém melhor. 

Mudando de assunto



Meu Groot tá dançando “Q.U.E.E.N” da Janelle Monáe, e o seu?
 

Ilustrando



Yay, essa semana atualizei meu portfólio de desenho no Behance. 

Nada que você já não tenha visto se acompanha as coisas que posto por aí. Por exemplo, a capa d’O Sonho da Sultana (que no portfólio dá pra ver em detalhes).

Mas eu fiz um vídeo de como foi fazer o desenho que ilustrou aquele meu texto sobre corpo. A ilustra é bem simplinha, mas é até legal ver como foi o processo, né?
Espia só.

Gosta dos meus desenhos? Você pode comprar um deles em um pôster exclusivo que fiz para a lojinha da Confeitaria. Soube que um dos compradores da ilustra da Patrine levou ela para decorar um consultório de pediatria e eu achei muito amor.

Ah, e se você desenha, vou adorar ver o seu portfólio :)


simulação
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O Alex Castro indicou Bobagens Imperdíveis em uma edição da newsletter dele e trouxe pra cá um monte de gente que, se acompanha ele, grandes chances de ser firmeza também.

Então, se você chegou agora no pedaço, fique à vontade para me escrever, falar sobre você, falar o que achou da edição, ou não falar nada também. Aqui todo mundo é de casa e abre a geladeira.

Já indiquei vários textos do Alex aqui na newsletter, então se você ainda não assina a dele,
fica o convite. Aliás, que outras newsletters você assina? Alguma legal pra me indicar?

Aproveitando, se você quiser me responder, me diz também que tipo de coisa você gosta que eu indique por aqui. Já descobriu algo bacana por indicação minha?

Volto na próxima semana para ser mais uma opção nas suas manhãs de sábado junto com desenho animado na TV e o programa da Sandra Annenberg (com a vantagem de não precisar acordar cedo pra acompanhar).

Beijos e lembre-se: não vai ficar tudo bem não.

Aline.

 

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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