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Chegou mais uma edição do Filosofagens Imperdíveis

É tempo que passa



Há algo de assustador em olhar para fora da gente e dessas telinhas luminosas que a gente não consegue largar, Aline. Não somente porque vemos que não estamos sozinhos, mas porque é nas coisas acontecendo que podemos ver a face do tempo.

Cada pequena coisa coberta de tempo, esse negócio infinito e tão esgotável ao mesmo tempo, e é quase como se pudéssemos tocá-lo. Você sente? 

Cabelo que cresce é tempo que passa. Tempo está na gente, no corpo que muda, na visão que piora, na doença que dá e passa. Tempo está em deixarmos de ser quem já fomos um dia, de nos tornamos um dia quem a gente não queria ser e um dia não sermos mais nada.

A reserva que seca, a praia aterrada, o prédio demolido é tempo que passa. As ruas que mudam de lugar, a distância entre as cidades, as linhas que demarcam os países e a posição atual dos continentes é tempo que passa.

Gato dormindo, a respiração lenta e olhos bem apertadinhos é tempo que passa. Arroz cozinhando a fogo baixo, a louça que se acumula na pia, o tapete novo da sala é tempo que passa.

Amigos que vão embora é tempo que passa. Ver os assuntos que tinha com alguém diminuírem até não sobrar nada é tempo que passa. Ter alguém com quem contar e compartilhar uma vida, essa cumplicidade, é tempo que passa.

O som que faz as cordas do violão é tempo que passa. O livro que se lê, a história que se conta, as letrinhas que sobem no final do filme, tudo é tempo que passa.

Mais duas linhas nesse texto não são apenas duas linhas: é tempo que passa.

Mais do que uma abstração, algo que a gente enxerga pelos numerozinhos do relógio ou numa variável em um cálculo de velocidade, algo invisível, insípido e inodoro, o tempo é físico. Tão físico que se pode ter e perder. Dizem até que ele pode ser entortado.

Só algo tão tangível poderia passar e carregar indiscriminadamente quem é pontual e quem está atrasado; carregar o que vive e o que é inanimado; carregar planetas, galáxias, tudo o que existe. 

Tudo boiando nesse caldo de tempo, nessa correnteza impossível de deter, e nem é uma questão de onde ele irá nos deixar, mas quando

E quando pode até ser um lugar que muda, mas é onde a gente sempre vai estar. Porque o tempo não passa por nós; é a gente que passa junto com ele.

 
Ilustração: Kelly Stevens

Cultura do tempo



O tempo está tão atravessado em nós que chega a moldar também nossa cultura e nosso comportamento.

No vídeo “Os Poderes Secretos do Tempo” (em inglês), o palestrante fala sobre as diferenças entre as culturas orientadas para o passado, para o presente e para o futuro.

Basicamente, as diferenças são as seguintes: as culturas orientadas para o passado valorizam a tradição, os mais velhos e tendem ao materialismo, ou à segurança propiciada por ele (como os pais que insistem para fazermos concurso público e ter casa própria); as culturas orientadas para o presente são mais focadas no curto prazo, no imediatismo, em conseguir prazer ou evitar a dor; enquanto as culturas orientadas para o futuro valorizam o planejamento a longo prazo, assumir riscos, a valorizar o que é jovem e revolucionário.

Vimos um exemplo dessa diferença de culturas na Copa do Mundo. Enquanto o Brasil tem uma cultura imediatista que se refletiu na seleção masculina – confiar nos talentos individuais, o hexa é nosso, etc – a seleção alemã mostrou o resultado de anos de investimento, planejamento e preparação de uma equipe. Pensaram a longo prazo.

As culturas orientadas para o futuro não coincidentemente se desenvolveram em lugares onde seus habitantes tiveram que lidar com condições muito adversas. A teoria que ele sustenta é que, quanto mais perto da linha do Equador, mais “estável” é o clima e menos seus habitantes tiveram que se preocupar em se preparar para grandes tempestades, enchentes, temperaturas extremas, falta d’água, etc etc.

Aliás, a falta d’água em São Paulo e Minas não foi causada puramente por uma “seca histórica”, como querem que a gente acredite, mas pela irresponsabilidade e falta de planejamento de quem deveria gerir esse recurso. Não estamos minimamente preparados para eventualidades, e isso é assustador – além de refletir nossa cultura baseada no curto prazo.

(assistindo ao vídeo, fica a impressão de que são as culturas orientadas para o futuro as “certas”, assim como os exemplos que citei acima, mas não acho que as coisas sejam assim tão simples ou que essa questão se resuma a certos e errados)

O tempo também se manifesta na forma como as pessoas se comunicam. Philip Zimbardo, o palestrante, conta que sua família é da Sicília, sul da Itália – e que a Itália é dividida entre duas culturas diferentes, sendo que a mais ao sul é presente-orientada, enquanto a mais ao norte é futuro-orientada. Ele observou que no dialeto siciliano os verbos não se flexionam no futuro! Havia o “era”, o “é”, mas não o “será”.

Uma coisa parecida pode ser observada em algumas tribos indígenas. Uma delas é a Pirahã, da Amazônia, que é apresentada neste documentário (tem legendas em português) por um linguista americano.

Ele conheceu a tribo quando era um missionário cristão, e foi até lá levar remédios e evangelizar os índios (o que aconteceu é que ele não converteu um índio sequer, mas ao conhecer a cultura deles e viver com eles por tantos anos, acabou abandonando sua fé e virando ateu – o que é muito interessante, mas não é o que quero apontar). 



A questão é que no idioma Pirahã só existe o presente como tempo verbal. Não por uma limitação linguística, mas porque para o estilo de vida que eles levam, pensar em futuro e passado simplesmente não faz sentido. A gramática dos Pirahã se importa apenas com o presente. “A gramática da felicidade”.

O negócio é que culturas presente-orientadas também são diferentes entre si. Fazer parte de uma cultura presente-orientada no contexto ocidental capitalista em que vivemos tem a ver com o consumismo desenfreado, em não se importar como isso vai afetar o futuro, em colocar o ego acima de tudo. O que é completamente diferente de uma cultura presente-orientada no meio da selva, levando uma vida simples, valorizando a comunidade e os recursos da natureza.

Imersos demais no nosso próprio umbigo, lutamos contra o tempo, em profunda negação de que ele seja capaz de afetar nossas vidas – por mais que o tempo passando esteja em tudo. Buscamos uma forma de dominá-lo, quando este domínio talvez tenha muito menos a ver com dobra-lo e muito mais com aceita-lo. E isso os Pirahã já descobriram:


“Os Pirahã parecem viver inteiramente no presente. Eles não se preocupam se vão comer mais tarde, porque sabem que podem ir até o rio e fisgar um peixe. Deixam cada atividade ser ditada pelas necessidades do momento sem se preocupar com o futuro ou com fatos do passado. Para muitos, a busca da felicidade significa viver sem arrependimento e preocupações futuras. É algo que os Pirahã parecem ter dominado.”

Conseguiremos fazer as pazes com o tempo?

Viver o presente



Sou uma pessoa extremamente ansiosa. Eu sofro por coisas que nem aconteceram ainda, e até por coisas que nem chegam a acontecer. Se tenho algo planejado ou marcado para daqui a um mês, eu já começo a me preocupar com isso agora.

Eu sou assim porque sou muito tonta e porque não consigo ser de outro jeito. Mas eu sei que é horrível.

Toda essa ansiedade que às vezes se materializa em fortíssimas dores de estômago ou que fazem a pele da minha pálpebra descascar de tanto nervoso não passa da angústia de querer controlar coisas que eu não posso.

Ansiedade é projetar a mente para se preocupar com coisas que só existem em um futuro hipotético, ainda não-realizado. E isso exige um esforço descomunal, como toda viagem no tempo exige (ou o DeLorean não precisaria de 1,21 gigawatts de energia pra funcionar!). Daí o desgaste, o cansaço, o sofrimento.

Mas por que sofrer tanto por algo que não é real?

Sim, porque um futuro que não aconteceu é tão irreal quanto uma memória de um momento que não existe mais. Só o que existe é o agora – coisa que eu percebi com clareza depois de várias conversas com
Olivia (do tanto que eu cito ela aqui, você já deve conhecer, certo?) e ela tentando me mostrar que pra quê ficar sofrendo com a cabeça nesse futuro, enquanto nosso corpo está bem aqui, num momento presente, e que lindo é o agora.

Adiantou pra eu deixar de ser ansiosa? Não, haha. Mas pensar dessa forma tem aliviado um pouco essa barra que é existir.

Ao mesmo tempo em que é assustador saber que não podemos controlar os acontecimentos, que o mundo é acaso e as coisas simplesmente são sem necessidade de existir por um motivo (hmmm, acho que
já escrevi sobre isso), é incrível perceber que o que existe somos apenas nós, o agora, o mundo à nossa volta. Nada mais. Nem passado, nem futuro.

Então quando digo (no primeiro texto) que o tempo é físico, que é palpável, me refiro ao momento em que estamos, o único momento em que realmente existimos. Esse “quando” como lugar é sempre um só, porque é o agora.

Eu ainda não sei como habitar apenas esse lugar, tirar o pezinho do futuro que tanto me angustia; a vida que levo e o lugar onde estou tornam tudo ainda mais difícil – e essa perspectiva de viver apenas o presente me parece às vezes tão distante que tenho vontade de fugir (correr!) para um espaço ou momento da minha vida em que eu possa viver um pouco como os Pirahã. É dureza (e doloroso) viver o presente quando tudo à sua volta exige que você esteja com a cabeça em outros tempos inexistentes. 

Se for pra gastar energia com o que não é real, melhor que seja criando coisas inexistentes do que sofrendo com elas. Escrevendo, o tempo dói menos, ganha novas dimensões – e é só isso que o meu agora pede, afinal.

Hora de ver coisas



:: Um e-book do Alex Luna que está de graça na Amazon (por tempo limitado).

:: Um fanzine sobre
menstruação (e a capa está simplesmente maravilhosa).

:: A imperdível
declaração de voto de Alan Sieber.

:: Uma
análise acadêmica da primeira coletânea do Universo Desconstruído ♥︎

:: Essas
ilustrinhas lindas.

::
Essa música, porque vamos supor que eu tenha começado a escrever a newsletter ouvindo Rodrigo Amarante.

:: Tem, mas vai acabar:

Vou dar minha levada da breca



Calma. Pera.

Estou falando da ilustração aquarelada que eu fiz de uma personagem que marcou a minha infância, a Punky (a.k.a Levada da Breca).

Como “recompensa” aos assinantes pagos que generosamente escolheram contribuir mensalmente com meu trabalho, resolvi sortear essa ilustração e enviar para uma dessas pessoas maravilhosas.

Recentemente resolvi criar essa nova possibilidade para pessoas que curtem o que escrevo pagarem pelo meu trabalho, de uma forma que não pese tanto no bolso. A newsletter sempre será grátis; pagar pelos meus textos é opcional (e algo que me deixará imensamente grata).

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esse que sorteei na edição #20, livros, máquinas do tempo ou robôs gigantes);

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Então. Vou começar sorteando esse desenho:

tamanho A3

Lá pelo dia 8 de novembro faço o sorteio e mostro o resultado para os assinantes pagos. Combinado?
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Vou contar procê que Bobagens Imperdíveis virou uma medida de tempo pra mim. Sei que mais uma semana acabou quando clico em enviar.

E me deixa feliz num tanto que o marco da minha semana seja poder fazer algo tão gostoso, que me faz tão bem e ainda me aproxima (de alguma forma) de alguém – ao invés de um marco que seja o alívio cansado de quem não via a hora do fim de semana chegar logo (não que a minha semana não esteja cheia de momentos chatos :/).

Com Bobagens, também vai um pedaço do meu tempo (embrulhado em uma trouxinha de amor e amarrado com um lacinho de zueira), que espero seja capaz de tornar o seu um cadim melhor.

Pela maravilha de poder compartilhar com você minhas angústias, dúvidas e pensamentos toda semana, meu muito obrigada.


Beijos atemporais,

Aline.

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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