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Se você molha textos curtos depois da meia-noite, eles se multiplicam loucamente.

Drops




Você se importa se hoje a newsletter for uma grande bagunça, uma mistura aleatória de coisas que não combinam entre si, uma balbúrdia, algo barulhento, suado, meio bêbado e confuso? Ah, que bom. Afinal, é Carnaval.


Bebês e blogs.

Tenho observado um fenômeno curioso. Para cada bebê que nasce, um blog chega ao fim.

Não chega a ser algo científico, veja bem, se para sustentar essa associação disponho apenas de dados empíricos relacionados ao meu círculo de amizades, mas faz algum sentido.

Só esta semana tive a notícia de que dois amigos seriam pais – e, ao mesmo tempo, também soube que dois dos meus blogs favoritos vão acabar. Coincidência? Acho que não.

Tem algo a ver com a idade, considerando que estamos encaixados mais ou menos na mesma faixa etária. Quando perguntei ao amigo que vai encerrar o blog, ele disse “estou velho demais para isso”. Um dos amigos que vai ser pai usou a seguinte justificativa: “já estava na hora”. Sempre o tempo.

(importante frisar que não necessariamente quem terá filhos é quem encerrará um blog, não é bem essa a relação. É bem mais sobre o Universo encontrando um equilíbrio ao matar um blog – não importa de quem – cada vez que nasce uma criança – não importa de quem)

E a quantidade de novos bebês na timeline do meu Instagram tem sido preocupante. É sinal de que os blogueiros da minha geração estão pertinho assim de serem definitivamente extintos.

Cada texto original a menos na blogosfera é um chá de fraldas a mais. Cada postagem a menos divulgando texto novo no blog é uma foto de recém-nascido a mais no Instagram.

Cada nome criativo e/ou obscuro de blog a menos é um nome sofisticado de bebê a mais. Cada comentário de leitor a menos é um “que lindo esse bebê” a mais.

Cada layout bem pensado e cheio de personalidade a menos, é um quilo de roupinhas de tons pastéis e estampas de bichinhos a mais. Cada post inteligente a menos em nosso feed é um parabéns a mais que daremos a um novo papai ou nova mamãe.

Não é triste, nem algo a ser comemorado. Não é bom nem ruim. É apenas o ciclo da vida. As coisas se transformando. O Universo entrando em equilíbrio. De qualquer forma, bem capaz de todos esses bebês crescerem e virarem blogueiros. As coisas se renovam.

Já eu não pretendo nem ter filhos nem acabar com o meu blog, por enquanto. É uma posição um tanto solitária, mas fazer o quê?

Eu sou a resistência.

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Adendo.

“Mas Aline, e os blogs novos, como entram na equação? O que acontece, por exemplo, por você ter criado o
Todo Mundo Come?"

Três palavras: Controle. De. Natalidade.

(mas continue usando camisinha, plmdds)

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Deixa rolar, miga.

Por que sofrer pra escrever? Ficar se martirizando em frente a uma tela (ou papel) em branco, se achando uma fraude, anotando no papel todas as palavras que vêm à cabeça só pra ter a sensação de que está escrevendo alguma coisa?

Papel. Dedo. Janela. Caneta. Borracha. Peixe. Café. Trânsito. Papagaio. Bloqueio. Bloqueio. Bloqueio.

Shiu. Você não precisa fazer isso. 

Se não consegue escrever, não escreva.

A gente sofre pra escrever aquilo que não gosta. A
Olivia já disse que as partes chatas de ler em um livro geralmente foram as partes chatas de escrever – o leitor consegue sentir o tédio do escritor.

Sei disso também porque eu trabalhava escrevendo propaganda e, céus, como eu sofria pra escrever títulos. Ficava me martirizando na frente da página vazia do Word, e as palavras saíam esfoladas, marteladas, porque só saíam à força, na porrada. Eu odiava escrever propaganda. Talvez por isso eu nunca tenha emocionado alguém com meus anúncios como emociono hoje com os textos que publico aqui.

Escrever por obrigação também vai matando, aos pouquinhos, o tesão. Foi o que me contou um amigo que também vive da propaganda. Eu queria dizer a ele  o quanto gosto de seus contos, das histórias malucas e personagens que ele inventa. Mas também queria dizer a ele que se ele não consegue mais escrever as coisas que escrevia por prazer… então não escreva. Tá tudo bem.

Se você sofre pra escrever, eu te entendo bem. Been there. E é por isso que dou essa sugestão; é algo que tento aplicar pra mim mesma.

Se não consegue escrever, não escreva.

Vá jogar video-game. Responder e-mails. Ver seriado. Ler um livro. Passear no parque. Fazer um lanche. Cozinhar. Viajar. Pedalar. Transar. Fazer amizade com um desconhecido na praça de alimentação. Resgatar um gato de rua perto da sua casa. Ir ao cinema e assistir qualquer coisa que estiver em cartaz. Conversar com a sua avó sobre as histórias da infância dela.

Qualquer coisa. Só saia da frente dessa maldita folha em branco.

Simplesmente vai chegar uma hora em que você vai ter tanta vontade de escrever, que você vai simplesmente conseguir escrever. Não falo aqui de “inspiração”, de esperar que algo caia do céu e te faça escrever, não; falo de uma vontade visceral e verdadeira que esteve dentro de você o tempo inteiro e que, depois de desperta, simplesmente não pode ser detida.

É nessa hora que você consegue escrever. E vai ser lindo – como todas as coisas quando você é livre para fazê-las.


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Privacidade.

Piadas das quais ninguém vai rir. Coisas detestáveis, impublicáveis, obscenas. Fanfics que não fazem sentido. Sentimentos profundos que me enchem de vergonha. Textos que fariam as pessoas me odiarem. Receitas que nunca dariam certo.

Escrever coisas bestas que ninguém vai ler: tem sido libertador.

***

Dá pra economizar mais sim.

Fico cabreira com as pessoas só agora falando em tomar banhos mais curtos e em fechar a torneira enquanto escovam os dentes. Tipo, não era para estarmos fazendo isso desde sempre, sei lá, porque é a forma sensata de consumir água?

O básico do dia a dia não devia estar sendo usado como medida de emergência. Aí de um lado fecha-se torneiras e economiza-se achando que isso vai resolver a “crise”; do outro, o governo reza para chover. Mas vá lá, é o que tem pra hoje.

Enquanto isso, os gatos dão o exemplo para economizar.

Banho? Só de lenços umedecidos. Ou façamos como eles, que cuidam da higiene diária com a língua. Cocô e xixi? Na areia, para não desperdiçar água dando descarga.

E dormindo o dia todo, aposto que nosso consumo de água caía pela metade.

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Sou assim, uma pessoa de pequenas vitórias.

 

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Coisas para meninas.

Aprendi com o feminismo que produto que ganha versão “feminina" – geralmente com estampas de florzinhas, design delicado e cor-de-rosa – é um troço muito sexista.

(além de ser meio pega-trouxa, já que é geralmente mais caro que a versão normal do produto… só por ser a versão rosa)

Isso acontece muito com brinquedo – e vamos combinar, que coisa desnecessária é segmentar brinquedo por gênero. Meninos e meninas deviam poder brincar com o que quisessem (e de preferência juntos).

Mas não: aí pegam um brinquedo completamente neutro, o LEGO, e criam uma versão para meninas, com pecinhas rosas, bonecas com curvas e temas “super femininos”, como salão de beleza e shopping. Isso passa a mensagem que todo o resto (as aventuras, os LEGOs de cidade, bombeiros, Star Wars, construções e carros) pertencem aos meninos.

E tem uns produtos com segmentação de gênero que simplesmente não fazem sentido, como uma caneta Bic para mulheres (!), porque aparentemente todo esse tempo estivemos usando canetas de homens.

Faz tempo que eu descobri essa ridícula Bic For Her, mas esses dias me mostraram a maravilhosa Ellen DeGeneres zoando o produto no programa dela: “a embalagem diz que a caneta foi ‘desenhada para as mãos das mulheres’. O que raios isso quer dizer? Que quando estivermos anotando comandos do nosso chefe, vamos esquecer que não recebemos tanto quanto os homens?"


Sério, ela é genial.

Mas isso que aprendi no feminismo meio que desmoronou quando, em uma ida à loja de brinquedos, me deparei com uma linha inteira de armas NERF… para meninas.

(se você não conhece, NERF são aquelas arminhas que disparam dardos de espuma completamente inofensivos, mas extremamente irritantes se colocados na mão de alguém com mentalidade de dez anos de idade – especialmente irritante se você for um gato)

Eram pistolas de todos os tamanhos, com disparo único ou giratório, munições, arco-e-flecha e até uma besta, todas sendo empunhadas por meninas nas embalagens. É claro que eu fiquei desejando fortemente um daqueles arco-e-flecha para dar uma de Katniss por aí, e talvez isso tenha prejudicado fortemente o meu julgamento, mas:

Achei demais!

Podem argumentar que “mas eles têm cores fofas” e é verdade, as armas dessa linha são predominantemente roxas. Mas você já viu a cor das NERFs “normais”? São pavorosas. Tanto eu prefiro roxo que é justamente a cor da NERF que eu tenho aqui em casa (sim, meus gatos odeiam).

Eu poderia argumentar a favor dessas NERFs
mostrando o comercial americano, cheio de meninas empoderadíssimas brincando e praticando esportes, com uma mensagem super legal de força e até um tom meio Jogos Vorazes no início (o que incomoda mesmo é a falta de meninas negras no vídeo).

Mas o que me fez gostar dessa ideia foi quando, na loja, uma menina entrou correndo na seção onde eu estava, com os olhos arregalados e sacudindo os braços freneticamente enquanto gritava: “AI, NERFS REBELLE!” E até fiquei comovida vendo uma garota se interessar por uma brincadeira que não envolve beleza & aprender a ser submissa.

Claro que aí eu lembrei que é justamente isso que os donos da empresa querem, vender, e que em pleno 2015 não deveríamos estar comemorando que meninas possam brincar de “coisas de meninos", e que essa estúpida segmentação de gênero nem deveria existir pra início de conversa, e que talvez não seja saudável achar legal que crianças tenham brinquedos que “incentivem a violência” (mil aspas aí), mas… tão bonito os arco (infelizmente não estou sendo paga para escrever isso, mas super aceitaria um arco-e-flecha AGENT BOW de presente #fikdik).

Sério, por que não existia isso na minha infância?



***

É gelado e é de chupar

Como chama aquele negócio compridinho, fino, recheado de suco ou de alguma batida cremosa, um refresco congelado dentro de um saquinho, que as pessoas adoram chupar no verão?

Como é mesmo? Aquele negócio gelado e de chupar, sabe? O nome tá na ponta da língua.

Pois é, escrevi sobre
essa coisa gostosa lá no Todo Mundo Come e como foi minha saga para fazer esse… esse… como chama mesmo?

 

Maria Clara, que me ajudou a fazer esse negócio


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Uma ideia que não tive.

PM’s que fazem exorcismo. Daria um conto genial, se eu tivesse pensado nisso antes. Muito chateada.

***

 

via @Ka_Bral
 

Exercício de desenho

 
 
Tá a fim de desenhar no Carnaval? Tenho uma proposta aqui, especialmente se você não sabe desenhar, nem nunca fez um desenho melhor do que casinhas e arvorezinhas bidimensionais.
 
(de qualquer forma, é um bom desafio se você já curte desenhar)
 
Primeiro, eu não acredito nisso de talento (mas isso eu já falei várias vezes) e na história de que há pessoas que simplesmente “nascem” pra desenhar. Mó besteira. Todo mundo é capaz de desenhar. Todo mundo mesmo.
 
O desenho, como praticamente qualquer habilidade humana, pode ser aprendido e aperfeiçoado com muita prática. Aprender a desenhar tem muito pouco a ver com a habilidade da sua mão e muito mais a ver com o cérebro e os olhos. É uma tarefa, sobretudo, mental e visual.
 
O lance é treinar o seu cérebro. Ativar as partes dele que sabem desenhar – e que não serão as mesmas que a gente usa para escrever um texto ou fazer contas, por exemplo.
 
Isso requer um grande esforço mental, claro, e por isso o cérebro vai tentar se poupar usando princípios que ele já domina para tentar fazer algo novo. Como, por exemplo, usar triângulos e quadrados para desenhar a estrutura de uma casa que está vendo pela primeira vez.
 
(aliás, tem uma palestra de um professor de educação física falando sobre como é  o processo de aprender uma nova habilidade)
 
Uma das formas de burlar isso é colocar o cérebro numa situação em que ele será obrigado a lidar com as formas como elas são, em vez de recorrer a símbolos que ele já conhece para tentar resumir o objeto a ser desenhado.
 
Então o exercício é o seguinte: pegue o objeto mais estranho, de formas mais complicadas que conseguir encontrar na sua casa e coloque na sua frente. Olhe para ele cuidadosamente e vá, devagar, passando aquelas formas para o papel.
 
Você não vai fazer isso pensando “hm, agora vou desenhar a alça” ou “agora vem a tampa” ou “aqui é o parafuso”, porque ao pensar nas partes, você vai acabar recorrendo ao que o seu cérebro reconhece como tampa, alça ou parafuso, ao invés de descrever no papel aquilo que você está vendo.
 
Então pense em formas. O tamanho da curva. O ângulo de uma dobra. A altura onde duas linhas vão se encontrar. A forma de uma quina. A distância de uma linha para a outra. Esqueça o objeto; só o que existe agora são formas que se encaixam, se cruzam e se combinam. Desenhe o espaço vazio em torno do objeto. O objeto não existe.
 
(aí vem o nosso segredinho: o objeto que você escolheu ser estranho e complicado só facilita o trabalho de pensar nele como formas)
 
Aos poucos, você vai perceber que não é a sua mão fazendo o desenho; quem está conduzindo o lápis são os seus olhos.
 
O objetivo não é fazer um desenho perfeito, de proporções corretas. Não importa se no final ficou tudo torto, feio, esquisito. O objetivo é exercitar o cérebro. E se você se forçou até quase ter um tilt, mesmo que não tenha gostado do desenho, já terá tido um baita sucesso no exercício ;) 
 

escolhi a fonte onde os gatos bebem água


veja que sequer me preocupei em fazer o objeto caber inteiro na página
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Essa semana eu me peguei pensando em como seria o meu programa de TV (ou de Youtube).

Certamente não seria nada com o formato de vlog, que de vlog já tá bom. Também não teria tutoriais, dicas, receitas, nada disso. Também não poderia ser nada muito longo, ou as pessoas não assistem. Não seria algo tipo seriado ou historinha porque exigiria uma produção bem complicada. Aliás, o fator dificuldade de produzir também eliminaria a possibilidade de fazer um programa tipo gincanas, jogos com participação dos espectadores, qualquer coisa que exija participação de atores, pegadinhas, reality show, programa de auditório, entrevistas, show de talentos, apresentações de música. Minha falta de graça também impediria que se tratasse de um programa engraçadinho e qualquer coisa que envolvesse eu olhando e falando para a câmera seria simplesmente um desastre.

Pensando bem, por que eu teria um programa de TV (ou de Youtube) se eu posso fazer tudo isso (e outras loucuras que não cabem numa telinha) bem aqui, na newsletter?

Até o próximo episódio, nesse mesmo horário, nesse mesmo canal!
 
Beijos carnavalescos,
 
Aline.

 

Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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