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Um pouco de amor para aliviar a semana deprimente

Somos os outros



Uma das coisas mais difíceis para alguém introspectiva & antissocial como eu é admitir que a gente precisa do outro. E isso fica ainda mais difícil em tempos de disputa, todo mundo se acotovelando para se diferenciar, se distanciar, excluir, segregar.

Somos nós e os outros – e o inferno são eles, sempre eles.

O ser humano é o bicho com o mais defeituoso senso de autopreservação. Basta olhar para como nos entupimos de coisas venenosas, fazemos coisas estúpidas que colocam nossas vidas em risco, ou mesmo decidimos simplesmente cometer suicídio. Também somos os animais que exaurem os nossos recursos até comprometer seriamente nossa sobrevivência: alô, poluição, desmatamento, pesca predatória e reservas d’água secas por falta de planejamento (este o novo patrimônio de São Paulo), um beijo pra vocês! Somos bichos muito, muito bocós que com muita sorte vamos sobreviver à destruição que infligimos sobre nós mesmos.

Acredito que falta de empatia faz parte desse defeito. Incapazes de enxergar no outro um semelhante, estamos fadados à autossabotagem. Falta de empatia é o principal ingrediente para a autodestruição. Se o nosso objetivo é se estrepar feio enquanto humanidade, trago boas notícias: estamos fazendo direitinho.

(e eu que tinha o objetivo de escrever uma newsletter mais positiva fracassei já nos primeiros parágrafos, mas calma que eu ainda vou dar um jeito nisso, tá?)

Lembrei aqui de Lost, que foi um dos meus seriados favoritos, apesar de ter terminado do jeito que terminou, e foi com ele que comecei a consumir seriados como faço até hoje; devorando avidamente os episódios, esperando ansiosamente pelos próximos, levando a coisa muito a sério. 

Não sei se você assistiu ou se lembra, <<Primeiro Nome>>, mas Lost é a história de sobreviventes de um acidente aéreo que caem em uma ilha cheia de mistérios. Um desses mistérios que deixa os protagonistas em desespero é quando percebem que não são os únicos habitantes da ilha. Quando estão na selva, ouvem passos e vozes, se escondem e veem pernas de homens, mulheres e crianças passando por eles. Quem eram aquelas pessoas? Não dava para saber. E por não saberem quem eram, o que faziam, onde viviam e o que pretendiam, os protagonistas passaram a enxergá-los como uma ameaça – inclusive passaram a chamar os habitantes misteriosos de Os Outros.

Agora veja que somos, em alguma medida, esses protagonistas nessa altura da história: sabemos que não estamos sozinhos, mas não conhecemos aqueles que dividem com a gente essa grande ilha misteriosa chamada mundo.

Temos medo dos outros. Desenvolvemos mecanismos de defesa para repelir esse outro, para nos proteger dessa ameaça que ele representa e fechamos a escotilha de nós mesmos para não precisar entrar em contato com eles.

O que é muito louco, porque estando nós dentro de existências humanas, poucas coisas fazem tanto sentido quanto a compaixão – que, como diria a minha amiga Olivia, “não é ter pena, obviamente, e sim encarar o outro como um igual, em todos os sentidos. Porque o outro é a mesma coisa que você, sempre. Só a compaixão nos permite se aproximar realmente do outro. É isso a única coisa que importa; se não tem isso, a gente só está cuspindo nos outros nosso medo de morrer e nossa vontade de ter controle sobre tudo e todos”.

Não que a compaixão seja uma virtude elevada que não está ao nosso alcance; mas acredito que seja, antes de tudo, uma necessidade. A gente precisa das outras pessoas porque afinal não conseguimos existir sozinhos. Até o que somos é moldado ou definido a partir do outro. Por mais que o nosso senso de autossabotagem diga que não, por mais que a gente evite o aperto de mão de um possível aliado, a gente precisa entrar em contato, ter alguém em quem nossas palavras vão poder repercutir.

(como diz essa música)

Posso soar hippie, mas não vejo outra forma de fazermos sentido se não pelo reconhecimento de que somos os outros. De que as vidas nesse planeta se conectam de uma forma tão profunda que não há como causar dano a um outro sem que isso não nos destrua também. É como já disse meu amigo Alex: "Crescemos pensando que, do lado de cá dessa camada de pele, existe o eu; do lado de lá, o universo, as outras pessoas, os passarinhos, os meteoros. Mas só existe o universo."

Conviver é difícil, é doloroso, e eu bem sei o trabalho que dá lidar com outras pessoas e de enxergar nelas minhas próprias limitações. Quem me conhece bem deve estar estranhando eu escrever justamente sobre isso, mas é pra lembrar a mim mesma que escrevo; estou longe de ser uma alma iluminada que já encontrou as respostas. Por isso mesmo busco tanto apoio nas palavras da Olivia ou do Alex (você já leu os exercícios de empatia dele?): porque tento fugir desesperadamente dos meus genes da autossabotagem que me blindam contra o outro.

“Compaixão é o único caminho”, e como as palavras vieram de uma amiga super viajante e que já andou por tantos caminhos, ela deve ter razão. É o único caminho porque na compaixão reside a nossa autopreservação, esse entendimento profundo de que não podemos sobreviver enquanto uma parte de nós estiver sendo injustiçada, excluída, massacrada e explorada. 

Porque quando as coisas ficam estranhas, incertas e o peso do desespero parece querer nos esmagar, saber que não estamos sozinhos é um alívio. Não sabemos quando vamos morrer, não sabemos o tamanho do Universo, não sabemos como será o futuro, mas sabemos da existência do outro, e já é muita coisa saber que existe alguém com quem podemos estabelecer um – às vezes pequeno, porém sempre significativo – contato.

E foi em um livro com esse nome – Contato – que Carl Sagan teve a generosidade de escrever uma simples e verdadeira constatação: “para criaturas pequenas como nós, a vastidão só é suportável através do amor”.

Sejamos todos feministas



Já existe muito medo em relação ao feminismo para que se tenha medo dele se tornar popular. Porque se mulheres com autonomia assustam aqueles apegados à ideia de uma sociedade que explora e oprime, então a ideia de cada vez mais mulheres conscientes e empoderadas, capazes de transformar essa sociedade, deveria ser muito bem-vinda.

Não faz sentido para mim a ideia de um feminismo exclusivo, fechado a alguns poucos escolhidos. Não faz sentido porque vejo o feminismo como generosidade pura. Como não poderia ser generosa a ideia de igualdade, a percepção de que nenhuma mulher deveria sofrer retaliação por ser mulher?

Em seu discurso “Sejamos todos feministas” (pode ser assistido aqui), lançado em e-book pela Companhia das Letras (disponível de graça na Amazon), a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie conta que foi definida como “feminista” pela primeira vez em uma discussão com um amigo. Não foi um elogio. Durante sua vida, ainda ouviria que feministas são infelizes, anti-africanas, anti-homens, anti-maquiagem. Ela não se identificava com esses rótulos, mas se identificava com a ideia contida no feminismo; passou a se definir como “uma feminista feliz e africana que não odeia homens e usa batom para si mesma, não para os homens”.



Não adiantou terem colado tantos rótulos negativos para afastar Chimamanda do feminismo. Ela parece estar mais preocupada em desconstruir essa sociedade que ensina que homens são mais importantes do que mulheres. O medo dessa palavrinha (FE MI NIS MO, e não “humanismo”, “igualitarismo”, entre outros eufemismos tontos) não é nada comparado com o medo de ser mulher em um mundo tão hostil, tão desigual, tão machista.

Aziz Ansari, um dos meus comediantes favoritos (do elenco maravilhoso da série Parks & Recreations), se declarou feminista em uma entrevista com o David Letterman. Se você ainda não viu, tem que ver. Ele é maravilhoso quando começa a falar sobre essa carga negativa que o nome feminismo carrega:

“Muita gente acha que feminismo significa ‘alguma mulher vai começar a gritar comigo’. Mas eu acho que se você acredita que homens e mulheres deveriam ter direitos iguais, e se alguém perguntar se você é feminista, você tem que dizer ‘sim’, porque é assim que as palavras funcionam, sabe? Você não diria ‘ah, sim, eu sou um médico que trata de doenças da pele’, ‘Ah, então você é dermatologista?’, ‘Não, não, essa palavra é muito agressiva. De forma alguma, de forma alguma’.”



Cada vez que alguém com o alcance e o carisma de uma Chimamanda, de um Aziz, de uma Beyoncé, de uma Emma Watson, fala sobre feminismo sem medo – e assume para si esse título – avançamos mais um pouco no tabuleiro desse grande jogo que é conquistar mentes e corações para a luta das mulheres.

Feminismo é generosidade. E veja se não é um ato generoso de figuras públicas como Beyoncé e Emma Watson compartilharem para o mundo que são feministas. Veja se não é generoso reconhecer que elas são, antes de celebridades, mulheres; e que como mulheres também merecem ser acolhidas pelo feminismo.

Não sou feminista para brigar ou para me sentir diferente, para criar uma barreira entre eu e as outras. Afinal, não é isso que o mundo já me ensinou? Que eu preciso provar que sou mais “merecedora” que as outras mulheres? Essa competição para ver quem é “mais feminista” ou “feminista de verdade” não é a mesma armadilha?

Ao se popularizar, o feminismo se entrega na mão das pessoas para ser construído por elas – e pessoas são diferentes, pensam diferente, agem de formas diferentes – e essa entrega também é a expressão da generosidade contida na ideia central do feminismo. Excluir, impor restrições, patentear, controlar, me parece justamente o oposto disso.

Que sejamos todos feministas. Que cada vez mais pessoas possam enxergar através dos preconceitos que revestem o feminismo e afastam tanta gente da descoberta transformadora que pode ser a visão de um mundo mais humano, mais justo. Que estejamos de braços abertos para receber mais e mais gente desse lado, porque assim a gente se fortalece.

Se já perdemos o medo de usar a palavra feminista, podemos também perder o medo de lidar com a diversidade. O feminismo tem espaço para todas, só não devia ter espaço para o medo de ouvir vozes diversas, de incluir e de dar espaço para mais mulheres se construírem como feministas.

E manda mais gente se declarando feminista, que tá pouco.

♥︎

Missão Azul



Nas minhas pesquisas para o romance sci-fi que estou escrevendo (e que temporariamente estou chamando de “aquele livro lá do oceano”), tive a felicidade de descobrir um documentário que, mais do que ser sobre preservação do oceano, é uma emocionante história sobre persistência & vida & feminismo.

O documentário se chama “Mission Blue” e foi produzido pela Netflix, onde você pode encontrá-lo para assistir. Duas histórias se cruzam e se entrelaçam nesse filme: a do oceano e a da oceanógrafa Sylvia Earle.

Ela é simplesmente uma das pesquisadoras mais fodas que eu já conheci. Hoje em dia ela tem uns 79 anos, uma velhinha baixinha, com um sorrisão charmoso e com uma surpreendente disposição para mergulhar, pesquisar e defender aquilo que ela ama profundamente: o mar.

Pela idade dela, já dá para imaginar o quanto ela é pioneira. Ela começou sua carreira quando praticamente só homens dominavam a ciência e áreas de pesquisa, já sendo uma das primeiras pessoas a fazer o mergulho autônomo (que só foi possível quando Jacques Cousteau inventou o sistema “aqualung”, lá pelos anos 40), e ganhou notoriedade após integrar uma equipe apenas de mulheres em uma base no fundo do oceano, o
projeto Tektite II.

É interessante como as notícias e reportagens daquela época, super machistas, sobre esse projeto e sobre a Sylvia, não são muito diferentes da nossa mídia atual. Ao falar sobre o projeto Tektite II, em vez de falar sobre como era foda ter pesquisadoras “morando” debaixo d’água para fazer estudos, focavam em “musificar” as pesquisadoras, falando como eram beldades, sereias, e se não teria problema tantas mulheres viverem juntas dividindo apenas um secador de cabelo. Quando Sylvia participou de uma outra expedição, a manchete foi: “
Sylvia parte em um navio com 70 homens, mas ela espera não ter problemas”.

“Ah, mas isso foi nos anos 60, normal”. Pode até ser, mas e quando em 2014 perguntam a uma engenheira russa, a primeira mulher a ser mandada para a Estação Espacial Internacional, como ela “
manteria o penteado no espaço”? Pois é.

Felizmente nem tanto machismo foi o suficiente para afastar Sylvia da ciência, ou não teríamos uma das mais influentes e atuantes defensoras da preservação do oceano. Em um dos momentos que mais encheu meus olhos de lágrimas, o cara que conduz o documentário pergunta por que ela não para sequer um dia de trabalhar, por que não tirar férias? Ela responde algo do tipo: “se eu vejo uma criança caindo do décimo andar, eu não paro para fazer outra coisa e ‘ah, tudo bem, vai demorar ainda’. Não! Eu estendo os meus braços e faço de tudo para estar lá embaixo e segurá-la, eu vou dedicar todos os meus esforços para não deixar ela se machucar”.

Quanto amor há nessa dedicação de Sylvia para proteger o oceano.

Outro momento muito marcante é quando ela volta ao Mar de Corais décadas depois de visitar o local pela primeira vez. Era um lugar lindo, cheio de vida, peixes, cores, uma verdadeira cidade submersa. Hoje restaram apenas ruínas: corais cinzentos, mortos, num grande cemitério com praticamente nenhum peixe. Quando Sylvia volta para a superfície, sua tristeza é tão grande que me rasgou por dentro e tive vontade de chorar por ela. Nós fizemos isso. Um oceano tão incrivelmente grande, com tantos bilhões de anos, e estamos conseguindo matar ele.


“Sessenta anos atrás, quando comecei a explorar o oceano, ninguém imaginava que poderíamos fazer qualquer coisa para destruí-lo. Mas agora estamos olhando para um paraíso perdido."

(só de lembrar das cenas de Mission Blue já quero chorar de novo, vai vendo como ciência me deixa emocionada)

Enfim, não vou falar mais nada porque eu quero que você assista. Quero muito que você conheça a Sylvia Earle e tenho quase certeza que você vai se apaixonar pela trajetória dela tanto quanto eu.

Você pode ver o trailer
aqui.


Coisalindas



:: Uma das falas da Chimamanda que mais gosto:

"O problema da questão de gênero é que ela prescreve como devemos ser em vez de reconhecer como somos. Seríamos bem mais felizes, mais livres para sermos quem realmente somos, se não tivéssemos o peso das expectativas do gênero.”

:: Este vídeo sobre humanismo.

:: Areia vista pelo microscópio (é linda).


:: A compilação em e-book da
série de reportagens “Truco”, da Agência Pública, na cobertura do primeiro turno das eleições.

:: Malala ganhar o Nobel da Paz por ser uma ativista pelo direito das meninas à educação. ♥︎


:: Para o outubro ficar rosa, este texto sobre câncer de mama e a saúde pública.

:: Sobre conhecer uma
satanista super simpática no banheiro.

:: Gente que comete
pequenos atos de rebeldia no Facebook, que é a versão rede social daquela "pessoa chatinha que mal te viu e já pergunta o que você faz da vida”.


:: Um livro infantil só com palavras que faz as crianças rirem gostosamente e MEU DEUS VOCÊ TEM QUE VER.

:: Queria ter um amigo reaça tão fofo quanto o Ron Swanson, de Parks & Recreations, e suas maravilhosas frases motivacionais.

Legenda: uma vez trabalhei com um cara
por três anos e nunca soube o nome dele. Melhor amigo que já tive.
♥︎
♥︎
A semana pode ficar difícil; os dias podem ficar estranhos; a realidade pode te dar um choque, fazer você quebrar a cara; você pode se decepcionar com muita gente; podem te agredir, te excluir, fazer você acreditar que está no lugar errado; as coisas não vão ficar bem;

Mas, só de imaginar que há outras pessoas passando pelos mesmos momentos difíceis, por uma semana complicada, gente que pode estar triste inclusive pelos mesmos motivos, perdida, acuada ou se sentindo sozinha;

Só de estabelecer esse contato com uma pessoa que você pode nem ver, ainda que seja tão real, tão mais concreta que a ilusão do seu próprio ego, a ameaça não desaparece, mas parece menos capaz de te destruir.

É por isso que escrevo: não para convencer alguém, para buscar treta, para impor alguma verdade; mas para mostrar a quem acredita nas mesmas coisas que defendo que não estamos sozinhas.

A gente vai sobreviver.



Beijos generosos,

Aline.

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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