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Origens, jornadas e evolução

Volta em Saturno




A primeira vez que eu olhei por um telescópio foi uma coisa de outro mundo. Porque, olhando o céu à noite, ou pelo menos o que dava para ver entre as fiações, postes e antenas de TV que se erguiam sobre minha cabeça, não dava para conceber como era possível que alguém pudesse ter pisado naquele pontinho luminoso que chamavam de lua. Muito pequena. Distante. Não deve caber ninguém ali, eu pensava quando criança, achando que a lua não era muito diferente dos postes de luz de onde eu morava.
 
Eu ainda era muito nova quando olhei para o céu por um telescópio pela primeira vez. Na laje de um amigo da família, ele montou aquele curioso objeto que para mim ainda era alienígena: uma lente cilíndrica, comprida, apoiada num tripé e apontada para as estrelas.
 
A noite era de lua cheia, sem nuvens, o que favorecia a atividade de observação. Ele mirou, apontou, deu uma espiada pelo visor, sorriu e me encorajou a posicionar o olho ali, naquele buraquinho, uma fechadura indiscreta para espiar as estrelas em seus quartos de dormir.
 
Quando olhei, quase pulei para trás de tanto susto. A lua era gigante, monstruosa, tinha tamanho o suficiente para nos devorar. Tirei os olhos rapidamente do telescópio, querendo me certificar de que a lua não tinha de repente inflado no céu e invadido a atmosfera terrestre. Era assustador vê-la tão grande. Assustador e lindo.
 
Aquela lembrança me faz sorrir não só pela inocência da idade, mas pela saudade de casa. Aquela lua já não pode ser vista no céu a que tenho acesso. Não só porque ela está bastante longe agora, mas porque a lua mais próxima está exatamente debaixo dos meus pés. Quando acordo todos os dias para ir trabalhar, é a paisagem de Titã que observo do lado de fora da janela. Quando olho pelo super telescópio da estação, o que vejo são as nuvens de Saturno, movendo-se deliciosamente lá embaixo como se fosse um pouco de café misturado em sorvete.

 
Parece que quanto mais longe do lugar onde nascemos conseguimos chegar, mais vamos nos lembrar das origens. Não só por sentimentalismo, que não fico muito confortável bancando a cafona, mas por contraste mesmo. Porque a pessoa atual, de tão diferente da antiga, parece uma outra pessoa – e, por não ser a antiga, parece ter surgido do nada, como se não tivesse um passado. E que horrível é não ter um passado para se lembrar, por mais difícil que ele seja.
 
Então me lembro de onde vim: de uma cidade pequena, isolada, horizontal. As pessoas que viviam ali eram mão-de-obra na cidade grande, então voltavam só para dormir, porque ali não tinha nada. Tinha, é verdade, um monte de igrejas, bares e padarias, praticamente na mesma proporção. Entre as duas principais igrejas, havia uma praça, que era o máximo de entretenimento que os jovens dali poderiam esperar: um lugar para sentar à noite, beber, dar uma intensa paquerada e eventualmente arranjar alguma briga. 
 
A praça não faz parte das minhas lembranças, porque aquele era um lugar proibido pra mim. Inacessível, pelo menos à noite. Por outro lado, o colégio onde estudei é tão vívido na minha memória que sou capaz de andar pelo pátio que ainda existe na minha cabeça, encontrar as salas onde já assisti às aulas, ver as pichações na parede exatamente como eram, ouvir o sinal do intervalo e saber onde ficavam os buracos no muro que permitiam que a gente escapasse se estivesse a fim de arrumar encrenca.
 
Tão sólida quanto as estruturas da parede e os biscoitos de água e sal que serviam de lanche na cantina, era a névoa que parecia pairar sobre a gente nos dizendo que éramos fracassados. Havia um ditado que usavam para definir os jovens que estudavam ali: “entra burro, sai pior”. E a gente acreditava nisso. Parecia fazer tanto sentido quanto “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Algo que escondia um fundo trágico, mas que se aceitava como uma verdade incontestável.
 
Apesar de não botarem nenhuma fé na gente, apesar da falta de perspectiva que nos era oferecida, alguns de nós encontravam espaço para contrariar essas expectativas tão baixas sobre o que éramos capazes de fazer.
 
Na época, eu tinha uma amiga com a qual eu me identificava justamente pela não-conformidade. Ela era uma jovem artista. Depois de muito conversar com coordenadores da escola, ela os convenceu a ceder uma sala vazia, que não era ocupada por nenhuma turma, onde pudesse montar um ateliê de pintura, para ela e outros alunos produzirem e aprenderem uns com os outros.
 
Um dia, ela me convidou para conhecer o espaço. Pelo que ela já havia me falado do lugar, as paredes eram forradas de pinturas e, na minha imaginação, isso tornava aquela sala praticamente um portal para outro planeta, algo inusitado dentro do único mundo que eu conhecia.
 
Quando ela destrancou a porta, no entanto, o que eu vi foi outra coisa. Cadeiras e mesas derrubadas, tintas espalhadas, as pinturas que não estavam rasgadas e picotadas no chão estavam cobertas de pichação. Recolhi do chão o pedaço de uma pintura, tentando entender o desenho que ele um dia formou e o que levaria alguém a destruí-lo além de uma despropositada maldade.
 
Eu estava chocada, mas ela não pareceu nem um pouco abalada, apenas levantava as cadeiras e abria caminho para recolher a sujeira que deixaram nos fundos da sala. Fiquei sem entender, completamente desentendida de tudo, perdida em meio a tanto papel rasgado.
 
– Você não está chateada?
 
– Ah, estou – ela disse – Mas já é a terceira vez que isso acontece, então é inútil ficar brava.
 
Então ela me contou. Outros alunos, que não tinham mais o que fazer, acharam que era uma boa ideia arrombar a janela, levar o que pudessem e destruir todo o resto. Por diversão. Zueira. E nunca daria para saber quem eram aqueles trolls anônimos. O máximo que dava para fazer era comprar novos cadeados e pedir para o zelador da escola consertar o trinco da janela – apenas para que mais tarde fosse arrombada de novo. E de novo.
 
Ficamos em silêncio enquanto juntas recolhíamos, em um saco grande, todas as pinturas destruídas.
 
– O que você vai fazer agora?
 
– Ué – ela sacudiu os ombros como se fosse óbvio – Começar de novo.
 
Eu quase não pude acreditar. Ela sabia que aquilo aconteceria mais vezes. Que tentariam arrancar dela todo o trabalho duro que ela construiu. Mesmo assim ela faria de novo.
 
Então eu entendi: quem estava se esforçando à toa eram os invasores. Porque ela continuaria. Porque eles poderiam arrancar as pinturas das paredes quantas vezes quisessem, mas não eram capazes de arrancar da minha amiga o trabalho dela. Ela ainda tinha capacidade para pintar o que quisesse, mas eles tinham o quê? Não restou nenhuma pintura dela quando terminamos de limpar a sala; mesmo assim, compreendi que quem não tinha nada eram eles.
 
A teimosia, afinal, era a nossa única arma de sobrevivência. E eu decidi que eu me agarraria a isso até o fim.
 
•••
 
Aqui em cima, nossa noção de tempo muda um pouco. Há outra contagem, outras medidas, mas tentamos sempre manter comparativo com as medidas terrestres. Para nos apegarmos a um ponto de referência. Para nos lembrarmos de onde viemos.
 
Então foram sete anos terrestres para sair do que chamamos casa e chegarmos na estação. Um tempo longo para uma viagem, mas que preenchemos com muito trabalho e pesquisa. Também um preparativo para o trabalho que faríamos ao chegar aqui.
 
Titã leva dezesseis dias terrestres para fazer a volta em Saturno. Muito rápido, se considerarmos como o planeta é gigante. E Saturno, por outro lado, leva 29 anos terrestres para fazer a volta ao redor do Sol. Um gigante de passos lentos. Até seu tempo tem dimensões exageradas.
 
Tempo. Inevitável lembrar que o planeta recebeu o nome do titã romano equivalente a Cronos, na mitologia grega, o senhor do tempo. Para os romanos, Saturno tinha relação com a agricultura, o que faz todo o sentido: os antigos baseavam o tempo em plantar e colher. As estações, as colheitas, os ciclos. Tudo começa e termina. A grande dúvida é que nunca dá pra saber o que acontece nesse meio – e quão longe do ponto onde começou alguém pode terminar.
 
Eu não sabia, quando olhava para o céu numa cidadezinha que agora ficou pra trás, que um dia eu chegaria ao planeta rodeado de anéis que eu via através de um telescópio amador. Dava pra ver direitinho Saturno, não com tantos detalhes quanto eu vejo hoje, é claro, mas ainda assim era impressionante. Como ele podia estar tão longe e mesmo assim dava para ver dali? Devia ser muito, muito grande, mas eu não fazia ideia do quanto ele era imenso.
 
Tão grande que era possível ver mesmo a olho nu. Aí claro que não daria para ver os anéis, e ele não seria tão diferente de uma estrela muito brilhante no céu, mas observadores com mais perícia conseguiriam identificá-lo com facilidade. Os antigos faziam isso.
 
– Saturno, por muito tempo, foi considerado o último planeta do sistema solar – me explicou certa vez uma professora quando fizemos uma visita ao Planetário – porque era o último planeta que as pessoas conseguiam enxergar até aquela época. Então Saturno era entendido como o limite do mundo conhecido. Não se acreditava que houvesse nada depois dele. O que acabou se mostrando um grande engano, já que Urano veio a ser descoberto como planeta lá por 1781.
 
Aprender essas coisas sobre o Universo foi o que me fez sentir que aquela cidade era pequena demais, apesar de ser, para muita gente, todo o Universo conhecido. Muitos dos meus colegas tinham como maior preocupação terminar logo o colégio, mas ninguém sabia exatamente o que fazer depois. Eu também não, mas eu sabia que queria sair dali.
 
A cidade, no entanto, tentava me dizer “você nunca vai sair daqui, você pertence a esse lugar” e eu olhava ao redor e achava que era verdade. Mesmo as minhas amigas que conseguiam arrumar emprego fora, jovens que começavam a trabalhar de caixa em lanchonetes fast food lá na cidade grande (e como eu as invejava!), saíam da cidade só para trabalhar, mas todos os dias voltavam para casa. O retorno era sempre uma certeza.
 
Então eu não criava grandes expectativas pra mim. Não alimentava a ideia de dirigir meu próprio carro, de comprar uma casa, de estudar fora ou coisa do tipo, simplesmente porque esse tipo de ideia não existia naquele pequeno mundo que eu habitava. Eu só queria uma coisa: dinheiro o suficiente para comprar meu próprio telescópio. Se eu tivesse isso, já me consideraria bem-sucedida.
 
– Nomi, você tem que estudar! – meu pai me dizia, sempre no imperativo, não deixando eu esquecer de priorizar os estudos.
 
– Nomi, ler é importante! – minha mãe me dizia, sempre me incentivando a ler tudo quanto é livro.
 
Eu não ficava aborrecida com essas cobranças, porque de fato eu gostava de estudar e de ler, talvez até mais do que o nível considerado adequado para um adolescente que quisesse ser visto como “legal”. Estudar e ler bastante: eram as únicas coisas que meus pais cobravam, e não sei se eles imaginavam onde isso ia me levar.
 
Naturalmente, estudar era importante se eu quisesse arrumar um bom trabalho. E bom trabalho significava trabalhar na cidade grande. Aquela perspectiva, no entanto, era muito distante pra mim. Tão distante quanto a lua. Porque eu terminei o colégio e comecei a procurar trabalho, mas eu não era boa o suficiente nem para trabalhar ali por perto, quanto mais na cidade grande.
 
Lembro que abriu uma grande loja de material de construção ali perto e eles estavam contratando. Meti meu currículo franzino dentro de uma pasta e fui toda animada, achando que meu entusiasmo talvez conquistasse os entrevistadores. Mas não passei da porta: cheguei lá e a fila de candidatos dobrava a esquina. Fiquei de olho no pessoal que estava na minha frente e eles eram mais velhos, mais experientes e dava para ver que o currículo deles era mais preenchido. Eu não teria a menor chance. Coloquei minha pastinha embaixo do braço e voltei pra casa.
 
Enquanto isso, tentava o vestibular. Não havia faculdade na cidade onde eu morava, então eu sabia o quanto seria difícil competir com a galera que estudou na capital. “Entra burro, sai pior”, disseram. Talvez estivessem certos, porque fui um desastre nas provas. Minhas notas não chegavam nem perto da média, por mais que na escola eu tirasse as melhores notas com tranquilidade.
 
Disseram “não” tantas vezes em entrevistas de emprego que nem me lembro mais. Fiz mais provas do que consigo contar. Nem trabalho nem faculdade me aceitavam. “Desiste e volta, não há nada para você aqui”, as portas fechadas me diziam. Mas eu continuei. Rasgavam minhas chances em mil pedacinhos, mas no outro dia eu começaria tudo de novo. “Seu lugar não é aqui”, mas eu teimei.
 
É engraçado hoje eu trabalhar com ferramentas tão avançadas, equipamentos e sondas de análise tão sofisticadas, fazendo estudos e interpretando sinais de radiação cósmica de fundo em uma estação de pesquisa numa das luas de Saturno e lembrar que o primeiro emprego que eu consegui foi como assistente numa loja de manutenção de equipamentos eletrônicos.
 
O nosso ponto de origem pode parecer uma barreira, uma limitação que nos impede de sair do lugar. Mas depois de alguns anos eu descobriria que não era uma barreira; e sim um degrau.

 
•••
 
Um colega que trabalha comigo na estação tem uma teoria.
 
– Somos feitos para nos desenvolver num lugar diferente daquele onde nascemos. É o impulso da nossa espécie em expandir, sabe? Ir um passo além daqueles que vieram antes de nós. Como o filho que sai da casa dos pais e vai morar em outra cidade.
 
– Ou a galera que sai da Terra pra estudar outros planetas – observei.
 
– Ou isso. Porque o que acontece quando alguém sai do seu lugar de origem e se desenvolve em outro lugar, é que consegue dar continuidade a uma história, leva-la mais longe. Não só a própria história, mas a das pessoas de sua própria comunidade. É uma questão de evolução. A gente é levado a se mover sempre para frente, cada vez mais para frente, mesmo que a gente não saiba para onde. A nossa história enquanto humanidade depende disso.
 
Imagino que ele diz isso porque tem saudades de casa. Aqui, todos temos. Cada um arranja sua maneira de se encorajar e seguir adiante, apesar de todos que deixamos para trás – e a justificativa dele até que faz sentido.
 
Mas apesar dessa urgência que existe dentro de nós para seguir adiante, sair da casa dos pais, da cidade natal, do país de origem, ao mesmo tempo, parece que existe uma força nos puxando para trás: ou nos impedindo de avançar ou nos persuadindo a voltar algumas casas no tabuleiro da vida. “Você nunca vai sair desse lugar”.
 
Eu percebi isso com mais força quando decidi que seria cientista. Na época eu não sabia que isso significava me tornar astrônoma, mas eu sabia que queria estudar as estrelas e os planetas. Começou quando eu finalmente consegui comprar meu primeiro telescópio. Eu olhava através daquelas lentes e não via apenas os corpos celestes que fui aprendendo a identificar e localizar; agora eu via também uma perspectiva para mim mesma.
 
– Nomi, é muito difícil ganhar dinheiro nessa carreira – me disseram.
 
– Astro o quê? Não conheço ninguém que faz isso – também ouvi.
 
– Se eu fosse você, tentava passar em concurso público.
 
– Essa é uma carreira masculina, acho que você não vai aguentar, hein.
 
– Vishe, só quem nasce em família com dinheiro é que consegue.
 
– Mulher não é muito boa nesse negócio de ciência.
 
– Tá, mas qual a utilidade de ficar olhando para o céu?
 
E assim por diante. Tudo ao meu redor me dizia para eu escolher outra coisa, arrumar um emprego de verdade, e quem sabe eu conseguiria passar em um concurso público mais rápido que os meus ex-colegas.
 
E, afinal, eu precisava de um bom emprego para sobreviver, certo? Mas a teimosia, de novo, falou mais alto. Porque eu não queria só sobreviver. Eu queria prevalecer.
 
•••
 
Olho para o lado de fora e vejo uma chuva fina cair sobre aquele pedaço de Titã, deixando o horizonte turvo, enevoado. Na maioria dos dias, a paisagem por aqui é o que chamariam na minha cidade de “tempo feio”, mas não consigo não achar a vista sempre impressionante, por mais monótona que possa parecer.
 
Este é um lugar incrível e cheio de possibilidades. Já é espantoso que Titã seja um satélite e possua uma atmosfera, coisa que no nosso sistema solar só os planetas Marte, Terra e Vênus possuem. Além disso, Titã também possui substância em forma líquida, embora não seja a nossa tão preciosa água. No entanto, já descobrimos formas de vida bastante primitivas boiando no caldo de metano presente em Titã. Olhar para esse ambiente e se aventurar do lado de fora (com os devidos trajes de exploração, claro) é olhar para como a Terra pode ter sido em um passado muito remoto, apenas numa versão mais fria.

 
Não é engraçado ter que ir tão longe para conseguir ver o passado? Quando entrei nessa, não imaginava que isso acabaria sendo a minha carreira. Meu trabalho com radiação cósmica de fundo, o que me trouxe a esta missão, é quase como fazer escavações à procura de fósseis; mas em vez de poeira, o que escavo é a luz. Em meio a essas partículas, há vestígios do Universo jovem que explodiu há muito tempo e continua se expandido. São lembranças da infância do Universo, espalhadas por todo canto. 
 
E aí percebo que meu trabalho e minha vida se misturam, se os vestígios das minhas origens também flutuam ao meu redor. Olhando para essas peças do meu passado, é difícil imaginar como cheguei tão longe, mas talvez eu apenas tenha seguido a tendência natural do Universo de se expandir.
 
Acho que preciso te contar: o que me levou a pensar em tudo isso foi o término de mais um ciclo; em breve, minha permanência em Titã chegará ao fim e eu deixarei esta estação para continuar o trabalho em outro lugar. Ainda não sei onde, nem sei o que pode acontecer, da mesma forma que uma garotinha numa cidade longínqua não sabia o que seria do seu futuro. Mas que bom que ela não tinha ideia. Se tivessem dado alguns “spoilers” dizendo a ela que ela estaria tão longe em alguns anos, dizendo que ia ficar tudo bem e que ela podia ir além, talvez ela não tivesse acreditado – e talvez ela não tivesse desenvolvido a teimosia necessária para cumprir esse futuro. Vendo em retrospecto, acho até que as dificuldades me fizeram bem.
 
Daqui, a Terra é um ponto luminoso minúsculo. Quase não dá pra ver, mas eu sei que em algum lugar naquela direção está minha casa. Me pergunto como estão hoje as pessoas que fizeram parte do meu passado. Será que aquela jovem artista continua pintando? Será que meus amigos da época do colégio conseguiram terminar a faculdade? No que trabalham? Passaram em algum concurso público? Será que já tiveram filhos? Será que foram morar em outra cidade? Será que algum deles já morreu? Será que meus professores daquela época continuam dando aulas? Será que eles sabem o que aconteceu comigo?
 
É provável que eu nunca mais veja a maioria deles e que eles continuem a existir apenas como parte de minhas memórias. E como personagens estáticos no tempo, ancorados em um passado de dificuldades e limitações, eles permitem que eu meça a distância que percorri na escala da vida a partir daquela origem. São meu ponto de referência.
 
Então lembro de outra referência importante: esses dias, Saturno voltou ao mesmo ponto em sua órbita que ele se encontrava no momento em que nasci, em algum lugar na Terra. Um ciclo completo. E quanta coisa pode acontecer em uma volta de Saturno, não é?
 
Em algum momento, chegaram a acreditar que Saturno era o limite. Que depois do planeta dos anéis não havia nada para se ver nem para se alcançar. Assim como me disseram que, vindo de onde vim, terminar o colégio era o limite. Ou que arrumar um emprego era o limite. Que sair da casa dos pais para morar em um apartamento menor do que quarto de hotel era o limite. Que a cidade grande era o limite. Mas nunca era.
 
Hoje já tenho conhecimento para dizer que há outros planetas depois de Saturno e que há muita coisa para lá das barreiras que me colocaram. E possuir o conhecimento da vastidão de possibilidades que existem no Universo já é o suficiente para me tornar uma Nomi completamente diferente. Maior por dentro, quem sabe, de forma a impedir que aquela pequena cidade seja capaz de me esmagar novamente.
 
Então voltar não me apavora mais. Principalmente porque sei que voltar não é minha única opção: daqui de Saturno dá pra ver bem melhor quanta coisa há pela frente.
 
E é para lá que eu vou. 

Viagem ao blog



Toda semana eu recebo um bocado de novos assinantes, e penso que essa é uma ótima oportunidade de dar boas vindas a quem está chegando e explicar o que acontece aqui.
 
Não espere ver algo muito constante, em tamanho ou em tema, porque em uma semana eu posso fazer um textão sobre feminismo e na outra eu posso fazer várias historinhas de ficção absurdas. Posso falar de filmes e séries, mas também falo da minha própria vida. Eu nunca escrevo sobre uma coisa só.
 
Também não espere que eu mude a newsletter toda semana para me adaptar ao tema polêmico da vez. Polêmica dá clique, atrai público, dá popularidade; mas passa. Aqui, o meu interesse é em manter um diálogo, conseguir tocar alguém com mais profundidade.
 
Aproveitando, queria te convidar para dar uma passadinha lá no meu blog (mesmo se você já conhece)! Selecionei pra você dois textinhos de dois momentos bem diferentes, sobre temas opostos (um sobre heroínas e outro sobre vilões):
 
Merida e Katniss: heroínas, mas não o suficiente (um texto de 2012 que continua super válido)
 
Pessoas ruins (um texto sobre o filme O Abutre, em que também falo sobre maldade e falta de empatia)
 
Ah! A novidade no blog é que esses dias montei um espaço onde vou organizar e guardar as entrevistas que já dei por aí, a seção Entrevistas. Se quiser me conhecer melhor, pode dar uma olhada lá também :)

Sailor Saturno, que não poderia faltar nesta edição.
Conselhos da Dona Mexerica
 
“Se um seriado não é bom, talvez seja porque você não viu por tempo o suficiente. Às vezes, gostar de uma história é questão de insistência. Por que você acha que novelas têm tantos capítulos?”
 

* Dona Mexerica viu o Cravo e a Rosa várias vezes, mas não conseguiu terminar a primeira temporada de Under the Dome. Em uma realidade alternativa, ela é a gata laranja de uma amiga.

Nas edições passadas

 

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<<Primeiro Nome>>, a música que serviu de trilha sonora para o texto desta edição foi “The Commander Think Aloud”, do The Long Winters.
 
Descobri essa música pelo podcast Song Exploder, que em cada episódio traz os compositores para contarem como foi o processo de criar determinada música. É muito legal.
 
Nesse episódio, o vocalista da banda conta o que os levou a escrever “The Commander Think Aloud”: em 2003, a nave Columbia se desintegrou ao reentrar na atmosfera terrestre, matando toda a tripulação. Eles imaginaram o que aquelas pessoas devem ter sentido no momento de voltar para a Terra, para casa, para seu lugar de origem. No momento em que perceberam que iam morrer.
 
Um trechinho traduzido:
 
“Meninos e meninas em carros
Cães e pássaros em gramados
Daqui eu posso tocar o sol 
Vista seu casaco
Sinto que estamos nascendo
O Trópico de Capricórnio está bem ali embaixo 
(…)
Você pode sentir? Estamos quase em casa"
 
Eu me arrepio cada vez que ouço essa música.
 
Sobre a história “Volta em Saturno”, tive a ideia para esta newsletter, mas enquanto escrevia e conversando com o Marcos, percebi que isso poderia virar uma história maior, como ele me apontou.
 
(até porque ficou gigante, né)
 
Mas resolvi publicar aqui, mesmo assim, para saber sua opinião. O que achou? O que sentiu? O que acha que posso fazer com a história?
 
Daí, quem sabe, eu possa trabalhar nela para virar algo maior? Mas só vou pensar nisso depois que terminar os trabalhos com meu livro do oceano, claro, hehe!
 
Obrigada pela companhia e até a próxima.
 
Beijos saturninos,
 
Aline. 
 
 
Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, todos os direitos reservados.

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