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Vou precisar de você nesta edição.

Conexão

 


Será que hoje Aline vai abrir o e-mail? O que será que Aline vai achar desse texto? Será que vai me responder?
 
Em algum momento, a escritora que tenta não pré-julgar o que está escrevendo dá lugar a uma pessoa que se importa. Há outra pessoa do outro lado, afinal. Sem ela, um texto é apenas metade.
 
Curioso que, mesmo num trabalho solitário como o meu, dependo tanto do outro. Não falo aqui de depender da aprovação do outro, se já falei n’alguma edição passada que escrevo não para agradar alguém; mas falo de colocar uma mensagem numa garrafa, lançar ao mar e esperar que alguém a encontre. Falo de buscar uma conexão.
 
Qual é a diferença? As duas coisas parecem quase indistintamente grudadas e eu pareço não ser a pessoa mais indicada para falar sobre isso.
 
Não sou a pessoa mais sociável deste mundo. Bem longe disso. E cá entre nós, Aline, as pessoas me apavoram. Esse troço de entrar em contato. Nem telefone gosto de atender.
 
Ainda assim, a necessidade de contato continua aqui dentro. Talvez eu só expresse e busque essa proximidade de uma forma diferente – interagir e socializar nos parâmetros considerados “normais” quase sempre me deixa exausta.
 
O que cansa são as cobranças que vêm quando alguma relação se estabelece (e não falo apenas das amorosas). Sabe, a gente não devia exigir tanto das pessoas. E aí entra o porquê de gente me apavorar, se sempre esse medo de fazer algo errado, inadequado, de não cumprir expectativas.
 
Contar uma historinha: antes dos meus 20, eu tinha uma amiga bem próxima – quando não estávamos juntas em eventos, ou na casa uma da outra, a gente se falava por telefone, pela internet (na época, através de um fórum nerd ou pelo falecido orkut) e até por carta.
 
Bem, o tempo passou e eu comecei a trabalhar, entrei na faculdade – e ficou difícil manter a mesma frequência de contato, mas não deixei de considerá-la uma das minhas melhores amigas. Mas ela sempre me cobrava presença, mesmo sabendo que eu não podia – e eu, sempre me sentindo culpada, tentava compensar depois.
 
Até que um dia ela me mandou uma mensagem dizendo que estava grávida. Eu liguei para ela na hora para saber como ela estava. Ela respondeu rindo “não estou grávida, era só pra ver se assim você me ligava”.
 
Aquilo me quebrou. Tonta como eu era, fiquei me sentindo uma pessoa horrível. Mas hoje vejo o quanto aquilo foi ridículo: ela esperava de mim o esforço para a gente continuar se relacionando, como se eu fosse capaz de esquecer dela se eu não ligasse por uma semana.
 
Mas naquele momento já não havia mais amizade. As exigências romperam a conexão que havia.
 
(cabe aqui uma correção. Não são as pessoas que me apavoram, mas as exigências. Isso me enlouquece, me faz murchar, querer desaparecer da face da Terra)
 
Tento não esperar muito das outras pessoas, aceitar o que elas têm para oferecer em vez de idealizar o que eu gostaria que elas me dessem – uma das poucas coisas que sei nessa vida é que expectativas são caminho certo para a decepção.
 
Toda vez que me pego reclamando de alguém ou de alguma circunstância da vida que não estão adequadas ao meu gosto, uma voz imaginária e hipotética passa bem do meu lado e diz: “fia, se liga, seu ego tá aparecendo”. Tem coisa mais umbigocêntrica do que achar que o mundo e os outros tem que ser do jeito que eu acho certo? Pelamor.
 
Sem aceitar o outro – e o que ele tem para nos oferecer – é impossível haver uma conexão.
 
Alguém pede por contato, a outra pessoa pode aceitar ou recusar. É aí que a conexão acontece: um pedido & uma resposta livre. E a diferença entre pedir e exigir, acredito, é bastante clara.
 
Amanda Palmer, uma cantora que eu amo (eu a pediria em casamento se ela já não fosse casada com o Neil Gaiman, outro lindo de quem sou fã), escreveu em seu livro “The Art Of Asking”:
 
“Pedir é, em si, a pedra fundamental de qualquer relacionamento. Constantemente, e geralmente de forma indireta, às vezes apenas gestualmente, fazemos pedidos uns aos outros – aos nossos chefes, nossas esposas, nossos amigos, nossos empregados – de forma a construir e manter nossas relações com os outros. ‘Me ajuda?’ ‘Posso confiar em você?’ ‘Você vai me sacanear?’ ‘Tem certeza que posso confiar em você?’ E assim, muitas das vezes debaixo disso tudo, estas questões se originam no nosso mais básico e humano desejo de saber: ‘você me ama?’."
 
Em cada pedido, as pessoas buscam conexão. É humano. A gente não tem como escapar.
 
Nem eu, esse totem de timidez e esquisitice, consigo escapar – a própria newsletter não é, afinal, a minha tentativa de contato? Um chamado que alguém pode atender e decidir se responde ou não?
 
Às vezes o mar me traz de volta uma garrafa com uma mensagem enrolada dentro e então me sinto menos sozinha. “Tem alguém, de fato, me vendo.” E então eu sei que há mais do que um assinante, um ~internauta~ aleatório do outro lado, mas uma pessoa, com suas próprias histórias. E então te digo: “eu também vejo você."
 
Entenda que não falo de simplesmente olhar para outra pessoa (aí outra coisa que tenho pavor: que alguém esteja me olhando, reparando em mim, quero morrer). Ver é atravessar a superfície. Ir mais fundo.
 
A própria Amanda escreveu:
 
“Há uma diferença entre querer ser olhado e querer ser visto. Quando te olham, seus olhos podem ficar alegremente fechados. Você suga energia, rouba os holofotes. Quando você é visto, seus olhos precisam ficar abertos, Você aceita energia e gera energia. Um é exibicionismo, o outro é conexão. Nem todos querem ser olhados. Todos querem ser vistos. É uma necessidade básica. Mesmo para os tímidos que não querem ser olhados."
 
É difícil ver o outro. É difícil abrir os olhos e também os braços para aceitar o outro pelo que ele tem a oferecer. É difícil, mas temos escolha? Esta conexão é o que nos torna reais.

Amanda Palmer

Sozinho com um coiote

 

Estou obcecada com um vídeo. O clipe de Elastic Heart, da Sia. Toda vez que assisto (e não foram poucas vezes essa semana), ele me emociona profundamente e não sei exatamente explicar por quê.
 
Certo, tem o Shia LaBouf dançando de cueca e a pequena Maddie que dança de forma sobrenatural e a coreografia é excelente e a música também é bem foda, mas. Não, é algo por trás disso tudo.
 
É a história.
 
Um homem preso numa gaiola com um coiote. Não se sabe como foram parar lá, apenas que aquela pequena fera é sua única companhia.
 
Ele tenta se aproximar, fazer amizade com o companheiro apavorante que o acaso fez o favor de jogar na sua cela, tentar conviver pacificamente com aquele bicho sujo, desgrenhado, cheio de dentes.
 
 
Mas toda vez que tenta, o coiote ataca. Na gaiola, o espaço é limitado para fugir e pequeno demais para um bicho arisco conviver com outro bicho que precisa de algum contato para sobreviver.
 
Um toque, é só o que o peço, o homem diz. O coiote morde e uiva e dá patadas: não!
 
O homem tenta chegar perto enquanto o coiote está dormindo. O coiote: morde. O homem chega devagar. O coiote: morde. E se eu apenas estender minha mão e esperar que o coiote aceite meu carinho? O coiote se aproxima desconfiado, dá algumas fungadas naquela mão cheia de dedos, mas: morde!
 
 
A solidão pode fazer as pessoas agirem de forma estranha – e o homem, desesperado com aquele isolamento, parte para cima do coiote. Os dois lutam. O homem fica muito ferido, mas parece não se importar. Que diferença faz morrer se a outra opção é não ter ninguém?
 
E quando a coisa vai ficar feia, o coiote simplesmente passa pelas grades da prisão e fica fora do alcance dos braços do homem. Sim, o coiote podia ter saído o tempo todo. Mas por que não fugiu antes?
 
Então fica claro. O coiote queria a companhia do homem.
 
Coiotes, assim como homens, também não suportam a solidão – ainda que a necessidade de conexão de um e de outro fossem, de alguma forma, incompatíveis.

 
Do lado de fora, o coiote vê o humano definhar sozinho e de repente é acometido de grande compaixão. Ele volta para a gaiola e permite ser tocado e carregado.
 
Mas o coiote entende que aquela relação é impossível. O homem nunca será coiote (mesmo que arreganhe bem os dentes) e o coiote nunca será homem (mesmo que toque o rosto de alguém com delicadeza). Um precisa tocar, o outro morder. O coiote entende que o homem, para sobreviver, precisa sair dali e encontrar um igual. 
 
Então o coiote, num inesperado ato de amizade, puxa o homem e tenta ajudá-lo a sair da gaiola. Mas nunca descobrimos se ele consegue.
 
 
***
 
Nota 1: o clipe foi inspirado nesta performance, em que o artista Joseph Beuys se trancou sozinho com um coiote durante dias.
 
Nota 2: É sinal de uma sociedade doente o fato de tanta gente associar o toque, o contato físico, a algo necessariamente sexual. Talvez isso esteja nos afastando.
 
Nota 3: “lesbically i’ll trust no one” é o meu trecho favorito da música. 

Escrevi

 
 
:: “Prometa que nunca vai escrever sobre isso” e eu respondi “claro” (mas depois contei tudo no texto "Trapaça na maionese caseira").
 
:: Gosto das pessoas como gosto do meu café: nunca ponho açúcar, prefiro aceitar o sabor que elas – pessoas e café – têm a oferecer.
 
:: Em seis anos de blogue, vi muita coisa mudar, muitos blogs pequenos serem derrubados para virar estacionamento para os grandes. Mas eu não parei de escrever, mesmo estando “ultrapassada”; meu blog é um dinossauro que se recusa a virar fóssil.
 
:: Pode misturar astrologia e paladar? Pode sim, no Todo Mundo Come pode tudo. Então criei o Sanduíche de Mercúrio, equivalente ao Retorno de Saturno, só que pra comida.
 
 
♡ Textos para a sua hora do café ♡
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Essa semana o movimento de assinantes foi meio incomum (alguém andou me divulgando por aí, mas não sei onde! Apenas agradeço), então, se você é um dos mais de quarenta assinantes que está chegando agora, as minhas boas vindas, fica à vontade, espero que goste da viagem, etc :)
 
Se você já está aqui há algumas edições, deve lembrar da minha nova meta, a de tentar me aprofundar mais nas leituras e assuntos. E eu queria estender isso também à nossa relação: quero te conhecer mais!
 
Já converso com algumas leitoras e leitores por e-mail, mas sei que várias pessoas ficam meio tímidas de responder os e-mails ou tentar algum contato. E eu morro de curiosidade de saber quem é você, o que pensa, o que tem a dizer.
 
Não importa se você já é de casa, se a gente já conversa, ou se está chegando agora: eu sinceramente gostaria de conhecer você melhor. Então eu criei um questionário com algumas perguntinhas que eu queria te fazer. Você topa responder?

Só clicar aqui.
 
Vou ficar feliz de avançar +1 nível na nossa conexão. E quem sabe um dia a gente se encontra pessoalmente para eu te perguntar mais coisas? ;)
 
Beijos na sua cara linda,
 
Aline.

 

Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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