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Ideias brilhantes podem estar mais perto do que você imagina.

Como funciona a criatividade

Como está sua intimidade com essa ferramenta?



Com alguma frequência, me perguntam como eu crio minhas histórias, o que me inspira, como consigo ser tão criativa, ou se passo por alguma angústia na hora de escrever, porque acham que crio com muita facilidade.
 
Não acho que eu seja criativa de uma forma especial. Sou criativa como qualquer pessoa, porque a criatividade é algo que as pessoas simplesmente têm (embora usem de diferentes formas e em diferentes níveis), e não algo disponível apenas para alguns poucos “escolhidos” e “talentosos”.
 
Aliás, já falei tanto que não acredito em talento, que aposto que você já leu esse link.
 
Criatividade, ao meu ver, não é apenas conseguir tirar da cabeça uma história de fantasia, com personagens de outros mundos. É muito mais do que escrever, ou pintar, ou compor.
 
Criatividade é também conseguir usar o pouco que se tem na geladeira para fazer um almoço massa. Criatividade é também estar desempregado e arrumar um jeito de descolar uma graninha. Criatividade é também descobrir uma forma melhor de fazer o seu trabalho usando o que se tem à mão. 
 
Se parece mais fácil para alguns do que para outros, é só uma questão de prática. Quanto mais você usa o músculo da criatividade, melhor e em mais quantidade você começa a criar.
 
Aposto que você usa muito sua criatividade, ainda que não se ache uma pessoa criativa.
 
Também conheço muita gente que é criativa sem saber que é. Essas pessoas nem precisariam entender como funciona o processo criativo e outros conceitos do tipo, porque, ainda que não entendam como a roda gira, fazem sua carroça da criatividade andar todos os dias. E é isso o que importa.
 
 
Criatividade, a arte de resolver problemas
 
No meu caso, e imagino que no de outras pessoas também, o diploma não foi nem de longe a coisa mais importante que tirei da faculdade.
 
Acima de tudo, a faculdade me deu os melhores amigos que tenho até hoje, além da oportunidade de conhecer em especial dois professores incríveis, que foram bem mais do que aquelas figuras que passam conteúdo e depois nos avaliam.
 
As lições que eles deixaram me acompanham desde então, como a que aprendi com a professora Cantarelli, de Redação Publicitária, de que um bom texto deve ser como uma boa conversa (coisa que levo muito a sério até hoje, inclusive nesta newsletter, não é mesmo?)
 
O outro professor que marcou muito a minha formação foi o Delamare, que conheci já no primeiro semestre na matéria de Criatividade e Inovação (se você achou muito “coisa de humanas” o nome dessa matéria, imagina então se eu te dissesse que também tive uma chamada Introdução ao Pensamento Imaginário? Risos).
 
Foi com o Delamare que aprendi que criatividade não é algo mágico, que depende da inspiração cair no seu colo, ou algo que apenas artistas têm.
 
Criatividade é um processo. É um esforço no sentido de criar algo para cumprir determinado objetivo. Criatividade é a habilidade de resolver problemas.
 
Daí que encontrei nos meus arquivos antigos o material que o Delamare elaborou para nos explicar como isso funciona e tomei a liberdade de compartilhar com você as imagens que ele criou para ilustrar essa importante lição.
 
Primeiro, ele define o que é a capacidade de criação: é a ação de produzir ideias e imagens fazendo uso da fantasia e da imaginação. A imaginação é a capacidade que temos de imaginar algo que não necessariamente aconteceu. A fantasia é nossa capacidade de imaginar algo fora da realidade conhecida.
 
 
Podemos criar qualquer coisa a qualquer momento e vivemos fazendo isso. Nem precisamos de um motivo. Somos primatinhas contadores de causos e criadores de mundos que não existem e, até onde se sabe, somos os únicos animais com essa capacidade.
 
Mas é quando surge um desejo, uma angústia ou um problema a ser resolvido, que a criatividade entra em ação. A criatividade é a nossa capacidade de usar a criação para cumprir um objetivo (que vai de satisfazer uma necessidade ou encontrar uma solução para um problema, até saciar um desejo ou dar vazão a uma angústia pessoal ou coletiva).
 
 
Nas palavras de Delamare:
 
“A criatividade faz uso de dois processos básicos: a descoberta e a invenção.
 
Descoberta é quando se percebe um novo aspecto de algo já conhecido. Por exemplo: durante uma experiência utilizando radares, um cientista percebeu que uma barra de chocolates em seu bolso havia derretido. A partir dessa percepção foi desenvolvido o forno de micro-ondas.
 
Já a invenção é quando se combina conceitos conhecidos gerando algo novo. Por exemplo: no início da década de 1960, os surfistas da Califórnia queriam fazer do surf um divertimento também nas ruas, em uma época de marés baixas e seca na região. Adaptando rodas às pranchas, surgiu o ‘sidewalk surf’, que depois virou o skate.” 
 
Entre o objetivo e a criação existe todo um processo, que pode variar dependendo de qual é o problema a ser resolvido, o tipo de criação e a pessoa que se propõe a criar; mas nem por ser meio inconstante e bastante pessoal que isso vá ser algo misterioso, secreto ou inacessível. 
 
Muita gente nem nota que passa por um processo, porque encara a criação de uma forma mais natural, como o ato de andar. Mas já parou para pensar em como é o mecanismo e que complexos são os movimentos de uma simples caminhada? Pois é.
 
Quando a gente para e pensa em como fazemos as coisas, conseguimos racionalizar e visualizar um pouco melhor esse processo.
 
Delamare visualizou e esquematizou da seguinte forma:
 
 
O processo criativo começa, então, com a identificação do problema / objetivo / necessidade. O que precisa ser resolvido? O que precisa ser feito? Aqui é quando tentamos entender bem esse objetivo, desconstruir o problema, enxergar com clareza qual é a necessidade que nos move a fazer o que precisamos fazer.
 
Um exemplo: o Facebook não permite que as publicações da minha página alcancem todos os meus leitores. O que eu faço para que as pessoas que acompanham meus textos possam recebê-los sem depender do Facebook?
 
(foi o “problema” que me levou a criar esta newsletter há 63 semanas, veja só!)
 
Depois de entender o problema, buscamos estar bem fundamentados e informados para resolvê-lo. Pesquisamos, estudamos, fazemos enquetes, enfim, nos abastacemos de toda informação possível relacionada à questão.
 
É exatamente o que se faz quando se busca, por exemplo, escrever sobre um tema com o qual não temos muita familiaridade. Ou, mesmo se temos, é sempre interessante buscar novos pontos de vista sobre aquele assunto. 
 
Aliás, essa é a parte que mais gosto no meu trabalho. Pesquisar. Aprender. Ler muito.
 
Mas, como em todo bom mergulho, uma hora você precisa subir à superfície para pegar um ar. Essa é a fase da incubação, em que nos distanciamos por um momento do tema e do problema e vamos fazer outra coisa. Tomar um café. Jogar videogame. Dormir. Comer. Transar. Qualquer coisa.
 
Simplesmente não adianta ficar batendo cabeça direto em cima de um problema. É o que eu já aconselhei aqui: vá fazer outra coisa e simplesmente saia da frente dessa maldita folha em branco. Deixa rolar, miga.
 
O cérebro precisa de um tempo para absorver as informações. Podemos estar fazendo outra coisa, mas aquilo continua sendo processado no nosso subconsciente.
 
Depois dessa pausa, retomamos o trabalho tentando tirar daquele oceano de informações onde mergulhamos as possíveis soluções para o que buscamos.
 
É muito útil fazer listas de palavras, ajuda a visualizar o universo de ideias relacionadas ao tema e a combinar, misturar, reorganizar, aumentar, inverter ou substituir essas ideias. O famoso brainstorming: você vai anotando tudo o que vier à sua mente, tentando não se censurar.
 
De alguma associação que fizermos nesse momento, algo aparentemente bobo ou improvável, vai surgir a ideia que procuramos. Não aparece nenhuma lâmpada em cima da cabeça, mas a sensação é parecida: um “NOSSA, É ISSO” que vem lá do fundo e nos faz ter a certeza que ligamos dois pontos que, até então, a gente nem sabia que podiam se encaixar.
 
É aí que começamos a executar a ideia. Ou pelo menos anotamos. O tanto de ideia que eu já perdi porque fiquei de anotar depois e esqueci, olha. Ideias são escorregadias, as danadas.
 
Mas a criatividade precisa do fazer para existir, ou como você acha que algo que ficou só na sua cabeça pode cumprir algum objetivo? Então arregaçamos as mangas e trabalhamos nessa ideia embrionária à exaustão, até que ela se torne, de fato, alguma coisa que vá se encaixar naquele problema lá atrás que nos trouxe até aqui.
 
Pode ser um texto, uma música, uma ilustração, um aplicativo de celular, uma roupa, uma receita para o jantar, um projeto para a faculdade, um romance de ficção científica. Não importa o que seja; o que importa é que todas nós temos a capacidade de trazer a este mundo uma infinidade de coisas criativas.
 
 
A teoria do liquidificador
 
Eu sei que eu já citei o livro da Amanda Palmer em duas ocasiões diferentes. Mas o livro é realmente maravilhoso nesse tanto, então solta meu braço que vou citar The Art of Asking mais uma vez.
 
Sobre descobrir novos aspectos de algo já conhecido ou misturar elementos de coisas já conhecidas no sentido de criar algo novo (como descrito ali em cima), Amanda escreveu o seguinte (tradução minha, então dsclp qualquer coisa):
 
“Todos os artistas conectam os pontos de forma diferente. Todos nós começamos com ingredientes vivos e fresquinhos que são reconhecidos pela realidade das nossas experiências (um coração partido, um dedo, um pai, um globo ocular, um copo de vinho) e os jogamos todos no Liquidificador da Arte.
 
Minhas músicas são pessoais e íntimas; muitas delas são crônicas da minha vida interior. Extraio as profundezas da minha própria experiência e as jogo no papel, às vezes nuas, às vezes fantasiadas. Transformo em ficção para proteger a mim mesma e a meus alvos. Mas eu tendo a apenas misturar e borrar as coisas bem de leve, o que significa dizer que costumo manter meu liquidificador num nível baixo. Numa escala de um a dez, fica no nível três. Na sopa final da arte, o dedo pode estar cortado e mutilado, mas você ainda pode dar uma mexida na tigela e vê-lo boiando ali.
 
Neil [Gaiman] escreve ficção sobre coisas bem irreais: um livro sobre um garoto criado por fantasmas num cemitério; uma América onde deuses novos e velhos batalham entre si pelo destino da humanidade; graphic novels em que uma estrela caída do céu acaba virando uma garota com a perna quebrada. Neil configura seu Liquidificador da Arte lá no onze. O leitor geralmente não tem ideia de onde as experiências da vida dele se assentam no sofisticadíssimo purê do produto final. Você pode até sentir gosto de dedo, mas não é reconhecível como um dedo humano."

Ela dá um ótimo exemplo disso acontecendo.
 
Uma vez os dois foram a uma fazenda de trutas, onde testemunharam seu jantar sendo aberto e eviscerado por um peixeiro. Então eles olharam para o balcão de metal onde as vísceras iam sendo separadas, e viram que o coração pequeno de uma das trutas continuou a bater por vários minutos. Eles acharam aquilo tão triste e simbólico que acabaram transformando em arte.
 
Essa imagem do coração de uma truta batendo sozinho deu origem a este poema de Neil Gaiman e a esta música de Amanda Palmer. De acordo com ela, o poema “Conjunctions” foi criado no nível 8 do Liquidificador da Arte. A música “Trout Heart Replica”, no nível 5. Aliás, ambos são de fazer chorar.

 
Essa teoria do liquidificador fez todo o sentido pra mim e é uma ótima forma de ilustrar o funcionamento da criatividade por dois motivos.
 
Primeiro, porque o liquidificador mistura coisas para que se transformem em algo diferente. Acredito que isso esteja no cerne da atividade criativa. Pegar uma cena banal aqui, um sentimento ali, uma velha história que você leu na internet acolá e ZAP ligar os pontinhos entre essas coisas até então distintas e isoladas.
 
Essa associação de ideias pode se dar em níveis variados, de forma mais intensa ou mais sutil, batendo bastante até que os ingredientes originais fiquem irreconhecíveis, ou misturando apenas de leve, de forma que os pedaços desses ingredientes possam ser vistos no resultado final.
 
Considere ainda que você pode jogar mais ingredientes nessa mistura. Certamente o sabor da sua criação ficará mais rico. Adicione a isso o fato de você poder variar a intensidade dessa mistura. Isso significa que, partindo de um mesmo ponto, apenas controlando as variáveis da criatividade, você tem à sua disposição possibilidades infinitas.
 
Bem, o segundo motivo para eu gostar dessa teoria é que ela assume que os ingredientes da nossa criação estão à nossa volta. Não é preciso esperar que o fantasma da inspiração sopre coisas de outro mundo em seu ouvido. Os ingredientes não vêm de outro planeta. Nada disso.
 
As coisas que criamos são feitas das mesmas fibras que compõem o tecido de nossas vidas.
 
Quando alguém diz que um artista só cria obras “confessionais”, como se fosse um defeito se inspirar nas próprias experiências, ignora-se o fato de que são essas experiências a principal matéria-prima para a arte. O que pode acontecer é um artista escolher usar seu Liquidificador da Arte em um nível mais baixo ou mais alto, dissolvendo menos ou mais essas experiências em sua criação.
 
Mas não se pode ignorar que a vida e a experiência de uma pessoa vão influenciar nas coisas que ela cria.
 
Esse motivo também é um baita estímulo para buscarmos sempre novas experiências, nos alimentarmos de boas referências, entrarmos em contato com outras culturas e com os mais diversos tipos de arte. Quanto mais referências tivermos, quanto mais ricas de vivências nós formos, mais e melhor conseguiremos criar. 
 
Não dizem que uma pessoa só dá aquilo que tem pra oferecer? Pois é.
 
Amanda Palmer ainda resume lindamente essa questão: “Toda arte, não importa qual seja o seu formato, tem que vir de algum lugar. Só podemos conectar os pontos que podemos coletar”.
 
 
Saindo do armário da criatividade
 
Geralmente, as outras pessoas reconhecem mais nossas capacidades criativas quando somos crianças. Elogiam nossa criatividade em desenhos finalizados com lápis de cor que levaram nossos dedos à exaustão, ou em histórias que contamos, desde que não envolva alguma mentirinha que faça algum adulto de trouxa.
 
Eventualmente, crescemos e nos tornamos pessoas adultas que raramente são reconhecidas pela criatividade, talvez exceto por aquelas entre nós que escolhem trabalhar com algo relacionado a isso – porque, sabe como é, quando se é adulto o que importa é o seu trabalho.
 
Além disso, tudo ao nosso redor favorece a preguiça criativa, construindo um cenário propício para que a gente se acostume a fazer as coisas do mesmo jeito, a apenas seguir o manual de instruções e não sair por aí “inventando moda” (já diria minha mãe).
 
A boa notícia é que aquela criança criativa continua em algum lugar aí dentro. Talvez ela relute um pouco para sair porque foi endurecida pelas regras do mundo adulto, e não dá para culpá-la se é tão mais difícil exercitar a criatividade de outras formas depois que crescemos. Às vezes tudo o que essa criança criativa dentro de nós precisa para sair é de uma mãozinha.
 
Por isso é comum vermos coisas como “10 dicas para sair do bloqueio criativo” ou “30 coisas que você pode fazer para ser mais criativo”. Somos meio viciadas em manuais de instruções, né?
 
Eu particularmente não gosto dessas regrinhas. Nem sempre elas se aplicam em todos os casos, porque as pessoas funcionam de formas diferentes. Mas às vezes é bastante útil, ou no mínimo interessante, saber como alguém resolve determinado tipo de problema. Ali podemos encontrar um caminho para solucionar o nosso.
 
Em vez de compartilhar algum texto do tipo que certamente favoritei e deixei guardado em algum lugar, resolvi falar um pouco do que me ajuda a criar. Pode não se aplicar a você. Mas pode ajudar você a visualizar melhor seu próprio caminho.
 
Uma coisa que faço muito é ficar atenta a tudo ao meu redor. Mesmo que eu não saiba no momento, algo que eu vi ou ouvi pode se tornar material útil mais tarde. Como um copo de café-com-leite abandonado na rodoviária, alguma frase que li numa exposição, alguma história que tenham contado numa reunião entre amigos, um lugar que eu tenha visitado, uma mania de uma pessoa próxima. Qualquer coisa que depois eu possa jogar no meu Liquidificador da Arte.
 
Às vezes a ideia vem na hora em que vejo ou ouço alguma coisa. Nessa hora, acho que meus olhos se arregalam de uma forma estranha e pode até parecer que continuo prestando atenção no que a pessoa está me dizendo, mas minha cabeça já está em outro planeta. Às vezes a ideia só é cuspida pelo meu cérebro semanas, meses ou anos depois. É uma caixinha de surpresas. É o chapéu mágico do Presto. Nunca se sabe o que vai sair dali.
 
Imagino se isso não é meio insuportável para quem convive comigo; estarmos conversando sobre algo e eu “nossa, isso dá um conto” ou, sei lá, na semana seguinte elas verem que o assunto da conversa virou tema da newsletter. Sorry.
 
Depois de tanto tempo, acabou sendo natural pra mim ficar com o radar ligado sem parar. Ou talvez a nossa natureza de criaturas esponjosas (que absorvem tudo ao seu redor) só seja suportável pra mim porque depois despejo as coisas que absorvi naquilo que escrevo.
 

ilustração por Ira Sluyterman
 
Também é importante pra mim ter prazos. A urgência de uma deadline chegando ao fim é um baita motor para o cérebro pegar no tranco. 
 
Participar do NaNoWriMo foi um bom exemplo disso. No National Novel Writing Month, os participantes têm apenas o mês de novembro para escrever cinquenta mil palavras de um romance. Por várias vezes eu quis desistir, ou pensei que eu não ia conseguir concluir meu livro, mas pensava no prazo acabando e na quantidade de palavras que eu tinha para escrever e engolia o choro. Acabei conseguindo alcançar exatamente 52.300 palavras até o fim de novembro, tendo nas mãos uma primeira versão do meu romance.
 
Meu dia a dia é um entrelaçamento de prazos que vou tentando administrar e encaixar da melhor forma como quem joga uma partida de Tetris, cuidando para que eu não fique perigosamente soterrada de coisas e acabe dando Game Over.
 
Posso ter prazos mais curtos para as coisas que preciso escrever no dia, ou prazos mais longos, para projetos que exigem alguns meses de dedicação, mas eles estão lá para me lembrar que tenho problemas para resolver e a criatividade é a minha ferramenta para cumprir esses prazos.
 
O prazo dessa newsletter é um exemplo disso. O “problema” que tenho para resolver é pensar num tema e executar uma ideia diferente toda semana. Às vezes desde o final de semana eu já começo a rascunhar a próxima newsletter; às vezes chega na véspera do envio e eu ainda não tenho ideia sobre o que escrever. Mas o prazo está ali e eu simplesmente tenho que dar um jeito de colocar a criatividade para trabalhar.
 
Outra coisa que ajuda meu processo criativo é mudar de lugar de vez em quando. Sair do escritório e ir escrever na sala (como estou fazendo agora), ou escrever em pé, ou ainda sair da frente do computador e pegar um caderno. 
 
Ou, se nada está saindo, simplesmente vou fazer outra coisa. Se o prazo está apertado e não tenho muito tempo para, sei lá, ir ao parque, a uma exposição ou ver um filme, enquanto meu subconsciente processa melhor as ideias, então vou tomar um banho ou lavar louça. O período de incubação do que falei lá em cima pra mim acontece quando estou manuseando água, é engraçado. Acabo tendo bem pouco tempo pra fazer isso debaixo do chuveiro (porque né), mas mesmo assim já saio do banho com a cabeça limpa, em todos os sentidos, para trabalhar nas ideias.
 
Mudar de lugar também significa sair da zona de conforto. Experimentar um novo ponto de vista, pesquisar um tema diferente, tentar fazer algo de uma forma que eu não faço normalmente. Sair da zona de conforto expande nossos horizontes para que a gente consiga alcançar alguma ideia que antes estava totalmente fora do nosso campo de visão.
 
Mas o mais importante, ao meu ver, é não ter medo de errar. O erro não é algo que deve ser eliminado do processo, mas abraçado, se possível, com braços e pernas.
 
Por escrever e publicar com muita frequência, porque a internet facilita muito esse processo, as chances de eu criar algo ruim são, na verdade, bem altas. E com muita frequência eu escrevo coisas ruins, especialmente quando estou tentando fazer algo diferente.
 
Se eu ficar “me guardando” para apenas escrever e publicar aquela grande ideia, minha criatividade iria fatalmente ficar atrofiada. Não há como eu chegar nas criações de qualidade se eu não deixar um rastro de criações péssimas, equivocadas ou “apenas ok” pelo caminho.
 
E também porque a criatividade tem um quê de risco. Se não for pra arriscar, melhor fazer as coisas como manda o manual e ficar no lugar comum.
 
Talvez não seja boa ideia mexer com esse negócio de criatividade, se exige tanto esforço e coragem. Mas tem pessoas que simplesmente não escutam, sabe? Ainda bem.
 
Por isso crianças são reconhecidamente mais criativas. Elas ainda não sabem ou ainda não se importam com o fato de que podem passar vergonha ao inventar algo novo.
 
Isso me lembrou de uma aula dos meus tempos de quinta série, em que a professora deu para a turma algo como meia hora para escrevermos uma redação com tema livre (aquela várzea dos primeiros dias de aula, sabe?).
 
Depois que terminamos, fomos lendo as redações em voz alta para a turma inteira. As fileiras iam avançando e era possível reconhecer um padrão nos temas: a maioria das crianças havia escolhido falar sobre seus hobbies, as músicas que gostavam de ouvir, o que fizeram nas férias ou simplesmente se apresentaram.
 
Aquilo foi me deixando um tanto insegura, porque talvez eu não tenha entendido muito bem a proposta do exercício, se eu tinha escrito algo tão diferente daquilo tudo.
 
Bem, a minha redação foi sobre clonagem. Na época, a ovelha Dolly era o assunto do momento e resolvi escrever sobre ela. Na primeira parte da redação, escrevi as informações que eu tinha sobre o que era um clone e, na segunda metade da redação, fiz várias especulações malucas sobre o que seria do futuro com a clonagem.
 
Por que raios eu fui falar logo de clonagem? Claro que fui zoada pelos coleguinhas. Fiquei arrependida de ter escolhido falar sobre algo difícil que ainda me fez parecer ridícula.
 

ilustração: Alice Feaver
 
Hoje entendo esse episódio como a única postura possível diante da vida. Criar algo diferente e surpreendente, ainda que me faça parecer ridícula, é a melhor parte desse negócio de criatividade.
 
Se você ainda não saiu do armário como uma pessoa criativa, talvez pensando nos riscos e no medo de errar que te espera do lado de fora, pense que dar uma de ridícula às vezes faz parte do trabalho.
 
E aposto que as coisas que você é capaz de preparar no seu liquidificador da criatividade, seja arte ou a solução de algum problema cotidiano, são criações que valem todos esses riscos.

Contando histórias ao estilo Pixar (Valek's Edition)



Há algum tempo, uma artista da Pixar compilou em seu Twitter algumas “regrinhas” para escrever e criar boas histórias. Se você ainda não as conhece ou se escrever histórias é do seu interesse, talvez aprecie esta leitura.
 
Resolvi pegar as “regrinhas” que fazem sentido pra mim, mudar a ordem, traduzir e adaptar ao meu bel prazer, fazendo um texto baseado nelas, que você lê aqui embaixo.
 
Mas você pode ler o texto original aqui, ou, se preferir ler as regrinhas ilustradas com bonecos de LEGO, você pode clicar aqui.
 
***
 
1. Risque a primeira coisa que lhe vier à mente; certamente é a primeira coisa que um monte de gente também pensou. Tire o óbvio do caminho.
 
2. Ao colocar a ideia no papel, você pode começar a consertá-la. Nada pode ser feito com uma ideia que só fica na sua cabeça.
 
3. Qual é a essência da sua história, a forma mais econômica e resumida de contá-la? Esse é o seu ponto de partida.
 
4. Por que você precisa contar esta história? Entenda a angústia dentro de você que alimenta essa necessidade, e você saberá qual é o coração da história.

 
5. Nenhum trabalho é perda de tempo. Se não está funcionando, segue em frente, tem outras ideias. Mas você sempre pode voltar e usar aquilo no futuro de alguma outra maneira.
 
6. Um exercício maneiro: pense em um filme que você detesta. Agora pense nos ajustes que você faria para transformá-lo em algo que você goste.
 
7. Amamos um personagem mais por ele tentar do que por ele conseguir. #TeamCoyote
 
8. No que o personagem é bom? Com o que ele fica confortável? BAM, jogue na cara dele o oposto disso. Desafie o personagem. Como ele segura esse forninho?
 
9. Se você fosse um personagem, o que faria naquela situação? Honestidade dá credibilidade até às situações mais absurdas.
 
10. Coincidências que colocam os personagens em apuros são ótimas; coincidências que os tiram da encrenca são apenas trapaça.

Nas edições passadas

 



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Fico me perguntando se você tem suas próprias teorias sobre criatividade ou um processo criativo diferente.
 
Como será que <<Primeiro Nome>> usa a criatividade? Será que <<Primeiro Nome>> prefere o Liquidificador da Arte num nível baixo ou alto? Será que <<Primeiro Nome>> conseguiu tirar algo interessante ou útil desta edição?
 
Enquanto você lê e pensa sobre isso, lá vou eu mergulhar em mais um processo criativo.
 
Por essa razão, é provável que eu suma por uns tempos das redes sociais ou que demore bem mais a responder os e-mails. Espero que as pessoas entendam. Com tantas coisas para fazer e criar, preciso mesmo desse tempo. Você entende, né?
 
Mas a gente se vê na sua caixa de entrada no próximo sábado, como sempre.
 
Beijos ridículos,
 
Aline.
 
 
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