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Um refúgio das polêmicas e notícias tensas.


Disseram que sou um corvo.
 
De todos os animais viventes na Terra, entre os grandes felinos, os domesticados que pedem atum em lata, os simpáticos animais de fazenda, os mais coloridos pássaros, os mais inusitados peixes que brilham suas próprias luzes nas profundezas, entre todos os invertebrados, os répteis de escamas frias, os microscópicos, os ameaçados de extinção, os seres da floresta, os que cavam na terra, os que vivem nas árvores, os primatas, os mamíferos aquáticos, os escorregadios ou peludos, dentre todos, eu seria o corvo.
 
Disseram que, como eu, o corvo serve como guia e, como em algumas histórias, carrega sempre uma mensagem.

 
Diferente de outros pássaros coloridos e outros exuberantes, o corvo não tem firulas: é o preto básico das aves. É muito inteligente, com certeza, já que é um dos poucos animais que se reconhecem no espelho, como golfinhos, elefantes e os grandes primatas, incluindo aí, é claro, nós humanos.
 
Bastava isso para que eu ficasse lisonjeada com a comparação. De todos os animais, eu seria justamente o corvo.
 
Na mitologia, o corvo está sempre relacionado à magia. É companheiro de bruxas e feiticeiras. Malévola tem um.

 
Relaciona-lo com o mal, por ser da cor preta e ter essa relação com tantas culturas pagãs, é hábito da tradição cristã em dividir o mundo entre o bem e mal. Já em outras culturas, o preto não representa o mal, mas a busca de respostas.
 
No xamanismo, o corvo é o mensageiro do outro mundo, é o que conduz a mente do viajante pela dimensão mágica, como uma projeção da mente. Pelos olhos do corvo, o viajante vê o outro mundo.

 
Ah, corvos. Histórias sobre eles são tão interessantes.
 
Em algumas lendas indígenas de povos ao norte do nosso continente, o corvo sempre começa a história como uma ave de cor branca que é mudada de cor como castigo por ter feito algum esforço para ajudar o ser humano. Por isso, essa dualidade. Preto, branco. Presságio bom para alguns, presságio ruim para outros.
 
Há a crença de que o crocitar de um corvo próximo à casa de alguém anuncia a morte. Os árabes chamavam o corvo de pai dos agouros. A verdade, no entanto, é que é só uma ave inteligente demais para uma ave.
 
Só.
 
Edgar Allan Poe escreveu sobre o corvo. Machado de Assis traduziu:
 
“Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, – o triste pensamento
Sorriu-me por um momento,
E eu disse ‘tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?’
E o corvo disse: ‘nunca mais’.

 
Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lhe entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: ‘nunca mais’."
 
Negrume do corvo que cai tão bem com a melancolia de Poe e, ao mesmo tempo, com o humor dos desenhos animados. Não é em Pica-Pau que cabe ao corvo o papel do azarado Jubileu, aquele que faz de tudo por uma pipoca na manteiga?

 
Ou talvez o corvo de Poe estivesse apenas tirando uma com a cara do poeta. Ler “O Corvo” imaginando isso é interessante, já que os corvos são reconhecidamente brincalhões. “Nunca mais, nunca mais”, ele repetia, mas só porque os corvos realmente são capazes de imitar a voz humana – e são conhecidos justamente por gostar de brincadeiras. Mesmo as de mau gosto.
 
Chegam a fazer seus próprios brinquedos usando galhos, tampinhas ou sementes, um comportamento raro entre os animais. Também tiram sarro de gatos, cães, lobos e outros animais só porque acham divertido.

 
Por tudo isso, são muitos os motivos que tenho para admirar os corvos.
 
Talvez eu não seja tão corvo assim; ou talvez eu seja tanto quanto sou baiacu, formiga, lince, lagarta ou coruja. Porque também somos animais, por mais que as cidades e um mundo feito para nos servir nos faça esquecer disso. Somos animais de roupinhas.
 
É tênue a base que nos sustenta como civilização (já disse Werner Herzog: “a civilização é como uma fina camada de gelo em cima de um oceano de caos e escuridão”), mas podem ser mais fortes os laços que nos conectam com as outras espécies. Há muito em comum.
 
Por isso vai ser difícil olhar para o corvo da mesma forma. É mais que um animal; é uma personalidade única, são histórias que inspiram, um lembrete de que não somos assim tão mais inteligentes ou interessantes. Depois disso, nunca mais vou ver o corvo como um animal que nada tem a ver comigo, que seja desinteressante ou que não tenha histórias que me ensinem coisas novas.
 
Nunca mais, nunca mais.

 
 
•••
 
Essa história em que me dizem que meu animal é o corvo surgiu de uma brincadeira. Só com os amigos mais próximos reunidos, o objetivo do jogo era analisar um ao outro (considerando que todos nos conhecemos muito bem) e dizer qual animal melhor representava aquela pessoa.
 
O que importava não era achar um bicho que se parecia com ela, ou que a definisse, ou que ela gostasse muito. O animal foi só um pretexto para que a gente tivesse uma ideia da percepção da outra pessoa sobre nós. Foi uma experiência interessante, mas só porque eram todas pessoas muito íntimas ou não ia funcionar (ou resultar em tretas e climão, não recomendo).
 
Pensar num animal que nos representa (não um que a gente goste ou ache legal) é um exercício interessante não só para revelar características nossas de uma forma que nunca pensamos antes, mas também para lembrar que bicho e gente tem mais em comum do que nossa alienação à natureza nos deixa perceber.
 
•••
 
Terminei de assistir Jessica Jones essa semana e fiquei me perguntando: será que o mundo precisa de mais um texto sobre Jessica Jones?
 
Eu já tinha lido tanta coisa boa, coisas que eu também pensei e senti sobre a série estavam lá, nas palavras de outras pessoas. O medo de soar redundante. Mas ainda assim a vontade de escrever.
 
Daí que fui convencida pela galera do Twitter a escrever, porque MANDA MAIS TEXTO DE JESSICA JONES TÁ POUCO DE JESSICA JONES e eu me animei de vez a escrever (como não anima depois dessa né).
 
Daí escrevi e publiquei na Carta Capital: Jessica Jones e a possibilidade de se enxergar em uma heroína. Espero que goste!
 

 
Também tem os textos maravilhosos da Gabriela, da Confeitaria, e da Gizelli no Apaixonados por Séries. Não é textão, mas também vale indicar essa ilustra da Sirlanney:

 
Porque depois de devorar essa série em tão pouco tempo, a gente precisa falar e ler sobre isso pra despedida não ser tão brusca e a espera pela próxima temporada não ser tão longa. Mas vai ser. Snif.
 
•••
 
No início de novembro falei um pouco do NaNoWriMo, a maratona de escrever 50 mil palavras de um romance em um mês, e, para incentivar leitores e leitoras que fossem participar, prometi uma badge especial para quem atingisse a meta.
 
Não é coisa pouca completar esse desafio, por isso tenho muito, muito orgulho e fiquei muito feliz pelas duas pessoas queridíssimas que conseguiram (e me avisaram, rs)! Sério, cês são demais. Recebam em forma de badge meus parabéns e meu desejo de que continuem a escrever sempre:

 











Tendo completado ou não o desafio, acredito que o mais importante do NaNoWriMo é aproveitar esse IMPULSO. Aproveitar essa experiência para perceber que não se está tão distante assim da realização de um projeto.
 
Então se você participou, mas por motivos vários não conseguiu alcançar a meta, não se chateie, viu? Só de entrar nessa louca espiral de escrita que é o NaNoWriMo, você já tirou um bom proveito.

Faltou pouco pra conseguir? Olha que ótimo, só prova que você precisa de pouco mais de um mês pra realizar seu objetivo. Conseguiu escrever só um terço da meta? Já são umas 17 mil palavras a mais, que você não teria se não tivesse participado.
 
O importante é não deixar de escrever. Manter a motivação. E não desistir, porque sempre dá pra fazer sua própria maratona – e NaNoWriMo, bem, esse todo ano tem.
 
;)

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Para fechar a edição de hoje, fique com uma imagem do Rio Doce em 1815 (gravura do príncipe Maximilian Alexander Philipp Wied-Neuwdied, Fundação Biblioteca Nacional). Peguei no maravilhoso blog da Marina
 
 
Beijos de corvo,
 
Aline. 
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