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É que eu tenho vergonha.

 
Criaturas ariscas, as pessoas tímidas são difíceis de serem avistadas na natureza. As cenas que você verá a seguir são inéditas e foram presenciadas por poucos privilegiados que já tiveram contato com esta espécie que gera estranheza e, ao mesmo tempo, fascínio. Pessoas tímidas: como vivem, do que se alimentam e como se reproduzem. Solta a vinheta.
 
 
São Paulo. Uma selva que abriga as mais diversas criaturas: desde potentes predadores de quatro rodas até exuberantes hipsters de hábitos noturnos. Para encontrar as pessoas introspectivas, no entanto, é preciso desbravar este ecossistema mais profundamente. Enquanto a maioria das espécies adora sair e fazer novos amigos, é mais comum encontrar as pessoas introspectivas satisfeitas em suas casas, curtindo seus gatos e seriados na Netflix.
 
As pessoas tímidas, fisionomicamente, são idênticas às suas primas distantes, as pessoas extrovertidas. São bastante variadas em cores, tamanhos, preferências, ideologias e ocorrem em praticamente todo o território brasileiro. A diferença é que são conhecidas por serem reclusas e terem aversão a situações em que precisem interagir com grande número de pessoas – como palestras –, ou com pessoas desconhecidas – como conversar com estranhos na fila do supermercado.
 
Para elas, interações sociais são exaustivas e consomem rapidamente suas energias. Por isso, as pessoas tímidas buscam evitá-las ou, ao menos, tentam escapar delas o mais rápido possível.
 
Vejamos esta pessoa tímida em um barzinho com os amigos – facilmente identificável por ser a pessoa mais calada da mesa e que se ocupa do rótulo da cerveja como se fosse a coisa mais interessante do planeta. No começo, ela parece sair bem. Dá risada, responde as pessoas e até faz perguntas. Não é perceptível para as nossas câmeras de visão noturna, mas essa desenvoltura social razoável é fruto de um esforço colossal. A prova disso é que, aproximadamente uma hora depois, a pessoa tímida começa a demonstrar os primeiros sinais de cansaço.
 
Ela fica calada e sequer consegue prestar atenção no que os demais estão falando, pois só consegue pensar na hora de ir embora e em conseguir uma brecha durante a fala daquela pessoa que conversa sem vírgulas ou pontos finais, para dizer que precisa ir ao banheiro – onde ela ficará o máximo de tempo possível para respirar e evitar aquela situação extrema, mas não tempo demais para pensarem que ela está fazendo cocô.
 
Poucos entendem esse comportamento comum à espécie. Não é uma forma de ser desagradável deliberadamente, é porque, de fato, a pessoa tímida ficou exausta. Mas, como todo exemplar dessa espécie, que mede suas ações com medo do que as outras pessoas podem pensar, ela começa a se preocupar em não parecer mal-educada, o que pode gerar um resultado ainda mais constrangedor.
 
 
Vergonha é o instinto básico das pessoas tímidas. Por esse motivo, em algumas regiões do Brasil, esta espécie é conhecida como “bicho do mato”, fazendo clara referência à vontade da pessoa tímida de se esconder atrás de um arbusto quando passa por uma situação constrangedora.
 
E situações constrangedoras são os principais predadores desta espécie. Correr delas é a motivação de sobrevivência das pessoas tímidas – que veem essa ameaça onde outras pessoas veem apenas uma situação comum e corriqueira. As pessoas tímidas têm todo esse pavor porque sabem que, se pegas por uma dessas situações constrangedoras, elas não conseguirão resistir e acabaram morrendo. Morrendo de vergonha.
 
Agora você está vendo uma pessoa tímida sendo atacada ferozmente por uma situação constragedora. Veja como ela balança nervosamente os pés debaixo da mesa numa tentativa de resistir ao ataque. Em seguida, seu rosto é tomado por uma coloração vermelha e ela se vê prestes a engasgar com suas próprias palavras. A risada das outras pessoas enrolam-se em torno de seu pescoço e ela começa a ficar sem ar. Neste momento, tudo o que passa pela cabeça da presa é “por favor, acabe logo com isso!”
 
As cenas são chocantes. Mas a selva não é um desenho animado da Disney.
 
 
As pessoas tímidas podem ser pouco ágeis para fugir de situações de constrangimento e pouco habilidosas no trato social, porém são muito inteligentes – coisa que muitas vezes relutam em admitir, por pura modéstia e vergonha.
 
No entanto, elas possuem uma capacidade de comunicação limitada. Preferem comunicar-se por escrito do que por algum meio falado ou ainda presencialmente. A razão é simples: por e-mail, carta ou sms elas conseguem ter um controle maior de sua expressão, não transparecendo gagueiras, vermelhidão no rosto, esquecimentos ou construções de frases que as façam parecer idiotas. Inclusive, por escrito elas transparecem ser muito mais desenvoltas do que realmente são, como forma de intimidar seus inimigos.
 
Os telefones, em especial, são vistos pelas pessoas tímidas como uma perigosa espingarda.
 
Colocamos um telefone perto de uma pessoa tímida para observar seu comportamento. Se o telefone toca, ela demora três vezes mais tempo do que uma pessoa comum para atendê-lo, especialmente se a chamada é de um número desconhecido. Algumas pessoas tímidas deixaram o telefone tocar até derreter, enquanto presenciamos outra jogando-o pela janela.
 
Já para fazer ligações, a pessoa tímida se vê em um grande conflito. Algumas ensaiam mentalmente o que irão dizer antes mesmo de discar o número, ainda que seja para pedir uma pizza. Tudo para não correr o risco de serem atacadas pelo constrangimento.
 
Estudiosos que observam esta espécie recomendam: “a melhor forma de tentar contato com uma pessoa tímida é mandar um e-mail. Pessoas tímidas não gostam de ter seu espaço invadido e gostam de ter o tempo delas para responder a uma interação social, que não deve ser imposta. Jamais ligue para o celular de uma delas. Isso pode afugentá-las.”
 
 
As pessoas tímidas possuem um raio de segurança imaginário em torno delas, que delimita o espaço que elas reservam para se sentirem confortáveis consigo mesmas. Invadir esse espaço ou forçar a permanência de muita gente – ou de desconhecidos – ali por muito tempo leva a pessoa tímida à exaustão rapidamente. Algumas sentem-se sinceramente ameaçadas e podem ficar agressivas.
 
No entanto, as pessoas tímidas não são totalmente solitárias. Elas prezam pelo respeito ao seu momento privado (se forem avistadas lendo um livro ou com fone de ouvido, é um claro sinal para que outras pessoas não se aproximem), mas frequentemente abrem o seu espaço pessoal para receber outras pessoas.
 
As pessoas tímidas são, normalmente, domésticas – não confundir com domesticadas, já que sua natureza introspectiva lhes confere um comportamento arisco e muitas vezes imprevisível. Por preferirem viver em ambientes controlados do que soltas na natureza selvagem das grandes cidades, as pessoas tímidas são bastante tranquilas e praticamente inofensivas.
 
Uma espécie, sem dúvidas, fascinante não apenas de observar. Mas também para se conviver.
 
 
Rolou uma identificação? Tem amigos que também são dessa espécie? Manda esse texto pra eles!
 
•••
 
Sonhei com você.
 
Eu chegava perto e perguntava como vão as coisas. Não existia entre nós aquela lacuna esquisita, aquela falta de assunto, aquele distanciamento. Você era acessível como um controle remoto, como um celular, como as coisas que a gente sempre tem à mão.
 
O sonho se passava em um tempo em que uma conversa entre nós ainda era possível. Ou num tempo futuro em que essa aproximação seria mais provável. Não sei dizer em qual tempo. Não tinha tempo. Era um lugar que pairava acima do tempo, como só acontece nos sonhos.
 
Você contava o que estava fazendo de novo e eu contava as suas tatuagens. Eu as conhecia todas, eu sabia quando e como cada uma delas tinha sido feita. Acho que tinha um desenho meu ali no meio.
 
De repente, a gente estava na sua casa. Não era a casa onde você mora na vida real (quer dizer, não tenho como saber), era um lugar com todas as suas coisas dentro, uns quadros maneiríssimos, mas você nunca morou ali. O aluguel devia ser uma fortuna.
 
A gente tomava alguma coisa. Um café, um suco, uma cerveja. Você me perguntava o que eu estava fazendo, se eu tinha terminado o livro, o que estava me chateando, se eu estava criando algo novo. Você perguntou querendo sinceramente saber sobre mim.
 
Eu não tive medo de falar e nem estava ansiosa para ir embora. Estranho, né? Conversamos tanto que escureceu lá fora, que o dólar explodiu, que Jesus voltou, que o eixo da Terra mudou. Certo, talvez não tanto, mas foi uma conversa longa.
 
Só isso aconteceu. Juro. Nada de mirabolante ou fantástico. Porque só mesmo uma pessoa tímida para sonhar que CONVERSOU com alguém. Algo tão simples, tão banal. Eu podia te mandar uma mensagem, esbarrar com você em algum lugar e parar para conversar, puxar um assunto besta qualquer.
 
Mas não tenho coragem.
 
Tudo porque tenho medo que eu pergunte como você está, você responda “bem” e o papo termine aí, na superfície. Tenho medo que meus assuntos não te interessem, que você ache tudo muito bobo, que diga que tem outro compromisso e que precisa sair. Que a gente nunca consiga tomar um café sem essa barreira esquisita nos bloqueando, eu raios UV, você FPS 50.
 
Tenho medo, acima de tudo, porque não te conheço o suficiente. A gente nunca conversou. Você não sabe quem eu sou. Mas talvez eu use esse sonho para puxar assunto com você da próxima vez que a gente se encontrar.
 
•••
 
Vejamos o que está em cartaz hoje na nossa sala de vídeos:
 
 
1. A websérie Empoderadas, que traz histórias de mulheres negras de diferentes idades e diferentes atuações, criando, empreendendo, militando. Já foram ao ar 10 episódios, fora os especiais, e você pode ver todos os vídeos aqui. Em destaque, um episódio sobre a linda Mc Soffia, tão nova e já tão consciente e inspiradora: “o meu cabelo não é duro, o meu cabelo é cacheado. Duro é o seu preconceito”. 
 
 
2. Uma animação narrada por Margaret Atwood, autora de ficção especulativa, como o livro O Conto da Aia (que é simplesmente foda, recomendo demais), fala sobre a influência da tecnologia e das ferramentas na forma de contar histórias e produzir conteúdo: “storytelling é parte do ser humano. Não é possível separar uma pessoa de um contador de histórias profissional. Todo mundo está contando a história de suas vidas para si mesmo, o tempo todo.” 
 
 
3. Uns caras resolveram mostrar uma escala proporcional do sistema solar, medindo as distâncias entre os planetas partindo do princípio de que a Terra teria o tamanho de uma bolinha de gude. E eles simplesmente tiveram que ir para o meio de um deserto para conseguir mostrar isso. Um vídeo ótimo para ver e não esquecer que a real dimensão das coisas é assustadora (vi na newsletter do Jornal Relevo). 
 

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Essa semana estive bastante ocupada passando por algumas vergonhas. Normal. A vida é mesmo essa grande sequência de situações constrangedoras que a gente vai administrando da melhor forma possível. Até vir a próxima.
 
Gostou dessa edição? Deixe essa timidez de lado e compartilhe! Afinal, eu mesma rompo as barreiras da minha introspecção um pouquinho de cada vez ao compartilhar as minhas verdades por aqui.
 
Te vejo semana que vem, nesse mesmo canal, nesse mesmo horário. 
 
Beijos tímidos,
 
Aline. 
 
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