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Senta que lá vem historinha.

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 111
ficção / doidice / internet

A praga que corrói todos os espaços


O observador de pássaros morava numa bela cabana, com decoração tão aconchegante quanto um abraço, localizada no ponto onde se podia ouvir os cochichos das águas correntes do riacho que passava logo ali atrás.

De dia, a luz do sol batia na cozinha, aquecendo as pernas do observador de pássaros enquanto ele tomava café em sua caneca esmaltada. De tarde, a rede que ficava na sala era perfeita para tirar a soneca pós-almoço. À noite, ele usava a luz das velas em sua escrivaninha para anotar e catalogar tudo o que havia observado no dia.

O observador amava sua cabana. Era seu espaço favorito no mundo inteiro.

Certo dia, o observador saiu nos arredores para fazer suas observações. Munido de seu binóculo, conseguiu enxergar além das árvores que se estendiam adiante na floresta e viu uma nuvem escura se aproximar, movendo-se como uma enguia elétrica.

Aumentando o zoom de seu binóculo a nível microscópico – porque seu binóculo era mesmo muito especial –, conseguiu ver que a nuvem era formada de pequenos seres de feição horrível, como micróbios cheios de raiva.

A princípio sem entender, o observador assistiu à nuvem se enrolar em torno de uma das maiores árvores, que começou a ficar escura e esburacada. Alguns galhos começaram a cair, depois de ficarem dependurados, sem força. Era um troço horrível de se ver.

Com o zoom do binóculo, o observador de pássaros viu alguns daqueles seres se multiplicarem e se desprenderem da nuvem principal. Estes micróbios – que o observador logo nomeou de raiviculites, em razão do comportamento raivoso e destrutivo daqueles seres – logo se espalhavam e encontravam outra árvore para parasitar.

Assustado, o observador deixou a floresta correndo. Quando atravessou o riacho, resolveu deixar um aviso, escrevendo uma placa e fincando no chão com uma estaca. Nela lia-se: “CUIDADO: RAIVICULITES. Nunca entre na floresta.”

E foi para a sua cabana, cuidar do jantar.

Os dias se passaram e o observador de pássaros voltou à sua rotina, apesar de vez ou outra ouvir o som de uma árvore centenária desabar, provavelmente corroída por raiviculites. No entanto, ele ficou tranquilo, pois achava que sua cabana era um lugar seguro, bem longe do alcance daqueles micróbios da destruição.

Um dia, apoiado na janela da sala e usando seus binóculos, desenhava em seu caderno um penuginoso-real-azul que estava pousado numa pedra próxima ao riacho. Foi quando viu, por acaso, uma poeira flutuar de modo peculiar sobre as águas. Deu zoom: eram raiviculites, suspensas no ar como pólen, atravessando os limites da floresta.

Não demorou para que elas pousassem na árvore mais próxima e se reproduzissem o suficiente para alcançar a cabana do observador.

Primeiro, foram as paredes do banheiro. O observador podia ouvir as raiviculites corroendo a madeira em volta da janela, e até a cerâmica da pia e da banheira. Resolveu fechar a porta e se virar para fazer as necessidades e tomar banho noutro lugar.
 
Apesar de ver o estrago que as raiviculites estavam fazendo no cômodo, pensou que elas não conseguiriam se reproduzir ali dentro. Que uma hora ou outra elas morreriam. Que se cansariam e buscariam outro lugar para parasitar.

Não foi o que aconteceu, no entanto.

Os dias passavam e as raiviculites dominavam cada vez mais a cabana. Corroíam portas, dobradiças, paredes, destruíam os encanamentos e os móveis. Faziam barulho a noite inteira, e o observador não conseguia deixar de ouvi-las roendo as paredes da cabana, nem que enfiasse a cabeça bem fundo em seu travesseiro de penas.

Mas o observador continuou na cabana, tomando o seu café na caneca esmaltada (embora as raiviculites tivessem corroído a alça), pensando que aquilo iria passar. Não pensava em abandonar a cabana, porque amava a cabana e tudo o que tinha construído para si ali dentro (mesmo que não pudesse mais deitar na rede, já que as raiviculites destruíram o suporte onde ela ficava pendurada).

“Não posso abandonar este lugar”, pensava o observador. “Todos os meus móveis estão aqui! Ninguém vai mais me encontrar se eu sair deste endereço. É daqui que observo os pássaros ou ouço o som do riacho. Raiviculite nenhuma vai me tirar esta cabana."

O observador de pássaros precisou dormir no chão aquela noite, pois sua cama estava infestada de raiviculites.

Mas ele persistiu, tentando levar sua vida normalmente ainda que faltassem paredes e sobrassem buracos no piso da cabana. Cozinhava seu guisado, ficava à janela com seu binóculo, tirava uma soneca no tapete da sala, fazia anotações no que restou de suas escrivaninha, tudo enquanto as raiviculites roíam, corroíam e roíam mais um pouco de seu espaço.

Até que, em certa manhã, a cabana já sem paredes e quase sem móveis, um esqueleto nu do que um dia havia sido sua cabana, o observador deixou de ouvir o som estridente das raiviculites. “Não há nada para elas destruírem”, ele observou, “então devem ter ido embora”, concluiu.

Não restava quase nada, ainda assim, ele estava satisfeito por não ter abandonado o lugar. Fez uma dancinha da vitória e tudo.

Com os seus binóculos de alcance microscópico, o observador de pássaros olhou para as vigas frágeis que ainda sustentavam a cabana. Foi quando viu que ainda havia raiviculites; aquela praga não tinha acabado completamente e, mesmo pequenas e pouco numerosas, continuavam a corroer lentamente sua cabana.

Antes que houvesse tempo para um xingamento ou um lamento qualquer, o teto da cabana desabou com um estrondo e esmagou o observador de pássaros.

Muito tempo depois, no pedaço de terra onde um dia existiu uma cabana, brotou um  abacateiro que teve uma infância feliz, até voltarem as raiviculites e não sobrar nem um galhinho dele antes de chegar a idade de dar as primeiras frutas.

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O comentarismo de portal venceu


Lembra de um texto que escrevi há muito tempo, recomendando NUNCA ler os comentários? Pois bem. Esqueça. Esse texto já está ultrapassado. Não faz mais sentido.

Esse alerta perdeu a validade porque já não é possível ignorar a caixa de comentários para se ver livre e seguro da insanidade, burrice e agressividade que emanava dali.

Os comentaristas de portal não estão mais nas caixas de comentários. Estão por toda a parte. E, principalmente, já firmaram residência no Twitter – aquele lugar que a gente costumava dizer que era muito melhor e mais agradável do que o Outro Site, também conhecido como Facebook.

Basta clicar num tuíte de uma notícia ou de uma arroba mais famosa: nas replies, você verá o mais puro suco do comentarismo de portal.

O comentarista de portal, que já não precisa necessariamente de um portal para ser caracterizado como tal, é um sujeito cheio de certezas mas que não faz a mais puta ideia do que está falando; ele comenta apenas para imprimir sua presença na internet, mesmo que seja uma presença de bosta.

Ele faz isso, em boa parte, disseminando delírios e atacando pessoas. É movido pela raiva, sempre pela raiva, mesmo nos casos em que ele tenta se passar por engraçadão ou engajado político. O comentarista de portal é um ser formado de 70% raiva e 30% de incapacidade cognitiva para ler, analisar e interpretar dados. Uma pitadinha de desonestidade também faz parte dos ingredientes.

O comentarismo de portal é uma praga que vai, aos poucos, corroendo todos os espaços que encontra pelo caminho.

Porque as besteiras radioativas que esses seres irradiam em seus comentários afastam as pessoas, tumultuam o debate e tornam o ambiente tóxico para qualquer tipo de interação ou discussão estimulante.

E não há engenharia de bolha que nos salve. Não basta apenas ignorar e viver feliz no bosque de pessoas legais da internet que você cuidadosamente separou e cultivou. O comentarista de portal vai bater na sua porta, vai atrás da sua arroba para comentar os seus tuítes, vai cagar no tapete da sua sala.

Esta matéria da Business Insider analisa a luta do Twitter (como empresa) para não naufragar, e ilustra bem o problema que aponto acima. De acordo com ela, um dos problemas que mostra a queda do Twitter é que a ferramenta “se tornou um espaço confortável para bullies, trolls e babacas, que envenenam o ambiente para os usuários comuns”. Aponta ainda queda no número de tuítes e de usuários ativos. A fuga para as colinas já começou.

(muita gente se recusa a aceitar que perdeu o Twitter para essa massa de chorume, mas tudo bem, ainda estão naquela fase do luto: negação)

conforme este vídeo bem didático

Esta outra matéria conta o que aconteceu depois que 7 grandes portais de notícias se livraram da caixa de comentários, alguns por chegarem à conclusão que “não está claro por que comentários seriam uma parte particularmente boa da experiência de um website” ou que “não fazia muita diferença no engajamento pra nós”.

O que me levou a pensar: será que os portais estarem se fechando para o comentarismo de portal foi o que empurrou essa praga para as redes sociais? Ou a dominação de novos espaços parte da voracidade do comentarismo de portal em destruir novos ambientes?

Não sei quais serão as consequências e a que mundo o comentarismo de portal vai nos levar. Não sei que medidas tomar para combater esta praga. Não sei se o Twitter resistirá. Só sei que não pretendo ficar tempo o suficiente debaixo da cabana para ser esmagada por suas ruínas.

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É amanhã!


Enquanto você lê estas palavras, já estou em Brasília (espero que comendo pamonha) e amanhã, 12 de junho, é dia de eu rabiscar seu exemplar de “As águas-vivas não sabem de si”!

A tarde de autógrafos será na Livraria Cultura do Casa Park, e te espero lá a partir das 15h! Dá um pulo lá para me dar um pouco de amor no dia dos namorados – chame as miga, os migo, leve namorada, namorado, a galera toda.

E sábado que vem será a vez de São Paulo: dia 18 de junho estarei na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, a partir das 15h. Confirme o evento e não se esqueça de mim ;)

Quero MUITO ver a turminha de Bobagens por lá.

Tarde de autógrafos em SP 18 de junho Livraria Martins Fontes Avenida Paulista

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Jarid sobre águas-vivas


"O novo livro da Aline Valek não é só um mergulho no oceano, não é só ficção científica, não é só literatura de excelente qualidade, não é só um exemplo incrível de como 'usar' diversidade (de gênero, racial, sexual) no entretenimento. As águas-vivas não sabem de si é um mergulho no fundão de si e de como nós, humanos, construímos nossa própria solidão... Por medo" Jarid Arraes, escritora

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Como diria aquele famoso porco falante e gago de desenho animado, "isso é tudo, pessoal!" Por essa semana, pelo menos.

Se gostou desta edição e acha que vale disseminá-la mais do que raiviculites na floresta, compartilhe por este link. Ou, se você veio da internet mas quer que eu te visite por e-mail, só clicar aqui e aproveitar que o delivery de Bobagens é gratuito.

E vale reforçar: vem me ver nos lançamentos do livroooo :)

Beijos observadores de pássaros,


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