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Chega junto que nas 12 casas de Bobagens Imperdíveis não tem escadaria pra subir

Idealização, horóscopo e consentimento


Alô alô <<Primeiro Nome>>, cheguei!

Eu queria abrir essa newsletter com o embrião de um texto que não cheguei a terminar e muito menos de publicar, mas como é uma ideia que constantemente ronda minha mente, resolvi compartilhar com você.

É sobre idealização, a maior cilada da vida.

O pior negócio que uma pessoa pode fazer é colocar outra pessoa num pedestal. Herói, ídolo, inspiração, musa, seja o que for. Fazer isso é o primeiro passo para se decepcionar. Porque a idealização, para acontecer, descola a pessoa daquilo que ela realmente é, com suas falhas, babaquices e fraquezas, para que ela sirva de santo no altar.

Ninguém se sente tão inspirado pelas fraquezas de outra pessoa quanto pelo que ela tem de melhor. Se a pessoa já está morta, fica mais fácil congelá-la em uma condição de superioridade. Se ela ainda está viva, fodeu; eventualmente vai falar alguma merda, fazer algo inaceitável, e assim quebrar toda aquela imagem perfeita que você tinha sobre ela.

E sabe o que eu acho ainda pior do que quebrar a cara? É ver que o ídolo falou merda e ainda assim continuar defendendo cegamente tudo o que ele faz, porque o lance é escolher lados, né? Já vi isso até entre feministas e taí o período de eleições onde não vai faltar esse tipo de coisa.

Faz um tempo li em algum lugar que há duas formas de se desumanizar uma pessoa: a primeira é objetificando, a segunda é endeusando. Então percebo que só desumanizando alguém (transformando em ídolo, em herói, algo que está no patamar do sobre-humano) para poder admirá-lo sem reservas. Seus defeitos – aquilo que o torna efetivamente humano – nos afastam daquele ideal de pessoa que construimos em nossa mente.

E toda idealização é isso: algo que só existe na nossa cabeça.

Por isso a ideia do amor romântico, daquela pessoa perfeita, a mulher ou o homem “da sua vida”, que te completa e aquela coisa toda, é a maior furada. Porque só funciona quando você idealiza o outro, e você passa a amar mais a ideia que criou desta pessoa (e a ideia do amor romântico em si, com todo aquele roteirinho) do que a pessoa em si.

Padrão de beleza? A mesma coisa. A mulher perfeita, ela não existe. É uma ideia – uma ideia inclusive moldada justamente para ser inatingível.

Não há nada de glamouroso ou de superior em abandonar essas idealizações irreais acerca de outras pessoas e de nós mesmos, mas abraçar os defeitos é a única posição honesta possível diante da verdade do ser humano. Não é mais bonito, mais legal ou mais fácil de se fazer, mas temos que admitir que é a opção que faria a gente quebrar menos a cara.

E um a um, a gente vai tirando os santos do altar.

Como saber se você está pronto para fazer sexo



No próximo domingo, todos os homens com vida sexual ativa serão convocados para a realização do Exame Nacional de Preparação para o Sexo Consentido. O objetivo do exame, que será realizado pela primeira vez este ano, será verificar a aptidão dos homens para fazer sexo.

A responsável pela elaboração do teste, a pesquisadora Rita Lumens, explica que o exame obrigatório consiste em questões muito simples para mostrar se o indivíduo sabe ou não a diferença entre estupro e sexo. “Entendemos que saber que o consentimento é a linha que separa estas duas coisas é requisito básico e necessário para a prática do sexo e também para a vivência em sociedade”.

Continue lendo.


 

Horóscopo de textos


Aproveitando que esta é a 12ª edição da newsletter, mesmo número de signos zodiacais, resolvi criar um horóscopo de textos. Uma indicação de leitura para cada signo, que é algo bem mais útil e válido do que previsões de futuro sem fundamento, né? Fiz uma seleção de textos meus e textos que recomendo, basta escolher o seu (ou ler o que te apetecer, ou ler tudo; você quem manda, não os astros).

Áries: não é chato quando rotulam como inferior literatura feita por mulher? Mulher pode escrever sobre o que quiser sim, até histórias românticas, por que não? É do que fala este texto, minha indicação para os arianos: O romance e o protagonismo das minas.

Touro: um cara buscando um apartamento para comprar em São Paulo. As conversas fiadas de corretor, o isolamento dos grandes edifícios, o abandono da cidade grande, um cachorro perdido no portão do prédio. Tudo isso numa crônica deliciosa que, se for verdade que taurinos são materialistas, é a indicação perfeita pra você: Adeus, São Paulo.

Gêmeos: no que o seriado Girls se parece com On The Road, de Jack Kerouac? Ou são coisas que não tem absolutamente nada a ver? Um texto meu sobre a representação da juventude em 3 obras de 3 épocas distintas, e alguns questionamentos sobre essa geração de jovens que têm o umbigo no centro do universo: A romantização de uma juventude que se acha muito especial.

Câncer: a melhor maneira de experimentar o constrangimento é com os textos do João Luís. Ele narra situações absurdas, incômodos do cotidiano e o inferno que vivem as pessoas tímidas em histórias que ou você pensa “nossa, sei bem como é isso” ou “ainda bem que foi ele”, como em: Grandes estilos narrativos de taxistas.

Leão: sorria, seja jovem, seja magra, seja linda. O tempo todo. Pra sempre. Este texto do Think Olga conta como até entre as celebridades (universo do qual os leoninos obviamente fazem parte) esta cultura opressiva está, aos pouquinhos, se desintegrando. Ser bonita não tem que ser o objetivo de vida de nenhuma mulher: A cultura da bonitice

Virgem: ao mesmo tempo em que a internet está cheia de gente que ~preza pelo debate~, está cheia de gente disposta a todo tipo de desonestidade e agressão para validar um ponto. No meio disso tudo, como argumentar com elegância sem caricaturizar seu oponente? Esse texto resume como fazer isso em 4 passos: How To Criticize With Kindness

Libra: nas mais diversas, emocionantes e inusitadas histórias de taxistas durante sua estadia no Rio de Janeiro, o autor traz uma bela reflexão sobre não estarmos no centro do mundo – afinal, ele está cheio de protagonistas de suas próprias histórias: Na vida real, os personagens estão à nossa volta.

Escorpião: um pai conversa com sua filha que quer ser mais rápida, vencer, se superar. Simples assim. Lindo diálogo de uma garota que tem tudo para dominar o mundo e de um pai que não impõe limites a ela por ser mulher: I never win because I’m a girl.

Sagitário: aí famosos brancos resolvem tirar selfie com bananas para acabar com o racismo e como explicar esse papelão para seus filhos? Foi o que o pai do João, da Irene e da Teresa tentou fazer em um belo texto sobre o episódio lamentável desta semana que só mostrou que sim, o racismo está aí firme e forte: João, Irene e Teresa.

Capricórnio: como os grandes gênios que contribuíram com importantes obras para a humanidade conseguiram organizar seu tempo para produzir? Eles não tinham internet, é verdade; mas é inspirador ver como Simone de Beauvoir, Hemingway, Jack Kerouac & outros levavam o dia-a-dia: The daily routine of famous writers.

Aquário: ultimamente, o imperativo de “faça o que você ama” tomou o mercado e o anseio especialmente das pessoas que trabalham (ou gostariam de trabalhar) no ramo criativo. Esse texto-entrevista aborda a armadilha desse discurso, além de mostrar um panorama do trabalho na história da nossa sociedade: A armadilha do faça o que você ama.

Peixes: a ficção tem o incrível poder de fazer com que nos coloquemos no lugar do outro, ainda que esse outro não exista de verdade. Mas alguma coisa não está funcionando: porque, ao mesmo tempo em que consumimos cada vez mais ficção e com mais profundidade e em todos os meios possíveis, a empatia ainda está em falta nesse mundo: Quando a ficção não funciona.

Resultado da enquete


Na edição anterior eu perguntei se eu seria babaca se fosse embora de um compromisso depois de vinte minutos esperando e a outra pessoa não chegar. Recebi um moooonte de respostas (meus assinantes são incríveis!!) e todas concordaram num ponto: não, eu não seria babaca.

Muito interessante ver também que a maioria das pessoas que responderam detestam atrasos e mesmo as que se atrasam entenderiam e não me achariam babaca (há até aqueles que se sentiriam envergonhados).

Algumas outras conclusões bacanas que tirei das respostas que me mandaram:
  • Antes de me encontrar com a pessoa, avisar que só vou poder esperar por vinte minutos;
  • Ser constante, ou seja, aplicar sempre a regra dos vinte minutos (outras pessoas responderam que dependendo da pessoa vale esperar a atrasadinha; outras ainda responderam que o ideal seria trinta minutos, e não vinte; ou que vinte minutos é tempo demais, o ideal seria dez);
  • Provavelmente alguém vai me achar babaca por fazer isso;
  • Se eu começar a cumprir a regra dos vinte minutos com frequência, dificilmente a outra pessoa voltará a se atrasar;
  • Tudo bem se a pessoa, ciente dessa tolerância, te avisar que vai atrasar (imprevistos podem acontecer no meio do caminho)
  • É importante se manter sempre pontual, mesmo que os outros não tenham esse hábito.

Enfim, adorei todas as respostas e me identifiquei com muitas histórias que me contaram. Assim que eu tiver a oportunidade, vou colocar em prática esta regra (que meus assinantes me ajudaram a lapidar!), mas espero MESMO que não seja preciso.

Racismo


A revista TPM de abril trouxe o tema racismo & machismo, e o legal é que deixou a fala com as próprias mulheres negras. Teve os depoimentos incríveis da Ellen Oléria, da mãe do Emicida, da ministra da secretaria de igualdade racial, da atriz Juliana Alves, entre outras.

Com esse lance ridículo do #somostodosmacacos que fodeu com minha cabeça essa semana (aliás, você viu que a revista Veja decretou que acabou o racismo? eba!!), resolvi compartilhar com você um trecho do depoimento da Sueli Carneiro pra TPM (ela é uma das fundadoras do Geledés – Instituto da Mulher Negra):

“Existem fantasias em torno do racismo que afirmam que ele é fruto da ignorância. Nunca. Ele foi uma construção ideológica de uma inteligência europeia interessada em legitimar a opressão e a expropriação de povos não brancos – notadamente, os povos africanos e indígenas. Então, é uma ideologia de dominação, uma arma de exploração, e isso não é assunto para leigos. 

(…) A mulher negra é a síntese de duas opressões, de duas contradições essenciais: a opressão de gênero e a de raça. Isso resulta no tipo mais perverso de confinamento. Se a questão da mulher avança, o racismo vem e barra as negras. Se o racismo é burlado, geralmente quem se beneficia é o homem negro. Ser mulher negra é experimentar essa condição de asfixia social.”

Dois desenhos free hand e um diálogo



– Olha amor, meu desenho.
– (faz um joinha levemente irônico) Muito bem pintado.
– Nossa, precisa ser irônico?
– Não fui irônico!
– Foi sim.
– Você queria que eu falasse o quê? "Nossa que azul, hein?" Caramba, é só um lápis de cor espalhado num papel!
– ...
– Vai fazer mais coisa nesse desenho ainda?

"O marido sincero com grande sensibilidade artística que não se impressiona com pinturas feitas com lápis de cor": breve, nos cinemas.
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Curiosidade besta


Já que a temática dessa edição é zodíaco, o que nos leva a Cavaleiros do Zodíaco (você assistia, <<Primeiro Nome>>?), isso me lembra de uma curiosidade inútil, mas interessante.

A partir de 1922, com a criação da União Astronômica Universal, astrônomos começaram a corrigir algumas irregularidades dos mapas celestes (afinal, o espaço está em constante movimento) e com a prosposta de dividir, com mais precisão científica, a esfera celeste em 88 regiões (também chamadas constelações), acabou surgindo uma 13ª constelação zodiacal – as constelações zodiacais são as que são cortadas pela linha que representa o caminho que o sol percorre durante o ano.

O 13º signo então seria o representado pela constelação de Serpentário, mas veja só: a astrologia nunca considerou esse signo! O que significa que, quando um astrólogo faz qualquer previsão dizendo que o sol está em peixes, ele já está em outra casa. Risos.

Quer dizer, astrologia não é baseada nos ~astros~ como querem nos fazer crer: "a divisão do zodíaco em doze signos de trinta graus cada um é puramente arbitrária e segue apenas a tradição dos povos antigos". A explicação inteira você pode ler nesse link, de um professor de astronomia do planetário da UFSC.

Bem, mas a questão que interessa aqui é sobre desenho animado.

Os Cavaleiros de Ouro, na Saga do Santuário, eram os mais fodões dos cavaleiros e cada um representava um signo zodiacal (eu me esforçava pra gostar do Aioria, mas ele era tão sem graça). Só que não deveriam ser treze, de acordo com a inclusão da constelação de Serpentário entre as constelações zodiacais?

Masami Kurumada, o criador dos Cavaleiros do Zodíaco, disse que já tinha conhecimento dessa mudança nos alinhamentos (embora a notícia só tenha sido confirmada mesmo em 2011, lembra?) e dizem que ele tinha pensado em transformar uma amazona no 13º cavaleiro de ouro.

Sim, ela mesma:
não, não é o Shun!

De acordo com vários sites (inclusive neste link, mas não sei se é verdade), ele teria dito que a Toei não aceitou que Shina pudesse ser a guardiã da 13ª casa, porque não queria que ele colocasse mais uma mulher em destaque – a Saori (sim, a princesa que precisa ser resgatada) já era o suficiente.

Isso me cheira mais a boato do que a qualquer outra coisa, massssss sabemos bem que não seria a primeira vez que o machismo impediria uma constelação feminina de brilhar.

Mas que seria massa se ela tivesse sido uma amazona de ouro, isso seria. Shina era a minha preferida.
euzinha

Nossa, chega, né?

Espero que tenha gostado dessa edição e não tenha reparado que fiz tudo de última hora (assim como fiz a declaração de IR, a transferência do meu título de eleitor, etc etc).

Cuide-se, assista Cosmos, não leia textos do Pondé e a gente se vê na próxima semana, se tudo der certo!

Me dê a sua força, Pegásus,

Aline.
Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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