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E-mail longo pra compensar a semana curta

Deixa eu falar, fanfics e livros de infância


Olá, Aline.

Toda a semana, quando envio a newsletter, fico feliz ao saber que você e várias pessoas esperam pelo meu e-mail. Escutam o que tenho a dizer. Até me respondem!

Como não ficar feliz ao saber que sou ouvida? Mas, refletindo sobre isso, acho que fico tão feliz com isso porque não estou acostumada a ser ouvida. Sim, quando eu escrevo, sinto que as pessoas prestam atenção no que penso. Mas quando eu FALO, a coisa é diferente.

Foi esse texto da Cláudia Regina que desencadeou a minha reflexão. Ela fez uma coisa simples: contou quantas vezes as candidatas à presidência foram interrompidas pelos apresentadores do Jornal Nacional, em comparação com o número de vezes que os candidatos homens foram interrompidos.

Descobri uma coisa na qual eu me comparo à Dilma: eu sou MUITO interrompida quando falo. Por homens ou por mulheres. De ser interrompida e a outra pessoa nem lembrar que eu estava falando, nem se dar conta que minha história ficou pela metade.

Eu achava que era porque sou assim tímida, porque falo baixo, ou porque meus assuntos não importam. Então eu sou interrompida e fico numa boa com isso. Acabei me acostumando a ficar calada. Com isso, até aprendi a ouvir. A dedicar aos outros a atenção que eu quase nunca tenho.

Mas quando falo mais rápido ou mais alto para que eu consiga falar o que quero, alguém me interrompe para dizer CALMA. Quer dizer, se falo normal, me cortam; se falo com mais ênfase, me cortam também. E ainda me pintam como louca, histérica, como alguém que não sabe conversar.

E realmente não sei. Como posso saber se nunca me dão espaço?

Daí que fiz alguns comentários sobre isso no Twitter e muita gente se identificou. Homens e mulheres. E aí eu fico pensando em como estamos cercados de gente que não quer saber de ouvir, só de falar. E falar tanto que precisa até do espaço do outro para falar mais.

Tenho uma amiga que fica puta toda vez que é interrompida. Dá bronca. Acho que se ela não ficasse tão puta toda vez que alguém a corta eu nunca ia reparar na frequência com que isso acontece. Tenho muito o que aprender com ela.

E veja se isso de ser interrompida não tem a ver com ter o espaço invadido. A gente se acostuma. Passa a ver como natural. E a gente é invadida de tantas formas que, sei lá, alguém te cortar passa a ser uma bobagem, né?

Mas não é. Porque ser interrompida é a ponta do iceberg. Junte isso a todas as vezes em que um vendedor ou garçom, por exemplo, em vez de se dirigir a mim, só fala com o homem que está me acompanhando. Ou um cara falar algo que eu acabei de falar, com outras palavras, e as pessoas ouvirem ele e se esquecerem que foi exatamente o que eu falei.

É como se eu ainda fosse uma criança.

Tem um artigo muito interessante que aponta que mulheres são levadas menos a sério quando falam. Isso porque ainda falam MENOS que os homens: em reuniões, comitês ou assembleias, homens tendem a falar 75% do tempo. Em filmes e seriados, personagens masculinos também aparecem por mais tempo e tem mais falas. Até no Twitter homens são mais retuitados que mulheres.

Mesmo assim existe essa ideia de que mulheres são tagarelas. Ou que falam muito alto. É, comparado com todo o tempo em que ficamos em silêncio, qualquer coisa que a gente fale deve mesmo parecer um escândalo.

Então descobri outra coisa a mudar em mim (ai meu deus, mais uma). Ao ser interrompida, não deixar isso passar em branco. Fazer a pessoa entender o que ela acabou de fazer. Aprender, como a minha amiga durona, a dizer “pare de me interromper”, ou “peraí, não terminei". Ou ainda “foi o que eu acabei de dizer”. E assim como tento me reeducar para aceitar meu corpo, tenho que começar a ver nos meus assuntos e histórias a importância que as outras pessoas não me dão.

Mas já é tanto trabalho que eu tenho para desaprender o que o mundo tentou me ensinar no sentido de me fazer sentir um lixo que, poxa, é exaustivo fazer isso sozinha. Até injusto.

Quer dizer, colocaram na nossa cabeça um monte de merda para a gente se autodestruir e encolher e sumir e a gente que se vire para reprogramar nossa mente? 

Eu agradeceria muito se não fosse só meu o esforço de falar sem ser interrompida. Porque também depende que a outra pessoa me ouça. Que aprenda a não interromper o outro. A ouvir com atenção. A levar o outro mais a sério. A transformação também tem que acontecer do outro lado, se não adianta do quê?

Como diria um amigo, o mal não é o Darth Vader na Estrela da Morte; o mal é a falta de atenção.


A nova onda das fanfics



Há muitos anos, eu era fanfiqueira. Quer dizer, escrevia fanfics. 

Se você não sabe o que é, ‘xô explicar rapidinho: fanfics vem de “fan fictions”, ou seja, histórias escritas de fãs para fãs sobre uma obra criada por outra pessoa, ou até mesmo sobre celebridades. Por exemplo, tem até fanfics sobre Fátima Bernardes e William Bonner. Sério.

Mas naquela época, fanfic era um nicho de nicho. As minhas, eu publicava num fórum que não devia ter nem 30 membros ativos. A maioria delas era sobre personagens e universos do Neil Gaiman, mas também já escrevi fanfics de The Legend of Zelda e até uma fanfic em que os personagens eram os integrantes da banda Ira!. Pois é, enquanto os jovens de hoje escrevem fics sobre One Direction, Jonas Brothers e "bandas” de pop coreano, eu escrevia sobre os tiozinhos do Ira!. Me julgue.

Hoje, acredito que o universo das fanfics seja mais poderoso. Como ignorar que um dos maiores bestsellers dos últimos anos (por mais tosco que seja), o 50 Tons de Cinza, tenha surgido como uma fanfic de Crepúsculo? 

Numa matéria da revista Wired, eu estava lendo sobre uma garota que escreveu uma fanfic sobre One Direction e conseguiu milhares de leitores. Ela usou um aplicativo chamado Wattpad para publicar os capítulos de sua história e chegou a ter 800 MILHÕES de visualizações, mais de 3 milhões de comentários. Isso chamou a atenção de uma editora e a história dela vai ser publicada ainda este ano.
 

A experiência WattPad



Daí que resolvi baixar e testar esse aplicativo só pra ver de qual é. Achei interessante a ideia de publicar a história em partes e o aplicativo avisar aos leitores quando tem um novo capítulo, tudo pelo celular.

Resolvi escrever sobre essa experiência porque descobri outras coisas curiosas sobre o Wattpad (não tô sendo paga pra escrever sobre isso, é apenas o meu senso desbravador falando), então espia só:


Muitas, muitas histórias. 

Entrar no Wattpad foi mais ou menos o que eu penso quando entro numa livraria e penso, meu deus, é livro pra cacete. Tem mais livro do que gente pra ler. Tem histórias de tudo quanto é gênero, de sci-fi & fantasia a fanfics de celebridades & poesia. Até tem histórias originais; mas há fanfics em todos os gêneros. Fanfics sobre tudo. Fanfics everywhere.

Mas não dá pra exigir muito.

É tanta coisa que você acaba tropeçando numas coisas estranhas, até engraçadas. Por exemplo, uma história que mistura The Walking Dead com One Direction (juro, para onde quer que você olhe tem One Direction). Não preciso nem dizer que a probabilidade de encontrar coisas com qualidade duvidosa é certeira.

É meio que um submundo.

Vi muito: usuários disponibilizarem ali dentro livros que já existem. Até a capa é a mesma do que se encontra nas livrarias. Falo de livros como Jogos Vorazes, Divergente, obras de Stephen King. Tipo, pirataria na cara dura. Nem precisa fazer nenhuma busca avançada, já aparecem na lista dos mais populares.

Em português.

Acredito que tenha menos histórias em português. Mas entre as mais populares, só putaria. Títulos como “o safado do 105”, “no êxtase do prazer”, “no limite de seu desejo” (e na capa o ator que fez o Super-Homem mais recente, não me pergunte por quê) se destacam entre os mais populares. Detalhe que essa última teve 3,9 MILHÕES de visualizações. Ah, e nunca dá pra saber o que é escrito por brasileiro e o que é em português de Portugal, então estou lá numa boa lendo e me deparo com “tens altura de uma rapariga de 12”.

Funciona assim.

Basicamente, você navega nessa tsunami de porcaria até encontrar algo que ache interessante (que bem pode ser porcaria também, mas vamo lá, você não entra no Wattpad esperando encontrar um Machado de Assis). Você pode folhear, ler algumas páginas, até o aplicativo dizer “hm, você parece estar gostando disso, quer adicionar à sua biblioteca?” Se sim, você fica com aquela história guardada para ler quando quiser. Vira um “assinante”. Quando tiver capítulo novo, o aplicativo avisa.

Como é escrever e publicar no celular.

Resolvi publicar uma história no Wattpad para testar pelo outro lado, como autora; escrevi a primeira ideia que me veio à cabeça (uma mulher de meia-idade divorciada que vai pro sítio cuidar da mãe e acaba se deparando com um alienígena. Se quiser ler, vai lá). Escrevi esse primeiro capítulo todo no celular, e fiquei impressionada em como consegui escrever tanto em no máximo duas horas. Talvez porque eu não tivesse apego nenhum com a história, daí fluiu melhor. Fiz uma capa improvisada e descobri que o Wattpad tem um segundo aplicativo para a pessoa montar uma capa! Não que vá ficar uma maravilha, mas o serviço é completo.

Divulgação é outros 500.

Publicar é fácil, mas continua sendo difícil fazer as pessoas chegarem às suas histórias. Nisso, é bem parecido com qualquer outra rede social. Quanto mais alguém se engaja em comentários em outras histórias, mais a pessoa tem chances de chamar a atenção para suas histórias. Claro, se a história for sobre temas como One Direction, já tem um público garantido que vai buscar por essa palavra-chave.

Mas tem publicidade-gambiarra!

Uma coisa que achei interessante: busquei pelo termo “fanfics” e encontrei um monte de histórias que não são histórias. São “catálogos” de divulgação de fanfics. A pessoa divulga ali fanfics de outras pessoas, uma por capítulo! Se você segue um desses catálogos, quando eles forem indicar uma fanfic nova, o aplicativo avisa como se fosse um capítulo novo. Achei incrível a criatividade dessa galera.

Melhor do que a publicidade oficial.

O aplicativo faz umas recomendações que aparecem com um selinho de “promoted”. Ou seja, alguém pagou para que aquela história aparecesse em destaque. Mas como isso é possível, não sei. Não vi em nenhum lugar a possibilidade de pagar pra promover minha história, como acontece no Facebook, que esfrega na sua cara um monte de botões de “promover conteúdo” se você tem uma página.

Algumas considerações gerais.

– Os adolescentes dominam esse aplicativo. Não só leem como escrevem. Bastante.

– De acordo com o dono do aplicativo, as pessoas passam, em média, 30 minutos por dia lendo no Wattpad. Pô, é um tempo bão.

– Ainda de acordo com ele, são cerca de 200 mil capítulos lançados por dia. Isso é insano. Comecei a acompanhar uma história que tinha mais de 50 capítulos. CINQUENTA, sabe? As pessoas estão escrevendo livros inteiros ali dentro!

– Tem um quê de colaborativo no processo de escrever e publicar no Wattpad. Os leitores podem comentar em trechos dos capítulos (parecido com o que dá pra fazer no Medium, sabe?) e esse retorno dos leitores pode até influenciar o andamento da história, já que o autor vai escrevendo um capítulo por vez. 

– Presta? Olha, para quem gosta de fanfics pode ser divertido. Vai fundo.

 

O que isso tem a ver com o poder das fanfics?



Descobrindo essas coisas sobre o Wattpad, deu pra perceber que tem muita gente lendo e muita gente escrevendo. E elas leem e escrevem bastante! 

Certo, o que é publicado ali pode ser tosco, juvenil, pobre. É bastante improvável que a maior obra da literatura brasileira surja dali. Mas nem por isso deixa de ser legal ver tanta gente GOSTANDO de ler e escrever.

E boa parte desse gostar deve-se a elas estarem lendo ou escrevendo sobre algo que elas gostam. É essa a essência da fanfic. Você escreve algo que você gostaria de ler, algo que nem o autor original chegou a escrever. Com isso, você acaba escrevendo algo que outras pessoas, também fãs, gostariam de ler. Daí os milhões e milhões de views.

Fanfics podem não ter valor literário, podem ser algo menor, amador, um hobby. Mas não dá para negar que esse “gênero” tenha muita importância: é um grande motivador para os mais jovens produzirem e consumirem ficção.

Veja, antes de ter blog, antes de ser escritora e de ganhar dinheiro escrevendo… eu escrevia fanfics. Eu não tinha maturidade para criar meus próprios personagens e universos, então pegava emprestado o de outros autores e criava em cima disso. Experimentava. Aprendia – e a gente aprende por imitação, né? Fui ganhando experiência, começando a inventar minhas próprias histórias.

Nesse sentido, a fanfic é uma ferramenta poderosa de iniciação. 

E esse poder vai além: as fanfics conseguem agregar muitos leitores porque as pessoas querem ler mais sobre os personagens, mundos e celebridades que elas curtem. 

Não basta só ler os livros d’As Crônicas de Gelo e Fogo, as pessoas querem ler histórias que sirvam como extensão desse universo (ainda que George R. R. Martin seja contra). Não basta só ir aos shows de uma boy band, as pessoas querem ler histórias e imaginar seus cantores favoritos em situações inusitadas (como sobrevivendo a um apocalipse zumbi).

As editoras estão descobrindo isso agora. Começaram a perceber que essas histórias tem um potencial de atingir um público muito grande, o que significa: mais vendas. Como eu contei ali em cima: viram que a história da menina sobre One Direction teve 800 milhões de views e devem ter imaginado esse número com cifras na frente.

Só não decidi ainda se é triste ou admirável que o mercado editorial precise recorrer a fanfics para continuar em pé.

Livros que marcaram minha infância



Esta semana rolou uma blogagem coletiva sobre os livros que nos motivaram a ser leitores desde a infância. Não consegui escrever nada porque enroladíssima, mas a Giza me deu a ideia de trazer esse tema para a newsletter. Assim, você pode aproveitar e ler o que a galera escreveu em seus blogs, que tal?

Vamos aos meus livros. Claro, tem vários que me marcaram, como os do Orígenes Lessa (
já escrevi aqui sobre ele); ou uma coleção de histórias clássicas que eu tinha, como a Vendedora de Fósforos, com umas ilustrações incríveis que me faziam ler o livro milhares de vezes e nunca me cansar dele; ou ainda os primeiros gibis que eu ganhei, quando eu nem sabia ler e inventava as histórias na minha cabeça, como a edição número 1 da Mulher Hulk.

Tarefa difícil, né? Por isso resolvi falar sobre os três primeiros livros que me vieram à cabeça, sem pensar muito.

1. O Reizinho Mandão

 
Ruth Rocha foi uma de minhas autoras favoritas quando eu era criança. Esse livro foi uma indicação da escola, mas eu gostava tanto que eu continuei a ler várias vezes mesmo depois de já termos feito as tarefas sobre ele.


Eu gostava desse livro sobretudo porque eu odiava o personagem do reizinho. Era mimado, autoritário, praticamente um Joffrey – vai que George R. R. Martin se inspirou nesse livro?

A história é o seguinte: o reizinho mandava tanto as pessoas calarem a boca que, de tanto ficarem caladas, um dia desaprenderam a falar. Olha como tem a ver com o que escrevi no início da newsletter.

Ele até gosta de falar sem ser interrompido, mas ele logo se enche de não poder conversar com ninguém. Quer consertar a situação. Viaja ao reino vizinho e um velho sábio lhe diz que para quebrar a maldição ele precisa sair batendo de porta em porta e encontrar uma só criança que ainda saiba falar, porque ela diria o que ele precisa ouvir.

Aí entra a parte que eu gosto. Um dia ele descobre uma menina escondida na casa de uma velha. Uma menina com maior cara de invocada, com mãozinha na cintura e tudo.

Quando o reizinho se irrita por ela não responder suas perguntas, ele começa a gritar. O papagaio do rei começa a gritar também, mas como ele só aprendeu a falar uma coisa, o que ele grita é justamente “cala a boca, cala a boca”.

De repente a menina fica brava, suas trancinhas se arrepiam e ela grita CALA A BOCA JÁ MORREU, QUEM MANDA NA MINHA BOCA SOU EU!

Essa foi simplesmente a primeira lição de empoderamento que eu tive, mesmo que eu demorasse muitos anos para entende-la completamente. 



É incrível como mesmo depois de crescida essa história ainda tenha tantas mensagens interessantes, como o autoritarismo do estado (na forma das leis bobocas e invasivas que o reizinho criava), a incapacidade de ouvir o outro e de lidar com opiniões diferentes, o direito da mulher à fala representado pela garotinha que reivindica a autonomia sobre a própria voz. 

Sem falar na estrutura narrativa super bem construída, no desfecho perfeito, na linguagem cativante de Ruth Rocha. E tudo isso com as ilustras lindas de Walter Ono.


2. O Grande Segredo

Eu gostava desse livro, escrito por Marlene Serruya, especialmente por não ter uma ordem de leitura tradicional. A estrutura desse livro era meio RPG, um formato de jogo. Eu escolhia o que aconteceria na história, porque eu era a personagem principal. 

Aliás, tinha um esforço bacana no livro para manter esse protagonista com o gênero neutro, já que seria lido por meninos e meninas, mais ou menos o que tive que fazer na novelinha que eu enviava aqui pela newsletter; o difícil foi o ilustrador desenhar esse personagem, mas ok, ele fez o melhor que podia.


Era assim: a história começava no capítulo 1. No final de cada capítulo, a autora dava duas ou três opções: se você quer fazer x, vá para o capítulo 32. Se você não quer fazer x, vá para o capítulo 16. Sim, a ordem dos capítulos estava toda embaralhada, então você “navegava” pelo livro seguindo essas indicações.

Dependendo do que eu escolhia, eu avançava na história e acontecia coisas boas OU eu me ferrava e dava “game over”. Eu esbarrei em vários becos sem saída até aprender as escolhas que eu devia tomar para “zerar” o livro. Então eu li O Grande Segredo muitas, MUITAS vezes. Mesmo depois de aprender o caminho “certo”, eu li várias vezes.

Lembro do meu primeiro “game over”, quando meu pai leu a história pra mim pela primeira vez. Num dos primeiros capítulos, a minha personagem estava andando e andando por uma estrada que parecia não ter fim, e já estava exausta de tanto andar. A autora dá as seguintes opções: “se você acredita que essa estrada ainda vai dar em algum lugar, ainda que ela pareça não ter fim, vá para x. Se você duvida que vá chegar a algum lugar caminhando por ela, vá para y.” E eu: duvidei, claro!

Aí uma mulher redonda (juro que ela é descrita assim), baixinha e cheia de verrugas começa a me seguir e a me encher o saco com um monte de questionamentos. Ela me leva até a casa dela para lanchar, sei lá, mas eu não consigo sair de lá. Fico andando em círculos, perdida, pra sempre, na casa dessa maluca. 

Quer dizer, o jogo acabou pra mim porque eu OUSEI duvidar, como se questionar fosse uma coisa ruim. Sim, o livro é todo baseado nesse moralismo besta. Inclusive, a história é sobre a protagonista ficar o tempo todo transitando entre duas estradas: uma chamada MEB e a outra, LAM. Mal e bem, duh.

Então o livro ensinava umas coisas bem erradas. Tipo quando encontro um velhinho barbudo no meio da estrada e ele me oferece uma pedra que me daria o poder de ouvir a natureza (haha, juro). Quando eu não aceitei, comecei a entrar no caminho ruim (porque aparentemente o velhinho é tipo deus). E hoje eu penso: véi? Eu vou lá aceitar pedra de um desconhecido no meio da rua? Vai que é crack?

Apesar disso, o livro era muito divertido. E eu adorava tomar o caminho do mal de vez em quando, dar umas vandalizadas, ver onde cada caminho ia me levar. Tanto que não consigo me lembrar de qual era o “grande segredo”, afinal. Mas me lembro dos “game over” até hoje, como quando um gigante me prendeu dentro de um jogo de corrida de motos e eu fiquei presa lá pra sempre. Esse dia foi massa.


3. Sozinha no Mundo

Eu amava os livros do Marcos Rey. O meu autor preferido da Coleção Vagalume, aqueles livrinhos que aposto que também marcaram a infância de muita gente. Os livros do Marcos Rey eram todos de supense, com enredos policiais, geralmente protagonizados por adolescentes que se metiam em mil e uma confusões.

Sozinha no Mundo tem bem essa vibe de suspense, porque conta a história de uma garota de 14 anos que fica sozinha, perdida em São Paulo, depois que a mãe morre e o tio que ficaria responsável por ela desaparece.


Aí ela tem que se virar, né? Passa pela casa de estranhos, por uma pensão de moças, até pela casa de um aliciador de menores, chega a ser acolhida por um circo. E essa história me chamava muito a atenção porque era uma menina, um pouco mais velha do que eu, tendo que lidar com uma ideia que me apavorava: sobreviver sozinha em um mundo hostil de adultos!

Então todo adulto que cruzava o caminho de Pimpa eu ficava tensa: dava pra confiar naquela pessoa? Tinham pessoas boas e pessoas que pareciam querer ajudar, mas que poderiam ser perigosas. 

Como a moça esquisita que se dizia assistente social, uma mulher que era descrita sempre usando um “óculos redondos de aros de tartaruga” e eu não fazia ideia do que era, mas que não me ajudou a criar uma boa imagem dela. 

Ela perseguia Pimpa, dizia que tinha que leva-la ao juizado, apesar do juizado de menores ter autorizado a menina a ficar na casa de uma senhora que ela conheceu no trem, enquanto não encontravam o tal do tio Leonel. Mas Pimpa sempre conseguia fugir dessa doida e, se não me falha a memória, em uma dessas escapadas acabou parando em uma passeata feminista (!).

É com essa “assistente social” que Marcos Rey costura os mistérios do livro e segura o nosso fôlego a cada capítulo. No final, como todo bom livro policial, ele revela por que Pimpa corria perigo. Enfim, não falta aventura na vida dessa menina.


Eu sempre fui muito medrosa, então poder me projetar em Pimpa e viver essas emoções alucinantes foi bem legal até pra imaginar: o que eu faria nessa situação? Imaginar como agir em situações adversas é uma coisa que vale a pena pensar até hoje.

Mais livros marcantes



Vem ver o que o pessoal que participou da blogagem coletiva indicou:

A Sybylla,
do Momentum Saga e organizadora da blogagem, que curtia mais autores nacionais, como Fernando Sabino e Pedro Bandeira.

A Gabriela Ventura,
do blog Quinas e Cantos, que lia Odisseia e Moby Dick (!).

Gizelli Sousa,
na Maior Digressão do Mundo, que foi marcada por livros de autores europeus dos séculos XVIII e XIX. Sofisticadíssima.

O Ben,
do Cabaré das Ideias
, que com 9 aninhos de idade gostava mesmo do sombrio Batman, O Cavaleiro das Trevas.

Enfim, vários outros blogs participaram, confira todos no final do post que a Sybylla publicou ;)

#RondaFeminista



Se você ainda não leu, segue minha indicação de leiturinhas feministas da semana:

Tudo o que saiu sobre as fotos vazadas da Jennifer Lawrence

A Think Olga reuniu em um só post um apanhado de artigos que saíram aqui e lá fora sobre o caso do vazamento (roubo!) das fotos da Jennifer Lawrence nua. São vários textos refletindo sobre esse crime, porque expor fotos íntimas de uma mulher é sim uma forma de violência – e são cúmplices desse crime não só quem rouba as fotos, mas quem compartilha e quem as procura. Enfim, você vai encontrar tudo sobre o vazamento das fotos – menos as fotos, porque né, erradíssimo divulgar.

Chica gosta é de mulher

A Jarid Arraes escreveu para o Dia da Visibilidade Lésbica um cordel lindíssimo, uma história de amor entre duas mulheres no nordeste que acaba gerando ódio e intolerância na vizinhança. Me lembrou outra fábula de romance lésbico e nordestino que assisti no teatro, uma peça chamada Malva-Rosa (aliás, foi premiadíssimo em Brasília). Essas histórias nos lembram da importância de chamar a atenção para essas questões, pois ainda há muita intolerância no mundo.

Candidatos, vamos falar sobre aborto?

Vamos sim. Texto que escrevi para a Carta Capital essa semana sobre o descaso que os principais candidatos tem com a questão dos direitos reprodutivos das mulheres. Como Eduardo Jorge disse em um debate na TV: é COVARDE quem não se posiciona sobre a legalização do aborto e deixa milhares de mulheres morrendo na clandestinidade.
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Por hoje acabou. C’est fini. Zéfini.

Fique à vontade para responder. Eu posso demorar um pouco, mas tento responder todos os e-mails que chegam por aqui.

E essa semana passou tão rápido, você não achou? Não coube nos últimos dias tudo que eu tinha pra fazer. Blé.

No desejo de que a próxima semana seja melhor para mim e pra você, me despeço.

Beijos juvenis,

Aline.

 

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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