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Uma newsletter sobre mudança de perspectiva

Profundidade

 
 
A água estava calma aquela manhã quando acendi a telinha luminosa do mundo virtual que visito e habito, esse oceano internet.
 
Vesti a roupa de mergulho, coloquei os óculos. Pronta para um dia de leitura no mundo virtual, mas resolvi me aventurar por essas águas de uma forma diferente. 
 
Olhando para a vastidão de textos, imagens, vídeos e sons boiando na internet, dá aquela gastura, um certo pavor: vamos conseguir atravessar isso tudo? Encontrar em meio a tanta coisa o que a gente procura? Não se afogar em conteúdo ruim?
 
Consumir conteúdo na internet, pensei, pode ser encarado de duas formas: horizontal e vertical.
 
Ao fazer uma leitura horizontal, navego. Deslizo pelas águas de conteúdo virtual passando por diversos lugares, acumulo abas no navegador, passo para o próximo tópico e depois outro e mais outro, sempre avançando, que há um horizonte sem fim de coisas para explorar. A bússola na mão para não acabar se perdendo (e passando a tarde inteira fazendo testes no Buzzfeed).
 
Mas, para atravessar horizontalmente tantos domínios, tantos temas e assuntos, acabo ficando na superfície.
 
Certamente vou ver e colecionar muito mais paisagens, mas e quanto à qualidade daquilo que consumi? Aprendi algo novo? Consegui absorver algo daquele conteúdo? Ou no final terei pescado uma tonelada de links que apodrecerão no convés sem que eu sequer me lembre deles?
 
Essa sensação de acúmulo, essa angústia de achar que tenho que me atualizar com rapidez, fez com que eu tivesse vontade de mudar minha postura em relação à leitura na internet.
 
Quero agora fazer leituras mais verticais, mergulhar. Escolher um ponto e ir mais fundo, poder me demorar explorando um tópico, sem pressa de ter que emitir uma opinião ou compartilhar. Ser mais criteriosa com o que consumo. Guardar oxigênio para mergulhar apenas no que vale a pena.
 
Ler em profundidade.
 
***
 
Aqui na newsletter eu sempre reservava uma seção para indicar links. Uma porrada de links. Sobre os mais diversos temas, coisas que eu ia colecionando enquanto navegava pelos sete mares da internet durante a semana.
 
Essa foi uma coisa que eu decidi mudar a partir de agora.
 
Afinal, se eu mudar a minha forma de ler e consumir conteúdo na internet, isso certamente vai acabar mudando junto.
 
Quando rolar indicação, será de algo que acho que vale muito o mergulho. Um ou dois links. Quero também compartilhar algumas impressões que tive durante a leitura, comentários sobre o que me interessou, sobre o que concordei ou discordei.
 
Uma indicação que vai chegar até você como mensagem enrolada dentro de uma garrafa e jogada em alto mar: toda rabiscada com o meu ponto de vista.
 
Se você responder com a sua opinião sobre a indicação, vai me ajudar a mergulhar ainda mais na questão – e quem sabe com isso eu (ou você) acabe aprendendo algo novo?
 
Vale a pena testar, acho.
 
Nadadeiras, óculos e roupa de mergulho. As águas estão calmas, mas quem sabe o que a gente pode encontrar lá embaixo? Só mergulhando pra saber.
 

A perspectiva do outro

 

Foi com bastante atraso que assisti a Under The Skin, ou Sob a Pele, filme protagonizado pela Escárleti Iorrânson no papel de uma alienígena – para reforçar o time de não-humanas de sua carreira: um computador (Her), uma super-heroína (The Avengers), uma super-humana (Lucy) e em breve, se for confirmado, uma ciborgue (Ghost in The Shell).
 
(papéis não-humanos são tipo a “Ana Júlia” da Escárleti; fazem sucesso, mas não é só o que ela tem a oferecer, pô.)
 
Se você não sabe de que filme estou falando, é de um que causou certo auê ano passado por conter uma cena de nu frontal da atriz. Com a mentalidade de quinta série da internet e “nossa peitos hihihi vagina” esse foi o destaque que o filme ganhou.
 
Bem, aí que assisti o filme recentemente.
 
Eu poderia falar sobre a nudez da Escárleti e de uma possível objetificação, mas não vou. Primeiro, porque não é uma nudez gratuita e tem significado no contexto da história (que aliás tem poucas falas, é um filme bastante visual, imagético, cheio de metáforas e pirações). Segundo, porque Under The Skin tem mais nudez masculina, o que pode ter decepcionado alguns marmanjões que acharam que veriam mais peitos que num seriado da HBO.
 
Eu poderia falar da incômoda repetição do estereótipo da femme fatale, da fêmea perigosa que atrai os homens para destrui-los, da mulher que representa a ruína e perdição masculina. Mas, ao meu ver, esse estereótipo é uma chave importante para a mensagem da história, especialmente porque é subvertido depois.
 
Eu poderia falar que gostei ou não gostei e encerrar logo o assunto. Mas acho que o filme é mais do que bom ou ruim; é uma oportunidade de perceber algo interessante.

 
O filme é a adaptação de um romance escrito por Michel Faber, mas parece ter quase nada a ver com a obra original. No livro, os personagens têm nome e o background dos aliens é explorado com mais profundidade. No filme, não só os personagens não têm nome como não dá para saber nada sobre os aliens, o que querem, ou por que estão abduzindo humanos.
 
Isso pode tornar o filme uma experiência tediosa e cansativa para alguns. Não é um filme fácil ou cheio de efeitos especiais para estimular nossos cérebros. Mas isso tem a ver com o ponto que eu mais gostei sobre o filme e calma, que já conto.
 
Ok, então Escárleti é uma alienígena que roda numa van pelas ruas de Glasgow, na Escócia, oferecendo carona a estranhos. Ela bate um papo com suas vítimas para sondar se é um cara cujo sumiço será notado por alguém. Se for um cara que não for fazer falta, ela o seduz e leva para seu “matadouro”. 
 
É muito doido e nem faz o menor sentido, mas é um lugar completamente preto que faz o homem peladão ir afundando a cada passo que ele dá em direção a uma insinuante Escárleti. Ele é engolido pelo chão e missão cumprida; ela parte para outro (sempre supervisionada por um motoqueiro mal encarado que não fala nada, mas parece ser tipo o chefe alien dela).
 
Uma coisa bacana que descobri depois: nas cenas em que a alienígena sai à procura de vítimas, os diálogos eram improvisados, e alguns caras (acho que os que recusaram carona) não eram nem atores, nem figurantes, mas caras normais que passavam pela rua – a van tinha câmeras escondidas.
 
(meu deus do céu, coméqui não reconheceram que era a Escárleti pedindo informação, vocês são burros?)
 
O filme mostra muitas cenas de pessoas normais andando pelas ruas, em lojas, paradas em pontos de ônibus. Ficou muito claro pra mim que eram pessoas de verdade, que não eram figurantes elencados. Que aquilo era vida real, não era filme.
 
Foi aí que a feitiçaria do diretor fez efeito na minha cabeça. Eu estava vendo o mundo com os olhos da alienígena. Porque foi realmente estranho olhar para aquelas pessoas (parecia fora de lugar ter aquela perspectiva de documentário em um filme de ficção, a estranheza gritou aos olhos), estranho como seria se um alien de fato estivesse olhando para elas.
 
Daí cada doideira do filme começou a fazer sentido. Era um filme de uma perspectiva que não era a humana – e provavelmente um filme feito para o público alienígena.
 
A falta de elementos de ficção científica reforçou isso. Se era um filme da perspectiva dos aliens, claro que não seria uma ficção científica – pelo menos não como conhecemos. Vai que no planeta onde o filme foi exibido vans são um elemento de FC?
 
Em certo ponto da história, Escárleti atrai um homem encapuzado na madrugada e quando entra na van, revela-se que é um homem com o rosto desfigurado, com algum tipo de deficiência.

 
Depois descobri que não era nenhuma maquiagem, mas um ator com tumores faciais interpretando um cara… com tumores faciais. O nome do ator é Adam Pearson, e você pode ler mais sobre isso – e ele falando sobre representatividade e estigmas que recaem sobre pessoas com algum tipo de desfiguração – neste texto.
 
O encontro com esse cara muda alguma coisa na alien. Ela chega a levá-lo para seu matadouro, ele chega a ser engolido pelo chão (chega até a ver o que tem lá embaixo e é bem perturbador), mas ela muda de ideia e o liberta.
 
A questão é que depois desse evento ela começa a se afeiçoar à forma humana. Ela se apaixona pela própria forma humana que está vestindo (daí a cena de nudez) e resolve se “demitir”. Ela deixa de perseguir humanos e foge, para poder se sentir humana.
 
É uma troca de peles. Se no início do filme somos colocados na perspectiva alienígena, agora era a alienígena que se colocava no nosso lugar, o de humanos. Perceber isso foi lindo. Meio aterrador, mas lindo.
 
Lembra o que eu falei sobre o estereótipo da femme fatale? Acho que ele se subverte a partir do momento em que ela quer ter o gostinho de ser humana.
 
No processo de construção da sua humanidade, aquele papel já não lhe cabia mais. Especialmente porque aprendeu que a humanidade é, sobretudo, sobre fraquezas, vulnerabilidades. Somos essa espécie que consegue ser, ao mesmo tempo, cruel e frágil.
 
A periculosidade da alien dá espaço para a fragilidade de seu corpo. Para a insegurança de ser uma mulher vivendo nesse mundo.
 
(e céus, como o final é dilacerante depois de percebermos tudo isso – mas não vou contar)
 
Escárleti pode estar ficando “presa” em papéis não-humanos (ou ainda se especializando em FC, tal qual Alice Braga é figurinha carimbada em distopias), mas não vejo como algo que a desmereça ou a limite.
 
Muito pelo contrário: entrar na pele de um personagem não-humano e dali transmitir tanta humanidade, gerar tamanha empatia, olha, é uma tarefa para poucos.
 
E um filme que nos faça ficar sob a pele de um alienígena – e que incômodo é sair do nosso lugar comum – merece reconhecimento para além de “filme em que atriz famosa aparece nua”.

Zumbis cubanos

 
 
Depois de ter indicado desenhos animados cubanos da década de 60, hoje é dia de indicar um filme cubano… sobre zumbis!
 
Chama-se Juan de Los Muertos, uma história de apocalipse zumbi que se passa em Havana (!) e a produção do filme é uma parceria entre a indústria cinematográfica de Cuba e produtoras da Espanha.
 
Me empolguei tanto falando de Under The Skin que não vou me alongar muito, mas:
 
O filme é bem besta. Não vá esperando ver um The Walking Dead, que Juan de Los Muertos é muito mais comédia do que drama (mas também tem muita ação).
 
Os efeitos especiais são bem ruinzinhos, claro, se a gente comparar com as produções norte-americanas. O que, na real? Acho ótimo. Porque não vejo uma pretensão de se igualar, mas de criar uma linguagem bem própria.
 
Afinal, é apocalipse zumbi da perspectiva cubana, pô. E é essa perspectiva que acaba sendo muito interessante.
 
Logo se nota que na ilha de Fidel as pessoas não têm o menor conhecimento de causa do que seria um zumbi (é hilário quando a TV diz que os mortos-vivos são dissidentes patrocinados pelos Estados Unidos ou quando acham que são vampiros e tentam afastá-los com alho e cruzes).
 
Fiquei pensando que se ocorresse uma epidemia zumbi no Brasil seria muito mais parecida com o cenário apresentado em Juan do que em TWD.
 
Porque veja, o caos rolando solto e o protagonista pensa em quê?
 
(  ) arrumar abrigo seguro
(  ) providenciar fonte de suprimentos
(x) ganhar dinheiro com a situação
 
Sim. Um filme cubano ("aqueles comunistas safados!!") que mostra o apocalipse zumbi de uma perspectiva capitalista. Sem falar que em vários momentos eles zoam o próprio socialismo.
 
Juan é um empreendedor, ele transforma a situação numa oportunidade de negócios: abre uma firma de exterminar zumbis. “Juan de Los Muertos, exterminamos seus entes queridos, em que posso servi-lo?”
 
Ele cobra pra dar aulas de como matar zumbis. Gênio. Como é que nenhum sobrevivente americano de The Walking Dead pensou nisso?
 
desculpa, Rick, mas Juan melhor líder que você
 
O filme tem várias coisas preconceituosas, umas mortes violentas desnecessárias, é sofrível em vários aspectos e bem fraco de personagens mulheres.
 
Mas acho que vale a pena assistir e conhecer uma perspectiva diferente sobre um cenário que nos acostumamos a ver do ponto de vista americano – e também a possibilidade de lançar um olhar diferente sobre Cuba.

Todo Mundo Come

 

Esta semana lancei um novo projeto, o blog Todo Mundo Come. Um blog sobre comida para falar sobre pessoas, suas histórias, relacionamentos e cultura.
 
Foi uma ideia que tive para mudar um pouco de perspectiva, escrever sobre outros assuntos (e quem é que não gosta de comida, né?) e experimentar coisas novas – o que tem me deixado empolgadíssima.
 
Já tem 3 textinhos lá pra você ler: Rapa de angu e a minha fixação pelo fundo da panela, um teste pra saber se você leva a marmita a sério e um texto dedicado a quem tem medo de panela de pressão.
 
Visita, mostra prazamigue, acompanhe, me diz o que achou!
 
Espero que goste de ler tanto quanto estou gostando de escrever. Já sabe onde me encontrar agora: na cozinha ;)

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“Poxa, o mundo se explodindo lá fora e você não vai escrever uma palavra sobre o atentado na França nesta edição?"
 
Acho triste demais o ocorrido (e os desdobramentos) para ter a frieza que uma análise sobre o assunto exige. Na maior parte das vezes, teorizar sobre tragédias acaba gerando mais comentários equivocados – na pressa de ter qualquer opinião sobre o assunto – do que empatia.
 
Por isso tenho guardado minha opinião. Em parte, porque acho que o momento exige digerir isso tudo, pensar mais e falar menos; mas em parte porque acho que já tem gente demais opinando sobre o assunto e não faz a menor diferença se eu resolver engrossar esse caldo ou não.
 
Pensar também exige tempo e cuidado. E eu tenho medo de quem tem certezas – especialmente assim tão rápido.
 
Por essa razão, não vai haver um texto meu sobre o assunto tão cedo.
 
Só a minha torcida para que, no final, a compaixão vença.
 
Beijos profundos,
 
Aline.

 

Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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