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Vamo trocar um dedim de prosa?

Bordados, Bradbury e Patrine


Olá, Aline!

Céus, que semana. Mas sabe aquela sensação boa de ter conseguido fazer tudo o que tinha para ser feito? Pois é. Apesar de me sentir assim, ainda acho que eu poderia ter feito mais (como ter preparado mais temas para esta edição. Quase não tenho assunto!). Well, nunca fico satisfeita.

Mas olha, em compensação, até deu tempo para escrever e publicar dois textos essa semana :)

A Ficção Científica Perfeita – será possível escrever uma obra perfeita de Ficção Científica? E se fosse um robô que se dedicasse a essa empreitada literária? No futuro, isso será possível, mas talvez a crítica não goste muito.

Bordados e histórias tecidas por mulheres – no blog da Carta Capital, conto como é importante o rito feminino de "tricotar" narrativas. Lembro também de duas situações de mulheres se reunindo para conversar: na casa da minha avó e na família da Marjane Satrapi, como ela conta em sua graphic novel Bordados.

Bradbury, rogai por mim



Esta semana terminei de ler “O Zen e a Arte da Escrita”, uma coletânea de ensaios de um dos grandes nomes da Ficção Científica, o Ray Bradbury.

Além de palavras inspiradoras e de ideias para métodos de criação, a delícia desse livro foi a sensação de estar numa conversa de bróders. 

(e ultimamente eu tô nessa de ficar com saudade de um autor morto cada vez que termino de ler um livro dele. Já sentiu isso?)

Bradbury conta seu processo de criação e uma coisa que achei interessante foi a forma que ele utilizava listas. Ele escrevia uma lista de palavras, simples substantivos, relacionadas a coisas que ele gostava, ou lembrava, ou via.

O lago. A noite. Os grilos. O bebê. O porão. O circo. O anão. O esqueleto.

A partir dessas palavras ele começava a fazer associações livres que acabavam dando a ele ideias para suas histórias.

Me identifiquei bastante com esse método, que uso desde que trabalhava com redação publicitária. Ia listando palavras, combinando nomes, até que algumas delas me davam o caminho para uma boa ideia. 

Ainda hoje uso isso, mais para textos do blog. Tenho notas e notas arquivadas no meu Evernote com palavras ou com uma linha curta que resume a ideia do texto-ainda-não-escrito.

Interessante ver como isso funcionava para Bradbury:

“Na margem desses substantivos, tropecei numa história de ficção científica que não era uma ficção científica. Meu título era ‘F de Foguete’ [‘R is for Rocket’]. O título publicado foi ‘King of the Grey Spaces’, a história de dois meninos, grandes amigos, um escolhido para ir para a Academia Espacial, enquanto o outro ficaria em casa. O conto foi rejeitado por todas as revistas de ficção científica porque, na verdade, era apenas uma história sobre a amizade que era testada pela circunstância, ainda que a circunstância fosse uma viagem espacial.”

(esse trecho também achei particularmente interessante pela polêmica do que pode ou não ser considerado Ficção Científica. Como assim essa história não pode ser FC, cara-pálida? Não acho que o principal desse gênero seja a tecnologia ou a ciência, mas as verdades humanas; que é o que, afinal, define toda boa literatura)

Tem mais detalhes sobre como Bradbury trabalhava com listas neste link.

Encontrei também um vídeo bem maneiro onde ele fala mais sobre o que é o ato de criação pra ele. Gostei da fala do ilustrador que aparece antes dele:

“Escritores costumam trabalhar no que acreditam ser o futuro. Mas não acho que o que Ray escreva tenha a ver com o futuro. Acredito que ele faça o futuro agora pelo jeito que ele escreve e pela sua consciência e vitalidade.”

Dá o play.


(detalhe: ontem foi aniversário de Bradbury, que nasceu num 22 de agosto de 1920)

Os memoráveis causos de Dona Lelena



Aproveitando que ontem também foi aniversário de uma tia minha e que no texto da Carta Capital falei sobre conversas entre mulheres, resolvi resgatar um texto antigo que escrevi baseada nos “causos” que ela contava na casa da minha avó. Ah, releva as mineirices.

***

Causos são a segunda maior especialidade dos mineiros. Depois do frango com quiabo e angu, claro. Embora eu tenha nascido em Minas, não tenho nem metade do talento para contar histórias como as mulheres da minha família, sempre com aquele sotaquezim manso de quem precisa, antes do início de qualquer causo, oferecer um cafezim e um pãozim de queijo.

Mas nenhuma história se compara àquelas contadas pela minha tia Lelena. Só conhecendo mesmo essa figura para saber que ela não é nenhum personagem inventado da minha cabeça. Ela é bem de verdade, juro procê. 

Só para você visualizar: é uma tiazinha com uma mancha no queixo, da cor do seu cabelo avermelhado, que anda com uma sacolinha de supermercado pra cima e pra baixo, mesmo quando vai para a missa, religiosamente, todo domingo de manhã; é apaixonada pelo Sílvio Santos, deve comprar tele-sena até hoje, dança qualquer música como se fosse Twist And Shout, e gosta de justificar sua língua enrolada dizendo que, na verdade, é francesa. Igual a uma vez em que pegou o ônibus errado e, para não passar vergonha com o motorista, começou a falar enrolado dizendo que era turista. Sério, eu precisaria de muito mais imaginação para criar uma personagem dessas.

E ela gosta de contar uma história que é mais ou menos assim:

"Teve uma época em que eu estava com muita sorte na loteria esportiva. Com tanta sorte, que meu pai ficava torcendo para eu errar porque era capaz dele ter um ataque do coração.

Pra você ver: precisava fazer 13 pontos para ganhar. Eu fiz 12. Logo essa fama se espalhou e os comerciantes do bairro começaram a me procurar para pedir meu palpite no jogo deles.

Daí um dia no almoço meu pai inventou a história que se eu ganhasse na loteria, era capaz de eu dar metade do prêmio para o meu primo, o Silvério, de tão puxa-saco que eu era. Mas a Bete, minha cunhada, levou a sério. Levantou brava e disse:

– Achei que você era boba, Lelena, mas não achava que era tanto.

Pra quê. Num guentei o desaforo. Levantei e respondi:

– Eu ia dar só metade. Mas já que você falou que eu sou boba, vou dar é tudo.

Na mesma hora, meu pai saiu de fininho e foi correndo na casa do Silvério. Morrendo de rir, contou pra ele:

– Você vai ficar mais rico do que já é! A Lelena disse que se ganhar na loto te dá o prêmio todo!

Até hoje ele me liga, perguntando como estão indo os meus jogos. 

Mas isso não foi nada. Rolo mesmo foi o que aconteceu depois.

Na época, eu trabalhava na empresa do Silvério. Teve uma vez no escritório que ele me pediu o número do Bradesco. Liguei na sala dele e passei o número, que até hoje eu lembro: 24 12 17.

Depois que ele desligou, percebi que tinha me confundido. Sem querer, passei pra ele o número da Primavera Flores, que não sei porque estava na minha cabeça. 

Tentei ligar de novo para consertar, mas dava ocupado. Fiquei morrendo de medo, ele ia me xingar todinha. Eu toda preocupada, né? Liguei mais uma vez e ele atendeu. Aí expliquei a confusão, mas ele nem se importou.

Uai, ele não ficou bravo? Desci na mesma hora, fui na loteca e 'juguei' aqueles números. Acertei um terno. Ganhei pouquinho, na época era como se fosse uns quarenta reais.

Um tempo depois, foi o casamento da minha irmã mais nova. O dono da Primavera Flores era amigo da família e resolveu dar pra Gagaça todos os arranjos para enfeitar a igreja. 

No mesmo dia, fui e 'juguei' os números da floricultura de novo. Acertei uma quadra. Ganhei como se fosse uns cem reais.

Dias depois, resolvi agradecer o senhor da floricultura pelo presente que ele deu pra Gagaça. Fui até a loja de tecidos comprar uma risca-de-giz para fazer uma calça. O balconista perguntou para quem era, e quando eu contei, ele respondeu:

– Uai, o dono da Primavera Flores? Mas ele morreu esses dias, cê não ficou sabendo?

Moço, faz isso comigo não! 

Corri pro cemitério, procurar o lugar onde o senhor tinha sido enterrado. Quando achei o túmulo, não rezei, nem acendi vela. Anotei os números na lápide para 'jugar' na loteria. Se eu acertei de novo? Adivinha. 

Nada! Fazer o quê, né.

Mas eu tinha muita mania de loteria, viu. E era tanta, que na vez que minha outra irmã caiu num buraco e torceu o pé, ao invés de ajudar ela a sair, fiquei tentando ver se no fundo do bueiro, no meio do lixo, tinha algum papel com algum número que eu pudesse usar num jogo.

– Anda Lelena! Me tira daqui! – ela gritava brava lá de baixo, o pé torcido.

– Chega só um pouquinho pro lado pra eu ver aquele número! É um 26?

Afinal, nunca se sabe quando posso ganhar na loteria, né. Quem sabe rica o Sílvio Santos não me dê bola?"
 

Bordando uma colcha de links



Banda de uma mulher só



Vale a pena ver outros clipes da Kawehi, porque é incrível como ela faz sua música, além de ser uma delícia de ouvir.

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Suspensão de descrença

“Sabemos hoje que Marte não possui civilizações avançadas em sua superfície, mas Bradbury não falou de marcianos em suas crônicas. Ele usou esta alegoria para criticar a raça humana e seu comportamento diante do que é diferente e de quando está sob pressão. É aí que mora a magia da ficção. É manter a crítica viva."

Eu viajo com a ficção, e você?

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Mensagens de celular na linguagem de cinema



Esse vídeo é muito, muito legal. É uma análise da evolução da representação das mensagens de celular nos filmes e seriados. Aliás, tem muitos vídeos bacanas no canal desse cara, com outras análises sobre linguagem audiovisual.

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Café e refri

"No meu caso, beber um café sempre foi um modo de começar ou terminar algo. Um motivo ou uma muleta, pode ser. O café é a mão amiga que te dá uma direção, um foco."

Texto da Tati Lopatiuk sobre essas bebidas que podem até fazer mal (meu estômago que o diga), mas caramba, como a gente precisa delas.

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Prêmios Hugo 2014

Esse texto, que não faz nenhuma comparação do tipo “Hugo Awards, o Oscar da Ficção Científica” (meu deus como eu odeio isso), analisa alguns destaques da edição deste ano: além da premiação de Game of Thrones, destaca uma maior presença feminina entre indicados e ganhadores, como a autora vencedora do Melhor Romance. A lista dos ganhadores aqui.

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Homens e neandertais juntos

Cientistas descobriram que homens e neandertais, aquela outra espécie de hominídeos que foi extinta há alguns milhares de anos, na verdade coexistiram por mais tempo que se imaginava anteriormente. De acordo com esta descoberta, estas duas espécies viveram juntas nesse planeta por cerca de 5 mil anos. É possível até que tenha havido um considerável intercâmbio cultural entre homens e neandertais. Não sei você, mas meu cérebro explodiu um pouco.

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Quando acreditávamos que éramos invencíveis

Lembra quando você e seus amigos escreviam no caderno uns dos outros “amigos para sempre” em vez de “espero que a gente chegue pelo menos até os 30”? O texto acima fala sobre isso – e de como viver mais alguns anos não é questão de ser invencível, mas sim de pura sorte.

Leve a Patrine pra casa


simulação

A Confeitaria, da queridíssima Fabi Secches, lançou um e-commerce e a lojinha já está no ar. Tem muita coisa linda, com livros e pôsteres, em breve com caderninhos e outros objetos de arte. Coisas feitas por artistas super talentosos e selecionados por uma curadoria de muito bom gosto.

Amei ser convidada para criar um pôster exclusivo para a lojinha. Resolvi fazer uma homenagem à cultura pop dos anos 90 e escolhi uma das minhas heroínas favoritas da época para representar na ilustração: a Patrine!!!

"Magia. Cósmica. Metamorfose! Lutarei enquanto existir amor, até o fim da minha vida! Estrela fascinante Patrine!"

Lembra? Eu adorava que quando a Patrine aparecia para deter o vilão, ela sempre dava um sermão, pagava-lhe um sapo, antes de descer a porrada. E ela tinha uma Ferrari voadora. Apenas.

detalhe

Você pode me fazer feliz comprando minha ilustra e levando para a sua casa esse pôster que criei com todo amor :)

Aqui ó.

Em breve, vai ter novas ilustras minhas na lojinha, incluindo a que eu fiz para o livro Amor: Pequenas Estórias.

Falando em novidades...


... vem mais uma por aí.



Semana que vem eu conto.

 
♥︎
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Agradeço pela companhia por mais uma semana e espero que tenha tirado algo de bom da newsletter de hoje.

Tenho andado ansiosa, com medo de não dar tempo e meu deus daqui a pouco dezembro vai estar batendo na porta e terei terminado os meus trabalhos?

Então sentar para escrever essa newsletter acaba me ajudando a colocar os pensamentos em ordem. E também a recapitular a semana mentalmente e ver que, bem, parada não estou.

Espero avançar mais um cadim na próxima semana – desejo o mesmo pra você.


Beijos tricotados,

Aline.

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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