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Edição especial de feriado ♥︎


Nas minhas tardes de SBT no tempo de colégio, era um ritual diário assistir ao Um Maluco no Pedaço (também conhecido como Fresh Prince of Bel Air, em uma tradução bastante FIEL, como você pode perceber), e não me importava de assistir ao mesmo episódio umas 35 vezes, porque o SBT, você sabe, tinha esse negócio com looping eterno de seriados.
 
Uma coisa que me chamava bastante atenção era ser uma série em que todos os personagens principais eram negros. Não dava para ignorar que esse detalhe o tornava bastante diferente de tudo o que eu estava acostumada a assistir.
 
Era algo além da cor dos personagens: a história trazia vários elementos da cultura negra, desde Martin Luther King até o basquete e o rap, desde a história da escravidão americana ensinada pela Tia Vivian na sala de aula até a luta por direitos civis vivida pelo Tio Phil. 
 
Mas por que eu só via isso em Um Maluco no Pedaço? Por que ali era tão normal ver uma família negra, enquanto nos outros seriados, desenhos e filmes o personagem negro aparecia sozinho – isso quando existia? E outra: por que os seriados com personagens negros que eu assistia (porque depois veio Eu, a Patroa e as Crianças, também no SBT) eram todos americanos? E eles eram ricos ou classe média! Isso era totalmente destoante do que eu via nas novelas e filmes brasileiros, onde o negro aparecia como escravo ou empregada, no núcleo pobre das novelas ou como bandido e traficante nos filmes.
 
Era possível outra narrativa sobre negros, e quem primeiro me ensinou isso foi o Will Smith. 
 
Além disso, Um Maluco no Pedaço foi responsável por trazer risadas para nossas tardes e nos apresentar aos passos de dança do Will ou do Carlton que tentávamos imitar (pode confessar, vai); mas, acima de tudo, também apontou para a existência de um imenso elefante na sala, aquele assunto incômodo do qual a sociedade inteira evitava falar: a completa ausência ou má representação dos negros na mídia e na ficção.
 
Porque se existe um seriado com uma família negra, significa que os outros seriados, como Blossom e Três é Demais, são sobre famílias BRANCAS. Que Seinfeld e Friends são sobre brancos. Que até a Turma da Mônica é sobre crianças brancas. Brancos nas novelas, brancos nos gibis, brancos nos desenhos, brancos nas propagandas, brancos nas revistas, brancos apresentando jornal, brancos, brancos, brancos everywhere.
 
Quem já está bem representado nem repara nisso. Mas crianças e jovens negros já precisam lidar desde cedo com a falta de personagens que se pareçam com eles, que mostrem que a história deles também importa.
 
Quando surge um personagem negro, repara-se nele imediatamente; quando é um personagem branco, sua raça nem é uma questão. Evidente: num mar de branquitude, a presença de qualquer personagem que destoe disso vai se destacar – o que faz com que ele atraia admiração (“finalmente um personagem que se parece comigo!”) ou ódio (“comequié? Um stormtrooper negro em Star Wars??? Estragaram meu filme favorito, isso não faz o menor sentidoooo!”).
 
O padrão masculino e branco da maioria das nossas histórias acaba criando uma situação em que o autor, ao criar um personagem fora do padrão, sinta que precise JUSTIFICAR aquele personagem. Já passei por isso várias vezes quando hesitava ao criar personagens mulheres: “mas por que colocar uma mulher nessa história, em vez de um homem, que seria o ’natural’, o esperado?” E a pergunta deveria ser: por que não?
 
Por que não um seriado de humor onde o grupo de amigos possui só um homem branco, quando o comum é ter só um negro, e ser composto por dois filhos de imigrantes e uma mulher negra lésbica, como fez Aziz Ansari em Master of None (aliás, assista)?
 
Por que não um personagem negro bem sucedido? Por que não uma astronauta negra? Por que não um grupo de heróis negros? Por que não o grupo ser liderado por uma mulher negra? Por que não um homem negro ser diretor de uma grande e poderosa agência de espionagem? Por que não um romance literário sobre relacionamentos complicados e profundas questões humanas ter um protagonista negro? Por que não, se forem personagens verdadeiros, humanos, multidimensionais, que não reproduzam estereótipos racistas?
 
Muitos anos depois de aprender com Will Smith, conheci a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que nesta palestra (que não me canso de assistir e indicar) fala sobre os perigos de termos uma história única sobre um tipo de pessoa.
 
“Se eu não tivesse crescido na Nigéria e se tudo o que eu conhecesse sobre a África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreensíveis, lutando guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS, incapazes de falar por elas mesmas, e esperando ser salvos por um estrangeiro branco e gentil.” 
 
Essas narrativas únicas, que se repetem e repetem, nos oferecem uma visão empobrecida de mundo e de gente, que sempre convém para enaltecer um grupo de pessoas, o que detém o poder na sociedade, enquanto despreza ou apaga outro grupo de pessoas. As histórias únicas são demonstrações de poder. Como diz Chimamanda: “poder é a habilidade não só de contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa.” 

 
A história única está na ausência de personagens negros. Está na repetição de estereótipos que os tornam menores e rasos. Está na dominância de personagens brancos em histórias diversas, enquanto aos negros restam quase sempre os mesmos tipos de papéis.
 
É preciso enegrecer a ficção para que ela espelhe a diversidade do nosso mundo. É preciso enegrecer a ficção para que uma escritora negra perceba que pessoas iguais a ela podem existir na literatura, como aconteceu com Chimamanda, ou para que uma garota veja na tenente negra de uma nave espacial em sua série de TV favorita que ela também pode ser atriz, como aconteceu com a Whoopi Goldberg.

 
Como depois lembrou Viola Davis quando foi a primeira mulher negra a ganhar um Emmy de melhor atriz (em 67 anos de existência do prêmio!!), em seu emocionante discurso: “você não pode ganhar um prêmio por papéis que simplesmente não existem”.
 
Quem cria ficção não pode se isentar dessa responsabilidade. Porque ao criar no automático, estaremos fadados a reproduzir os padrões contidos na maioria das histórias que consumimos, em um círculo vicioso e tão infinito quanto as reprises do SBT: criamos só personagens homens e brancos porque só vemos histórias criadas e protagonizadas por homens e brancos.
 
Viola Davis ganhou o Emmy por sua atuação na série How To Get Away With Murder, criada pela roteirista Shonda Rhimes. Suas séries passaram a ser conhecidas por trazer mais diversidade à televisão, mas ela não necessariamente concorda com isso: em um discurso, ela disse que ela prefere dizer que está trazendo normalidade para a TV, em vez de diversidade. Normalidade porque ela acredita que não deveria haver nada de incomum em retratar a vida de mulheres e pessoas negras e pessoas LGBTQ, porque todas essas pessoas existem na vida real. “Eu estou normalizando a TV. Estou fazendo com que a TV se pareça como o mundo realmente é”.
 
Quem sabe assim, não só na TV, mas na literatura, nos quadrinhos, nos cinemas e nos games, possamos ver com mais frequência personagens negros bem construídos nas histórias e que isso seja normal – tão normal quanto era ligar a televisão na hora do almoço e ver o Will aprontando altas confusões.

 
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Mesmo as pessoas leitoras mais ávidas podem passar uma vida inteira sem nunca conhecer obras escritas por pessoas negras. Não porque não haja escritores negros produzindo boa literatura, mas porque o racismo vai empurrando esses trabalhos para debaixo do tapete, vai dificultando o acesso a esses artistas, enquanto vai reforçando uma história única em que só brancos podem escrever.
 
Não dá para achar que uma literatura (ou uma cultura pop) mais diversa é apenas aquela em que há personagens diversos; a diversidade precisa acontecer também nos bastidores, com pessoas escrevendo e produzindo as obras culturais e artísticas que consumimos. Diretores, roteiristas, escritores, editores, desenhistas, produtores, artistas.
 
É preciso um esforço para romper essa barreira de invisibilidade. Deve ser uma busca ativa dos leitores a diversificação de sua leitura, buscando ouvir as vozes que sempre tiveram espaço negado na sociedade e na mídia mainstream.
 
No site Blogueiras Negras, há um ótimo texto analisando essa falta de espaço e de visibilidade, além de oferecer uma lista com algumas indicações de escritoras negras. Acrescente à lista outros nomes como a Octavia Butler e Samuel Delany, grandes referências na ficção científica, Toni Morrison, que já ganhou Nobel de Literatura, e outros autores contemporâneos com livros já publicados como Jarid Arraes, Fábio Kabral, Jim Anotsu, Mano Ril, Bianca Santana. 
 
na imagem: Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Miriam Alves, Ana Paula Maia, Elizandra Souza, Nina Rizzi
 
Não esqueci de Chimamanda, que está nesta lista que Stephanie Ribeiro preparou, não só com escritoras, mas com artistas visuais, fotógrafas, ilustradoras e diretoras de cinema negras.
 
Na edição #49 de Bobagens Imperdíveis, além de dar uma pincelada sobre o Afrofuturismo e indicar alguns artistas que fizeram e fazem parte do movimento, também indiquei nomes de artistas africanos, como escritores angolanos, senegaleses, fotógrafos quenianos, ou trabalhos de cineastas da Etiópia, Costa do Marfim e Mali.
 
Mergulhe nessas indicações, procure por esses nomes, busque conhecer trabalhos novos, ouvir vozes diversas. A arte é grande demais para ser pintada só de branco.
 

Carolina Maria de Jesus, autora de Quarto de Despejo
 
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Esta semana publiquei um texto contando o processo de produção do livro As Lendas de Dandara, escrito por Jarid Arraes e ilustrado por mim, e tudo o que aprendemos nessa jornada.
 
Tem motivos para você ler a história e conhecer Dandara dos Palmares, tem trechinho do livro, tem estudos de personagem, tem esboços e tem algumas ilustrações do livro.
 
Acho importante dar visibilidade a essa história – a da ficção e a dos bastidores – porque é protagonizada por mulheres inspiradoras. Enquanto na ficção Dandara lutava contra a escravidão, escrever o livro foi uma batalha pessoal de Jarid contra o racismo que a cercou durante sua vida. Uma luta para descobrir sua voz. Para acreditar nela.
 
Não deixe de ler o texto e aproveita que o livro, durante o mês da Consciência Negra, está em promoção no site. :) 

Nas edições passadas

 

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E por hoje é só, pessoal! Fico por aqui pra te dar um tempinho de ler os links dessa semana :3
 
Ah, mais uma indicaçãozinha antes de acabar: o gif que usei no topo desta edição foi tirado do clipe da Solange, Losing You. Musiquinha mó gostosa, vale ouvir como encerramento!
 
E fique com essa belíssima imagem da #MarchaDasMulheresNegras que rolou no dia 18 em Brasília. Mais fotos aqui e aqui.

 
Beijos malucos no seu pedaço, 
 
Aline. 
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