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Perigo: edição com alto risco de gerar unsubscribe em massa

Filhos, saudades e marmita


Vou fazer jus ao nome da newsletter e já começar esta edição com uma grande bobagem.

Viu o que o papa falou esta semana?

"Estes casais que não querem ter filhos (...) esta cultura do bem-estar econômico que, há dez anos, os convenceu de que 'é melhor não ter filhos'. Como é melhor! Ah, claro, desta forma você pode ver o mundo, sair de férias, ter uma casa no campo, ficar tranquilo... Isso é, sem dúvida, melhor, mais conveniente, de ter um pequeno cão, dois gatos...", ironizou. "Não é verdade?", perguntou à multidão. "Mas, no final, esses casais chegam à velhice, na amargura da iníqua solidão”.

Bem, primeiro vejamos quantos filhos tem o Papa Francisco: 0.

Então talvez ele esteja falando dele mesmo quando diz que pessoas sem filhos, quando envelhecem, amargam na solidão? Hm, deve ser. Porque pra mim uma boa definição de velhice amarga é essa obsessão em cagar regra na vida dos outros. Mas quem é Papa Chico no jogo do bicho pra dizer que casais sem filhos são infelizes? Ou que é um problema preferir viajar pelo mundo & cuidar de bichos do que colocar mais um ser humano no mundo pra pagar dízimo? Ou pior: ao sugerir que ter uma vida tranquila e cachorros é incompatível com ter filhos? Sem falar na crueldade de falar isso para casais que não podem ter filhos.

Ah papa, me poupe desse papo.

Outra: tá faltando argumento pra convencer as pessoas a terem filhos, né. Mas ele bem que podia ter usado a criatividade ao invés de ter jogado no discurso dele justamente os argumentos mais atraentes para NÃO ter filhos. Desse jeito o pessoal vai sair da missa convencido a adotar um cachorríneo e curtir as férias na praia. Aí você também não tá ajudando, ô santidade.

Nada contra filhos, tenho até amigos que são. Mas convenhamos que filhos não são lá garantia de velhice feliz. Aliás, não há sequer garantia de que chegaremos à velhice, pra começar. E imagino que ter filhos com o propósito de melhorar a sua vida, além de egoísta, é a maior roubada. Igual aquele papo de encontrar a alma gêmea que vai nos fazer sentir “completos”. Corra disso sem olhar pra trás! E que puta responsabilidade você vai estar jogando em outro ser humano. Ninguém deveria deixar sua própria felicidade nas mãos de ninguém, nem de filho, nem de cônjuge, nem de operadora de telefonia.

E já que o Papa falou em “conveniência”, que tal falarmos de como é conveniente encher o saco das pessoas para terem filhos se não é ele quem vai carregar na barriga, ou amamentar, ou explicar o dever de matemática, ou dar remédio quando estiver com febre, ou ainda tentar convencer a pessoinha a tirar as músicas do One Direction do repeat porque você não aguenta mais ouvir aqueles meninos xexelentos e começa a sentir saudade de quando era só Galinha Pintadinha no repeat o dia inteiro. Ter uma criança puxando a barra da sua batina você não quer, né?

Se nem os pais podem se considerar donos de uma criança, o que dirá então de terceiros, que cobram filhos das pessoas como se elas lhe devessem algo? Que coisa mais desagradável. Eu inclusive já criei algumas desculpas que respondem à inconveniente pergunta “quando você vai ter filhos?”, mas acho que só um “não é da sua conta” já bastava.

Enfim, papa: as pessoas vão ter filhos se quiserem. Não vão ter filhos se quiserem. Você não tem nada a ver com isso, aceita que dói menos. Talvez assim sua velhice se torne um pouquinho menos amarga. E não é legal um senhor da sua idade ter tanto recalque assim.

Estou sendo injusta com o papa? Provavelmente sim. Afinal, é parte do emprego dele dar esse tipo de declaração. Se ele não for falar de como as pessoas devem levar a vida delas, ele vai fazer o quê? Pois é. Além disso, vai que ele é dono de uma marca de fraldas e ninguém sabe? Eu apostaria na MamyPoko. Aquele bonequinho me dá medo.

Mas confesso que a minha primeira reação ao ler o comentário do Papa foi rir alto por ele ter acertado exatamente quantos gatos eu tenho. 

 

Aborto Legal


Esta foi mais uma semana dura na luta feminista. Mais uma vez, de novo, como sempre, os direitos reprodutivos das mulheres estão sob ameaça. O pior de tudo é termos que lutar e exigir direitos que já estão previstos na lei – e que estão tentando arrancar de nós, porque, sei lá, devem estar achando que temos direitos demais?

Sobre isso, algumas palavrinhas (e a ilustra que fiz pra externar um pouco da minha revolta):



O que temos é pouco: um papel dizendo que temos o direito a interromper uma gravidez 1) causada por estupro 2) de um feto anencéfalo 3) que coloque nossa vida em risco. O que temos na prática é ainda menos, quase nada: nenhum suporte, nenhuma informação e nenhum atendimento no sistema público de saúde. Porque a saúde pode ser pública, mas não é de todos: das mulheres em vulnerabilidade é que não é. Acesso negado.

A Portaria 415 do Ministério da Saúde, que regulamentava o procedimento do aborto legal no SUS e o repasse de verba para os hospitais garantirem o direito destas mulheres, foi revogada logo após ser publicada. 

Abortar legalmente, de forma segura e gratuita? Não senhoras. Tem que ter o filho, é o que nos diz o Estado, tem que ter o filho nem que você tenha sido estuprada, nem que ele não vá sobreviver depois do parto, nem que pra isso você morra. Engravidou do estuprador? Não é nossa responsabilidade, é o que nos diz o Estado, isso quando não nos questiona se fomos realmente estupradas, porque só podemos estar mentindo. Não podemos te atender, o Estado nos diz, rasgando o que é direito nosso por lei. Se vira.

Então temos duas opções: ou somos condenadas a carregar uma gravidez que traz sofrimento, dor e risco, contra a nossa vontade, ou somos condenadas à morte.

Se violentadas, nossa palavra é desacreditada.

Se engravidamos de um agressor que nos estuprou, somos abandonadas pelo Estado.

Se abortamos, somos clandestinas.

Se recorremos ao aborto ilegal, somos condenadas à morte.

Pelo que estão querendo nos punir, afinal?

Não é sofrimento o suficiente sermos estupradas e engravidar do agressor?

Não é sofrimento o suficiente gestarmos um feto que não tem chance de sobrevivência?

Não é sofrimento o suficiente colocar nossa vida em risco se aquela gravidez não for interrompida?

Não, ainda é preciso nos castigar, fazer todo tipo de terrorismo, nos empurrar para a clandestinidade. 

Porque valemos tão pouco que não há nenhum constrangimento em pisar e cuspir nos nossos direitos. Porque devem achar que nossas vidas não valem sequer uma lei. Porque se nos tratam como lixo, devem julgar que não merecemos direitos humanos, como acesso a saúde e nada mais que um tratamento humanitário para nos dar suporte em situações de fragilidade física e emocional.

A cada vez que nossos direitos são negados ou arrancados, a cada vez que a lei retrocede para nos deixar mais desprotegidas, é o Estado nos dizendo que não valemos nada. É o poder público jogando nossos corpos e úteros nas mãos de políticos e líderes fundamentalistas, como se fossem moedas de 1 centavo, das quais se abre mão sem nenhum apego ou dó.

Até quando morreremos pela omissão do Estado?

***

No dia que este e-mail chegar até você, dia 7 de junho, vai rolar ou rolou (depende da hora que você estiver lendo) um ato em SP, às 14h na Praça da Sé, em protesto contra a revogação da Portaria 415. O movimento também está ganhando força na internet, com as hashtags #AbortoLegal, #Portaria 415 e #Lei12845, além de blogagem coletiva sobre o tema. Vários textos e vídeos desse movimento estão sendo reunidos no tumblr #AbortoLegal.
 
 

Ufa, você acabou de ultrapassar a marca da metade séria da newsletter, <<Primeiro Nome>>! A partir daqui, só amenidades. Bom passeio!
 

Vamo falar de texto da semana


Vic é uma moça que não sente saudades, simples assim. Mas como é não sentir saudades? Como é isso? Consegue imaginar? Conto a história dela no texto da semana.

E será que você conseguiria identificar de cara as músicas cujos trechos coloquei no texto? Tipo, de ler cantando mentalmente e tudo? Hmm. 

Daí coincidentemente eu estava lendo uma resenha de um livro do Alan Watts que não tem nada a ver com saudade, e achei uma frase que super tem a ver com o tema que resolvi tratar. A letra esquisita da imagem é minha mesmo.

Heavy user de marmita


Aqui em casa se prepara marmita quase todos os dias, apesar de euzinha comer em casa sempre. Mas eu vim de uma linhagem de marmiteiros de primeira e não rejeito minhas tradições. Então, pensando cuidadosamente nos atributos de um bom comedor de marmita, conforme foi passado de geração em geração até chegar a mim, resolvi criar um pequeno teste para determinar se você é um heavy user de marmita ou se está bem encaminhado nessa tradição. Se você marcar 10 ou mais questões, parabéns: você é profissional no quesito marmita.

1. Compra vasilhas de plástico que vai usar exclusivamente para servir marmita.

2. Possui uma sacola, bolsa ou mochila que usa apenas para levar a marmita.

3. Serve a marmita do dia seguinte imediatamente após a janta.

4. Já prepara as refeições pensando na quantidade que vai levar na marmita.

5. Já prepara de uma vez só toda a comida que irá levar na marmita durante a semana, servindo em suas vasilhas específicas e guardando no congelador.

6. Possui marmita com divisórias para cada tipo de comida.

7. Serve a marmita em pote de sorvete.

8. Marmita de metal.

9. Se vai comer num restaurante, sempre pede para embalar as sobras.

10. Se vai comer na casa dos parentes, não se acanha em levar uma vasilha para servir a marmita após a refeição.

11. Serve a marmita ANTES de ser servida a refeição para as pessoas, pra garantir a quentinha do dia seguinte.

12. Despeja a comida da marmita em um prato para comer na firma, que permite melhor manobrar o alimento.

13. Porém, não se intimida em comer direto da vasilha, inclusive até prefere.

14. Sempre pensa em um arranjo de comida dentro da vasilha de um jeito que o feijão não derrame.

15. Nunca se engana de marmita na geladeira da firma.

16. Nunca esquece a vasilha de marmita na firma.

17. Na firma, acaba criando uma amizade maior com quem também é da gangue da marmita.

18. Se sente enganado quando compra marmitex na rua, abre e vê aquele tanto de arroz.

19. Não dá nem meio-dia e já está colocando a marmita no microondas, antes que alguém coloque antes de você. Ou pior: antes que alguém com lasanha congelada coloque no microondas antes de você.

20. Tem sua própria marmita elétrica.

 

É ritmo, é ritmo de links


euzinha distribuindo links pras colegas de trabalho

Na última edição eu falei dos seriados que acompanho e o Artur deu continuidade ao meme em seu blog Prosa Livre. Aliás, o blog dele tem várias coisas legais, como este texto sobre personagens trans e a importância da representatividade para diminuir o preconceito. Eu, por exemplo, nem sabia que no seriado Glee tinha uma personagem trans!
 
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Se Game of Thrones fosse filmado no Brasil, nosso elenco made in Projac não ficaria devendo em nada a HBO.
 
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Quiz: qual mulher de Game of Thrones você é? Deu que eu sou a Khaleesi: “Você é Daenerys Targaryen! Você pode ser jovem, mas você já está aprendendo bastante sobre política e sobre a vida complicada de líder. Você respeita as tradições e reconhece que você nem sempre vai ter o que quer. Mas colocando o bem-estar dos outros na sua frente, você ganha o favor e o amor daqueles à sua volta. Não é fácil ser Rainha.” (IT’S NOT EASY BEING QUEEN inclusive minha nova frase de efeito). Viu por que amo fazer esses testes? Podem ser mentira, mas são um afago na autoestima.
 
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Lena Headey (Cersei) e Pedro Pascal (Oberyn) em entrevista para a Hunger TV, e estou shippando loucamente os dois. Me diz se não tá rolando o maior clima!!! Que vídeo delícia.
 
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Por falar em Oberyn, como teria sido o episódio de GoT da semana passada em um mundo ideal (spoilers!) HAHAHAHAHAHA PELOS SETE DEUSES.
 
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We Can Cast It sobre mulheres no esporte. Acho que um dos melhores programas que já gravamos, falamos um monte sobre mulheres atletas, esportes em que as mulheres se destacam, jornalismo punheteiro, nossa relação com o futebol, explicamos as regras do impedimento (rs, essa é brinks) e muito mais. E tem a voz fofa da Thaís Campolina, que só por isso já valia o play. ♥︎
 
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Um textinho curto e lindo sobre o uso das reticências. Acho que nunca mais vou ver os três pontinhos do mesmo jeito…
 
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Foi o Tarrasque que me ensinou a técnica de Pomodoro para eu conseguir focar e escrever mais. Funciona assim: você marca 25 minutos no relógio e até ele despertar você não faz outra coisa a não ser escrever. Pra isso, tem que garantir que nada vai te interromper e que você vai estar com a atenção 100% voltada para o que estiver fazendo. Ainda estou praticando, digamos que estou na faixa amarela. Mas esses dias encontrei um vídeo super gracinha explicando a técnica, com algumas dicas de como fazer esse método de trabalho e concentração funcionar. Tá certo que o vídeo é pra vender o livro e os produtos do cara, mas é uma aula bem boa sobre Pomodoro.

Quantos pomodoros gastei para escrever esta newsletter: 4.

Ruínas de Epécuen


Na Argentina, uma vila que ficava às margens do lago Epécuen acabou sendo engolida por uma inundação em 1985. As casas rapidamente ficaram submersas por águas corrosivas, mais salgadas que a do mar, e a cidade foi abandonada.

Por volta de 2009, o clima na região mudou e as águas começaram a recuar. A cidade, que passou cerca de 25 anos submersa, retornou dos mortos expondo suas ruínas à superfície. Uma cidade-fantasma. Pablo Novak, um velhinho de 81 anos, foi o único habitante a voltar para a Vila Epécuen, onde vive desde então.







As imagens são impressionantes. Taí um lugar que eu preciso visitar (Google Maps me disse que fica a 7h de carro de Buenos Aires).

Red Bull gravou um filme fantástico em Epécuen. (faça um favorzão a você e coloque o vídeo em qualidade HD, você merece essas belas imagens).
Se você perdeu alguma edição do Bobagens Imperdíveis, é só clicar aqui! :)

E se curte receber meus e-mails, indique para alguém  - encaminhando esta mensagem ou pedindo para assinar. Vou ficar muito feliz!
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Como sempre, foi um prazerzaço visitar o seu e-mail. Espero que tenha gostado tanto quanto eu. O café estava ótimo. Vamos marcar mais um encontro! Que tal no final de semana que vem? Combinado? Então tá.

Não sei você, mas vou ficar com saudades.

Beijos, 

Aline.
Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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