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O nosso papo semanal.


Conversa definitivamente não é meu ponto forte. Me atrapalho toda, não consigo levar a conversa para um rumo que me agrade, meus assuntos geralmente não interessam os outros, fico tímida, prefiro ouvir, balanço a cabeça e concordo, fico no papel de quem faz perguntas.
 
Mas nessa vida não dá pra fazer só o que nos deixa confortável, de modo que preciso me virar nessas interações sociais que utilizam a boa e velha tecnologia da ORALIDADE, tentando sobreviver da melhor forma, tal qual tributo de Jogos Vorazes quando é arremessado para dentro de uma arena mortal.
 
Pensando bem, sou grata por não ter a aptidão para a desenvoltura numa conversa; significa que, por não conseguir fazer naturalmente, preciso me esforçar. E o esforço exige atenção, que me permite racionalizar o processo, na tentativa de entender como ele funciona. E daí que consigo perceber algumas coisas interessantes sobre esse processo (nada natural) de conversar.
 
E uma dessas coisas é a sensibilidade para sintonizar no nível certo de profundidade que um papo com determinada pessoa exige.
 
Na faculdade de Publicidade, em uma das primeiras aulas, um professor definiu um publicitário como alguém capaz de manter uma conversa de 2 minutos sobre qualquer assunto. Com isso, ele tentava dizer que alguém que trabalha com criatividade precisa ser uma pessoa curiosa, aberta a todos os temas, que saiba pelo menos o mínimo para puxar assunto com qualquer pessoa. Alguém comunicativo, em resumo (e para uma turma de futuros comunicadores, isso seria o básico, né).
 
Mas acho que muita gente acaba levando isso ao pé da letra, achando que manter uma conversa de 2 minutos sobre qualquer assunto significa que você não precisa SABER ou mesmo se INTERESSAR de verdade por nada. E aí a conversa acaba com a profundidade de um pires.
 
É importante ir além da superficialidade, mas nem toda conversa precisa ser profunda e complexa. Depende da situação. De com quem está falando. Mas é certo que essas situações e pessoas se afunilam à medida que um assunto vai se aprofundando. Assuntos profundos conectam pessoas com mais afinidades, enquanto assuntos superficiais conectam pessoas mais distantes entre si.
 
O Murilo Cleto contou no Twitter uma historinha ótima, sobre a sua tática para ter sempre um assunto na manga:
 
“Sempre que saio para o mundo real carrego comigo uma pasta ASSUNTOS com notas sobre temas diversos para parecer uma pessoa interessante. E cada uma delas tem diferentes níveis de profundidade.
 
Por exemplo, se o assunto for CARROS eu posso dizer num nível 3 que 16 válvulas é muito ruim; se for introdutório posso apenas reclamar que a gasolina tá cara. Sempre funciona. No nível 2 digo que 1.4 é bom porque tem torque econômico. Eu não tenho ideia do que seja ‘torque’ mas a pessoa sempre concorda comigo e fala ‘nossa, verdade’.
 
Esses dias perguntaram o aro da roda do carro eu falei ‘olha, é original’ pois não sabia. Você quer isso pra você também? Então PREPARE A SUA PASTINHA.” 
 
Essa história me lembrou que na 1ª série eu acreditava que o objetivo da escola e de toda essa coisa de ter que me esforçar nos estudos era para o caso de eu saber o que responder quando alguém me perguntasse sobre determinado assunto na rua. “Oi garotinha, pode me informar por favor quanto é 9 vezes 4?” JURO PRA VOCÊ.
 
A escola como o período de acumular conhecimento para sua pastinha ASSUNTOS. Parece besteira de criança que assistia muito O Fantástico Mundo de Bob, mas até que faz sentido.


 
Assuntos são interfaces entre duas pessoas. Como diz o dicionário sobre interface: “elemento que estabelece a comunicação entre dois outros de natureza diferente, por exemplo, um programa que transmite comandos do usuário a um computador ou banco de dados”. Interfaces podem ser considerados esses meios de adaptação entre dois sistemas, onde se produz um resultado comum a eles; e não é justamente isso que é uma conversa?
 
Os assuntos conectam dois sistemas – no caso, duas pessoas com linguagens e universos simbólicos distintos – em procura de algo em comum. É por isso que o ingrediente fundamental de uma conversa são as REFERÊNCIAS que as pessoas vão acumulando e colecionando durante a vida.
 
Quando a comunicação acontece, é porque um item da minha PASTINHA ASSUNTOS dá match com um item na sua pastinha.
 
Isso significa que quanto mais referências você tem, com mais gente vai conseguir se comunicar e com mais profundidade vai conseguir se conectar.
 
É assim que as piadas funcionam: elas buscam inserir algum elemento de surpresa ou exagero dentro de uma referência comum no imaginário das pessoas (por isso muitas vezes são preconceituosas, porque a referência que foi assimilada culturalmente pelas pessoas é geralmente de procedência machista, racista, homofóbica).
 
Uma piada interna é aquela que utiliza uma referência específica de um certo grupo de pessoas; por isso, fora desse círculo, ela não funciona. Ninguém tem a referência pra entender. Por outro lado, quanto mais mainstream é uma referência, mais chance de mais pessoas aleatórias entenderem.
 
O Murilo, que tô citando aqui como referência em assuntinhos mas é historiador e escreve vários textões com profundidade na Fórum, dá um bom exemplo disso: “se você estiver num lugar público com TV e ela anunciar que vai passar Lagoa Azul, não perca a oportunidade de dizer primeiro INÉDITO que as pessoas ao lado certamente vão dar gostosas risadas”. Afinal, quem não sabe o que é Lagoa Azul e que já passou um milhão de vezes na TV?
 
Um bom conversador tem um bom acervo de referências, bem variadas e que busca aprofundar com o tempo. Mas um segundo degrau nessa habilidade é desenvolver a consciência do que é um assunto de profundidade “nível 1”, mais introdutório, que pode ser usado com quem não conhecemos direito e não sabemos nosso grau de afinidade; assim como saber (e conseguir alcançar) o que é um assunto de profundidade “nível 5”.  
 
É saber usar cada assunto no momento certo. E assim aprimorar a arte da conversa. Porque a dificuldade das conversas não são os assuntos. É que as pessoas são diferentes. E que nunca podemos deixar no automático a nossa percepção em relação a elas.
 
E, claro, cuidar com carinho do que a gente coloca na nossa PASTINHA ASSUNTOS. Já pensou sobre o que tem na sua?
 
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Querida pessoa dos anos 90,
 
Você já deve ter ouvido falar numa tal internet que está começando por aí. Escrevo essa carta do futuro para te dizer um negócio: não crie muitas expectativas a respeito dela.
 
Um mundo de possibilidades, é o que te disseram, e realmente a internet oferece uma vastidão arregaçadora de informação e a possibilidade de pesquisar sobre todos os assuntos que você imaginar.
 
Mas enquanto esse mundo de informação nos aguarda para ser desvendado, estamos mais ocupados usando a internet pra comentar o que está passando na TV. Mais ou menos o que você já faz aí nos anos 90! Viu só? Nem tudo mudou.
 
E se você achar que pode se perder em meio a tanta informação, outra boa notícia: aqui no futuro, as pessoas falam sempre do mesmo assunto. Alguém fala, o outro repete, e assim sucessivamente até o assunto secar e arrumarem outro. Fácil assim: basta chegar na internet, identificar o assunto que as pessoas estão comentando e entrar na dança. Imite o bando que dá tudo certo.
 
Você ainda não deve saber usar o e-mail, mas não se preocupe; aqui no futuro as pessoas também não sabem! 
 
Na sua época devem achar o maior barato esse negócio de “navegar” na web; mas já vou avisando que é um negócio que ficou meio fora de moda. Aqui o termo mais adequado seria “boiar”. Isso, ficar flutuando na superfície, se deixando levar pela correnteza. Já não somos os barcos, somos as ondas. Ou o sargaço? Enfim.
 
“Ah, mas deve ser incrível conhecer pessoas novas no mundo inteiro”, você está pensando. Cara pessoa dos anos 90: nem queira saber o tipo de pessoa que você vai conhecer na internet aqui em 2015. E nem precisa ir muito longe. Você vai conhecer as pessoas que você já conhece, mas de um jeito que você nunca imaginou. Pelo pior lado que elas têm.
 
Na internet as pessoas se revelam, você vai ver só. Quer dizer, é melhor não querer ver.
 
Então nem se anima muito. Não precisa ter a mínima pressa de chegar aqui para curtir todas as maravilhas que a internet tem pra oferecer, porque nem é isso tudo não. Aproveita enquanto aí só tem uma meia dúzia de sites, não tem grandes portais com comentários, nem título caça-trouxa, nem banco querendo ser seu amigo nas redes sociais, nem gente babaca enlouquecida tacando bosta nos outros e fazendo ameaças, nem webcelebridades.
 
Mas por uma coisa a internet daqui vale a pena ser aguardada: gifs animados. Quando você chegar aqui você vai entender.


não crio expectativas mesmo assim me decepciono
(eu na internet)
 
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Adolescentes dos tempos de hoje comentam um vídeo feito nos anos 90 para ensinar aos adolescentes daquela época o que era internet.
 
Naquela época, eles não sabiam o que era um modem – mas os de hoje também não sabem. Algumas coisas não mudam, né?
 
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Esta semana assisti à última parte de Jogos Vorazes: A Esperança, o tão aguardado final da saga de Katniss. Aguardadíssimo porque inventaram de dividir o final em duas partes sem precisar, mas tinham que fazer a gente esperar mais UM ANO pela continuação, porque essa indústria do cinema não tem mesmo VERGONHA NA CARA.
 
Então escrevi uma resenha sobre o filme para a Carta Capital, falando sobre as reflexões que esta gloriosa trilogia nos trouxe sobre guerra e poder: “Quem ganha no final de Jogos Vorazes?
 
E, para o caso de você ainda não ter lido, tem outro texto meu sobre a história dos livros, que escrevi na época em que os li, e acho interessante fazer essa retrospectiva, agora que já lemos e assistimos tudo o que tinha para ser lido e assistido: “Leitura Voraz”.
 
Mas tem alguns momentos desse último filme que eu queria comentar e não coube no texto da Carta, então mando aqui, mas já avisando que se você não viu o filme talvez você queira pular essa parte da newsletter e guardar para ler depois.
 
Então prepare-se, seguem comentários com spoilers em um top de 3 Katnisses.
 
Katniss mãe tô na Globo
 
Katniss climão no elevador

 
Katniss vendo os spoilers vindo
 
Primeiro: o que foi aquela cena em que Peeta e Gale começam a conversar sobre quem é o verdadeiro amor de Katniss? Achei homoerótica até.
 
“É claro que ela ama mais você, sua força e coragem”, “não cara, ela ama você que é muito mais legal”, “não cara, ela ama você e seus músculos, e aquele beijo que ela te deu nessa sua boca linda?”, “quê? Ela não me beija como beija você, tocando nesses seus lindos cabelos dourados”, “não, ela ama você”, “quiéisso fera, ela ama você”. PQP SE BEIJEM LOGO.
 
A única posição possível pra ouvir essa conversa realmente é deitada como a Katniss porque zzZzzZZzz.
 
Teve um total de 01 cena em que QUASE chorei, quando a Katniss começa a jogar coisas no gato da Prim, gritando com ele para ele ir embora, porque a Prim está morta e finalmente desaba no choro do luto.
 
É uma cena forte não só pela dor da Katniss, mas principalmente pelo OLHAR DO GATO. Dá pra ver que ele está sofrendo. Ele nem se move, fica com os olhos arregalados e é notável que não só ele entendeu que a dona está morta como sente a dor da perda. Isso me tocou profundamente. E a louca da Katniss jogando coisas nele, fiquei morrendo de dó.
 
Esse gato é um puta ator, alguém dê a ele o Oscar de Melhor Felino ano que vem, por favor. Aliás, reparou que NÃO É o mesmo gato que aparece no primeiro filme? 
 
Esse último filme foi bastante empolgante, bem amarradinho, cumpriu o papel de aprofundar a mensagem da trilogia e ter o tom pesado que uma guerra exige. Mas eu já esperava que ele fosse suavizar bastante o final. Coisa de cinema, né?
 
A começar pela cena em que ela é queimada numa explosão. Se você leu o livro, não sei se é exatamente assim que acontece, mas lembro de ter imaginado ela ficando completamente desfigurada. Levou um tempo pra pele dela se recuperar das queimaduras profundas que ela teve, mesmo com toda a tecnologia médica da Capital. Ela até passa a se perceber como uma bestante de fogo.
 
Mas no filme ela tem uma queimadurinha básica e o rosto, é CLARO, fica intacto. Eu nem imaginava que fosse ser diferente, na real. Até parece que iam desfigurar o rosto de uma vencedora do Oscar.
 
Até aí entendo; mas a última cena deixou escancarada a falta de ousadia da direção. Em um filme tão denso e violento, que fecha uma trilogia que não é sobre amorzinho ou uma heroína vitoriosa (no texto da Carta falo mais sobre isso), um final com Katniss e Peeta felizes num campo florido com seus filhos, e com Katniss falando de memórias boas e uma trilha sonora felizinha foi meio que trair toda a trajetória da heroína. Como se todo o horror não tivesse existido, como se o que importasse fosse dar um final de conto de fadas.
 
Acho que isso quebrou completamente o que essa história representa. No livro isso também acontece, mas há uma margem para interpretar isso não como um final feliz, mas melancólico. Eles ficaram juntos porque eles foram um para o outro a última coisa a que se agarrar. Eles ficaram juntos porque foram destruídos pela Capital de uma forma que só eles mesmos podiam entender um ao outro. Como aprenderam com os Jogos Vorazes, eles não são vencedores, são sobreviventes. E é isso: no final eles SOBREVIVEM.
 
Já o filme não quis deixar dúvidas: eles viveram felizes para sempre, agora sai.
 
E fiquei imaginando que, para o cinema, esse era mesmo o único final possível. Se o final fosse outro que não mostrando Peeta e Katniss juntos se amando com filhos e felizes, capaz das pessoas ficarem tão revoltadas (como eu quando terminei os livros), com vontade de sair do cinema quebrando tudo e tacando fogo em pneu e marchando nas ruas gritando palavras de ordem com o fogo da revolta em seus corações – o que não seria nada mal para uma história que é sobre REVOLUÇÃO, né?
 
Mas 2015, sabe. Já passou da hora de superarmos esse negócio de comparar livro e filme, se vivemos na era das adaptações e cinema é isso mesmo e tá tudo certo e a trilogia é foda e é isso aí.
 
Então beijo e até a próxima trilogia (porque pelo jeito essa moda veio pra ficar, não é mesmo?). 

Nas edições passadas

 

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A trilha sonora que me embalou essa semana foram as músicas-tema de Jogos Vorazes, claro. Então deixo com você esse clipe, cena da primeira parte de "A Esperança" com a música Hanging Tree, num clima de despedida de Katniss :(

Ah, e você está participando no NaNoWriMo? Novembro está acabando e espero que esteja conseguindo alcançar sua meta. Não deixa de me contar se atingir as 50 mil palavras, hein! ;)

Outra coisinha: sábado que vem estarei na Comic Con Experience aqui em São Paulo num painel para discutir diversidade na cultura pop. \o/

Vai ser dia 5/12, das 11h30 às 12h15. A CCXP vai rolar na São Paulo Expo Exhibition & Convention Center, na Rodovia dos Imigrantes km 1,5. Mais detalhes sobre o painel vão vir durante a semana, mas vou divulgando no Twitter.

Se você for para a Comic Con Experience, te vejo lá!
 
Beijos bem assuntados, 
 
Aline. 
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