Copy
Entrega especial para <<Primeiro Nome>>

Zona de conforto, ficção científica e amigos homens


Olá, olá!

Que bom que você entrou neste e-mail, mas dessa vez não vou te convidar pra sentar. Nem vá se acomodando, que hoje quero levar você um pouco pra fora do e-mail para ler as coisas boas que trouxe hoje. 

Tipo professora que anuncia que a aula vai ser fora da sala, sabe? Eu me amarrava.

E também porque, né, criar uma zona de conforto nunca é bom. Como você já deve ter percebido, eu sou uma defensora do desconforto, de buscar se incomodar.

Aí lembrei de já ter escrito sobre isso, algo mais ou menos assim:

“O professor do curso de Redação que eu fiz (isso quando eu ainda estava na faculdade, antes de começar a trabalhar em agência, veja bem) passou um exercício onde cada um escrevia em um pedaço de papel o tema sobre o qual mais se sentia à vontade para escrever. 

Depois ele pediu para trocar esse papelzinho com o colega ao lado e, para espanto geral da sala, disse que o exercício era desenvolver um texto sobre o tema do outro. A dinâmica era para incomodar mesmo.

Você fica ali, olhando para o papel, sem saber o que escrever. Você é forçado a isso. Escreve sôfrego, vê que não é tão fácil e no final acha tudo uma merda. 

E então percebe que quando precisa escrever sobre algo que não gosta, tem que pesquisar sobre isso. Ler outros textos sobre o assunto, que em outra ocasião, você dificilmente leria. Precisa abandonar preconceitos. Experimentar. Esse exercício é o fórceps da escrita: abre sua mente à força. No fim do processo, sua imaginação também se expandiu.”

Acho que o péssimo das redes sociais é que elas te acomodam. Você fica navegando só no que cai na timeline, vendo o que os outros estão vendo, numa repetição sem fim. 

A gente acaba consumindo mais passivamente do que explorando conteúdo de forma mais ativa. E aí acaba sendo como assistir TV: só receber o que a emissora quer que você veja, mesmo sendo lixo.

A internet é o uso que fazemos dela.

E que tipo de internet eu quero pra mim? Uma em que eu vou dar audiência pra textos que eu sei que não prestam, mas vou lá ler só pra passar raiva? Certamente que não. 

Então, além de abandonar os cliques de indignação, me proponho um segundo passo em direção a um uso mais construtivo da internet: buscar sempre pesquisar sobre assuntos sobre os quais normalmente eu não leria. Me aventurar mais fora dos temas nos quais eu fico à vontade e aproveitar a internet para aprender coisas novas.

Vamos nessa?

Diálogo no celular


Oi :)

Oi… Quenhe?

Não tenho seu número


Meu nome é Sal!

Ué, não conheço ninguém com esse nome. É da faculdade?

Provavelmente não, risos

Agora tô curioso

Opa, agora sei que estou falando com um cara!

Você não me conhece?

Como conseguiu meu número então?


De um aplicativo

Que aplicativo? Tinder?

Eu tinha saído do Tinder


Não…

Você não deve ter esse aplicativo.

Não foi lançado ainda na sua época.

Han?

Como assim?


Rs

Então

É um aplicativo que permite trocar mensagens em tempo real com pessoas do passado.

Você tá me zoando.

***

Leia o resto deste diálogo no texto da semana, uma história de ficção científica contada em mensagens de celular! 
http://www.alinevalek.com.br/blog/2014/07/troca-de-mensagens/

Mulheres em tubos




Que a ficção científica está cheia de estereótipos negativos das mulheres, como praticamente todos os gêneros da ficção, já que nossa cultura é basicamente machista, isso não é surpresa. Mas o uso de um estereótipo bizarro – mulheres dentro de tubos – é mais comum do que pode parecer. Tem até um site que reúne diversas imagens de mulheres presas em cápsulas, em filmes, quadrinhos, pôsters e capas de revistas de ficção científica!

Publiquei no Medium um texto analisando essa estranha tara da ficção científica por mulheres em tubos, para entender o que isso reflete sobre a nossa sociedade e a forma como ela representa as mulheres. https://medium.com/sobre-comportamento/ec654884d7cf



Esse texto fala principalmente sobre consentimento (e de como é um direito que é negado às mulheres), que tem tudo a ver com o tema da newsletter passada, lembra? Aliás, publiquei aquele texto no meu blog, para facilitar o compartilhamento :) http://www.alinevalek.com.br/blog/2014/07/violencia-e-consentimento/

Recado aos amigos homens


Sabe aquele momento em que uma mulher está em um grupo de amigos homens e um deles diz "ih, só não vou falar porque a fulana está aqui" ou fala um palavrão qualquer e "desculpas, fulana! esqueci que você estava aqui"? Pois é. Não sei você, mas isso me irrita. Deixa eu dizer por quê.

1. Porque me infantiliza. Como se eu fosse uma criança que não pudesse escutar certos tipos de coisas. Como se eu fosse uma pura criatura que nunca escutou um palavrão na vida. Como se eu mesma não falasse palavrão. Essa atitude condescendente vinda de um homem consegue ser mais ofensiva e indelicada do que a sujeira que ele tinha em mente.

2. O amigo em questão pode estar fazendo isso na melhor das intenções, mas se ele soubesse das coisas que tenho que escutar diariamente por ser mulher, ele é que ficaria escandalizado. Não é nada fácil, caras. E num mundo em que mulheres são estupradas, mortas, tratadas como coisas, não é um palavrãozinho que vai me chocar. Sério.

3. Suponhamos que o cara disse isso porque não quis dizer algo machista na frente da amiga mulher. Amigo, deixa eu te dar uma dicona: se o que você tinha para dizer era algo machista ou ofensivo para as mulheres, simplesmente não diga NUNCA. Nem na frente das suas amigas, nem na ausência delas. Amigo é isso.
 

Vamos dar um passeio internet afora?


Pega aqui na minha mão e vem comigo que hoje vamos andar bastante por essa internet véia sem porteira, nas indicações de links da semana.



Começando aqui pertinho, queria te mostrar uma imagem diferente de São Paulo: a cidade pós-apocalipse zumbi. Ruas desertas, nenhum ser vivo, nem carro, nem nada. As cenas que parecem de um filme apocalíptico ou da abertura de The Walking Dead na verdade são um flagra de como ficam as ruas de São Paulo durante os jogos da seleção brasileira. Enquanto está todo mundo torcendo, a Ana Carolina está nas ruas para tirar essas fotos. Dá uma olhada. 
http://saopaulonacopa.tumblr.com/

Sabe que eu até me animo com lugares desertos? Não curto muito lugares lotados, interagir, aquela coisa toda. Claro que cresci acreditando que meu jeito introvertido era um defeito, mas por que os extrovertidos são mais valorizados? Então me mostraram um vídeo incrível (e com desenhos muito bem feitos, fofíssimos) falando sobre o poder das pessoas introvertidas. Eu, é claro, adorei. https://www.youtube.com/watch?v=rUaj7rj6MI8

Quem também mostra como qualidade o que normalmente é mostrado como fraqueza é o Soluço, protagonista de Como Treinar o Seu Dragão. Ainda não vi o segundo filme, mas já me empolguei depois desse texto da Giza, falando do Soluço e de por que ele é uma representação tão importante para meninos e meninas. "A força deste personagem não está nos seus atributos físicos, sua inteligência não é usada para a guerra e sua liderança é colaborativa e pacífica.” Sem falar que ele é um exemplo de representatividade de pessoas com deficiência sendo protagonistas, né! http://maiordigressao.blogspot.com.br/2014/07/por-que-o-soluco-de-como-treinar-o-seu.html

Além disso, pessoas que tem a coragem de tomar um caminho diferente do que o mundo espera delas são de se admirar. É o que Bill Waterson, o criador de Calvin & Haroldo, diz lindamente em um discurso que foi transformado em quadrinhos. O traço não é do Bill Waterson, apesar de ser uma homenagem ao estilo inconfundível dele, mas a mensagem é encantadora. Espero que te inspire de alguma maneira. http://www.slate.com/content/dam/slate/blogs/browbeat/2013/08/27/watterson_advice_large.jpg

Outro passeio que queria fazer com você pelos quadrinhos é nesta história ilustrada, uma espécie de depoimento, falando sobre as dificuldades e preconceitos enfrentados por mulheres no mercado de trabalho, especificamente nas empresas de tecnologia. Como empresas que trabalham com algo tão avançado e se dizem tão modernas podem se mostrar tão apegadas a conceitos ultrapassados e a uma antiquada discriminação de gênero?
https://medium.com/matter/the-ping-pong-theory-of-tech-world-sexism-c2053c10c06c

Aliás, a gente fala muito de desigualdade, mas por que ela acontece? Quais são as suas causas, afinal? É o que a Mari Moscou tenta fazer nesse texto, muito bem embasado e com uma abordagem mais sociológica. Acho que vale a pena refletir um pouco sobre as questões que ela levanta, sem falar  que o texto está mega didático. http://papodehomem.com.br/de-onde-vem-a-desigualdade/

Por falar em desigualdade, nas manifestações da Copa ficou evidente o abismo de distância entre a força do Estado, na forma de seu aparelho repressivo, e os cidadãos. O site Lugar de Mulher publicou um texto analisando o saldo dessas manifestações e fiquei de cara. Tanto se fala de vandalismo, mas se liga: no quesito “coisas quebradas” foram 10 vidraças de banco, enquanto no quesito “pessoas quebradas” foram 89 pessoas feridas. Oitenta fucking nove. Sabe? Surreal isso. Mas a festa está bonita, então vai ser mais uma coisa que vai para debaixo do tapete. http://lugardemulher.com.br/o-outro-saldo-da-copa/

Ah, e lembra que escrevi um texto para a Carta Capital sobre outro saldo negativo da Copa (o assédio que sofremos e a sexualização da imagem da mulher brasileira)? Pois é, o texto foi citado em um site gringo! Achei sensacional terem traduzido uns trechos do texto da Carta, apesar de terem me apresentado como “jornalista”, hahaha. Bem, mas o foda mesmo é essa discussão sobre o sexismo na Copa e a sexualização da mulher brasileira estar acontecendo fora daqui também, né. Que saibam que “the brazilian woman exists, but not to satisfy you.” http://newsone.com/3030199/sexism-racism-in-brazil/

Aproveitando que nesse passeio já chegamos longe, em outro país, vamos fazer uma visita a este site, o Bubble Dancers. É um projeto que mostra lavadores de pratos contando a história deles. São mini-documentários curtinhos, por volta de 3 minutos, mas com muitas lições e histórias interessantes de pessoas tão diversas, tão ricas em experiências, mas que à primeira vista podem ser subestimadas porque seu trabalho não é considerado de valor. Quem me mostrou esse link foi o Marcos, que é quem me mostra muitos links que você já deve ter clicado – aliás, muitas ideias que tenho surgem de conversas com ele. É praticamente co-autor da newsletter :) http://bubbledancers.nfb.ca/#/bubbledancers

É muito bacana olhar para a vida das pessoas e ver que histórias elas têm para contar. Então é assim que terminaremos nosso passeio de hoje, vendo a história de um cara sobre como uma senha mudou a vida dele. Parece até tema de livro de autoajuda, e talvez a ideia do cara possa mesmo render um livro, mas é bastante interessante. Como o computador do trabalho do cara exigia constantemente que ele renovasse a senha, ele passou a aproveitar isso para colocar senhas com alguma mensagem que o motivasse ou inspirasse de alguma forma. Assim, ao digitar aquela senha todos os dias (como Quit@smoking4ever, algo como “Par3defumarpr@sempre”), ele ia internalizando aquela mensagem como um mantra. Ia repetindo, repetindo, repetindo para si mesmo até que ele de fato mudasse. https://medium.com/@manicho/how-a-password-changed-my-life-7af5d5f28038

Foi longo o caminho hoje! Nossa, até cansei.

vou tirar uma sonequinha aqui

Última chamada


Já está participando do sorteio de Bobagens Imperdíveis? Vou sortear entre os assinantes desta gloriosa newsletter um caderninho todo rabiscado por mim, mas com várias páginas novinhas para você usar à vontade! 

Para participar do sorteio,
escreva o seu e-mail neste link. Vou anunciar o resultado na edição da próxima semana, então, se você ainda não está participando, dá tempo!

Já tem muuuita gente participando, até fiquei surpresa. E é uma pena que eu não possa dar um caderninho para cada um dos assinantes. Haja caderninho! Mas espero que a pessoa que ganhar curta o presente :B

Aqui uma das besteiras que já rabisquei no caderno:


 
♥︎
♥︎
gatos, especialistas em zonas de conforto

Sem mais delongas, me despeço por aqui porque já já vou me aventurar para fora da internet, ver uma exposição, bater perna, fazer algo para sacudir um pouco a cabeça.

Espero que você possa fazer o mesmo :)

Boa semana para você e até a próxima edição!

Beijos e: incomode-se,

Aline
.
Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
Email Marketing Powered by Mailchimp