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Um papo sobre orgulho, humildade, Whiplash e pernilongos

Orgulho faz bem

Por que é tão difícil reconhecer o que a gente faz de bom?


Tem horas que nem sendo muito pessimista ou modesta dá pra deixar de ver quando algo que a gente faz é bom e está dando certo.
 
Eu poderia dizer como a vida de autora independente é difícil, como estou falida, como a minha escrita ainda precisa evoluir muito, etc etc. Mas aí um dia eu acordo com mais de 2 mil assinantes em Bobagens Imperdíveis e de repente se dissolve no ar aquela famosa sensação de que sou uma fraude & um fracasso.
 
Dois mil fucking assinantes, sabe. 
 
Claro que isso não veio sem problemas: fiquei um tanto desesperada porque o Mailchimp tem um limite de 2.000 assinantes e acima disso ele para de mandar e-mails.
 
Recebi no Twitter várias dicas e sugestões do que fazer. Após vários testes, resolvi criar uma segunda lista para continuar acolhendo todo mundo que quiser entrar pra turma. “Organizando direitinho todo mundo lê”. 
 
Como bem lembrado pela maravilhosa Tadsh, sobre os tempos de Orkut: “PERFIL LOTADO ADD NO PERFIL 2”, lembra? (não, nunca fui popular a esse ponto).
 
Aproveitei que eu já ia ter um trabalho da moléstia (e o pior de tudo, não planejado) e resolvi dar um up no visual. O que achou? Ah, e também organizei uma página onde você pode consultar TODAS as edições anteriores de Bobagens Imperdíveis, porque, como eram muitas, o Mailchimp também começava a “engolir” as mais antigas. Agora você pode ver desde a número 1 até a mais recente – o link para essa página você encontra mais abaixo na seção “edições passadas”. 
 
E vem mais novidade em Bobagens Imperdíveis? Vem sim. Em breve você vai saber o que estou preparando, então não mude de canal! Adianto também que estou trabalhando em algumas mudanças no meu blog, estou empolgadíssima e não vejo a hora de te mostrar.
 
Toda essa dedicação e esforço é porque me orgulho do trabalho que faço em Bobagens Imperdíveis. Pode não parecer grande coisa, mas ser alguém com a autoestima tão cagada e dizer que me orgulho de algo que faço é uma coisa e tanto. Quase um milagre, pra levantar as mãos pro céu e glorificar de pé.
 
Saber que não estou sozinha, é claro, ajuda muito nisso. Então, se me orgulho, é também por sua causa, Aline. Pela sua presença e gentileza ao me receber no seu e-mail toda semana: muito obrigada.


pensando num nome para essa mascote entregadora da newsletter 

 

Autogenerosidade


É impressionante como a gente não se permite. A facilidade com que nos colocamos numa posição inferior ou que nos deixamos levar por aquele sentimento de “eu não merecia estar aqui”. 
 
Estive pensando nisso depois do bate-papo que rolou na Casa de Lua, pelo Dia da Mulher, onde junto com as lindas Jarid, Martha e Laura, falei um pouco sobre mulher na literatura. Aliás, a conversa foi gravada e pode ser assistida aqui.
 
Em um ponto da conversa, alguém observou que, pela forma como o mundo educa homens e mulheres, até falar de si e apresentar seu trabalho com segurança é mais difícil para as mulheres.
 
Somos moldadas na argila da insegurança, desde muito cedo. Todas as mensagens que nos cercam reforçam que não somos o suficiente, que não somos boas o bastante. Mesmo que sejamos muito experientes em alguma coisa, iremos nos questionar: “nossa, será que é isso mesmo?”, como se nem toda experiência do mundo nos convencesse de que a gente sabe o que está fazendo.
 
Vejo isso em mim muito mais do que eu gostaria. Quantas vezes eu não deixei de contar para alguém o que estou fazendo por não achar que fosse importante o suficiente? Quantas vezes não desmereci o meu próprio trabalho? Quantas vezes não cheguei de mansinho, na humildade, quando eu tinha todo o conhecimento para chegar de peito estufado dando voadora?
 
Não sei se você viu o filme Whiplash, mas deve saber que ele foi indicadíssimo ao Oscar e o J.K. Simmons, que interpreta Terrence Fletcher, o professor de música linha-dura, levou o prêmio de melhor ator coadjuvante.
 
Bem, ainda quero escrever sobre o filme – e por que a mensagem contida nesse personagem me incomoda – mas o que quero apontar aqui é essa relação meio tirânica que se estabelece em Whiplash: do professor que exige, literalmente, sangue e suor do baterista de sua orquestra.
 
Fletcher acredita que é toda essa pressão e violência psicológica que cria gênios da música (“não há na língua inglesa duas palavras mais prejudiciais do que ‘bom trabalho’”) – e o trouxa do Andrew, que fica o filme inteiro buscando a aprovação do professor, acaba comprando essa ideia.
 
Bem, eu sou esse trouxa. Mas, no caso, o professor tirano que me faz ficar com os dedos sangrando… também sou eu mesma. 
 
Talvez você se identifique com a comparação. Talvez a gente se pareça nesse quesito, o de ser “a pior crítica de mim mesma”. Então aí você também entende o meu constante sentimento de não me achar boa, de sempre achar pequenas as coisas que faço. De ficar repetindo pra mim mesma: not quite my tempo, not quite my tempo.

Terrence Fletcher, Whiplash
 
De onde eu venho, aprende-se que ser humilde é uma coisa boa. Claro que aí a humildade vem como um conceito todo torto, que vai muito além da consciência de nossas limitações (coisa que realmente é muito bom ter, recomendo a todos). Mas nessa visão distorcida, a humildade é a noção de que é bonito se menosprezar, ser inferior, negar suas qualidades.
 
Desde a escola, quem tinha consciência das coisas que fazia bem – e não tinha medo de afirmar isso – acabava recebendo rótulo de “exibida”, arrogante. Quer aparecer. Se acha.
 
Parece até que, em vez de inspirar, nossas qualidades ameaçam os outros. Como se o fato da pessoa ser boa em algo anulasse a minha possibilidade de também ser; daí o furor, chamar de arrogante, o “como ousa”, etc.
 
Aí, na tentativa de ser inofensiva, de não desagradar os outros, de ser “uma boa pessoa”, a gente aprende a negar o que faz de bom, a não reconhecer nossas vitórias – porque imagina, o Jãozinho vai dizer que sou exibida, o Pedrim vai apontar que sou uma fraude, a Mariazinha vai se sentir ofendida.
 
Com o tempo, isso vai calcificando dentro da gente. Os elogios não conseguem mais passar por essa casca. A barreira fica tão grossa que a gente não consegue mais enxergar direito as coisas que faz. Por trás dessa lente distorcida, nada nunca vai parecer bom.
 
Nesse comportamento da pessoa “humilde” há também muito medo do julgamento. Medo de ser criticada, gongada, ridicularizada. Talvez por isso faça sentido sermos nossos próprios carrascos: toda essa autocrítica é, na verdade, um mecanismo de defesa; uma forma de antecipar os defeitos que os outros vão colocar em nós. Quando a porrada vem, meio que já estamos preparados; nós mesmos já nos demos uma sequência de tapas na cara.
 
Sim, quando a gente abre a boca corre o risco de ouvir “nossa, que ideia idiota” ou “ruim, muito ruim”. Mas não se chega a fazer algo bom sem alguns riscos.
 
Meu amigo Bruno Leo criou recentemente uma newsletter para falar do trabalho, das ideias e da vida dele – e você pode assinar aqui. Na primeira edição ele falou de seus projetos pessoais, como o de criar capas alternativas para os discos que ele curte, fazendo a arte no tempo de duração do álbum.
 
O projeto dele foi divulgado em vários sites brasileiros e internacionais ligados a design e música. Foi mó sucesso. Ele conta o segredo: não teve medo de compartilhar o trabalho dele. Não teve medo de mandar e-mails, nem dos feedbacks que poderia receber. “A vida é feita de falhas. Quanto mais você falha, mais você aprende. Quando mais você aprende, melhor você é”.
 
Mas fica difícil melhorar e aprender quando o seu professor tirano interno não te deixa fazer nada porque te acha muito ruim.
 
Ano passado, eu me propus a parar de dar audiência pra chorume e passei a me esforçar para reconhecer e dar visibilidade a pessoas com coisa boa pra mostrar (compromisso que aliás continua).
 
Isso mostra que sou capaz de identificar a qualidade das outras pessoas, de ter critério para saber o que é bem feito – e acho até que sou muito boa nisso.
 
Então por que tanta dificuldade em reconhecer as minhas qualidades?
 
Quem me fez pensar nisso foi a Olivia. Eu contava para ela sobre a minha incapacidade de me relacionar da forma que é esperada, sobre a minha sensação de não funcionar direito (e aí toda a minha autocrítica agindo), quando ela me escreve o seguinte (e espero que ela não se importe por eu compartilhar isso com você, mas é tão genial que seria egoísmo da minha parte guardar só pra mim):

Ilustração: Muriel Kerba
 
"o que você diz eu visualizei uma vez num momento de meditação involuntária (que obviamente aconteceu depois de alguns meses de meditação todos os dias), quando eu de repente, em me sentir inadequada e inconveniente ao me relacionar com os outros, me vi de fora (foi um flash bem louco na verdade), me vi no que seria a suposta inadequação e me dei conta de que não importava, de que mesmo a suposta pentelhice não era grande coisa, e que uma frase mal dita era esquecida em seguida. me vi como quem vê outra pessoa e me vi com a compaixão que muitas vezes dedicamos aos outros e esquecemos de dedicar a nós mesmos. e percebi que estava tudo bem.
 
isso foi meu tio que me tinha explicado: que ao meditar ele se observava em seu dia. eu só entendi nesse momento. porque observar-se de fora, realmente, não é tão fácil assim. mas é importante por isso. não para concluir que sim, você funciona ou que o medo não é real etc. e sim pra perceber que bah, tá bem pensar tudo isso e ser assim e não funcionar. somos todos assim.
 
faz sentido?"
 
Foi quando entendi que não se trata de começar a me achar muito foda, nem de achar que tudo que faço é um lixo; que o importante era me ver de fora para não perder a real dimensão das coisas.
 
É isso o que vemos quando lançamos um olhar mais generoso para nós mesmos. Um olhar que reconhece o que fazemos de bom (como a leitora Letícia uma vez me escreveu: “somos tão incríveis, mas tão incríveis, que ainda não nos demos conta disso”) e que também sabe quais são nossas limitações – e nas duas coisas vê que tudo bem.
 
Esse olhar generoso nos protege contra o embrutecimento dos Fletchers intracranianos que gritam cobranças e exigências que jamais seremos dignos de alcançar.
 
Esse olhar generoso é o que nos impede de nos tornarmos Terrence Fletcher.
 
Daí a gente retoma as nossas baquetas e vai tocar sem medo, porque não há medo de mostrar o que a gente faz quando a gente sabe o que está fazendo – e que, mesmo quando não sabe, não importa; porque tudo bem errar, não fazer direito, não ser o melhor. A gente simplesmente arrisca, porque não se faz algo realmente bom sem uma dose de riscos – e outra de autogenerosidade.
 
Afinal, esse olhar generoso é o que nos permite.

Ilustração: NLMDA

 

Nas edições passadas

 



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Eu nunca tinha estado em um praia tão bonita. A areia laranja, tão fina que parecia peneirada, fazia tal contraste com o azul vibrante da água que me fez sentir dentro de um filme do Wes Anderson.
 
Não lembrava que o Rio de Janeiro tivesse uma praia com aquele clima caribenho. “Não estamos no Rio, Aline”, me lembrou o amigo que estava comigo na ocasião (e ele devia ter razão já que morava no Rio de Janeiro).
 
Fazia todo sentido. Se eu tivesse que adivinhar, nem diria que aquela praia ficasse em algum lugar do planeta.
 
A água era transparente e morna. As ondas eram gentis e entravam areia adentro formando várias piscinas naturais ao decorrer da praia. Tudo cheirava a milho cozido. Meu deus, acho que nunca mais vou sair desse lugar.
 
Fiquei tão abestalhada curtindo a água e assistindo a um grupo de crianças empinar pipas gigantes, que nem reparei que um dos meus chinelos escapou dos pés, talvez levado pela água. Mas não devia estar muito longe, por isso comecei a cavar a areia na esperança de encontrá-lo.
 
E não é que encontrei? Opa, não, eu estava enganada. Era um chinelo grande demais e era o pé direito, que já estava calçado no meu pé. Que estranho. Cavei mais e encontrei mais chinelos. Grandes, pequenos, coloridos, estampados, velhos – mas nada do meu. Aquela praia era um cemitério de Havaianas. Tinha mais chinelo do que conchas, sério.
 
Não tive muito mais tempo para refletir sobre isso, porque quando voltei minha atenção de novo à praia, notei que agora ela estava vazia. Meu amigo tinha ido embora, que safado. Perguntei para o cara do quiosque de milho (que OBVIAMENTE não iria embora tão cedo) o que tinha acontecido.
 
“É que tem uma tsunami marcada para as 15h, moça”. Ah, brincou. Faltava pouco menos de vinte minutos e eu era uma das poucas pessoas que restavam na praia inteira, além do vendedor de milho cozido, uns caras barbudos estranhos que pareciam bem a fim de testemunhar o tsunami e uma gaivota perneta.
 
Meti nos pés um chinelo perdido qualquer que nem combinava com a cor do meu biquini, catei uma espiga de milho (R$2) e sentei em uma parte mais alta da areia para aproveitar aqueles que pareciam ser meus últimos momentos. Comecei a concordar com os barbudos; seria mesmo daora assistir a um tsunami das primeiras fileiras. Pelo menos eu morreria bem rápido, já que não sei nadar.
 
A água já tinha recuado tanto que dava para ver o fundo do mar. No horizonte, uma parede azul começava a se aproximar. Você já viu uma montanha de água? Era com isso que se parecia. E o som que fazia era de uma avalanche, se avalanches tocassem trombone.
 
Estava chegando perto. E ao mesmo tempo – que estranho – ia sumindo. Mas ia sumindo tudo ao meu redor; o milho, a areia, os barbudos, até o céu. O mar, eu senti naquele momento, estava sendo chupado de canudinho.
 
Despertei com o incômodo de uma picada. O maldito pernilongo voou antes que eu o estapeasse, levando naquela barriga inchada um pouco do meu sangue e o sonho da praia.
 
É por isso que esses bichos fazem a festa à noite: alimentam-se dos nossos sonhos – aqueles com praia, então, são irresistíveis. Às vezes chupam até pesadelos; o que lhes interessa é o sabor e a consistência que os sonhos dão ao sangue. 
 
Fiquei chateada porque tive o sonho sugado antes de ver de fato como seria um tsunami; no lugar disso, um calombo na perna. Malditos chupa-sonhos. Liguei o inseticida na tomada e voltei a dormir. Tive um sono sem sonhos – mas também sem mais picadas.
 
BeijozzZzZzz,
 
Aline.
 
 
Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, todos os direitos reservados.

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