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Clica com vontade, que hoje a edição tá vitaminada e non sense!

Medo de errar, maluquices e Escritório Feminista



Alô alô <<Primeiro Nome>>! Vamos começar os trabalhos?

Queria já comentar com você um vídeo que vi no início da semana e acho que você deveria ver. É um designer americano falando sobre medo de errar. Clique aqui pra ver (tem legenda em português).

Eu acho incrível quando vejo alguém falando, de forma tão clara, algo que estava me afligindo justamente por não compreender ou mesmo elaborar em palavras. O fracasso e o medo (e, consequentemente, o medo do fracasso) são aspectos que me perseguem constantemente e sobre os quais busco refletir.

No meu texto “A escola me ensinou” falo sobre como já somos ensinados desde cedo a nos adequarmos, além de outros valores (altamente problemáticos, na minha opinião) que refletem a nossa sociedade. Uma dessas coisas que a escola ensinou é que você deve evitar errar, ao premiar com pontos ou o que quer que o valha aqueles que dão a resposta certa, seguem a cartilha, chegam ao resultado desejável. E quando você sabe que deve evitar o erro, vai se apegar a caminhos seguros, que sabe que consegue trilhar sem fracassar. O medo de errar inibe, nos força a buscar uma segurança.

No exemplo dado pelo cara do vídeo, a pessoa vai buscar se especializar, ou seja, fazer mais e mais aquilo que ela já sabe fazer e faz bem. O problema disso, observa ele, é que a especialização não ajuda o nosso desenvolvimento. “A compreensão do desenvolvimento provém do erro”, porque se erramos é porque fomos além daquela zona de conforto e, assim, pudemos aprender algo novo.

Na animação japonesa Ghost in the Shell, lembro da major Kusanagi falando “a especialização é a morte lenta”. Aquela frase me marcou muito (tanto é que lembro só disso e vi esse filme há uns 10 anos), mas acho que só depois desse vídeo consegui entender profundamente a dimensão do seu significado. Fazer só o que você já sabe é uma prisão; ali dentro, você não consegue se desenvolver, ir além das suas limitações.

“O que é realmente constrangedor sobre o fracasso é a sua própria constatação que você não é um gênio.”

Em vez de temer o erro, deveríamos abraçá-lo. Assumi-lo de vez. Afinal, se não somos gênios, vamos fracassar. Difícil, é. Mas ninguém é obrigado a acertar de primeira, né? Vamos errar mais. Tá pouco de erro.

Dentucismo


"Por isso quero ver mais sorrisos irregulares e dentuços nos heróis e heroínas dos filmes; não apontados como um defeito, mas celebrados como qualquer outra característica que só a fantástica diversidade dos nossos corpos apresentam. Quero ver mais Mônicas, mais Titis, mais Chicos Bentos; e ainda que nós dentuços não sejamos representados só como aquele personagem que vai ser esculhambado justamente pelos dentões."

Iniciando os trabalhos no Escritório Feminista


"A gente já sabe que não vão nos dar a igualdade e o respeito que nos é de direito pelo simples fato de sermos seres humanos. Temos que nós mesmas calçar as botas para chutar as portas que fecharam na nossa cara. Temos que nós mesmas contar as histórias que queremos que sejam contadas sobre nós. Temos que nós mesmas arregaçar as mangas e fazer o trabalho para mudar as coisas. Porque desse jeito não está bom, não."

Escritório Feminista no ar e operante!


Sim, como você viu acima estreou essa semana o Escritório Feminista, novo blog da Carta Capital sobre feminismo, com textos meus, da Clara Averbuck e da Djamila Ribeiro!

Saiu esta matéria na Carta Capital sobre a estreia do blog que vai calçar coturno de combate pra sambar na cara do patriarcado, olha que bacana: “Blog Escritório Feminista estreia em Carta Capital”.

Ah, e pode me mandar sugestões de temas e pautas que você gostaria de ver por lá! O Escritório Feminista é seu, é meu, é nosso, Comitê Revolucionário Ultr… ops!

A estranheza da vida


Era apenas terça-feira e minha cabeça já tinha explodido com tanta notícia bizarra.

No Paquistão, um garoto de nove meses de idade foi acusado de homicídio por atacar policiais com pedras. Ele teve que comparecer a um tribunal para ser fichado e ter suas impressões digitais registradas. O perigoso bandido tomou sua mamadeira ali mesmo no tribunal.

No Brasil, um jovem gasta mil reais comprando figurinhas do álbum da Copa, que completa 8 horas depois do lançamento. O que me espantou aí foi descobrir que álbum de figurinhas tem modo correto de usar. Aparentemente, pela reação das pessoas que resolveram zoar o garoto porque ele gastou seu dinheiro como ele quis, você está usando um álbum de figurinhas da maneira errada se fica mais preocupado com o destino final do que com a jornada. 

Um professor resolve colocar numa prova de filosofia uma questão sobre uma música da Valesca Popozuda. O tom de absurdo dado pelos apresentadores do jornal ao darem a notícia dá até a impressão de que a escola só ensina coisas importantes e úteis.

Em São Paulo, o governo anuncia “rodízio de água”. Rodízio, como em pizzaria, que tem abundância e não escassez? Por que não falar racionamento? Deve ser porque, como alguém disse no Twitter, você deve ficar atento ao dígito final do seu ano de nascimento para saber qual é o dia que você não vai poder beber água, pra economizar.

Monge budista é contratado por executivos para adestrar homens de negócios e melhorar a produtividade. Pois é. De acordo com o diretor de uma grande corporação, com a prática budista as pessoas aprendem a reorientar as motivações e repensar as prioridades, o que beneficia a empresa. Se a pessoa for repensar as prioridades MESMO, a prática budista não acabaria fazendo o executivo justamente deixar de ser um “homem de negócios"? Eu hein.

Em Londres, Aaron Paul (o Jesse de Breaking Bad) se sentou ao lado da Dita Von Teese (não é a testuda da foto abaixo, ok), depois de resgatar o guarda-chuva da moça que caiu no chão (fato relevante o suficiente para ter virado notícia), e assistiu um desfile de moda que parece tê-lo deixado confuso.



Mas eu entendo. Essa é a única reação possível diante da estranheza da vida.
 

Diálogo doideira


Estava eu procurando no meu armário um bloquinho de anotações novo (o que eu uso tinha acabado) e encontro um caderninho moleskine que eu nem lembrava mais que eu tinha (até porque comprei outro recentemente, olha que maluca). Daí eu encontro a transcrição de um diálogo que eu ouvi há muito tempo, quando eu ainda morava em Brasília, e resolvi anotar no caderninho naquela época. Quando eu reli essa semana fiquei tipo: quê? Que maluquice. Mas eu juro que é real, <<Primeiro Nome>>! Vou transcrever aqui:

O que o cara fez?

Estava eu numa loja de xerox para tirar cópias de uns documentos. Eu estava esperando a minha vez, enquanto uma mulher era atendida no balcão. Ela falava com alguém ao celular:

– Se ele ligar, é o italiano. Não deixa mais ele entrar no shopping! – então ela espera a outra pessoa do outro lado da linha falar alguma coisa, e continua: – Agora ele não vai mais entrar em nenhum shopping de Brasília.

Tinha um cara acompanhando a moça do balcão. Ele pergunta para ela, enquanto ela paga o moço da copiadora:

– O que o cara fez?

– O que ele fez? Já te digo o que ele fez. Vamos sair daqui.

E saíram da lojinha, me deixando na maior curiosidade. O moço da copiadora deve ter pensado a mesma coisa, porque comentou comigo:

– Acho que foi sério, hein – concordei, e ele continuou: – Seja o que for, acho que agora ele só vai poder comprar roupa na feira!


Ah, a vida. Esse desfile que a gente vai assistir na primeira fileira mas não entende nada.
 
 
Fora de Lugar é uma história seriada exclusiva para os assinantes do Bobagens Imperdíveis. Sinta-se à vontade para mandar críticas e sugestões - ou ideias! - para a continuidade da história. 

Se perdeu os episódios anteriores, clique aqui para entender como <<Primeiro Nome>> se perdeu dos pais e, fugindo de dois estranhos homenzinhos de uma obscura empresa de limpeza, acabou caindo na casa de duas mulheres desconhecidas, uma delas recém-saída da cadeia. A novelinha "Fora de Lugar" foi publicada a partir da 3ª edição da newsletter.


***

Naquela profundidade, o único som que se ouvia fora do escritório era o de gotas pingando nos túneis. O barulho insistente que irritaria qualquer ser humano normal era, para Parnapatus, como um metrônomo, marcando o ritmo do seu trabalho. Sincronia era tudo.

A sala onde funcionava a Buraco Negro Limpeza Expressa Ltda. era apertada e ocupada por um labirinto de papéis, monitores, fichários, arquivos e mesas antiquadas, mas parecia ser de um tamanho mais do que o suficiente para acomodar seus dois pequenos funcionários.

Mesmo ali dentro usavam seus jalecos brancos. Sem a boina que fazia parte do uniforme, perdida na última casa que visitaram, Vendramette exibia um cocoruto com um cabelo ralo e de cor indefinida. Já os seus olhos, que certamente tinham a cor de um abismo quando você alcança o fundo dele, fitavam com impaciência as letras verdes que iam surgindo, em sequência, no monitor de tubo bem à sua frente.

– Nenhum registro até agora. Depois da delegacia, nada.

– A criança não vai conseguir se esconder para sempre.

– Você se lembra das que deixamos escapar?

Parnapatus parece ter finalmente saído de sua bolha de paciência. Bufou, mas continuou a rabiscar algo em sua prancheta.

– Sempre que falhamos, as coisas saem do lugar – foi tudo o que ele disse.

– Sempre que falhamos, algo sai de controle depois. E é irreversível.

– Irreversível.

– Teve aquele guri que deixamos escapar e depois deu a maior dor de cabeça pra conter.

– Heliocentrismo, nem me fale.

– Temos que encontrar logo essa criança, antes que seja tarde.

– Vamos encontrar.

Parnapatus se levanta e leva até Vendramette o papel no qual estava trabalhando. Ele parece confiante. Vendramette lê o papel com algum espanto por já não terem pensado antes em algo tão óbvio. Era como faziam as coisas antigamentes, antes daquela parafernalha tecnológica toda.

"CRIANÇA DESAPARECIDA. Vista pela última vez na 3ª DP, dia 20 de março. Seus pais estão desesperados à sua procura. Paga-se recompensa. Qualquer informação, entrar em contato."

Embaixo, a foto de <<Primeiro Nome>> e o telefone que, se discado, tocaria no escritório da Buraco Negro.

– Vai funcionar?

– Vai funcionar. Se não funcionar, ainda temos alguns anos até que algo irreversível aconteça. É simplesmente impossível nos escapar por tanto tempo.

2014.

<<Primeiro Nome>> lê os e-mails do final de semana antes de sair. Desliga o computador, pega o celular, as chaves e vai para a rua. Se distrai no caminho com uma música irritante que não sai da sua cabeça, um daqueles hits feitos para virar meme na internet.

Diferente do esforço que normalmente tem que fazer para tirar uma música em repeat da cabeça, dessa vez a música simplesmente desapareceu, assim como qualquer outro pensamento, quando viu, do outro lado da rua, dois pequenos homenzinhos de jaleco branco.

Paralisou. Então um ônibus passou obstruindo sua visão e depois não viu mais nada. Estava imaginando coisas.

Continuou a andar, com uma estranha sensação. Aqueles homenzinhos pareciam familiares. Mas <<Primeiro Nome>> não conseguia se lembrar por quê.
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olha prum lado
 
olha pro outro

abaladíssimo

Com esse guia ilustrado de como não entender a vida e não perder o estilo, encerro a Bobagens Imperdíveis da semana.

Me deseje força para sobreviver à próxima semana, porque vou precisar. Será que chegaremos à décima edição? Será? Será? Descobriremos no próximo episódio (se não der merda).

Um beijinho no seu ombro,

Aline.
Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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