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Palavra do dia: ' estromatólitos' 

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 110
escrita / vida / livros

As fases de terminar um livro


Passei – e estou passando – por uma jornada tão louca quanto as fases bônus do Sonic, aquelas que pareciam uma viagem de ácido com ele quicando de um lado para o outro enlouquecidamente.

Não, não ando usando drogas alucinógenas nem frequentando antigos vídeo-games. Essa jornada se trata, na verdade, de ter o meu primeiro romance publicado.

Apesar de já ter lançado ao mundo diversas histórias, muita coisa agora é novidade para mim. Ainda vou precisar de tempo para processar o que está acontecendo, mas já posso adiantar algo fundamental: as expectativas nunca se encaixam com a realidade – especialmente quando se trata do trabalho na escrita.

Li um texto de um autor dizendo como é fácil encontrar livros sobre como escrever, outros tantos sobre como publicar, mas nenhum com conselhos importantes sobre “Como Passar Pelo Período Entre Terminar Um Livro e Vê-lo Numa Livraria Sem Acabar Se Deslocando Completamente da Realidade” (taí um livro que eu gostaria de ler).

Então resolvi trazer nesta edição alguns tópicos como forma de documentar, quase que em tempo real, este processo pelo qual estou passando. Talvez não seja tão animador e cheio de glória quanto muita gente pode imaginar. Então prepare-se; vou precisar ser sincera a seguir.
 

I.
Ninguém me contou como é vazio aqui

Quero começar com o vazio. Essa sensação que resta depois que a história que passei anos trabalhando finalmente é publicada e pode, enfim, chegar às mãos dos leitores. Não é a forma mais bonita de começar, mas alguém que nunca faz as unhas não está exatamente preocupada com beleza, né?

Então me permita abandonar os clichês que eu tinha preparado em cartõezinhos para eu ler nesta ocasião, como “esse é um momento mágico”, “me sinto realizada” e coisas do tipo (espera, esses cartõezinhos de clichês eram para lançamento de livro ou estreia na maternidade? Aff, deixa pra lá).

Depois de ver o livro pronto pela primeira vez, passada a euforia inicial, começou a se formar no horizonte do meu estômago um buraco negro desses que os astronautas se perdem e acabam caindo numa quinta dimensão; ali eu pude visualizar cada momento desse louco processo, todas as fases que eu passei, tudo ao mesmo tempo (coisas que só a quinta dimensão faz por você).

Buraco negro do filme Interstellar

Esse buraco se abriu porque eu tirei algo ali de dentro. E a matéria que foi tirada agora se apresentava diante de mim em forma de páginas, capítulos e uma capa colorida. Aquilo saiu de mim. Foi um processo físico, que envolveu cadernos sendo rabiscados, dedos martelando num teclado, conversas com pessoas reais, papel saindo por uma máquina enorme e depois transportado em caminhões.

Há algo irreversível nisso. Não pode mais ser desfeito. Não é possível simplesmente pegar tudo isso e colocar de volta para dentro. O buraco está lá. Agora já era.

O processo de trabalhar nesse livro me deixou esgotada. Esgotada no sentido de esvaziada mesmo. Porque ao escrever, reescrever e trabalhar para fazer o livro acontecer, coloquei tudo que eu sou ali. É como se eu não tivesse mais nada pra dar.

E o vazio é assustador. Ultimamente, tem sido até difícil escrever e pensar em outras histórias. Não estou mesmo na vibe. Como num pós-operatório, eu também posso estar necessitada de algum tempo de recuperação.

Batendo com a caneta na mesa, diante de uma folha em branco

Olhando para esse vazio, penso que é como se tivesse passado um caminhão de mudanças e levado todos os móveis, deixando a casa nua. Mas talvez seja justamente esse o vazio que eu preciso para poder colocar móveis novos.

 
II.
É um dizer adeus enquanto os outros estão dizendo olá

Uma das coisas mais estranhas para mim está sendo o desencontro. Porque as pessoas vêm empolgadas falar comigo sobre algo que para elas é novidade, algo que elas ainda vão conhecer; enquanto pra mim é um ciclo se fechando, uma despedida.

Convivi com os personagens por bastante tempo, já vivi a história vezes sem fim, já li e reli tantas vezes que perdi a conta. Então, ao falar sobre o livro, falo de um lugar muito distante; falo do ponto de chegada de um caminho que as pessoas só começaram a percorrer agora. Que doideira.

Acho que por isso fico meio sem jeito quando me perguntam: “seu livro é sobre o quê?”. Lembro de amigas escritoras terem comentado o quanto essa pergunta também as incomodava, porque seus livros não eram assim tão fáceis de definir. Eram livros sobre nada e sobre tudo. Sobre pessoas vivendo. Literatura contemporânea tem dessas.

Bem, meu livro não é assim tão difícil de categorizar, mesmo assim encontro dificuldades para responder a tal pergunta sem parecer uma aluna que chegou na sala de aula sem saber que era dia de prova oral.

Falar “sobre o quê” se trata o livro das águas-vivas para mim é complicado, sobretudo por tudo o que sei da história. O que eu não sei, de verdade, é o que as pessoas esperam ouvir.

Então resolvi que a cada vez, dependendo de quem for e da ocasião, darei uma resposta diferente. Sim, pode considerar isso como eu assumindo minha completa incapacidade de resumir a história. O que nos leva ao próximo tópico.


III.
Seu livro é sobre o quê?

– É um livro sobre uma equipe de pesquisa procurando vida inteligente nas profundezas do oceano.

– É uma história de ficção científica protagonizada por uma mergulhadora.

– É um livro sobre a solidão.

– É sobre as transformações da vida no nosso planeta.

– É sobre cinco pessoas que não se conhecem, não se entendem e não sabem o que estão procurando, presas e isoladas no mar a trezentos metros de profundidade.

– É a história de uma mergulhadora que, como o oceano, esconde alguns segredos.

– É sobre pessoas não conseguindo conversar tão bem quanto as baleias conseguem.

– A história vai depender do que você prefere: conflitos humanos ou as intrigantes questões dos seres que habitam o oceano. Tem para todos os gostos.

– São quase trezentas páginas para tentar explicar o que as águas-vivas sabem.

– Etc etc e assim por diante.


IV.
Sobre trabalhar com outras pessoas

Já dediquei uma edição inteira para falar sobre como só sei trabalhar sozinha, apesar das dificuldades inerentes a isso, e sobre como eu precisava aprender a incorporar outras pessoas no meu processo, para conseguir fazer coisas maiores.

Aí que o livro foi a oportunidade perfeita pra isso. Porque pude trabalhar junto com a editora em cada etapa. Não foi só escrever, mandar para a editora e agora eles que cuidem de todo o resto; participei de tudo e pude aprender muita coisa ao decorrer do caminho (além da trabalheira que deu, claro).

O que foi muito bacana – e o que acho que merece destaque – é o fato de eu ter trabalhado apenas com mulheres durante todo o processo de edição!

Entre as pessoas com quem lidei diretamente: teve a Larissa Helena, que além de ser a responsável por tornar a história uma publicação da Fantástica Rocco, cuidou com carinho de cada etapa de edição; teve a Clarice, que fez a primeira preparação do texto; a Vivi Maurey, que me ajudou a tornar a história mais redondinha; a Lúcia, que cuidou da parte do e-book; a Manon Bourgeade, designer que criou a capa maravilhosa (que amei desde o momento em que ela me apresentou como um estudo preliminar), além de ter cuidado de todo o projeto gráfico.

Ou seja, mais que um livro escrito por uma mulher, é um livro editado e produzido por mulheres.

Isso sem falar das outras pessoas envolvidas em outras partes do processo, revisão, área comercial, produção gráfica, divulgação. É um trabalho que envolve muita gente. É um processo demorado.

E que massa foi poder ser envolvida em boa parte disso. Principalmente pela percepção de que, especialmente quando estamos trabalhando com outras pessoas, precisamos ser ainda mais conscientes do nosso próprio trabalho e mais ativos para continuarmos fiéis a ele.


V.
O que mudou

Continuo sem dinheiro. Ainda faço todo o meu trabalho sozinha – e não é pouca coisa: afinal, trabalhar como escritora vai muito além de apenas escrever. Ainda preciso pedir ajuda, a muita gente. Continuo recebendo alguns “nãos” pelo caminho. E continuo, do jeito que posso.

Continuo promovendo meu trabalho e falando dos meus livros e divulgando as coisas que escrevi e enchendo o saco de tanto falar sobre isso em todos os lugares que habito na internet, porque já diria Emicida, “você é o único representante dos seus sonhos na face da Terra”.

Ainda escrevo coisas ruins que me deixam desanimada e depois me fazem reescrever tudo de novo. E de novo. Continuo tentando proteger meu tempo de escrita, o que significa, muitas vezes, aprender a dizer mais “não”. 

O que mudou é que tenho mais um livro publicado. Não é a glória final, mas um passo importante numa loooonga jornada. Ele representa minha capacidade de escrever um romance inteirinho. Representa uma grande responsabilidade. Representa o que vou fazer daqui pra frente.

Shia Labeouf fazendo o gesto "just do it"

E eu quis contar tudo isso para mostrar a real – e também porque eu precisava pôr em palavras para conseguir entender antes de passar para a próxima fase (mais uma fase bônus do Sonic, será?).

Quis contar porque, para quem olha da superfície, é tudo muito lindo e pacífico, a cor do mar, a luz do sol batendo nas ondas, a sensação de que é fácil atravessar esse pedaço de água; mas, para quem mergulha e sente na pele e nos ossos a pressão ali embaixo, ah, aí é outra história.
 


Distribuirei rabiscos!


Agora em junho vão rolar as primeiras tardes de autógrafo de As águas-vivas não sabem de si, mais conhecido também como o momento em que vou rabiscar o seu exemplar! Aeeee!

A primeira tarde de autógrafos será em Brasília, para começar do lugar de onde vim :) Será na Livraria Cultura do shopping Casa Park, dia 12 de junho (domingo), a partir das 15h! Se você estiver em Brasília, save the date e tasca confirmação lá no evento.

Dia 18 de junho (sábado) é a vez de São Paulo: será na Livraria Martins Fontes, na Avenida Paulista, às 15h. QUERO VOCÊ LÁ, HEIN. Já coloca na sua agenda.

Já tem gente perguntando se vou fazer o lançamento nesta ou naquela cidade; olha, bem que eu queria fazer em todas possíveis, mas grana me falta para bancar todo este tour. Aos poucos vou arrumando um jeitinho de visitar as outras cidades, só peço paciência, plis :)


Você viu águas-vivas?


A Kel viu meu livro numa Livraria Cultura e veio me mostrar:

"em plena livraria cultura, @alinevalek brilhando dentre os livros. Veio pra casa!"

O Rodrigo encontrou águas-vivas numa livraria do Rio e também me mostrou:

"andando pelo RJ me deparo com um produto sendo vendido que me enche de orgulho! Vc é foda @alinevalek !!! Um é meu!"
 
(confesso que fiquei emocionadinha ao ver meu livro ali do lado de Julio Cortázar e Toni Morrison ♥︎)

Viu meu livro por aí? Chegou na sua casa e você está lendo com café e bolo? Ou melhor: com PAMONHA? Posta uma foto e me marca, vou adorar ver! Meu instagram é este aqui, ó.
 


Mais sobre o livro


:: Em “Mergulhando em busca das Águas-Vivas” conto sobre o processo da escrita, o que me motivou a escrever uma história nas profundezas, inspirações e pesquisa.

:: Preparei uma playlist no Spotify com a trilha sonora do livro, as músicas que aparecem na história e as que me acompanharam no fone de ouvido enquanto eu escrevia. Tem Bowie, Florence, Elza Soares, Raul Seixas e até música d’A Pequena Sereia. 

:: Em “O som em As águas-vivas não sabem de si falo sobre como o som é parte importante da história, compartilho outras curiosidades e falo um pouco sobre as músicas escolhidas para a playlist.

 

Guia básico para apoiar esta autora que vos escreve


Há várias formas de contribuir para que eu continue combinando palavras em forma de textos e histórias: você pode escolher uma ou mais formas de ajudar. Tem opções gratuitas e para todos os gostos! Você pode:

Comprar meus livros (As águas-vivas não sabem de si está disponível nas melhores livrarias, e além dele, Pequenas Tiranias e Hipersonia Crônica estão em e-book nas lojas Amazon e Kobo, facim de achar);

Falar sobre meus livros (indicando nas suas redes sociais, recomendando para os amigos, fazendo resenha no seu blog, deixando avaliações maneiras na Amazon e Skoob, levando o livro para ler no metrô, ou, para os mais ousados, até comentando com desconhecidos o quanto você está a fim de ler aquele livro com uma água-viva na capa);

– Fazer uma doação única (no valor que você quiser e puder);

Fazer uma assinatura mensal de R$ 10 ou R$ 20 (o valor simpático e inofensivo de dez reais por mês – que nem dá mais pra comprar um combo do Mc Donald’s – já é o suficiente para ajudar esta artista a ter mais tranquilidade pra produzir & pesquisar & escrever!)

– Compartilhar meus textos (dê aquela força marota para que aquele texto que você adorou ler consiga chegar a mais gente);

– Evangelizar sobre Bobagens Imperdíveis (indique, compartilhe as edições, ou fale para seus amigos que você recebe de graça textos secretos por e-mail para ativar neles o incrível poder das palavras “de graça” e “secreto”).
 


Pra quem é de links, tem links


:: Para você se esbaldar em links, Central do Textão é um agregador que traz vários dos meus blogues favoritos e é um enorme centralizador de bons textos.

:: O Brasil, na verdade, deu certinho – e esse é o problema. Precisamos fazer dar errado. Desse texto incrível.

:: O Slow fez um vídeo bem didático dando dicas importantes sobre como fazer uma boa pesquisa ou mesmo sobre como encontrar boas referências na internet.

:: Eisner Awards, uma das maiores premiações do mundo dos quadrinhos, este ano bateu o recorde de indicações femininas.

:: A cronologia completa (da história que temos até agora) de “A Hora de Aventura”, compilada aqui.

:: A máquina de moer mulheres, texto meu na Carta Capital.

:: Toda a obra de Van Gogh disponível de graça para download em alta resolução! Enjoy.

Seascape near Les Saintes-Maries-de-la-Mer
Vincent van Gogh, 1888
 


Brainstorm: trabalhamos


Folheando um dos meus cadernos, como quem não quer nada, encontro uma listinha de ideias para temas da newsletter, 53 edições atrás (momento nostalgia):


Para você ter uma ideia do caos dos bastidores. Um processo que é 70% do tempo “ai meu deus eu não sei o que eu faço”. Normal.

Lembre-se que você sempre pode compartilhar meus textos (pfv!!) e soprar esta edição nas suas redes feito purpurina ao vento através deste link.

Se você está vendo esta edição por aí na internetz e quiser receber Bobagens diretamente no seu e-mail, clique aqui e se inscreva!

Beijos terminados,


Para ver o arquivo com as edições passadas, clique aqui.

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