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Uma edição "vale a pena ler de novo"

Reprise



(interrompemos nossa programação normal para o intervalo comercial, voltamos após o break)

Sente saudades de um tempo que já se foi, Aline? 

Não sabe explicar para o seu filho por que o coleguinha tem dois pais ou duas mães, e não uma família como deve ser? Lamenta que pobres e negros possam entrar nas universidades, concorrendo a vagas que sempre foram suas? Não aguenta mais te chamarem de reaça só porque uma gente maluca quer mudar coisas que para você estão ótimas? 

Pare de se chatear. Seus problemas acabaram!

Volte a viver em um tempo em que todos sabiam o seu lugar: o da mulher, na cozinha; o do negro, na senzala; o do gay, no armário; e o do pobre, bem longe de você! Agora isso é possível, com a nova Retro-Machine.

Desenvolvida pela Status Quo S.A. especialmente para você, a Retro-Machine permite que você viaje no tempo e volte para a época em que todos os privilégios eram seus e não era  preciso se preocupar com manifestantes querendo mudanças, já que seriam todos recebidos na porrada.

Usar a Retro-Machine é muito fácil: entre na elegante cabine projetada para todos os tamanhos e ajuste a data desejada no painel.

Viaje para a época em que a igreja tinha a última palavra, ou para o tempo em que mulheres não tinham voz. Viva em um mundo sem cotas para isso ou para aquilo, onde quem fazia as regras eram coronéis e fazendeiros! 

Ou ainda explore os ajustes pré-definidos como “Bons Tempos da Ditadura”, “A Terra Não É Redonda”, “Só Homens Ricos Sabiam Ler” e o incrível “Catequize e Escravize um Índio”. 

O Natal está chegando e agora você tem o presente ideal para aquele seu tio reaça que se veste de verde e amarelo e vai protestar pela volta da ditadura militar! Ele também vai adorar o século XV! Aproveite e deixe ele lá. Pra sempre!

Ligue agora e peça a sua Retro-Machine. Os dez primeiros que ligarem receberão inteiramente grátis uma palmatória de 60 cm para usar em crianças indisciplinadas e o Guia do Reacionário Atemporal, com mais de 2 mil receitas para manter o status quo da sua época preferida. Frete grátis para todo o Brasil.

Retro-Machine. Porque algumas pessoas não pertencem a este tempo.

Manda esse texto prazamiga!

Anunciado mais um reboot

 

Depois de tantos reboots da Marvel e da DC e até de remakes de novelas da Globo pelos quais ninguém pediu, o Universo acaba de anunciar seu próprio reboot. 

O mais aguardado remake da história da humanidade tem data marcada ainda para este ano. “Depois de tantos milênios de espera, finalmente vão apresentar o Universo remodelado!”, declara um empolgado fã.

Os executivos responsáveis por essa audaciosa produção já revelaram alguns detalhes. A primeira mudança importante será no visual dos protagonistas. Os humanos ganharão tons de pele mais vibrantes, que vão do azul ao verde limão, contrastando com as cores pasteis de variações claras e escuras da versão atual. 

“Pode parecer uma mudança muito radical, mas optamos por personagens mais modernos”, explicam. “Além disso, a questão de cores tem gerado muita confusão. Queremos criar uma história mais dinâmica, mais integrada, e as cores não podem mais ser um obstáculo entre os personagens. Por isso, desenvolvemos um visual colorido e bem distribuído, com pessoas laranja tangerina e azul turquesa vivendo todas misturadas.”

O reboot também é uma oportunidade de consertar vários furos na história. A Bíblia não será mais escrita por um povo primitivo no meio do deserto, mas por Neil Gaiman, que neste remake terá nascido no ano de 1602. Com isso, espera-se que as histórias bíblicas tenham uma linguagem menos chata e personagens mais cativantes.

“Queremos descomplicar alguns pontos da história”, justificam, “e nada no Universo deu mais problema do que a ideia de Deus”. Nessa versão, Deus é um gato gigante e sua existência pode ser comprovada por meio de evidências concretas. Dessa forma, os ateus deixarão de existir definitivamente. 

“Além de resolver um problema (os ateus), vamos conseguir mostrar a origem do Universo de forma mais fantástica e, ao mesmo tempo, realista.” Graças a um investimento em efeitos especiais jamais visto antes, foi possível criar uma Física que dê suporte à existência de um deus e à sua influência no mundo dos humanos. “Além disso, quem é que não gosta de gatos, não é?”

Os produtores também garantem trazer de volta os dinossauros. “A destruição deles tão cedo foi um erro. Muita coisa na história teria sido drasticamente diferente com a presença de uma segunda raça dominante no planeta. Por exemplo, a Segunda Guerra Mundial. Um dos arcos dessa nova versão vai trazer um Adolf Hitler determinado a livrar o mundo desses reptéis gigantes. O público pode esperar surpresas interessantes vindas daí.”

Algumas coisas, porém, serão mantidas. Os continentes atuais continuarão a existir e mulheres ainda serão usadas como objetos sexuais. Os produtores acreditam que peitos podem continuar trazendo audiência nesta nova versão. “A opressão sexual foi uma coisa que funcionou muito bem”, afirmam.

Agora só resta ao público esperar pelo lançamento desse remake e torcer para que o papel de descobridor do Brasil não fique com Fábio Porchat.

 

Cuba for kids




Ganhei de um leitor reaça uma retro-machine especialmente programada pra mim, por me declarar esquerdista e criticar o capitalismo etc etc. Fiquei emocionada por ele ter programado a máquina para voltar para a Cuba dos anos 60! “Vai pra Cuba que é o seu lugar, sua comunistazinha!” Nhóim, um fofo.

Foi um passeio rápido, na verdade. Mas descobri uma coisa curiosa a respeito da programação televisiva dos cubanos daquela época.

Como você deve saber, A Revolução Cubana de 1959 fechou o país para a ideologia capitalista e americana e nem os desenhos animados escaparam disso. A televisão estatal passou a exibir animações da Bulgária, Alemanha Oriental, União Soviética, Polônia e Hungria (alguns desses desenhos não tinham diálogos, para evitar a necessidade de dublagem).

Pois é. Isso significa que esta geração não conheceu os clássicos da Disney nem outros desenhos vintage que até pouco tempo passavam na TV (um beijo, SBT).

Bolek & Lolek, Gustavus, Cheburashka. Pra gente, estes nomes são completamente estranhos. Mas para os cubanos que viveram sua infância nos anos 60, estes nomes são tão familiares quanto são para nós Tom & Jerry, Mickey e Pica-Pau.

Depois da queda da União Soviética, os desenhos produzidos pelos países do bloco soviético pararam de ser exibidos em Cuba, mas os adultos ainda têm memórias saudosas deles – apesar de haver histórias em que os pais das crianças da época diziam, de brincadeira, que o castigo para crianças desobedientes era serem forçadas a assistir esses desenhos. Hahaha, ai gente.

Selecionei para você algumas animações daquela época – e apesar de algumas estarem em russo ou polonês, é interessante ver não só a mentalidade de uma outra época que não a nossa, mas também a de uma cultura bastante diferente.


:: Bolek & Lolek, as aventuras de dois garotinhos poloneses.

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Gustavus, e as historinhas dele era até bastante críticas (sério que crianças viam isso?)

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Nu Pogodi, a versão soviética de Coyote & Papa-Léguas.

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Cheburashka, animação em stop motion super bem-feita – uma mistura fofa de Mickey, Topo Gigio e Pingu (?).

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Orejitas a Cuadros e a história da menina grafiteira.

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Tres em Leche Cortada, que tem um traço muito bacana, tem ruivos, um menino que ama gatos, animais falantes, fora que é bem divertido ver em espanhol :)

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Um canal inteiro no youtube com as coisas que as crianças cubanas assistiam na TV.

Joelhos calejados de Lego



Nasci em outro século. Em outra era. Em outro mundo. 

Antes de chegar aqui, tive que meter a caneta em muita fita cassete para enrolar de volta a parte mastigada pelo aparelho de som. Não foi fácil. Mas ouvindo conselhos do próprio He-Man aprendi a sobreviver. Aprendi, em uma realidade onde um Ctrl + Z era impensável, que tudo tem um jeito, ainda que o Liquid Paper deixasse as marcas dos nossos erros no papel.

Sou feita de coisas que não existem mais. Sou feita de fazer cartucho funcionar na base do sopro. De ter que pesquisar na Barsa e copiar, ipsis literis, a vida de Dom Pedro de Alcântara para o meu caderno Click com a Ana Paula Arósio na capa. De trocar papel de carta com as amigas. De gostar de prova só pelo cheirinho de papel mimeografado.

Vim de um mundo onde não era preciso escavar para encontrar dinossauros: eles vinham na embalagem de revistas. Juntei ossos e montei meus próprios esqueletos jurássicos em casa — e eles brilhavam no escuro. Vim de um mundo onde o status era medido pela quantidade de Tazos que você tinha. Ou pela quantidade que você conseguia derrubar em uma única tacada. Vim de um mundo onde as pessoas eram discriminadas pela cor: ou rosa ou amarelo. Ou azul ou preto. Ou vermelho ou verde. Mas depois de morfar, todos combatiam juntos bonecos de massa imaginários.

Tudo o que importava podia ser lido na revista Herói. Tudo o que interessava podia ser visto na Manchete, em tardes que faziam o sorriso brotar nos lábios com bigode de Quik. Mas nem tudo era Rá-tim-bum. Havia o submundo das coisas proibidas, e os mais ousados se aventuravam a dar uma espiada nas moças Tutti-Frutti fazendo strip-tease no Cocktail. Mas poucos tinham coragem de encarar o Cine Trash; nada podia ser mais terrível que o Zé do Caixão. Ele aparecia nos meus piores pesadelos.

Só que tive que assistir ao mundo que eu conhecia ser extinto e substituído por outro. Sem vinis coloridos, sem Bebeto como herói da seleção, sem Cr$, sem Passa ou Repassa. Cheguei sem entender muito bem por que usar um computador e estranhei o fato de não ter lado B em um CD. Mas ou eu me adaptava e me moldava, como uma Amoeba, ou desaparecia para sempre, como a necessidade de rebobinar um filme depois de assistir.

Hoje não estranho pessoas movendo o corpo todo para jogar videogame, por mais que fosse motivo de zoação, antigamente, alguém acompanhar o pulo do Sonic com o controle ou dobrando a língua. Hoje pesquiso na internet com a mesma facilidade com que antes eu resolvia as atividades do Almanacão de Férias da Turma da Mônica. 

Hoje sou uma pessoa diferente. Mas meus joelhos calejados de LEGO não me deixam esquecer de onde vim.


Quem lembra, compartilha!


alô, é dos anos 90?
♥︎
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textos não ficam velhos, ficam vintage!

Se você me lê há mais tempo deve ter percebido que os textos que publiquei nesta edição são antigos (e sobre antiguidades, olha só!) – mas como gosto muito deles, achei que valia a pena resgatá-los e fazer um revival enquanto trabalho pesado no meu livro.

Falta pouco pra terminar o
NaNoWriMo (o desafio de escrever 50 mil palavras do meu romance até o fim de novembro) e por pouco eu não deixei a coisa atrasar de forma irreversível. Palma palma, não criemos cânico, que eu consegui colocar em dia e agora me encontro tão mergulhada na história que me tornei aquela pessoa chata que não tem outro assunto.

Li em algum lugar que "the middle of a book is a state of mind", e talvez seja verdade, porque estou exatamente nesse estado. Só consigo pensar em como resolver a história e nada mais; vamos supor que eu esteja ficando obcecada.

Enquanto isso agradeço imensamente sua compreensão, paciência e apoio de não exigir coisas de mim porque Não Tô Boa™ pra isso.

(
me mandem dinheiro, não me mandem tretas)

Mas juro que em dezembro voltamos à programação normal: textos inéditos, quentinhos e bastante bobos.

Beijos retrô,

Aline.

 

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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