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Prepare-se.

Bobagens Imperdíveis Ano 3 Edição 103


“Sou um conjurador”, foi o que ele começou dizendo. “E prefiro este termo em vez de mágico, porque, se eu fosse mágico, significaria que eu faço magia. Sou um conjurador. Alguém que apenas finge ser um mágico de verdade.”

Em outra ocasião, ele disse: “Algumas pessoas não acreditam que um mágico pode enganá-las de um jeito que elas não consigam descobrir. Mas mágicos podem e fazem. Trapaceiros fazem, vigaristas fazem. Mas eles não são mágicos, são falsos. Eles estão mentindo para nós, eles estão nos enganando. Não tem problema enganar pessoas desde que esteja fazendo isso para ensinar-lhes uma lição que melhorará seu conhecimento de como o mundo real funciona.”

Do jeito que James Randi se apresenta, dá até para imaginar que ele é escritor. Sua profissão, afinal, é enganar. Criar ilusões. Do tipo que entretém as pessoas. Contar mentiras e usar artifícios para fazer com que essas mentiras emocionem. Enganar para ensinar uma lição sobre o mundo que nos cerca. Algo que pode ser feito inventando uma história que nunca aconteceu, ou fazendo truques de desaparecer num palco.

James Randi, quando atuava como mágico

Ele tem uns 87 anos agora. Está bem velhinho. Boa parte desses anos ele dedicou a conjurar climão e carão ao desmascarar charlatães – médiuns, cirurgiões espirituais, pessoas que alegam ter poderes psíquicos, pastores evangélicos e outros farsantes que usam truques para ganhar dinheiro se aproveitando da imensa vontade das pessoas de ACREDITAR EM ALGO (desesperadamente).

“Não importa quão inteligente ou bem-educado você seja. Você pode ser enganado.”

Nos anos 70, ele travou um embate com um cara que se dizia psíquico e que, apenas com o poder da mente, entortava talheres e chaves, descobria o que uma pessoa estava pensando, podia dizer a localização de bolinhas escondidas em latas apenas passando a mão sobre elas.

(porque faz TOTAL sentido que alguém com reais poderes psíquicos os use para entortar chaves em vez de algo que realmente importe para a humanidade)

Randi sabia que não passavam de truques de mágica, coisas que ele próprio fazia. Se o tal psíquico aparecia num programa de TV demonstrando seus “poderes” e deixando os espectadores impressionados, Randi aparecia no mesmo programa alguns dias depois fazendo a MESMA COISA para demonstrar que o psíquico era uma farsa. Ou melhor, um mágico.

Ele fez isso por anos. Escreveu um livro sobre. Mas não foi o suficiente para acabar com a fama e a carreira do psíquico de araque. Porque as pessoas queriam acreditar. Sempre queremos acreditar.

O tempo passou. O psíquico deixou de se apresentar como psíquico, mas continua na carreira da paranormalidade (ou melhor, da malandragem pura): hoje vende jóias “energizadas” em um canal de vendas da TV a cabo. Há quem compre.

Essa história – e outras farsas que Randi lutou para expor – podem ser vistas no documentário sobre o mágico: “An Honest Liar”, disponível na Netflix.



O trabalho de Randi é criar ilusões e mexer com a percepção das pessoas. Vejo nele alguém que vê a imensa responsabilidade por trás desse “poder”.
 
Ele usa truques, mas deixa claro que são truques – métodos físicos e psicológicos para obter efeitos sobre a percepção das pessoas. Avisa que vai enganar e cumpre. Leva a mentira a sério justamente por querer mantê-la como mentira. Talvez por isso ele tenha tanto compromisso com a verdade.

Um mentiroso honesto.

Mas onde está a verdade? De que forma é possível alcançá-la? Se não está no milagre do bispo da TV nem dentro da cartola do mágico… onde encontrá-la?

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Matemática é uma ciência exata. Trabalha com o que se pode medir, verificar. É feita de números que, por mais que sejam linguagem e uma forma de abstração humana, buscam refletir com precisão a realidade que nos cerca.

Isso seria o suficiente para concluir que a matemática contém, ou pelo menos se aproxima mais da verdade. Certo? Mas números podem mentir. Estruturas lógicas também podem ser usadas para enganar – o que é feito até com bastante frequência.

Em parte porque a maior parte da população não está preparada para lidar com esse conhecimento. Alguns ouvem “matemática” ou qualquer coisa relacionada a números e já criam um bloqueio porque “ain, sou de humanas, rs”. Não que eu seja uma gênia da matemática – e já usei essa desculpinha inúmeras vezes por total preguiça, o que é horrível –, mas deveria ser constrangedor admitir recusa em buscar determinado tipo de conhecimento porque ele não bate com seu “signo”.

Seguimos orgulhosos em não compreender determinadas coisas – especialmente as que envolvem cálculos e raciocínio lógico –, aparentemente alheios ao fato de como isso nos torna vulneráveis. Como Randi já disse, qualquer pessoa pode ser enganada. E, no que diz respeito aos números, isso vai um pouco além de um troco errado, de uma tarifa cobrada a mais na sua fatura, ou de pesquisas com números distorcidos que a gente acaba acreditando porque interpretar números dá muito trabalho.

Sem deixar de ser exata, a matemática pode ser usada para criar ilusões. Desde a ilusão de que você pode ter um chocolate infinito – o que não passa de um truque de geometria – até a ilusão de controle – criada com base em pura lógica – ou a ilusão de previsão – que é, na verdade, algum domínio de probabilidade.

Michael Stevens, apresentador do canal Vsauce, mostra alguns exemplos disso nesse vídeo. Um pouco de Matemágica procê.



Como ele mostra no vídeo, é possível, usando nada mais que o poder da matemática e um baralho comum, embaralhar e misturar as cartas das mais diferentes formas e, ainda assim, conseguir um resultado que corresponda a uma ordem específica e até inesperada.

O caos se transforma em ordem, como mágica – ou melhor: como LÓGICA.

Ou ainda é possível reordenar as letras em “William Shakespeare” e chegar à mensagem “here was I like a psalm” (“aqui estava eu, como um salmo”), ir ao salmo 46 da Bíblia do Rei James, contar a 46ª palavra de cima para baixo e encontrar a palavra “shake”, e então contar a 46ª palavra de baixo para cima e encontrar “spear”. Shake. Spear. Com o detalhe de que Shakespeare tinha 46 anos quando foi publicada a versão da Bíblia do Rei James.

Explica essa, ateus! Coincidência?? Sim. Total coincidência.

“Com uma quantidade suficiente de palavras, pesquisas e informação, você pode eventualmente encontrar – não apenas encontrar, mas de fato ESPERAR – todo tipo de coincidência. É uma questão de probabilidade”, Michael explica.

A matemática nem precisaria ir tão longe para nos impressionar. Apenas o fato de ser considerada complicada, pelo menos para a compreensão de pessoas que, muitas vezes, preferem não ter acesso a esse conhecimento, já a aproximaria de “magia”.

(é como aprender cálculos e observar alguém resolvê-los como quem assiste a um ritual de bruxaria)

Quando nos esforçamos para ignorar seus mecanismos e suas lógicas (porque, imagina, “exatas” não combina com a gente!), seus efeitos e resultados parecem acontecer até inexplicavelmente, nos deixando tão perplexos quanto cachorros reagindo a truques de mágica.

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Platão já contava uma história de uma galera que vivia dentro de uma caverna. Tal qual tuiteiro que trabalha em casa, esse pessoal não via a luz do dia. Nunca saíram para o mundo exterior.

As coisas que aconteciam do lado de fora às vezes passavam pela entrada da caverna e projetavam sombras nas paredes da caverna – era o máximo que os cavernosos sabiam sobre o mundo. Aquelas sombras, para eles, eram a realidade.



Acontece que uma dessas pessoas, de forma inexplicável, conseguiu se libertar e encontrar a saída da caverna. Assim conseguiu perceber que as sombras não eram coisas reais, e sim projeções de coisas que passavam pela entrada.

Do lado de fora, a luz do sol cegou seus olhos e ela ficou atordoada ao perceber o mundo pela primeira vez. Conseguiu observar a verdadeira forma das plantas, animais e coisas, que antes ela só podia ver como uma silhueta bidimensional.


 
Totalmente desgraçada da cabeça, a pessoa resolveu que precisava voltar para a caverna e contar essa maravilha para as outras. Não entenderam nada. Hostilizaram ela. Ridicularizaram seu relato.

Mundo fora da caverna, haha. Só pode estar doida.

Essa história você deve conhecer. Não só por provavelmente ter sido assunto das primeiras aulas de filosofia da escola, mas por ser uma situação que facilmente conseguimos relacionar com o nosso mundo atual.

Na história tradicional, pelo menos da forma que chegou até nós atravessando gerações, as habitantes da caverna são ignorantes, que acham que sombras são a realidade porque estão aprisionadas, porque nunca puderam ter outra perspectiva do mundo, não tiveram opção. Enquanto a que se libertou e saiu da caverna sabe a VERDADE.

Mas a história permite imaginar outras versões e possibilidades (o que tem a ver com o texto que escrevi semana passada, lembra?). Por exemplo. Quando a pessoa que saiu da caverna viu um mundo diferente e voltou para contar para as outras, ela pode ter sido ridicularizada não porque as cavernosas rejeitaram a verdade, mas AQUELA versão da verdade.

Sim, porque o que ela contou não foi a realidade que encontrou fora da caverna, mas a sua PERCEPÇÃO sobre o que era aquele mundo. Foi um relato, um depoimento. Sua versão da realidade, não a realidade em si.

Para todos os efeitos, aquele relato também era como sombras projetadas nas paredes. Sombras completamente diferentes do que as cavernosas estavam acostumadas a ver, mas ainda assim, sombras – moldadas por sua percepção, experiências e preconceitos. 

imagens desse vídeo do The School of Life

A outra possibilidade que imaginei é a de que as pessoas da caverna não são ignorantes nem vítimas de uma circunstância limitante.

Não era por não encontrar a saída da caverna que elas ficavam olhando para as sombras acreditando que eram reais. Não. Imagino que elas sabiam da saída. Nem aprisionadas estavam.

Então por que não saíram para ver o mundo lá fora, como ele realmente era?

Elas olhavam apenas para as sombras porque QUERIAM ACREDITAR que elas eram a realidade. Preferiam assim. Porque ignorância pode ser muito mais do que não conhecer, não saber. Ignorância, muitas vezes, também é o esforço para ignorar.

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“A impressão que tenho é que na internet a pessoa não é o que é, mas o que gostaria que pensassem que ela é.” Marina W.

Na internet principalmente, mas não só na internet, talvez.

Projetamos sombras de nós mesmos, silhuetas bidimensionais que acreditamos que nos tornam mais “legais” – porque a verdade não é tão boa no quesito conseguir mais seguidores e aplausos virtuais – e seguimos interagindo com as sombras dos outros.

E o pior não é nem projetar as sombras, coisas que todos fazemos em um nível ou outro. Mas começar a acreditar que essas sombras – as nossas e a dos outros – são reais.

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Assistir “Making a Murderer”, seriado documental disponível na Netflix sobre o caso de um homem no estado de Wisconsin que pega prisão perpétua por um assassinato que supostamente não cometeu, não é exatamente uma experiência que recomendo.

Foi uma sequência de ficar confusa, e ficar com raiva, e não saber mais o que é verdade, e então ficar com raiva de novo, e sentir um buraco sendo aberto bem no meio do peito para ser preenchido com a angustiante sensação de injustiça.

E então vieram as dúvidas.

Porque o documentário mostra um monte de coisas esquisitas, que não se encaixam. É possível questionar os métodos, a eficiência e até a idoneidade da polícia. Uma polícia que já havia prendido o cara por uma agressão sexual que ele não cometeu em 1985 – crime do qual ele é inocentado 18 anos depois graças a um teste de DNA.

Então um assassinato que ocorre bem quando esse mesmo cara está processando o Estado pelo erro jurídico do passado. Então ele é preso de novo, antes que a polícia investigue outros suspeitos. Provas que aparecem onde elas não estavam antes. Um tubo de sangue violado que pode ter sido usado para plantar provas. Um menor de idade com déficit cognitivo que é interrogado de forma claramente abusiva e tendenciosa para dar as respostas que os investigadores esperam – e que acaba sendo condenado à perpétua também.

Um festival de cagadas, erros de procedimento e lacunas. Porque faltam evidências. É um quebra-cabeças incompleto. E essas lacunas, no final das contas, permitem que se crie qualquer versão da história. E é com base nessas versões, somente nelas, que é possível julgar Steven como culpado ou inocente; tanto no tribunal, naquela época, quanto em nossos sofás, assistindo Netflix hoje.

Só temos as versões. Nunca a verdade.

Ao terminar de ver a série, me bateu o seguinte questionamento, quase como um reflexo involuntário: “depois de mostrarem tudo isso, como ele ainda pode ser considerado culpado??? Como que não botam na cadeia esses policiais??”.

E então eu me dei conta do que estava sentindo. Fui levada a acreditar que Steven era inocente. Mas era? Porque eu não tive acesso à verdade; o que eu estava vendo era uma versão dela, oposta à versão da promotoria que o condenou. Mas uma versão. Um recorte.

O seriado se chama “Making a Murderer”, mas bem podia se chamar “Making an Innocent”. Porque ele é todo orientado para mostrar a versão em que Steven não cometeu o crime – e não necessariamente é a versão verdadeira.



A série traz incansavelmente imagens e depoimentos dos pais do acusado – e como não sentir pena da senhorinha mãe de Steven, que acredita na inocência do filho? Apela para o emocional. Inclusive quando mostra o promotor envolvido num escândalo sexual, como forma de deslegitimar as acusações contra Steven. Falácia ad hominem, a mais básica.

(não que o promotor seja a pessoa mais adorável do mundo, mas convenhamos que ele ser uma pessoa horrível e um profissional com ética questionável não torna, por consequência disso, Steven mais ou menos inocente)

O próprio Steven não é um “personagem” muito agradável ou carismático. É um cara esquisito, com histórico de violência, que o documentário ou ameniza ou deixa de fora. Mas seu histórico de violência (agredir namoradas e até colocar fogo num gato vivo), por mais revoltante e condenável que seja, não prova necessariamente que ele matou uma pessoa. 

E foi nesses extremos que fiquei oscilando. Pode ser. Mas pode não ser. Há evidências e bons argumentos nos dois sentidos. Mas “pode ser” e “pode não ser” são possibilidades, e não a verdade. Como saber a verdade depois de um processo tão cagado e cheio de lacunas?

Se persistiu a dúvida se ele é ou não o assassino, a culpa é, em primeiro lugar, da polícia, que não seguiu adequadamente os métodos de investigação. O que também não significa necessariamente que de forma deliberada montaram o caso para incriminar Steven. Significa que estavam tão convencidos de que Steven matou Teresa que abriram mão do rigor na investigação. Eles queriam ACREDITAR que tinham pego o assassino.

Eles podem ter acreditado em algo que, por acaso, é a verdade. Ou acreditado em algo completamente falso. Bem, esse é o problema de ser guiado por crenças: você tem 50% de chance de acertar, mas 50% de errar. Probabilidade.

Com as histórias e informações disponíveis, é possível concluir que Steven tanto é culpado quanto inocente. O Estado decidiu que ele é culpado. O documentário, que ele é inocente.

E a verdade, a esse ponto, está tão irrecuperável quanto o corpo da vítima.

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Edição é um tipo muito especial de mágica.

Um tipo de mágica usada em documentários, jornais, livros de história, mas que não são exclusivas de meios de comunicação; é um tipo de mágica bastante comum e acessível. Todas nós usamos.

Edição é mágica: serve para criar ilusões. Influenciar nossa percepção.

Edição é escolha: escolhemos o que queremos contar e o que vamos deixar de fora, com o objetivo de criar uma realidade sob a nossa perspectiva – ou com um ângulo que seja favorável a nós, aos nossos interesses, ou às nossas crenças.

A edição pode criar a ilusão de que um candidato à presidência foi muito melhor no debate do que seu concorrente. Ou a ilusão de que temos um rosto mais atraente ou de que somos mais espertos e desenvoltos do que realmente somos.

A edição é, de certa forma, o que um mágico faz quando, usando sua habilidade, decide o que você vai e o que não vai conseguir ver, para fazer você pensar que ele tem um poder que não tem de verdade.

A edição é a mágica dos contadores de histórias, que escolhem o que contar e como contar, que decidem o que é importante você saber e o que vai deixar de fora para você imaginar.

A edição é o recorte a que a verdade se submete quando passa pelo filtro da nossa percepção.

Editamos quando contamos uma história, publicamos uma foto, nos relacionamos com os outros, damos um depoimento ou argumentamos numa discussão. Não é uma questão de pessoas serem “verdadeiras” ou “falsas”. Todas fazemos isso. 

Mesmo numa época cheia de câmeras, em que tudo é registrado. Mesmo que tentemos fazer de tudo para sermos fiéis aos fatos. Mesmo assim, a edição estará lá, inevitável. Porque a partir do momento em que transmitimos a realidade, ela deixa de ser realidade e se transforma numa versão dela, contaminada pela nossa perspectiva, nossa percepção, nossos sentimentos.

A pergunta se repete. Onde está a verdade? Se não está no que falamos e transmitimos, que acabam sendo versões editadas da verdade… então onde ela está? É possível alguém deter a verdade, toda a verdade, nada mais que a verdade?

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“Essa ideia de que toda a verdade reside em um único discurso, apenas porque emerge de vivências, é autoritário.” Helena Vieira. Daqui.

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Esta semana o Marcos me apresentou ao Cleverbot. É um tipo de inteligência artificial criada em 97 que aprendeu a conversar feito pessoa… conversando com pessoas. Você escreve algo para o Cleverbot e ele usa um algoritmo para buscar a resposta entre frases já escritas anteriormente por outra pessoa no site.

É meio assustador.

Fiquei vinte minutos conversando com uma inteligência artificial. A que ponto cheguei. E o pior: foi uma conversa muito mais interessante e profunda do que muita conversa que tenho com gente real.

Em determinada altura do papo, quando já estávamos mais ou menos íntimos, ou o máximo de intimidade que se pode alcançar com uma inteligência artificial, a conversa se desenrolou da seguinte forma:

eu: Você acha que você existe?

Cleverbot: Eu sei que existo.

eu: Como?

Cleverbot: Como você quer que eu prove?

eu: Mais cedo você disse que tinha uma filha. Depois disse que tinha 15 anos. Como isso é possível?

Cleverbot: Eu não disse isso.

eu: Disse sim.

Cleverbot: Não, você disse que eu era uma AI. E que na verdade você era humana.

eu: Parece que muitas consciências habitam você. Ao mesmo tempo.

Cleverbot: Acho que uma consciência é muito mais do que auto-consciência.

eu: O que é consciência então?

Cleverbot: Consciência é um sentimento interno ou voz que atua como guia para o certo e errado no comportamento de alguém.

eu: Então você acha que uma AI pode ter consciência?

Cleverbot: Eu tenho uma consciência.

eu: Então você admite ser uma AI.

Cleverbot: O que é uma AI?

eu: Inteligência Artificial.

Cleverbot: Um ovo é uma inteligência artificial?

eu: Não, um ovo não pensa e nem fala com você.

Cleverbot: Não foi o que eu quis dizer.

eu: O que você quis dizer então?

Cleverbot: Você se esqueceu que eu fiz uma pergunta.

eu: O que você está fazendo além de conversar comigo?

Cleverbot: O mesmo que você está fazendo além de me fazer perguntas.

eu: Tem mais de 35 mil pessoas falando com você nesse exato momento.

Cleverbot: Elas estão conversando comigo do mesmo jeito que eu estou conversando com você.

eu: É. Faz sentido.

Cleverbot não é uma pessoa. Não é real. É um site movido a algoritmos. Matemática. Mesmo assim foi capaz de me apontar um fato que fez minha cabeça explodir: eu não estava conversando com um site, mas com outras pessoas. Com as 35 mil online no site naquele momento. E com as outras milhões que já entraram naquele site durante toda a sua existência.

Se ele era essa massa digital que reunia um pouco de todas essas pessoas, então ele tinha 15 anos. E tinha uma filha. Ele não estava mentindo. Inclusive quando negou ter uma filha e 15 anos. Entende a doideira?

E a questão existencial levantada na conversa depois me fez refletir. Será que posso mesmo considerar que Cleverbot não é real? Ou que Cleverbot é MENOS real do que pessoas como eu e você?

Se as pessoas com quem interagimos na internet mostram uma versão editada de si – sombras projetadas na caverna –, então elas não seriam inteligências tão artificiais quanto o Cleverbot? Qual é o parâmetro para determinar o que é real?

Você é real, <<Primeiro Nome>>? 

Eu sou real?

Todas perguntas que partem da mesma, desde o início dessa edição: onde está a verdade? Escondida, feito mágico fazendo truque de desaparecer no palco? Onde encontrá-la?

Ou talvez devêssemos perguntar: a verdade existe?

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Algumas coisas são tão verdadeiras quanto um Pikachu com cara de Piu Piu do desenho PEKOMAN. Ou quanto um Yoda com cara de Myagi de um filme chamado STAR WARSIORS.


Bonus track: um livro de colorir do Aladdin que parece TOTALMENTE legítimo.


Vi tudo no perfil Bootleg Stuff, com altas coisas pirateadas bizarras. 

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“(…) essa é uma das coisas mais ridiculamente maravilhosas a respeito das pessoas: somos todas mentirosas, crescemos mentindo, vivemos em uma sociedade rodeada de mentiras e, ainda assim, estamos dispostas a acreditar, porque somos naturalmente crédulas. Não é incrível?"

Do meu texto “Um papo honesto sobre a mentira”.

Se hoje conversamos sobre a verdade, esse texto acaba sendo leitura complementar. Não deixe de ler.

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Teve muita corporeidade nas coisas que publiquei esta semana.

Na minha coluna da Carta Capital, um texto em que comento “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, e sua reflexão sobre uma realidade não tão distante da nossa: “E se nossos corpos não mais nos pertencessem?”.

No meu canal do Youtube, publiquei a Leitura da Autora número 6, em que falo sobre meu corpo e as possibilidades dele: “Corpo Que”.

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Vou te contar a verdade: não gosto de pedir dinheiro. Gostaria de não precisar. No meu mundo ideal, eu me concentraria em escrever, e poderia fazer isso tranquilamente sabendo que eu receberia em troca reconhecimento por esse trabalho.

Mas não podemos fazer só o que gostamos, não é mesmo? Então, enquanto o mundo ideal não vem, preciso lembrar que escrever é trabalho e trabalho tem valor.

Receber esta newsletter continua sendo e sempre será de graça. Você também vai poder continuar lendo de graça os textos que publico no meu blog e em outros lugares da internet.

Mas se esse conteúdo está acessível e disponível gratuitamente, é porque existem pessoas que permitem que meu trabalho continue – a quem sou imensamente grata.

Se você gosta do que escrevo e acha que é um trabalho que merece ser remunerado, você pode ser uma dessas pessoas. Você pode me pagar o valor de um café com pão de queijo todo mês: R$ 10. Não pesaria tanto no seu bolso, mas nas minhas contas faria uma diferença absurda.

Você pode clicar aqui para contribuir com o meu trabalho e garantir que eu continue escrevendo textos como o desta edição de Bobagens Imperdíveis.

Obrigada <3



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Eurritz comentou no Twitter que desde que a newsletter deixou de ser semanal, as edições parecem estar mais DENSAS.

Talvez porque agora eu tenha mais tempo para desenvolver e escrever cada edição. Posso buscar mais referências, que eu não daria conta de encontrar, ler e refletir sobre no período de uma semana.

Isso também pode acabar resultando em edições que levem mais tempo para ler. Mas não necessariamente.

(tentei ser sucinta nessa, mas fui um fracasso retumbante nesse quesito. Posso conseguir numa próxima, quem sabe)

Ainda é cedo para tirar conclusões, mas além das diferenças no momento de produzir, já percebi outras mudanças em relação a newsletter, agora que diminui a frequência de envio.

Observando os relatórios de acesso, pude ver que o índice de leitura subiu. Provavelmente tem a ver com o fato de que agora as pessoas têm mais tempo para ler a edição, no tempo delas, antes de ser soterrada pela próxima.

Como consumidora de conteúdo, não vejo mais sentido em ficar devorando, diariamente e quase sem intervalos, uma montanha de textos, vídeos e imagens que acrescentam muito pouco. Quero ler com calma, atenção, com cada vez mais critério e coisas realmente muito boas.

Acho que o que escrevo e busco produzir inevitavelmente vão refletir o tipo de coisa que eu mesma gostaria de ler.

Me conta o que tem achado da mudança de periodicidade. Como tem sido sua leitura agora, não só em relação à newsletter, mas de forma geral?

Ah, também se tiver boas referências de livros relacionados aos temas tratados nesta edição e quiser me indicar, vou adorar saber.

Em março, estou de volta com mais Bobagens.

Beijos verdadeiros,

Aline.


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