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Voltamos logo após os comerciais!

O Fabuloso Mundo da Publicidade

Cortem as cabeças, o gerente ficou maluco!



Há, não muito distante daqui, um reino com uma lógica bastante diferente, onde até as leis da Física podem ser suspensas se for o caso de fazer as vendas de sabão em pó aumentarem.

Neste reino, não há fronteiras para a imaginação; apesar de seus espaços serem bem apertadinhos, o que faz as ideias terem que se espremer em trinta segundos, num tuíte ou numa página de revista, quase com a mesma sofreguidão com que trabalhadores se apertam no metrô na hora do rush.

Este é o fabuloso Mundo da Publicidade; um mundo de cores vibrantes, oportunidades imperdíveis, de gente bonita e satisfeita, onde tudo reluz: as embalagens, os sorrisos, as fachadas das lojas, os cabelos, os sanduíches, até os sovacos reluzem.

É verdade que a vizinhança é um pouco barulhenta. É cada um gritando mais alto que o outro e explodindo coisas para chamar sua atenção. Ou pulando na sua cara quando você só está ali de boa tentando ler uma notícia. É verdade que eles podem ser tão inconvenientes quanto um testemunha de Jeová num sábado de manhã ou quanto ativistas do Greenpeace na Avenida Paulista; mas veja, eles só estão pensando no seu bem e garantindo que você não perca a maravilhosa redução do IPI!

Então relaxe os ombros e permita que eu seja seu Willy Wonka no passeio que faremos por este fantástico mundo. Talvez você estranhe algumas coisas, mas é normal. Afinal, este mundo é feito de matéria extraída da cabeça dos maiores gênios criativos de nossos tempos que, para a nossa sorte, estão empenhados em traduzir a essência da humanidade não em livros, canções, invenções ou descobertas; mas na próxima grande ação publicitária que vai viralizar na internet.


No fabuloso Mundo da Publicidade, as pessoas que usam óculos não têm cara de gente que usa óculos. Na verdade, os óculos parecem tão deslocados e estranhos sobre aqueles rostos que é quase como se tivessem sido plantados ali digitalmente.

No maravilhoso Mundo da Publicidade, mesmo depois de usar um lenço demaquilante, você continua maquiada. Uau, incrível, não?

Neste mundo fantástico, os shampoos funcionam como a magia de transformação da Sailor Moon, passando por cada fio do seu cabelo e deixando aqueles tubos mais escamosos que um lagarto com a textura lisa e reluzente de um metal polido.

No encantador Mundo da Publicidade, alguns produtos têm o mesmo efeito da poção do amor do Harry Potter: qualquer homem sem graça pode ficar irresistível se usar o desodorante certo. Ou uma pasta de dentes. Ou uma cerveja. Ou um carro. Ou até um curso de inglês, se a gata em questão for gringa.

Não é demais? Aliás, em qual outro mundo você poderia receber a inesperada visita do Tony Ramos para fiscalizar se a carne que você usou no almoço é de qualidade? Ou abrir a geladeira e encontrar lá dentro uma população liliputiana de taradinhos gregos?

As queridíssimas habitantes desse mundo, as “marcas”, são as melhores amigas que você pode desejar ter. Elas até usam Twitter como se fossem adolescentes super antenadas!

Só no amável Mundo da Publicidade os bancos são seus amigos ♥︎

No sensacional, impagável, carismático, impressionante Mundo da Publicidade, os adjetivos fazem a festa e circulam livremente, sem coleira nem focinheira, embora às vezes deixem cocô na calçada – mas com aquele cheirinho indispensável, inconfundível, exclusivo, irresistível!


Lá você também poderá ouvir “piada com seu dinheiro? Nunca”, e terá certeza de que foi algo bastante honesto, que saiu do fundo do coração, porque dinheiro ali é mesmo coisa sagrada. Enquanto isso, divirta-se, se puder, com as piadas que tiram um sarro maneiro de mulher, de gorda, de negros, enfim, de tudo que não é dinheiro.

Aliás, no Mundo da Publicidade, os homens são os verdadeiros oprimidos – pois sofrem com mulheres tiranas que não os deixam se divertir com os amigos ou admirar aquela gostosa na praia se abanando com um par de Havaianas.

No Mundo da Publicidade, você vai ver muitas mulheres lindas andando de um lado para o outro. Mas elas não dirigem carros (a não ser que estejam paradas no trânsito tendo uma crise de diarreia), não bebem cerveja, elas sequer menstruam. Ei, mas não ache que mulher não tem vez nesse mundo. Lá, elas são protagonistas se o negócio é esfregar privada, lavar roupa lambuzada de terra e cozinhar para a família inteira.

Você também vai ver muitas pessoas brancas, é melhor ir se acostumando. No Mundo da Publicidade, pessoas negras não usam pasta de dentes, não compram carros, não tomam iogurte. Mas isso tem explicação científica. Nas leis da genética publicitária, pessoas negras são mais raras do que as ruivas!

No Mundo da Publicidade, se você não gostou de algo, é porque você não entendeu. Ou porque você não é “o público”. Então segue em frente, colega, certeza que você encontrará algo que te fará sorrir.

Você pode ser a pessoa privilegiada que vai participar de uma ação genial, tipo genial mesmo, que vai expor meia dúzia de pessoas a uma situação completamente “fora da caixinha”, que BUM vai explodir sua cabeça de tanta sagacidade, e tudo será gravado em vídeo para virar um puta “case” que vai faturar os prêmios mais importantes do Mundo da Publicidade – e nem vai precisar ter sido veiculada de verdade! Esses caras são gênios, tô te falando.

Não, não estou sendo irônica, <<Primeiro Nome>>. É invejável a capacidade desse mundo de levar a imaginação ao extremo, de não ter medo de parecer ridículo, sem sentido ou completamente maluco. Acho que a ficção tem muito a aprender com a propaganda. Sério.

Por exemplo, esta obra tão surreal que deixaria até Dalí constrangido por não ter feito algo igual. Quem mais pensaria em meter a cabeça do Messi num cubo de acrílico onde seria submetido às mais loucas torturas, como receber lufadas de vento gelado, sol excruciante na cara e até ser estapeado com um pedaço de gramado – tudo para, no fim, fazer a barba e mostrar como o rosto dele fica bem, bem… barbeado? É praticamente uma performance da Marina Abramovic.

Como é bom visitar esse mundo. Sim, é revigorante. Porque o Mundo da Publicidade está aí para nos mostrar que a noção que temos de non sense pode sempre ganhar novas definições. E, de quebra, ainda vender coisas que a gente não precisa – mas que, no fundo, sempre quis ter.

Ah, o machismo na publicidade


E como não falar das propagandas machistas que constantemente agridem nossa inteligência, nossa autoestima e nosso estômago com asquerosos clichês e piadas ofensivas?

No Escritório Feminista, publiquei o texto “Sua propaganda vende machismo, não produtos”, que faz um pequeno retrospecto das merdas que já vimos este ano (spoiler: muitas, e ainda estamos em março) e revela o que essas propagandas estão realmente vendendo. Uma dica: não é cerveja, nem esmalte, nem sopa instantânea.

Um trecho:

"Talvez porque os produtos anunciados sejam tão ruins e/ou o repertório criativo dos publicitários envolvidos seja tão fraco que precisem recorrer a um sistema já consolidado, que possui seu próprio repertório de clichês, estereótipos e piadas ofensivas, para tentar causar alguma reação nas pessoas baseando-se no fato de que o machismo é a mentalidade padrão da sociedade."

Aprofundo a questão desse texto na Carta Capital com um texto que publiquei no meu próprio blog. Os textos se completam.

Em “Por que a publicidade não gosta das mulheres”, conto a minha experiência em agências de publicidade – não sei se eu já tinha te contado, mas sim, eu já trabalhei como redatora publicitária.

Não foram poucas as situações de machismo que vivi e presenciei. Inclusive, tive que deixar algumas de fora ou o texto ficaria infinito. E isso apenas da perspectiva de alguém que trabalhou na criação; imagino quantas outras histórias já foram vivenciadas por colegas do atendimento, produção, planejamento.

Um trecho:

"Era preciso levar as ‘brincadeiras' na esportiva. Funcionava mais ou menos como uma prova de resistência do Big Brother: se você queria manter seu espaço na criação, precisava aguentar com bom humor as ‘piadas' dos colegas ‘irreverentes' que, pô, só estavam mostrando que te viam como um ‘cara', como 'um deles' ao te dirigir as piores ofensas. Era preciso mostrar que você não se importava ou uma condição de trabalho que já era difícil se tornaria insuportável."

Não é com a intenção de desmotivar as mulheres que trabalham ou pretendem trabalhar com propaganda que escrevi este texto. A realidade já é desmotivadora por si só. A boa notícia é que agora o assunto está em pauta e as publicitárias têm ajudado a levar a discussão de gênero para dentro do mercado – e assim, quem sabe, ajudar a torná-lo menos hostil para as mulheres.

O objetivo da “big idea” que os publicitários tanto perseguem é que a criação deles vire assunto entre as pessoas; mas quando a publicidade finalmente está no centro das discussões, eles parecem fugir da responsabilidade, fazer a egípcia, passar por cima como se não fosse com eles.

O momento é uma grande oportunidade para que os publiças parem, pensem no que estão fazendo e revejam seus conceitos. Está na hora de parar de achar que eles são protagonistas da série Mad Men e vir dar uma voltinha no século XXI, em que o mundo está dando uma baita guinada feminista – e quem ainda se apega a velhos conceitos de ódio às mulheres vai ficar pra trás.


A Think Eva fez um vídeo muito bom para atualizar essa galera que ainda acha que mulher é idiota e/ou objeto sexual. É um grande momento para ser mulher: não somos um “nicho” de mercado, nós somos “o” mercado. 

Bora acordar pra realidade, galera da comunicação.

(aliás, sempre que leio “Think Eva” eu canto mentalmente “minha pequena Eva, Evaaaa, o nosso amor na última astronave”, socorro)

***

Interessante observar 2 coisas com o texto que publiquei sobre machismo nas agências: amigas publicitárias dizendo o quanto se identificaram e levantando outras questões para debate. Amigos publicitários ficando caladinhos. Interessante.

Aliás, poucos homens no geral comentaram e divulgaram esse texto. Por que será, né, fico aqui me perguntando.

Blog novo



Você viu que esta semana lancei a versão 2015 vitaminada e bonitona do meu blog, <<Primeiro Nome>>? 

Se você não clicou no link do meu texto acima, então clica aqui, ó.

Mais do que um visual novo, o blog agora traz como novidade uma experiência mais focada na leitura – afinal, o texto é o que importa.

Agora fica mais fácil descobrir e redescobrir meus textos! Uma novidade que eu preparei para você são as Coleções: você pode navegar pelas ondas loucas dos meus textos escolhendo o tema que mais te apetece: mais populares, gatos, feminismo, corpo, etc.

Eu ainda estou arrumando muita coisa, mas vou adorar receber a sua visita!

Pode explorar à vontade, aproprie-se, sinta-se em casa. Depois me diga o que achou, se viu algum problema, etc :)

No dia em que anunciei a novidade, o site caiu na hora, é mole? Tive que organizar fila indiana para as pessoas conseguirem entrar no novo sitey, mas agora parece zuzo bem.

E se consegui colocar no ar essa belezura, tenho que agradecer primeiramente ao Marcos Felipe, que me ajudou a segurar esse forninho, fez a parte complicada do trabalho, contribuiu com seu bom gosto e me deu todo o suporte que você imaginar nesse delicado momento de digievolução do meu blog. É um privilégio enorme poder contar com a presença dessa pessoa na minha vida ♡

O blog novo, assim como tudo que escrevo, também só são coisas possíveis porque tem uma turminha muito firmeza me apoiando: são meus assinantes pagos, que fazem contribuições voluntárias todo mês para que eu consiga realizar as minhas coisas ♡

Melhorar meu blog foi um negócio que me custou (e está custando) muito dinheiro e trabalho. Então, quando você ler um texto meu ou olhar para esse layout bonitão, você estará olhando, na verdade, para a generosidade dessas pessoas maravilhosas. Não é força de expressão quando digo que não seria possível sem elas. É a mais pura verdade.

Saiba como financiar o meu trabalho aqui.

Espero que goste da novidade e continue comigo; estou animadíssima para essa nova temporada do meu blog.

Nas edições passadas

 



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Céus, que semana complicada! Nem consegui responder os e-mails da semana passada, pelo que já peço desculpas se te deixei esperando por alguma resposta. Mas tenho a próxima semana pela frente para colocar em ordem os e-mails, a vida e tudo o mais :)

E antes que a gente se despeça, é bom eu dizer que eu não odeio a publicidade. Nada contra publicitários, tenho até (muitos) amigos que são. Até porque odiar a publicidade é fácil, difícil é fazer melhor (imaginei algum diretor de criação dizendo isso, he).

Há muito valor em saber como fazer as outras pessoas se encantarem por algo. A publicidade, essencialmente, não é maligna. Nenhuma ferramenta já inventada pela humanidade é essencialmente maligna.

O problema não é sempre o uso que fazemos das coisas? Pois é. Vale pra ciência, pra internet, até pra publicidade. 

E para todas as outras coisas, existe Mastercard.
 
Beijos publicitários,
 
Aline.
 
 
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