Copy
Leia na sua posição confortável favorita.

 
É noite, está friozinho lá fora, tem uma série que você ama esperando por você na Netflix, você pega seu cobertor, deita no sofá e encontra um encaixe perfeito, as costas sendo abraçadas pelas almofadas, até a caneca de chá está na temperatura perfeita entre suas mãos e você tem aquela sensação meio cósmica meio transcendental de que nunca mais vai achar aquela posição novamente. 
 
Ou é início de tarde num final de semana, logo após um almoço caprichado, suas pálpebras começam a pesar e lentamente se acomodam, quentinhas e molhadas, sobre seus olhos. Você deita numa rede na varanda, a quantidade de calor ideal chegando até sua pele por uma brisa suave que faz a rede balançar milimetricamente, o suficiente para você se equilibrar entre o mundo desperto e o dos sonhos, de onde você decide que não quer mais sair.
 
Você já passou por isso? Eu já.
 
Encontrar a posição perfeita, no entanto, é mais do que a arte de se encostar ou deitar de uma forma particularmente confortável, é um estilo de vida, é uma busca por um mundo onde a gente tenha conforto e controle, onde nada de desagradável possa nos atingir.
 
Essa zona de conforto é quentinha, acolhedora, um abraço de mãe, um “shiu, vai ficar tudo bem”, um refúgio seguro, o mundo mágico onde tudo acontece conforme nossa previsão, onde nossos poderes funcionam, onde conhecemos os atalhos, os caminhos, as manhas para ganhar mais recompensas e vencer o chefão sem perder life.
 
O lado de fora da zona de conforto é trevas, incerteza, é a ventania na cara, é um ônibus que a gente não sabe onde passa, é um manual de instruções escrito em chinês, é um lance de dados, é o caminho que muda, é um faroeste sem lei, é o som da manada de búfalos se aproximando mas que a gente não sabe por qual lado vai nos atropelar.
 
Então é lógico que a zona de conforto é muito mais atraente. O problema é um só: para continuar na zona de conforto, é preciso ficar imóvel, bem paradinho, não se mexer. Porque a zona de conforto é um espaço muito pequeno e de equilíbrio muito delicado. É como a posição perfeita que a gente arruma no sofá; se outra pessoa pede espaço pra ela sentar também, você tem que se mexer e aquilo ARRUINA o conforto ideal que você estava mantendo.
 
Uma coisa que percebi esses dias é que a zona de conforto é um espaço limitado, mas também tem uma data de validade: depois de determinado tempo ali dentro, ela simplesmente te empurra para fora, te cospe, te força a sair. Mesmo que seja algo que a gente busque, a zona de conforto não é um estado permanente. Você tem que se mexer, afinal!
 
Eu fico apavorada todas as vezes que preciso sair da minha zona de conforto. Às vezes significa enfrentar uma situação nova, fazer um tipo de trabalho que não estou acostumada ou que nunca fiz, ter que trabalhar com várias coisas ao mesmo tempo, estar em qualquer situação em que eu tenha interagir com muita gente ou com pessoas que não conheço, precisar enfrentar algo sozinha. Então, sempre que eu saio da zona de conforto, a minha forma de superar aquilo é pensar no depois: em como vai ser bom quando tudo acabar, que eu vou ficar bem depois que entregar, que tudo vai voltar ao normal depois que eu passar por aquilo.
 
Se a zona de conforto não é um estado permanente, o desconforto também não. Uma hora você precisa superar, passar por aquilo, encontrar meios de não ser arrasado por quaisquer que sejam as situações adversas que esperam por você do lado de fora.
 
Essa semana entrei em desespero por não saber o que fazer numa dessas situações; tudo resolveu acontecer ao mesmo tempo para entrar em rota de colisão contra a minha cara. Pensei: fodeu. Não vou conseguir. Fim de jogo. Game over.
 
Mas era só mais uma de tantas situações que já enfrentei em que precisei mostrar do que eu sou feita. Li há um tempo uma frase que dizia que a água fervente faz a batata amolecer e o ovo endurecer; o que faz diferença não são as condições que a gente enfrenta, mas aquilo do que somos feitos. E, pra continuar no campo das metáforas culinárias, já diria a grande Jiang em um momento de pressão da cozinha: “chorar não adianta”. 
 
Então larguei o choro e o ranger de dentes e arrumei um jeito de sair da situação, de pensar no que fazer, de conseguir me virar para superar aquilo, ainda que estivesse tendo que atuar num território desconhecido, em condições que exigiam tanto de mim. E passou. Porque nem as incertezas e a pauleira do lado de fora duram para sempre.
 
A zona de conforto nos expulsa para a gente poder se mexer; a zona de desconforto nos empurra para podermos crescer.
 
Então de repente percebo que eu não precisava ter escrito nada disso. Que tinha uma forma muito mais simples de entender, que esteve o tempo todo na minha frente, na forma de dois gatos preguiçosos.
 
Enquanto escrevo, observo os gatos deitados na sala, em uma posição perfeita debaixo do sol, com a cabeça posicionada na sombra, o corpo estirado em uma deliciosa soneca. Mas o sol se move pela sala e, em alguns minutos, o corpo do gato já está novamente na sombra. A posição que era perfeita num instante se transformou no desconforto de um piso frio. O que ele faz? Levanta, se mexe, vai atrás do sol. Avalia a situação, procura uma nova posição, se adapta e se encaixa. E então ele se encosta novamente, coberto pelo sol, com uma carinha satisfeita de quem diz “eu consegui”.
 
Ninguém melhor para entender de zona de conforto do que os gatos.
 
•••
 
Saí do cinema chorando, a cara toda molhada, o nariz vermelho. Eu não lembro de um filme que tenha me causado isso antes do “Que Horas Ela Volta?”, dirigido por Anna Muylaert e protagonizado por Regina Casé.
 
Escrevi sobre o filme e por que ele me tocou tanto lá no blog, no texto Quase da Família. Já vou avisando: está cheio de spoilers. Então se você anda não viu o filme, favorita pra ler depois. Aliás, se você ainda não viu o filme, só digo uma coisa: veja logo. Você não vai se arrepender. Só não deixe de levar lencinho.

 
•••
 
Outro dia, peguei no sono no meio de uma conversa com o Marcos aqui em casa. Não foi a primeira vez. Na real, ele está super acostumado a me ver adormecer, no meio de um filme ou enquanto fala comigo. Então ele nem fica ofendido, chateado, nem nada do tipo. Tá tudo bem.
 
Não é que a conversa esteja chata (pelo contrário até!) ou que eu seja narcoléptica (pelo menos acho que não); é que o sono vem tão gostosinho que eu simplesmente me entrego.
 
Minha mãe costumava resmungar quando eu pegava no sono (apagava) na frente dela, quando eu era mais nova. “Affe, você simplesmente se rende ao sono, como é que pode”. Como se o sono fosse um assaltante e eu precisasse resistir a ele com todas as forças (o que também não seria uma boa ideia). Ela falava isso, mas lá estava ela dormindo sentada, de boca aberta, no primeiro descuido.
 
Aí fiquei pensando sobre isso de “se render” ao sono. Na situação que isso acontece. Com quem acontece. Então pensa aqui comigo:
 
Acho que você só pode dizer que realmente tem intimidade com uma pessoa se você já dormiu enquanto conversava com ela, e nem você nem ela se importaram com isso.
 
Porque se você não tem intimidade e isso acontece pode rolar um climão. A pessoa pode ficar brava e você sentir aquele constrangimento básico.
 
Mas se há intimidade, tudo bem, não tem problema. Faz sentido?
 
Não deve ser por acaso que as pessoas da minha lista de “já dormi na sua cara e não teve problema” sejam as mesmas da minha lista de “pessoas mais próximas ever”: meus pais, meus irmãos, o Marcos, e um casal de amigos (que sempre que vou na casa deles, ou um deles apaga, mais provavelmente o Ícaro, ou eu apago).
 
Dormir na frente dessas pessoas não é um desrespeito, uma falta de consideração ou de interesse, mas um gesto de “caras, confio tanto em vocês, sua presença me faz sentir tão confortável e segura, que até me bateu um soninho gostoso e zzZzZZzZ”.
 
Com quantas pessoas você pode ter esse tipo de intimidade? Aposto que não muitas.
 
•••
 
Infográfico maravilhoso com a história das cores, e como elas foram descobertas e usadas desde a pré-história até a época moderna (clique para ver maior). Acho que vale gastar uns minutinhos vendo isso.
 
 
 
Pra quem não manja muito inglês ou pra quem não pode ver as figuras, é mais ou menos isso:
 
Marrom terra suja; vermelho ocre (terra vermelha com ferro); preto carbono (ou: coisas queimadas. Queime um bife e você vai ter mais ou menos isso); amarelo ocre (a mesma coisa que o vermelho ocre, só que em amarelo); branco giz (ou: isso mesmo, pó de giz); malaquita (um verde claro obtido por minério de cobre moído); orpiment (um mineral amarelo que continha arsênico); azurita (um azul obtido do minério de cobre moído); azul egípcio (esquecemos por um bom tempo como fazer essa cor até a queda do Império Romano); rosalgar (um sulfureto de arsênico de cor vermelha. As pessoas morriam com essa tinta, provavelmente); alvaiade (ou: branco chumbo. Brilhante, ensolarado, durável e ai-que-tóxico); verdete (um verde obtido através de um complexo processo envolvendo vinho e louça suja); sépia (ou: esguicho de tinta de polvo); vermillion (ou: cinnabar. Um vermelho feito com muito mercúrio); garança (feito das raízes da planta garança. Depois passou a ser mundialmente conhecida como a cor das calças dos militares franceses); púrpura de Tiro (um roxo extraído de conchas de caramujo, para uso exclusivo do imperador romano); ultramarino (um azul escuro obtido do esmagamento de pedras preciosas afegãs); amarelo Napes (ótimo para pintar a luz do sol e conseguir uma intoxicação por chumbo); marrom Van Dyke (feito de turfa. Sem relação com Dick Van Dyke, que eu saiba); smalt (ou: vidros coloridos de azul por ácido de cobalto); carmim (ou: milhares de besouros fervidos); amarelo indiano (supostamente feito de uma super especial urina de vaca); indigo (produto exlcusivo da Companhia Britânica das Índias Orientais); gamboge (ou: amarelo vibrante de resina de árvore leste asiática); azul verditer (pigmento sintético feito predominantemente de cobre); marrom múmia (cor de múmia moída, aparentemente feita de bons tons de carne fresca mumificada); azure (palavra em árabe para um lugar na Pérsia que tinha uma grande variedade de mineral azul); azul prussiano (primeiro sintetizado em Berlin, em 1706. Muito mais barato que o Ultramarine, então todos amaram); verde cobalto (criado na Suécia em 1780); amarelo cromo (feito de crômio. Depois, os caras perceberam que dava para usar o crômio para fazer ligas super brilhantes, e então a Art Deco aconteceu); viridian (ou: óxido de cromo desidratado. Um verde inventado em 1859); ultramarino francês (finalmente, um azul ultramarino que não era feito de pedras preciosas!); verde Scheele (muito popular, até começar a matar as pessoas); branco zinco (muito menos mortal que o branco chumbo. Foi vendido como “branco chinês”, porque a China estava muito na moda aquele ano); mauveína (corante sintético. Um roxo que não foi feito com lesmas!); magenta (a cor recebeu esse nome por causa de uma batalha na segunda guerra italiana por independência); verde esmeralda (eventualmente foi usada como veneno de rato); azul anis (feito quando alguém errou a receita do magenta); alizarina (elemento químico responsável pelo vermelho garança. Foi o primeiro pigmento natural a ser copiado sinteticamente); indigo sintético (quebrou o monopólio britânico sobre o indigo e rendeu a Adolf Von Bayer um prêmio Nobel).
 
•••
 
Ainda sobre cores:
 
Pesquisadores descobriram que “azul” foi a última cor a aparecer em cada linguagem humana, o que sugere, portanto, que nossos ancestrais não conseguiam ver o azul. Isso pode ter acontecido porque azul tende a ser uma cor artificial, não é comum encontrá-la na natureza.
 
Mas e o céu? E o mar? Analisando antigos textos sagrados, em que há muitas referências ao céu, não conseguiram encontrar nenhuma menção à cor dele. Em Odisséia, uma história que se passa no mar, Homero descreve com detalhes roupas, animais, objetos, usando um bocado de vezes referências a cores como verde, amarelo e vermelho, mas o azul passa longe de ser lembrado. Talvez porque não fosse percebido.
 
Os antigos egípcios foram os primeiros a descrever a cor, também porque foram os primeiros a criar a tinta azul. Leia mais aqui.
 
Se algo não existe em forma de palavra, é quase como se não existisse at all.
 
Palavras moldam nossa percepção, mas aparentemente os sentimentos também. Outros estudos relacionam a depressão com a capacidade reduzida de perceber algumas cores. A depressão interfere na sensibilidade de contraste, fazendo a pessoa não conseguir distinguir entre diferentes níveis de luz e cor.
 
E, nos testes, adivinha qual a cor as pessoas tristes tiveram mais dificuldade de perceber? O azul.
 
“Humor e emoção podem influenciar como percebemos o mundo à nossa volta”, você pode ler tudo aqui, nesse texto.
 
Ah, lembrei de um exercício mind-blowing de percepção que dei para meus alunos alguns anos atrás quando dei aula de desenho. Coloquei diante deles uma folha com várias palavras escritas em cores diferentes, e pedi para que eles dissessem pra mim, EM VOZ ALTA, qual era a COR da palavra que eu estava apontando (o mais rápido possível). Era divertido ver os alunos se embaralhando. Quer tentar?
 
 
A forma que a gente percebe as coisas é realmente impressionante.
 
•••


A organização Plan Internacional está promovendo no Brasil uma campanha sobre a conscientização sobre a violência sexual contra meninas. Um dos fatores que torna esse problema tão grave é o silêncio que ronda o tema e que impede que esse ciclo de violência se rompa.
 
Eles organizaram uma cartilha com várias informações que chamam a atenção para a importância de identificar uma situação de abuso e de denunciar a violência, de forma a garantir a proteção dessas crianças e jovens.
 
Por exemplo, a cartilha conta que em 67% dos casos de violência sexual contra crianças, o agressor é um parente ou pessoa próxima da família. Apenas 10% dos casos de estupro chegam a ser denunciados. A cartilha também explica situações que se enquadram como violência sexual, explica como denunciar e que sinais um adulto pode procurar se suspeitar que uma criança está sofrendo abuso.
 
“O objetivo da campanha é fomentar uma reflexão sobre o preço intangível que nossa sociedade paga por manter uma cultura de tolerância em relação ao abuso sexual contra mulheres e meninas. É impossível traduzir em números o sofrimento causado por essa violência, mas é certo que custa muito caro para todos nós.” 
 
Você pode fazer o download da cartilha aqui.
 
•••
 





 
Ilustrações do perfil @8bitfiction.
 
•••
 
 
“Amadores sentam e esperam por inspiração, enquanto o resto de nós simplesmente se levanta e começa a trabalhar”. – Stephen King. 

Nas edições passadas

 

Clique aqui para ver todas as edições.

Se curte receber meus e-mails, não se esqueça de indicar prazamiga, mandando este link. Obrigada!

Pela primeira vez resolvi enviar a newsletter numa noite de sexta. Pode não fazer muita diferença para quem gosta de ler no sábado de manhã, mas pensei que pode fazer diferença para quem está sem companhia numa sexta à noite.

(e porque testar e mexer e fazer coisas diferentes fora do que estou acostumada é bom para sacudir as coisas de vem em quando. O que vou mudar em seguida? Só esperando pra saber. Spoiler: nem eu sei).

Semana que vem tem mais. Você vai me fazer companhia? ;)
 
Beijos de conforto,
 
Aline. 
 
Tweet
Share
Forward
 



Email Marketing Powered by Mailchimp