Copy
Venha confabular comigo.

Eu tenho uma teoria

Na verdade, uma porção delas.



Não sei se você tem o mesmo descaso com a seriedade que eu, mas costumo chamar de “teorias” minhas ideias estúpidas, improváveis e sem nenhuma fundamentação teórica ou empírica, para que pareçam menos idiotas e de alguma forma mais palpáveis.
 
Por exemplo.
 
Dia desses, ao acariciar meu gato Eugênio, pensei numa teoria que me pareceu muito coerente no momento, apesar de um tanto sinistra.
 
Ela partiu de uma pergunta que flutuou na minha mente por um instante: como uma criatura tão sofisticada pode ter evoluído para se contentar com coçadinhas na barriga oferecidas por uma espécie tão grosseira e carente como a nossa?
 
A questão é que os gatos não se “contentam” ou “toleram” o nosso carinho e a nossa presença. Na verdade, eles dependem imensamente desse contato.
 
Ao invés de me inundar com o sentimento de “ufa, pelo menos assim não estamos tão vulneráveis à dominação felina”, acabei pensando em algo que apenas reforçava a nossa posição de dominados nessa relação.
 
(Aurélio, o outro gato, me olha de forma assustadora enquanto escrevo este texto, como quem diz “cuidado com suas palavras”. É sério. Ele tem essa cara.)
 
Pois bem. A teoria é que vivemos numa Matrix felina, onde os gatos são as máquinas e nós somos o alimento.
 
Não que eu esteja dizendo que gatos sejam, literalmente, robôs em vez das bolinhas de calor e soneca que eles realmente são. Com essa comparação quero dizer que os gatos são a inteligência superior que controla esse mundo.
 
Só teríamos espaço nesse mundo porque somos a bateria deles. Enquanto a comida normal seria o que dá aos gatos energia física, para correr e pular, a energia humana transmitida por afagos e coçadinhas seria o que alimenta a perigosa e elegante psique felina. Eles precisam da energia humana para alimentar seus cérebros.
 
Como as máquinas de Matrix, que também usavam humanos como bateria, os gatos passaram a cultivar pessoas e assim garantir um estoque sempre renovado de energia humana.
 
E qual seria a Matrix então? O programa de computador que manteria as mentes humanas ocupadas com outra coisa de forma a não perceber que somos criados como gado?
 
Duas palavras: Vídeos de gatinhos. 
 
Ficamos tão hipnotizados e abobados diante de vídeos de gatinhos, que essa só pode ser a nossa Matrix. Ninguém vai querer se rebelar contra o sistema enquanto puder assistir gatinhos falantes ou gatos escalando paredes atrás de luzinhas. Eles sabem o que estão fazendo.
 
É por isso que apenas continuei a afagar e a cheirar a barriga do Eugênio e não pensei mais nisso.
 
“Boa garota”.
 
Não foi a primeira teoria que elaborei sobre gatos. Numa outra ocasião, imaginei que “toda forma de existência humana é projetada na forma de um gato”, ou seja, cada um de nós teria sua versão felina andando ou dormindo por aí (dormindo é mais provável).
 
Isso explicaria a personalidade tão própria que os gatos possuem, com tantos traços que reconhecemos como humanos – como ter ciúmes, orgulho, manias e até a tendência de fazer papel de trouxa quando são iludidos por qualquer luzinha que apareça na parede.
 

Os personagens de Mad Max versão felina
 
Ou seríamos nós, as pessoas, que projetamos as personalidades felinas? Nossos corpos seriam preenchidos pela consciência de gatos, que nos controlam e tomam nossas ações enquanto eles dormem. Seríamos marionetes em sonhos de gatos.
 
Por falar em encarnações dentro de realidades paralelas, desenvolvi outra teoria, dessa vez sobre um seriado, o Hora de Aventura.
 
Quem vê, até pensa que é um desenho animado inofensivo, mas Hora de Aventura consegue ser ainda mais rico em teorias e enigmas do que Lost e Caverna do Dragão juntos (embora existam teorias que digam que Lost é apenas uma releitura de Caverna do Dragão).
 
Bem, a minha teoria é que Jake, o cão, e Finn, o humano, são as formas que Wilfred e Ryan (Elijah Wood), do seriado Wilfred, assumem em outra dimensão quando estão fumando maconha no porão.
 
Por isso o mundo de Finn e Jake é tão insano: é tudo uma grande lombra na mente do Wilfred e de seu perturbado amigo Ryan.

Coincidência? Eu acho que não.
 
Por algum motivo, teorias sobre outras dimensões me fascinam.
 
Quando eu era nova demais para saber das coisas e ainda não tinha aprendido que temos coração, intestino, cérebro e veias, eu jurava que, por dentro, o corpo humano era cheio de planetas. Que se alguém me abrisse, veria constelações e planetas boiando em um infinito negro.
 
Claro que eu estava errada; aqui dentro há um monte de órgãos de carne pulsando e processando matéria orgânica, nada de Júpiter, luas ou cometas.
 
Mas eu também não deixava de ter razão, de alguma forma: afinal, somos feitos da mesma matéria que se espalhou pelo universo formando planetas, estrelas, vida, tudo o que conhecemos e outras coisas que ainda nem chegamos perto de imaginar. Então sim, o universo está dentro de nós.
 
Essa ideia de uma Aline pré-alfabetização abriu margem para uma outra teoria na qual estive pensando dia desses.
 
Quem já viu a série Cosmos (especialmente a antiga, apresentada por Carl Sagan) deve ter se confrontado com uma inquietante questão: a de que o Universo não seria plano, mas curvado em uma quarta dimensão. Ou seja, todo o Universo que conhecemos não estaria estendido sobre uma malha infinita, mas seria uma esfera, como um planeta, que está em constante expansão.
 
Mas essa esfera, onde ela estaria flutuando?
 
Você se lembra do MIB: Homens de Preto? (se não, aí vem spoiler. Aliás, ainda é spoiler se o filme é de 18 fucking anos atrás? Acho que não, né?) No filme, eles chegam a dar uma pista para a questão levantada em Cosmos, mostrando que um pingente que eles passam o filme inteiro perseguindo é, na verdade, uma galáxia inteira encapsulado. E que a nossa própria galáxia também é uma pequena esfera… que é usada como bolinha de gude por aliens em outra dimensão! Sério, genial.
 
A partir disso, imaginei que essa grande forma quadridimensional que engloba todo o nosso Universo seria, na verdade, apenas um órgão em um organismo muito maior, a exemplo daquela ideia que tive quando criança.
 
Somos uma parte muito pequena de um Universo gigantesco, isso é sabido, mas a teoria consiste na ideia de que tudo que há no nosso Universo seria apenas átomos e moléculas de um órgão muito maior, que está dentro do corpo de um alien de outra dimensão.
 
A gente aqui se achando muito importante e vai ver somos apenas os lactobacilos vivos de um Universo que funciona como o intestino grosso de uma criatura quadridimensional que é repetente na escola cósmica.
 
Nunca saberemos.
 
Daí eu lembro da teoria que zera todas as teorias, aquela que Douglas Adams escreveu na introdução de “O Restaurante no Fim do Universo” e que tenho tatuada na perna esquerda:
 
“Existe uma teoria que diz que se um dia alguém descobrir exatamente para que serve o Universo e por que ele está aqui, ele desaparecerá instantaneamente e será substituído por algo ainda mais estranho e inexplicável. Existe uma segunda teoria que diz que isso já aconteceu.”
 
Mas, enquanto o Universo não reseta (de novo?), a gente fica por aqui fazendo o que o ser humano faz de melhor: criando teorias. 

Você tem uma teoria?

 
 
Você já deve ter ouvido falar na Teoria Pixar, que se espalhou pela internet há algum tempo. O criador dessa teoria, Jon Negroni, montou todo um esquema para demonstrar que todos os filmes da Pixar fazem parte do mesmo universo.

Confesso que não estava botando muita fé, mas depois que li a teoria fiquei passada. Meu cérebro quase explodiu. Pode me chamar de louca, mas não é que faz sentido mesmo? Ainda mais quando você dá uma olhada na ordem cronológica em que os filmes se encaixam e começa a fazer sentido a possibilidade dessas histórias serem, na verdade, uma só. Vale até rever todos os filmes, nessa ordem, com a teoria em mente (sim, vou fazer isso).

A internet é o berço de diversas teorias conspiratórias envolvendo filmes e seriados. Quem não se lembra de Lost e do alvoroço que gerou entre os espectadores que criavam inúmeras teorias para explicar os mistérios da ilha? Inclusive, algumas teorias dos fãs eram muito melhores do que o desfecho que os roteiristas deram para a série.

Já me deparei com umas teorias bem loucas sobre o seriado Breaking Bad. Quando comecei a ler dei uma gargalhada alta: existe uma teoria que diz que as cores dos figurinos dos personagens têm influência no significado da história. Maluquice, né?

Então li com calma a teoria e cheguei à última linha do texto arrepiada, com os olhos arregalados. Vai ver é porque tenho muita facilidade em suspender minha descrença. Mas faz todo o sentido!

Pode até não ser proposital, mas as cores aparentemente têm ligação com as coisas que acontecem no seriado (os personagens tendem a usar amarelo antes de fazer escolhas decisivas, por exemplo) – e estão até nos nomes dos personagens: Walter White, Skyler White, Jesse Pinkman.

Leia aqui a teoria inteira e veja se não é extremamente convincente (chegou até a ser confirmada pelos produtores da série e pela figurinista).

As teorias estão aí, nas nuvens, e cada vez surgem mais. Isso porque elaborar teorias do tipo é algo muito acessível, embora algumas sejam bastante complexas.

Teorias não necessariamente são o xeque-mate em alguma charada deixada propositalmente pelos criadores da história; elas consistem basicamente em perceber conexões entre coisas aparentemente desconexas.


A “chave” da Teoria Pixar

Mas toda essa questão mirabolante sobre teorias me fez perceber algo ainda mais interessante: muito mais do que ser algo de gente com bastante tempo disponível para se dedicar a essas maluquices, teorias são a forma dos espectadores construírem sua própria narrativa através de histórias criadas por outras pessoas.

É como um Lego: existem peças definidas, mas você monta aquilo do jeito que quiser, às vezes unindo peças que não tinham nenhuma conexão. Aí o que está na caixa como algo que seria uma nave espacial acaba virando um dinossauro.

As histórias são o que fazemos delas. Não importa se elas chegam prontas até nós; ainda assim conseguiremos criar nossas próprias narrativas através delas e preencher as lacunas que fazem as conexões fazerem sentido. Temos toda a liberdade de criar universos para abrigar as histórias que quisermos.

Afinal, ainda há a teoria suprema: a de que todas as teorias fazem parte do mesmo universo. E fazem. Porque, nesse universo, somos todos (acima de tudo) contadores de histórias.

E você? Tem uma teoria mirabolante para contar?

(texto originalmente escrito em 2013)

Uma teoria sobre livros de colorir



Que livros de colorir são a nova sensação do mercado editorial, disso eu já sabia. Mesmo assim fui surpreendida quando entrei numa livraria e vi uma seção inteira, em destaque, só com livros de colorir. Eu não sabia que já existiam tantos.
 
O negócio é que eu não sei muito bem o que pensar de livros de colorir. A não ser o básico: se alguém curte, por favor, vá ser feliz colorindo suas figuras.
 
O “segredo” para esses livros terem tanto sucesso é geralmente explicado com o estilo de vida estressante que levam os adultos nessa sociedade moderna. Estamos cercados de telas e somos inundados de informação constantemente, em todos os lugares. É como se nosso cérebro não tivesse mais tempo de respirar.
 
Os livros de colorir para adultos, nesse cenário, ofereceriam uma oportunidade para que a gente realmente possa nos desconectar e fazer algo que não envolva ler, analisar, opinar ou produzir coisas que tenham um objetivo. Apenas preencher traços com cores. Poder ficar sem pensar pelo menos no espaço de tempo em que o branco de uma folha dê espaço para o colorido.
 
Li um outro ponto sobre essa questão no Twitter da escritora Elvira Vigna: “o ‘desestressar’ ao colorir livros de colorir vem da abdicação de lutar por teus próprios contornos, vem de um ‘aceite’, de uma desistência. Como se fosse possível um ‘bonitinho’ a partir de limites impostos”.
 
De certa forma, concordo: é por isso que eu mesma desenho os meus livros de colorir.
 
E justamente por saber a sensação maravilhosa que é finalizar um desenho, enchendo ele de cores e vida, é que reconheço o valor “terapêutico” do colorir. Se é “de adulto”, isso é o que menos importa.
 
Então resolvi mandar um brinde para você nesta edição, <<Primeiro Nome>>.
 
A capa de O Sonho da Sultana para você colorir!

 
Clique aqui para abrir a imagem em tamanho maior. Você pode imprimir e colorir à mão, ou até pintar digitalmente, se preferir. Depois compartilhe sua pintura, vou adorar ver!
 
Ah, você também pode clicar aqui para baixar de graça o e-book com a história d’O Sonho da Sultana. Espero que goste. 

Eles são feitos de carne



Talvez seres de outros planetas ou outras dimensões não só existam como saibam de nossa existência.
 
Talvez a gente não saiba de nada só porque eles nos acharam tão inferiores, simplórios e rudimentares que resolveram nos ignorar solenemente.
 
Talvez eles nos achem tão inferiores porque... somos feitos de carne.
 
É isso o que Terry Bisson, autor de ficção científica, imaginou em seu conto “They’re made out of meat”, um diálogo entre dois alienígenas que discorrem sobre o fato de humanos serem de carne – e que transformaram em um curta incrível.
 
Sério, assista aqui

 

Entre para a turminha




Na semana passada criei um grupo no Facebook só para leitores de Bobagens Imperdíveis e tá uma coisa linda. Mas não tinha como dar errado sabendo que há tanta gente interessante, fofa e educada entre os leitores desta humilde newsletter.
 
Confesso também que estou toda boba de ver pessoas com quem eu conversava por e-mail agora conversando entre si ♡
 
Teve troca de blogs, apresentações super íntimas e queridas, muita interação, dicas de livros, links bacanas, conversas sobre gatos (haja gateiros nesse grupo!), temas favoritos da newsletter e até Jarid criando uma brincadeira para ensinar a escrever em ritmo de cordel! (aliás, dá uma olhada aqui nos cordéis dela)
 
Enfim, apenas coisas boas.
 
Você pode entrar para a turminha aqui. Não deixe de se apresentar no tópico de apresentação, vai entrando e fique à vontade.
 
Aposto que essa semana vai rolar altos papos sobre teorias lá no grupo. Será? Só tem um jeito de descobrir. 

(Ilustração: Daily Cat Doodles)
 

Nas edições passadas

 



Clique aqui para ver todas as edições.

Se curte receber meus e-mails, não se esqueça de indicar prazamiga, mandando este link. Obrigada!

Notícias do front:
 
Ainda está difícil responder e-mails e atender a alguns convites porque estou soterrada de trabalho; estou trabalhando no meu próximo livro de contos AND fazendo ilustrações para um projeto muito massa (e em breve conto mais detalhes). E ainda tentando arrumar formas de pagar as contas.
 
Peço desculpas se o seu e-mail está entre os acumulados da minha caixa de entrada. Tá guardadinho no coração para eu responder depois, como sempre gosto de fazer. Tá bem? Então tá bem, como já diria uma famosa filósofa contemporânea.
 
Ah, acabou de ser lançado o novo livro do Alex, “Outrofobia: textos militantes”, que eu tive a honra de assinar o Prefácio. E, como falamos de teorias malucas nesta edição, vale dizer que eu dei um jeito de falar sobre o seriado Lost no Prefácio do livro dele. Pois é. Então Outrofobia fica como dica de leitura da semana :)
 
Eu ainda nem tinha visto “Mad Max: Estrada da Fúria” e já tinha gente me pedindo pra eu escrever sobre. Mas agora eu penso: será que eu ainda preciso escrever as minhas interpretações do filme se tanta gente já fez isso melhor do que eu seria capaz? Aliás, quanto mais leio opiniões de pessoas sobre o filme (as que amaram e as que odiaram), mais eu gosto do filme. Enfim, não sei se vou escrever, mas ainda vou falar sobre o tanto que amei Mad Max. Aguarde.
 
Então fico por aqui fazendo a Dori (de Procurando Nemo) e cantando para mim mesma “continue a escrever, continue a escrever”, no desejo de que você tenha uma ótima semana.
 
Beijos nas suas teorias,
 
Aline. 
 
 
Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, todos os direitos reservados.

Email Marketing Powered by Mailchimp