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Mudanças, velhice e morte


Olá, <<Primeiro Nome>>. Como vai?

Essa semana acabei refletindo bastante sobre um tema em especial, por algumas coisas que aconteceram e várias coisas que li. Como esse tema esteve orbitando ao meu redor essa semana, vai acabar sendo o tema desta edição.

É impressionante como a gente muda com o tempo. Claro, a gente aprende, amadurece. Nossa mentalidade muda. Se você pensar em você há 5 anos, o que vai encontrar? Ou 10? Ou 20? Aposto que uma pessoa completamente diferente.

Não só com gostos, crenças e conhecimentos diferentes, mas com outro corpo, um cabelo diferente. Até as células do seu corpo já são outras.

E aí desenvolvi uma “teoria” (completamente viajante, vem comigo) que, em vez de nos transformamos ao decorrer da vida, simplesmente damos lugar a uma outra pessoa. 

Tipo uma corrida de revezamento. Você de 10 anos atrás passou o bastão para você de 6 anos atrás e assim por diante.

Tipo uma novela ou seriado em que outro ator vai interpretar o mesmo personagem, só que 10 anos no futuro.

São pessoas que podem se parecer ou ser completamente diferentes. Cada uma assumindo o protagonismo de uma parte de nossa história. 

O que pode gerar situações chatas: as pessoas que nos cercam às vezes podem esperar de nós atitudes e sentimentos que pertenciam ao nosso antecessor na história, sem saber que já não somos mais aquela pessoa.

A única coisa que todas essas pessoas que se revezam em uma vida têm em comum são suas memórias. São essas memórias que unificariam todas essas pessoas como uma só. A consciência de sermos a protagonista de uma narrativa única.

Não sou mais a Aline que, em uma foto antiga, está no colo da mãe com lacinho na cabeça e tomando mamadeira com o olho arregalado, admirada com o mundo ao redor. Mas preservo cada memória dela, como que para saber que é da história dela que estou cuidando agora.

Mas é claro, é só uma perspectiva diferente (e maluca) sobre algo tão natural e simples: mudar.

Meu corpo mutante




A idade muda a cabeça e assim é com todo o resto do corpo.

Os quilos a mais, um quadril mais largo, os dentes mudando de posição. É como estar dentro de uma casa e ver a sala aumentar, paredes surgindo onde antes não existiam, aquele belo sofá sendo engolido pelo chão para nunca mais ser visto, o piso mudando de azulejo para laminado. 

A mesma celulite que me fazia torcer o nariz quando olhava para minhas coxas agora me chamava a atenção para essa propriedade interessante do meu corpo. A de ser mutante. É verdade que a celulite está ali, em parte, pelo meu estilo de vida sedentário. Mas também está ali porque meu corpo não é uma casa de paredes estáticas.

E aí percebi quanto esforço é feito para manter o corpo sempre igual. Cobrir os fios brancos, esticar a pele enrugada, chupar a barriga. Como se aquela barriga fosse necessariamente algo errado no meu corpo, que não devia estar ali. Não era errado, fora de lugar; era só algo novo.

Então, em vez de admirar meu corpo por estar congelado em um estado que definiram como “correto”, por que não admirá-lo por essa capacidade fantástica de mudar o tempo inteiro?

Ter um corpo mutante não significa que as mudanças que ele me oferecer serão necessariamente ruins; significa que não sou de plástico. Sou água. Sou carne. Sou viva.

O que é vivo se transforma, muda, se move.

Então quando algo novo surgir no meu corpo, saberei: meu corpo mutante estará me levando a um novo lugar. O endereço dessa morada é impreciso, mas é certo de que irei morar sempre em um “eu" diferente.

Texto completo aqui.
 

Ser reacionário é inútil


Para muita gente, nada que mude pode ser algo bom.

Reagem às mudanças, choram, esperneiam, babam de raiva diante de alguém que proponha que as coisas sejam diferentes.

As coisas como estão não são boas para todo mundo. Mas já que convêm a algumas pessoas, elas tentam nos convencer de que sempre foi assim e que sempre será.

O negócio é que nem sempre as coisas foram assim. As noções de família, sexualidade, gênero e por aí vai. E mesmo que se fossem: não precisam ser assim para sempre.

Mas a nossa sociedade reflete a nossa própria essência e está em constante transformação. Tão natural quanto é para nós, mudar é um caminho natural para a sociedade e para a cultura que construímos.

Não tem razão pra ter medo disso. Se não fôssemos capazes de nos adaptar a mudanças, não teríamos chegado até aqui como humanidade. Precisamos confiar mais na nossa capacidade de estar abertos a situações novas.

As mudanças vão vir, inevitavelmente. Quem se apegar a conceitos antigos e caducos, bem, capaz de ser deixado pra trás.

A dolorosa beleza do inconstante


Traduzi o seguinte texto do blog Zen Habits:

“A flor de cerejeira cai após seu belo e curto desabrochar.

Ela flutua gentilmente até a terra. Sua vida acabou, mas a finitude de sua existência é uma das maiores razões para sua florescência ser tão deslumbrante. Se soubéssemos que a flor duraria para sempre, ela não teria a mesma beleza pungente, e a tomaríamos como algo certo.

A inconstância da flor, sua fugacidade, sua transitoriedade – eis o porquê de a apreciarmos.

Nossas vidas são igualmente curtas. Temos não mais do que um momento nesta rocha que flutua no espaço, mas nos esquecemos desta inconstância e tomamos nossos dias como certos. Desperdiçamos esses dias em atividades como TV, redes sociais e jogos de computador.

Se lembrássemos da inconstância da vida, talvez apreciaríamos sua sutil passagem tanto quanto apreciamos a flor da cerejeira.

Nossa luta contra a inconstância causa muito, se não a totalidade, de nosso sofrimento. Nós não queremos que as coisas mudem, queremos que as coisas sejam aquilo que queremos delas. E, quando elas não são, ficamos estressados, frustrados, desapontados, de luto, desejando que as coisas tivessem sido diferentes.

Mas e se pudéssemos aceitar esta inconstância, aceitar a realidade deste momento e abraça-la como fazemos com a flor da cerejeira?

O pai de minha mulher tem demência, o que significa uma dolorosa decadência de sua vida. Para aqueles que o amam, é algo difícil de entender e aceitar, mas e se pudéssemos apreciar a beleza da vida dele, quem ele é neste momento, em vez de lutar contra a perda de quem ele foi?

Há alguma gordura na minha barriga, e quando olho para ela às vezes desejo ter de volta a magreza da minha juventude. E se, em vez disso, eu pudesse ver o envelhecimento como uma lembrança da inconstância da vida, ao perceber que agora eu tenho menos tempo do que quando eu tinha 19 anos, e me ajustar para aproveitar melhor os momentos que me restam?

Temos um filho que está entrando na idade adulta, o que é difícil para nós porque é como se estivéssemos perdendo uma criança, e ele estará saindo para o mundo sem a nossa proteção, exposto a tantos perigos e ofensas. E se, em vez disso, apreciássemos os momentos que temos com ele em nossa casa e abraçar esse novo filho que temos, crescido e pronto para experimentar uma vida totalmente nova?

Em cada uma dessas situações, a inconstância, a natureza de mudanças da vida pode causar frustração, tristeza e raiva. Mas quando abraçamos a inconstância e trabalhamos com isso, a vida pode ser proveitosa e podemos apreciar a dolorosa beleza de nossa existência temporária.

Enquanto vemos as flores caindo, enxergamos nelas a nós mesmos, e sentimos, assim, a gravidade do momento.”

Por que ter medo de morrer?


Alex Castro escreveu:

"Passei a existir no momento no tempo que convencionamos chamar de 1974 mas, antes disso, eu não-existi por um período literalmente infinito. E não foi ruim. Não doeu. Não foi desagradável.

Muito em breve, voltarei a não-existir por um período infinito de tempo. Se não era ruim antes, por que seria ruim depois? Por que ter medo de voltar a um estado que já experimentei e que não foi ruim?

Na verdade, considerando o tempo que passamos existindo e o tempo que passamos não-existindo, nosso estado natural é a não-existência.

Existir seria apenas um breve soluço, um glitch, um bug, dentro de uma perfeita, plena e eterna condição de não-existir.

Somos todos seres inexistentes que, por um acaso, existem.

Mas não por muito tempo.”

O mundo não para de mudar


Se você assistiu à série Cosmos, o remake mais recente apresentado pelo astrônomo Neil DeGrasse Tyson, deve ter visto o episódio “The Lost Worlds of Earth”. 

Nele, Neil conta como um cientista suspeitou que os continentes como conhecemos hoje já estiveram ligados de alguma forma em um passado muito remoto, possibilitando que espécies de animais e plantas pudessem ser encontradas dos dois lados. Esse cientista foi ridicularizado em sua época, mas anos depois outra cientista, Marie Tharp, acabou confirmado a teoria dele ao descobrir um tipo de fenda no Oceano Atlântico.

A separação dos continentes aconteceu porque o centro da Terra fervilha. Vez ou outra, o ferro líquido quente e viscoso em seu interior encontra um ponto de ruptura e acaba causando um terremoto. Chacoalhando, a terra se rompe, se afasta, muda de posição.

A mudança é uma força tão poderosa no universo que nem mesmo os planetas estão imunes a ela.

Nossa sensação de que a Terra é estável não passa de uma ilusão devido a nossas vidas serem tão curtas. Então o seriado mostra, em uma simulação computadorizada, como a Terra seria vista da perspectiva dos seus bilhões de anos, em alguns segundos. A Terra não tem nada de imóvel. Sua superfície está em constante transformação, como o rosto de uma criança que rapidamente se transforma em um adulto. É lindo ver como a Terra é dinâmica, viva. É uma daquelas cenas capazes de mudar completamente sua perspectiva sobre a própria existência. Cheguei a ficar emocionada.

É como se a nossa existência, como humanidade, consistisse em entrar no cinema no meio do filme, ver 15 segundos e sair. Não vimos nada. Perdemos a maior parte da história. Estamos de passagem por uma história rica e cheia de aventuras, do qual pouco vamos poder aproveitar.

O que vemos ao nosso redor hoje é tão somente uma fração ínfima, quase um relance, do que foi e do que virá a ser nosso planeta, que, muito provavelmente, sobreviverá a nós.

Só nos resta imaginar que outras Terras virão a seguir depois que deixarmos o cinema da existência. Mas, enquanto aqui estamos, o que estamos fazendo da história? Da história do planeta, da nossa história como seres humanos e da nossa história como indivíduos?

Enquanto aqui estivermos, teremos imaginação – e vontade – de criar um mundo diferente?

Mais leitura sobre mudanças


Sdds, Vange
Esta semana foi muito dolorosa com a perda da Vange Leonel. Cantora, escritora, ativista e pessoa amada, maravilhosa. Não cheguei a conhecê-la pessoalmente, era pelo twitter que a gente trocava ideias, mas fiquei chocada com a notícia. Lembro que cheguei a falar para ela que, quando eu era criança e ouvia a música dela, corria para a frente da TV e começava a pular no sofá cantando “calada noite preeeta” – e que como era uma honra poder conversar com alguém que tinha me marcado tanto. Sdds. Então deixo dois links: 


A morte de Dukey
Dukey é um cão que foi diagnosticado com um tumor grande demais para ser tratado. A família precisaria sacrificá-lo. Mas, antes disso, fariam dos seus últimos momentos de vida os mais felizes e divertidos que ele pudesse ter,
registrando cada momento em fotos lindas e tocantes. Não consegui conter as lágrimas.


Velhice e cabelos brancos
O envelhecimento é tratado, pela nossa cultura, como algo ruim. E o corpo velho, como algo desprezível, feio, não-atraente. Nas lindas palavras desta mulher de 59 anos, Robin Korth, esses valores são subvertidos. Ela se recusou a rejeitar o seu corpo, como ele era, para agradar os homens. Com plena consciência de seu corpo e de seu poder sobre ele,
ela nos conta essa história.

A querida Kel Campos também escreveu um texto poderosíssimo que compartilho
via #ValorizeAsMinas. Enquanto cabelos brancos nos homens são vistos como algo “charmoso”, nas mulheres é visto como descuido, como algo feio. Kel conta como parou de pintar os fios e assumiu o grisalho de seu cabelo. Os cabelos brancos não precisam ser uma prisão para te manter escrava das tinturas. Eles também contam uma história.


Cabelo crespo sim
Muitas mulheres, ensinadas a vida inteira de que cabelo crespo era feio, também resolveram assumir sua identidade e deixar os cachos livres e o black à solta. Transicionaram de um cabelo moldado por química agressiva para um cabelo natural.
Neste texto, Élida debate outra questão: mesmo entre os cabelos naturais, ainda há uma discriminação com alguns tipos de cabelo. Enquanto os cachos seriam considerados a meta da perfeição, os crespos ainda seriam menosprezados. Mas por que continuar se aprisionando à ideia da perfeição, ainda que de uma forma diferente?


Thor virou mulher
Para completar as indicações sobre mudanças, uma das últimas notícias sobre quadrinhos: Thor será uma mulher em uma nova série de quadrinhos. Pela primeira vez, o Mjölnir será erguido por uma mulher. Acho mais uma maravilhosa iniciativa da Marvel de fortalecer o protagonismo feminismo e representar suas leitoras em suas histórias. Pelas reações nas redes sociais, muita gente ficou chocada, achou um absurdo. Curioso, porque Thor já foi até um ALIENÍGENA COM CARA DE CAVALO e um SAPO em alguns arcos e não causou tamanha comoção. Por que seria tão chocante assim Thor ser uma mulher, então? Se você ainda não viu a notícia,
clica aqui.

Para quem tem Kindle e Kobo


Desde que escrevi um texto tirando dúvidas sobre o Kobo, recebi vários e-mails perguntando onde comprei a capinha de tecido que aparece nas fotos. A capinha foi um presente da minha sogra ♥︎ e recentemente ela organizou o site dela para expor e vender os modelos que ela fez.

Tá permitido fazer um jabá? Até porque amei mesmo essa capinha e super recomendo pra quem tem um Kobo ou Kindle.
No site tem os modelos, preço e o e-mail de contato da Solange para quem quiser fazer um pedido.



Até me lembrei de um movimento, o Compro de Quem Faz. É bacana apoiar o trabalho de artistas e artesãos porque você está incentivando alguém que ama o que faz; por poder comprar de alguém que você sabe que não está sendo explorado; porque algo feito com as próprias mãos tem mais personalidade; e por ser uma alternativa às grandes corporações.

Aliás,
muito legal o site do Compro de Quem Faz. Tem até um mini-documentário mostrando os trabalhos lindíssimos de uma ceramista.


 

Meus textos feministas da semana


No sábado passado escrevi um textíneo para o site Lugar de Mulher, sobre a mania chata de muita gente achar que feministas são perfeitas e nascem prontas. Nossa, cansei. Chega de sermos aprisionadas por essa ideia pavorosa de perfeição. (e de brinde, o texto vai com vários gifs SENSA da Mulher-Maravilha).

Não somos heroínas perfeitas.

No Escritório Feminista, um texto bem bê-a-bá, com alguns tópicos do que o feminismo defende (da minha perspectiva, claro). Resolvi escrever depois de ser marcada numa discussão no Twitter em que um carinha uó dizia que “a massa” das feministas defendia sei lá o quê que ele ACHA que defendemos. Não, kiridinho. Feministas não são uma ~massa~ que você põe molho bolonhesa por cima. Somos pessoas – e pessoas bem diversas. Não pensamos do mesmo jeito. Exaustíssima, tento explicar isso no texto da semana, com a talvez vã esperança de que parem de espalhar ideias erradas sobre o que o feminismo defende.

O que as feministas defendem?
 
♥︎
♥︎


Em outras ocasiões, já falei sobre MMA, esse esporte que as pessoas acham um horror de violento, etc etc. É talvez o único esporte que eu acompanho, por causa do UFC. O que tem me chamado mais atenção é como as mulheres estão conseguindo espaço no evento, antes completamente dominado por homens.

Acabei virando fã da Ronda Rousey, atual detentora do cinturão na categoria feminina peso galo e nomeada Atleta Feminina do Ano pelo prêmio ESPY. Merecidíssimo. Acompanhei o programa TUF americano em que ela foi uma das técnicas e pude ver o quanto ela leva a sério esse negócio e se dedica ao extremo.

E como não se impressionar com sua última luta, em que foi possível ver toda a sua habilidade, rapidez e força ao
nocautear Alexis Davis em apenas 16 segundos?

Mas o que me impressionou mesmo foi a coletiva de imprensa que ela deu após essa luta. Perguntada sobre o que significava para ela o apoio do público,
Ronda respondeu: “é legal ter esse apoio, mas se você permite que as palmas façam você se sentir bem, então você também vai permitir que as vaias e críticas façam você se sentir mal."

Genial. Estou levando pra vida.

E é com a imagem dela (cara de má? Metida? Não, concentrada) antes de entrar no octógono que me despeço de você.

Até a próxima edição!

Beijos nocauteadores,

Aline.

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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