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Me segura que tô politizadíssima

Chegou a hora



Domingo é dia de levantar e sentir até nas remelas da cara o peso sagrado de ser eleitor e de decidir o futuro do país, esse que nunca chega.

Fomos convidados para essa festa pobre que os homens armaram para nos convencer, essa linda festa da democracia da qual não poderemos nos servir de brigadeiro, mas terá coxinha de montão.

Então vamos lá, cabeça erguida e título de eleitor da mão, participar dessa festa. Crentes de que somos importantes, de que somos nós que decidimos alguma coisa e que as pesquisas eleitorais tendenciosas ou os investimentos milionários de empresas nos candidatos ou ainda o partidarismo da mídia não tivessem nada a ver com isso.

Somos só nós e a urna, não é como se tivessem colocado um monte de coisa no meio para que a gente apertasse determinadas combinações de botões. Não: só nós e a urna – e uma outra máquina invisível, cujas engrenagens dão conta de manter as estruturas intactas ainda que a gente mude as caras que vão representar o país.

Nova política, um novo caminho, é hora de mudanças e as pessoas acham o suficiente a beleza dessas palavras juntas, desde que não se mude muito a política raiz, a política moleque, a política de várzea. Aborto? Vou manter como está na legislação. Política contra as drogas? Hay que endurecer. Casamento? É homem e mulher. Qualquer coisa a gente faz um plebiscito aê.

O importante é tirar o PT do poder (mas manter tudo que ele já faz, para além da Bolsa Família). Ah, no dia em que tirarem o PT do poder, todos os problemas estarão resolvidos. A Cantareira irá encher, a violência acabar, o Brasil virará potência mundial, nossos filmes ganharão Oscar, a Paçoquita Cremosa poderá ser comprada pelo preço da normal, não haverá mais engarrafamentos e os comentaristas de portal finalmente terão terminado a sua jihad e deixado esses espaços da internet livres, vazios, enfim habitáveis novamente.

Ah, mas se o PT sair, será o apocalipse. A comida irá sumir do prato, voltaremos a ser colônia, a inflação irá às alturas juntamente com todas as taxas de diabetes, colesterol e ácido úrico, os vampiros antideluvianos irão acordar, ninguém vai conseguir comprar telefones caros para reclamar do trânsito e os comentaristas de portal estarão livres nas ruas gritando os valores dos cidadãos de bem no ouvido dos transeuntes.

Na futebolização do processo eleitoral, mesmo a suposta terceira via é incorporada a essa dualidade de torcidas organizadas. Só há espaço para dois na primeira divisão. Todos querem apostar no cavalo certo nessa corrida, porque eleição afinal não se trata de votar em quem se acredita, mas em quem tem chances de ganhar. Ou o que teremos para comemorar no final, se não um placar?

E votaremos no mais preparado, naquele que melhor consegue se desviar das acusações contundentes de corrupção, tal qual Neo, o escolhido, desviando de tiros. Mostra que é capaz o candidato que mais fala sem dizer nada, que consegue despejar o maior número de palavras com o mínimo de comprometimento, porque isso sim é maturidade política. Coragem e coerência só servem para fazer sucesso no Twitter.

De repente a prioridade é acabar com a corrupção, porque mal maior nesse país não há – afinal, as revistas não falam de outra coisa; de corrupção e de agradar seu homem na cama. Discute-se escândalo na Petrobrás porque vamos afinal eleger o gerente desse grande posto de gasolina chamado Brasil. Debate-se exaustivamente o que fazer para acabar com essa praga, esse dragão de sete cabeças que obviamente só transita no quintal de um partido, e não em aeroportos de família construídos com dinheiro público, porque Família Brasileira e Petrobrás são os maiores patrimônios desse Brasilzão de meu deus.

Falam de escândalo na Petrobrás até babar como se tantos escândalos de violação de direitos humanos não tivessem marcado uma cicatriz profunda na nossa história só nos últimos anos. Quem se importa afinal com Amarildos, Cláudias, Guaranis Kaiowá, Jandiras, Elisângelas? Tantas vidas arrancadas por uma PM violenta, pelo fundamentalismo infiltrado no Congresso, por homofóbicos à solta enquanto cidadãos e cidadãs precisam se prender dentro de armários, pela locomotiva do desenvolvimento e do progresso que não se importa de exterminar povos inteiros enquanto passa. 

Vamos votar, é o que importa. Escolher, entre um cardápio variado de ex-celebridades, pastores, militares e figuras cômicas, alguém para legislar sobre nossas vidas esperando, na melhor das hipóteses, que o nosso eleito possa reduzir o estrago que os eleitos dos outros vão fazer.

Mas qual a possibilidade de dar errado tanta gente escolher seu candidato com base em uma vinheta de 6 segundos que só dá tempo de falar o nome, o número e uma combinação aleatória de palavras como “compromisso”, “educação” e “família”, não é mesmo? 

É preciso confiar no ser humano, acreditar que ele não toma decisões baseado em musiquinhas e que vai pesquisar, que vai stalkear o candidato no Face, procurar conhecer com profundidade suas propostas e projetos e planos de governo que às vezes nem os próprios candidatos conhecem.

É como sair na rua e esperar, com toda a fé, que ninguém vai furar o sinal vermelho, que o carro não vai entrar na faixa de ciclistas, que não vai vir nenhum maluco na contramão, porque não é possível que ninguém nesse país não saiba o que está fazendo. Alguém sabe, alguém tem que saber.

(talvez já seja muito esperar que nenhum idiota invente de tirar selfie na urna eletrônica e acabe na cadeia, mas vamos olhar pelo lado positivo: esse será o maior filtro contra eleitores burros e talvez – quem sabe – isso se reflita em menos votos em candidatos pavorosos)

Essa é a festa da democracia: festa estranha com gente esquisita, todo mundo já meio bêbado e olha que ainda tem segundo turno. Desce mais uma rodada de chorume pra galera! Vai ter gente cagando no tapete, vomitando no meio da sala e dançando loucamente Britney Spears porque ninguém vai se lembrar de nada amanhã mesmo.

No segundo turno desaparece aquela importância que a gente achava que tinha, os super-poderes do eleitor se dissolvem diante da realidade deprimente de escolher o “menos pior”. É escolher entre as duas opções que mais receberam investimentos de grandes empresas e mais espaço na mídia, e esperar que uma delas corresponda mais ou menos às nossas expectativas – que nesse momento já estão lá no chão, junto com os cacos do nosso idealismo e entusiasmo.


A eleitora que antes entrava impávida na zona eleitoral, carregando seu título com orgulho e com a certeza de cumprir o seu dever moral de votar em quem acredita, no segundo turno entrará encolhida e se deitará diante da urna, onde irá chorar em posição fetal por alguns segundos antes de teclar verde para “Estamos muito na merda, miga?” e CONFIRMA.

(essa eleitora sou eu)

E agora Aline? E agora você? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, e agora? O riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou. Restará a ressaca e uma leve desorientação, um sentimento de ter sido usada, de terem beijado minha boca e passado a mão na minha bunda, tudo para depois sequer lembrarem que eu existo.

É tênue a linha que separa a depressão pós-eleitoral da morte horrível que é virar um zumbi “contra tudo isso que está aí”, “político é tudo igual” e “odeio política”, mas tal qual protagonista de anime japonês tiramos forças de algum lugar e resistimos, nos erguemos, nem que seja para quebrar a cara nas próximas eleições.

Mas domingo já vem e chegou a hora de meter o dedo naquelas teclonas da urna, em um gesto tão mínimo quanto significativo, tão grande para o ato de fazer política, que chega a ofuscar os outros gestos mínimos do cotidiano que também constroem a política.

A gente enche o peito de coragem e vai nesse tal encontro que marcamos com a democracia, que mesmo a gente sabendo ter um monte de defeitos pelo menos é melhor que nada. E ainda que não tenha funcionado muito bem para eleger os melhores representantes, tem funcionado como máquina de memes e situações absurdas que é uma beleza. Alguma coisa a gente acaba tirando dessa história.

FAQ do Aborto Legal



Sabe o que mais tiramos das eleições desse ano? A evolução no debate sobre o aborto legal. Luciana Genro e Eduardo Jorge tiveram a coragem de trazer essa pauta urgentíssima que os outros candidatos preferiram fazer a egípcia e isso chamou a atenção das pessoas.

Aproveitando que o tema está em pauta, coletei uma pá de informação sobre a legalização do aborto e ainda tentei responder às falácias mais comuns que as pessoas repetem sem nem refletir (tipo “legalizar vai banalizar o aborto!” ou “só engravida quem quer”).

O texto foi publicado na Carta Capital, você pode ler aqui.

Tentei trazer dados e usar argumentos lógicos para desconstruir a desinformação e terrorismo que rondam o tema, ainda que constantemente eu reforçasse a questão da morte das mulheres como o ponto central da urgência de legalizar o aborto.

Mas esses dias estive pensando e cheguei à conclusão que, infelizmente, falar que o aborto clandestino mata mulheres não é o suficiente para que as pessoas entendam porque o aborto precisa ser legal. 

Em alguns casos, é capaz de deixar a pessoa ainda mais convicta em sua posição contra a legalização, pois ela acha MESMO que mulher que aborta merece morrer.

Claro, não dá para esperar que haja consenso entre todas as pessoas e que a gente espere todo mundo ser a favor para que isso aconteça. Não é plebiscito. Direitos humanos não deveriam ser negociáveis.

Mesmo assim acho mudança de mentalidade fundamental especialmente para que a lei seja mudada e para que seja colocada em prática. 

E sobre “mudança de mentalidade” não falo de convencer meia dúzia de comentaristas de portal raivosos, mas sobre influenciar pessoas que podem eleger políticos dispostos a mudar essa lei, falo de tentar sensibilizar esses políticos, formadores de opinião, até médicos que irão atender mulheres que precisarem de um aborto.

Por isso a importância do debate; não para condicionar os nossos direitos ao resultado dele, mas para que a mudança dessa realidade seja efetiva. Porque eu posso estar mirando na legalização, mas estou pensando mais adiante, na aplicação dessa lei. 

O aborto no Brasil já é legal em 3 casos e ainda assim a mulher encontra mil dificuldades de conseguir o seu direito, é maltratada, muitas vezes nem sabe que ela está amparada pela lei, que ela tem essa opção. Então do que adianta mudar a lei se ela não for posta em prática? É isso que importa, afinal.

Então penso em como desenvolver melhor esse discurso se não dá pra depender apenas da boa vontade e da empatia das pessoas. Todas as formas precisam ser tentadas. Se você tiver alguma sugestão para uma nova abordagem do tema, me conta?

Coisitas



:: Um plugin do Chrome para mandar artigos da internet para o Kindle e ler textos maiores numa boa, numa nice.

:: Dizem que
tomar café e tirar uma sonequinha fazem a pessoa ficar mais alerta, mas ainda não testei.

:: Este
curta com a Jessica Chanstain e a nossa loucura de tirar foto de tudo.

::
Este conselho da Shonda Rhimes (em quadrinhos).

:: Uma palavra que adoro: periclitante.

:: Filme da semana: Old Boy.

:: Um sonho metalinguístico que tive: ter conhecido o Neil Gaiman e o próprio Sandman ter tirado uma foto do encontro.

::
Uma música do Silverchair que eu curtia quando era uma adolescente puta revoltz e voltei a ouvir esses dias.

::
Este texto sobre diversidade na literatura.

:: Uma ilustração (
daqui):

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Vendo o horário eleitoral no primeiro turno (que já acabou e não deixará saudades), fiquei pensando o que eu faria se eu estivesse no lugar desses deputados estaduais e tivesse o quê? Uns seis seis segundos para me apresentar? O que eu diria?

Vá lá, um tempo que dê para falar meu nome e meu número e mais algumas palavras rápidas para convencer o heróico eleitor a me escolher entre tantos outros candidatos e candidatas com nomes bizarros, aparências extravagantes ou propostas apelativas.

"Meu nome é Aline e não acredito que você vai mesmo votar em alguém que viu numa propaganda de poucos segundos"

"Para proteger o mundo da devastação, para unir as pessoas de nossa nação, para estender nosso poder às estrelas, vote Aline"

"Se você estiver ouvindo essa mensagem, passe meu número para outras sete pessoas ou você vai morrer em sete dias"

"Não decore meu número, decore meu saite: alinevaleque ponto com ponto bê érre"

"Na educação vou lutar para melhorar interpretação de texto e já tá bão demais, né? Vote Aline"

Ou então eu daria o máximo de spoilers de livros, filmes e seriados que conseguisse no tempo que eu tivesse.

(e você, o que falaria?)


Era nesse espaço dos deputados federais e estaduais que a democracia mostrava o esplendor de sua face: tanta gente esquisita, falando qualquer coisa, sem se preocupar em mostrar que sabe o que está fazendo ao se candidatar, que chega a ser lindo pensar que qualquer imbecil pode fazer isso (até eu!).

Ao mesmo tempo, é na tosqueira das propagandas dos deputados que a gente vê, sem máscaras, sem maquiagens, sem efeitos especiais, o quanto a gente está afundado na merda.

E amanhã é dia de eleição. Segura minha mão.

Beijos democráticos,

Aline.

Copyright © 2014 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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