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Segura minha mão e viaja comigo nas asas da loucura

Que esquisito

 
 

Não é difícil escrever ou falar sobre coisas estranhas, Aline.
 
Não é preciso evocar mundos inexistentes e descrevê-los com palavras revestidas de adjetivos exagerados que sugerem coisas viscosas, caóticas, inexploradas, viscerais, espaciais, monstruosas, assustadoras ou inexplicáveis.
 
Aliás, na maior parte das vezes, o que adjetivos exagerados sugerem é apenas a inabilidade de seu narrador em ambientar uma cena, um personagem ou um universo. É tentar disfarçar a arquitetura falha de uma casa enchendo os cômodos de enfeites, tapetes e quadros.
 
(desconfie de adjetivos demais)
 
Então não é preciso tanto esforço para descrever o estranho, usando palavras específicas que normalmente não seriam usadas para se referir a uma xícara de chá ou ao seu chefe.
 
O estranho está bem aqui, do nosso lado; basta olhar ao redor limpando da sua retina a rotina, esfregando os olhos para descolar do globo ocular aquele filtro de normalidade com o qual encaramos o mundo.
 
Olhos novos e a gente pode se surpreender com o quão esquisitas são as coisas – e nem é preciso inventar outros mundos ou recorrer a adjetivos para construir uma estranheza artificial, tão cenográfica quanto o Projac. O estranho está bem aqui.
 
Porque veja, que anormal é morar numa cidade. Um monte de gente aglomerada, competindo pelo mesmo espaço e absorvendo os mesmos recursos, em um lugar totalmente artificial, com uma árvore aqui e acolá só pra dar a impressão que ainda fazemos parte desse planeta.
 
Pessoas morando umas em cima das outras e que esquisito é isso de possuir um pedaço de espaço suspenso no ar, se eliminadas as paredes e os pisos de um apartamento.
 
Não que seja menos estranho possuir um pedaço de terra, claro. Tanto sangue já se derramou para que alguém pudesse ter um pouco de terra a mais para hoje boa parte desses espaços terem se transformado em estacionamentos e asfalto.
 
E que estranhos são os carros, não somente como aparatos de metal movidos a combustível fóssil que se formou durante milhões de anos para que um dia pudéssemos nos mover de casa para o escritório, mas especialmente por serem donos e senhores dessas cidades, se é o caminho por onde eles passam a espinha dorsal do ambiente urbano.
 
Tão importantes os tapetes asfaltados por onde os carros passam, também conhecidos como ruas ou avenidas, que ganham até nome. Na maior parte das vezes, nomes de pessoas. Algumas vezes, nomes de pessoas que nunca andaram de carro.
 
(Raposo Tavares. Anhanguera. Barão do Rio Branco. Anchieta. Pedro Álvares Cabral, etc etc)
 
Que esquisito é pintar faixas brancas nesse asfalto e aquele lugar se tornar, quase magicamente, um ponto onde as pessoas podem passar com segurança (mas nem sempre), como uma ponte sobre o rio, mas sem rio. Apenas uma correnteza de metal e o sinal vermelho é a única represa capaz de detê-la (mas nem sempre).
 
A naturalidade com que a gente entra em qualquer supermercado e sabe exatamente onde encontrar a seção de carnes, não é curioso? Transitamos pelas seções e prateleiras movidos por um instinto inscrito em nossos genes, e é como se a natureza tivesse nos aperfeiçoado para que fôssemos esses exímios coletores de latas e pacotes, caçadores de preços baixos, condutores de carrinhos de compras (e de novo os carros).
 
O estranho está em nós. De que outra forma explicar esses animais cheios de buracos na cara, numa ponta um monte de cabelo e na outra ponta um tanto de dedos?
 
(embora também seja comum gente que não tenha nem uma coisa nem outra em suas extremidades, porque a exceção é outra regra estranhíssima a nosso respeito)
 
Somos esses seres incomuns que se arranjam em pares (e até fabricam colchões onde caibam esses dois corpos lado a lado), porque alguém pensou que seria uma boa ideia se unir em dois para cuidar de crianças ou cachorros e então carregá-los para lá e pra cá dentro de carrinhos de bebê, reforçando a já demonstrada fixação por carros que a nossa espécie possui.
 
(e por que estranhar cachorros nesses carrinhos se criamos bebês em cercadinhos e tanto um quanto o outro andam de quatro?)
 
Que estranho é ter dedos e um monte de aparelhos que não funcionariam se a gente tivesse outra coisa nas pontas das mãos. Que estranho é respirar sem precisar pensar. Ter um corpo 70% composto de água e não poder escorrer por debaixo das portas. Nascer e morrer num planetinha no subúrbio da galáxia e girar junto com ele sem cair de tontura.
 
Apenas olhe ao seu redor. Coisas esquisitas por toda a parte. Nem é preciso inventá-las, elas já estão flutuando por aí, apenas esperando a hora de serem notadas.
 
O mais louco é que corpos impregnados de esquisitice, que constroem ao redor de si uma sociedade como quem ergue um monumento em adoração ao bizarro, não sejam capazes de notar a estranheza disso tudo.
 
Não é esquisito?

bizarro, hein

A obra final de Salvador Dalí

 

Está em cartaz em São Paulo, no Instituto Tomie Ohtake, uma exposição do Salvador Dalí (aquele artista com bigode esquisito).
 
Como fica perto da minha casa (consigo ver da janela do meu escritório a estranha figura do prédio do instituto, uma torre listrada de roxo e azul que se destaca no horizonte feito construção alienígena que deve ter caído ali por acidente e ninguém se preocupou em remover porque muito ocupado em construir outros prédios), resolvi ir na tal exposição ver o que eu poderia aprender sobre esse que é um dos principais representantes do surrealismo.
 
Já esperava por uma fila, como se pode esperar de qualquer programa mais ou menos popular nesta gloriosa cidade de meu deus, onde as pessoas vão sempre para os mesmos lugares nas mesmas horas e nos mesmos dias: litoral no feriado, trabalho no meio da semana, estação de trem nos horários de pico, exposições no fim de semana, etc. Uma linda sincronia, essa do povo de São Paulo.
 
A fila estava lá, não tão grande, é verdade, mas estava; minhas expectativas foram cumpridas quanto a isso, mas fui desavisada de que encontraria ali a obra final de Salvador Dalí, uma verdadeira masterpiece do surrealismo.
 
(cabe antes umas breves pinceladas sobre o surrealismo e sobre o artista, mais como efeito de suspense do que qualquer outra coisa)
 
O movimento surrealista é o movimento das asas da imaginação em pleno vôo pelas terras da loucura e caracterizou-se por trazer em suas obras (seja nas artes plásticas, literatura ou cinema) o poder do inconsciente, o sonho, o abandono à lógica – ou, como escrito no Manifesto Surrealista, o horror às atitudes realistas, que seriam hostis a todo impulso intelectual; o rebaixamento da lógica como algo que serve para resolver problemas secundários; e até mesmo a crítica à nossa mania de tentar classificar tudo, de reduzir o desconhecido ao conhecido.
 
Ou ainda, na minha leiga definição, surrealista é aquela pintura doida que a gente não entende, apenas sente.
 
Salvador Dalí foi um mestre em pirações visuais, mas importante lembrar que, antes de ser um surrealista, Dalí foi um excêntrico. Era até muito criticado por chamar mais atenção do que suas obras, com seus looks pomposos e uma arrogância quase caricatural. Uma vez ele escreveu: “toda manhã quando acordo, experimento um prazer supremo: este que é ser Salvador Dalí. E então me pergunto, maravilhado, que tipo de coisa prodigiosa ele fará hoje, esse tal Salvador Dalí”.
 
Foi expulso da Academia de Artes de Madri depois de declarar que ninguém ali era bom o suficiente para lhe dar aulas (risos), mas não foi a última treta na qual se meteu. Confiscaram a carterinha dele de surrealista e o expulsaram do movimento por ele apoiar o ditador Francisco Franco durante a guerra civil espanhola.
 
(o que acho um motivo no mínimo justo de expulsar alguém de um movimento)
 
É também digna de nota sua versatilidade, por ter criado para o cinema com o diretor Luis Buñuel (com O Cão Andaluz) e pelas suas contribuições para a Disney (com o curta animado Destinoe a Hitchcock. Mas como nem só de glamour vivem os artistas, Dalí fazia uns freelas aqui e ali, como desenhar a marca do pirulito Chupa Chups.
 
Impressionante, né? Bem, nada disso eu vi na exposição. Não que a exposição estivesse pobre de informações ou incompleta; eu é que não consegui ver nada com aquele tanto de gente amontoada na frente dos quadros.
 
A fila do lado de fora continuava do lado de dentro (e por essa eu não esperava), especialmente porque na entrada de uma das salas de exposição as pessoas paravam para tirar foto na frente da cara do Salvador Dalí plotada na parede.
 
Ok, eu pensei, passando daqui vai fluir de boa. Ledo engano.
 
Se eu quisesse ver um quadro mais de perto, precisava seguir na fila, mais lenta que avenida engarrafada às seis da tarde, formada de pessoas com celulares e câmeras a postos para tirar uma bela fotografia quando chegasse a sua vez.
 
(alguns nem esperavam; do lado de fora da fila estendiam os braços para erguer a câmera, como quem tira foto em show de música, e buscavam num clique a captura de um quadro que só conseguiriam ver de perto pelo visor do celular)
 
Timidamente, eu buscava espaço na frente dos quadros menos disputados, tentando aproveitar um pouco daquela experiência ainda que eu não estivesse tirando fotos – e esta aparentemente era a única maneira correta de aproveitar aquela exposição.
 
Foi quando eu percebi. Quase por acaso, me dei conta de que eu estava diante da obra final de Salvador Dalí – enquanto tentava me posicionar em um ponto onde eu não atrapalhasse a circulação de tantos fotógrafos e documentaristas.
 
É com alguma pobreza de palavras que vou tentar descrever esta obra final:
 
Sua última criação, ainda que póstuma e involuntária, foi uma exposição artística onde a arte só servisse como pano de fundo para fotos tiradas por celulares e pequenas câmeras – e as pessoas passassem horas paradas numa fila esperando sua vez de clicar uma imagem que poderia ser encontrada facilmente na internet.
 
Sim, uma obra viva que transcendeu o tempo e o suporte estático da arte visual (a pintura, o desenho), para despir de toda lógica a própria realidade na qual a arte estava contida. Ficou confuso? É porque é surrealismo.
 
Havia também o caráter onírico que caracterizou o movimento, se tantas pessoas achando normal aquela loucura pareciam até personagens de um sonho. Eu estava mesmo vivendo aquilo ou estava sonhando? Foi com tal força que fui impactada por esta obra que até fiquei na dúvida.
 
Eu estava anestesiada pelo que o Manifesto Surrealista definiu como o maravilhoso: o maravilhoso é sempre belo, qualquer maravilhoso é belo, inclusive o maravilhoso selfie (outrora conhecido como autorretrato) que um casal sorridente tirava na frente de um painel com várias fotos do artista.
 
(não tome como uma crítica ou tentativa por minha parte de me sentir superior: “esses bárbaros que não apreciam a arte como deveria!!”. É indubitável que essas pessoas gostam de arte, com certeza mais do que eu, se tão empolgadas a ponto de querer registrar tudo em foto. Eu só estava ali a passeio; aquelas pessoas, elas sim pareciam levar o negócio a sério)
 
Não é possível explicar por que as pessoas preferiam gastar mais tempo registrando as imagens com o celular, sendo que é possível encontrar as mesmas imagens com muito melhor resolução em uma busca rápida no Google, sem precisar sair de casa e enfrentar filas.
 
E o que exatamente vão fazer com essas fotos? Mostrar para a família? Consultá-las? Postar nas redes sociais para provar que visitaram aquela exposição? Preencher a memória do celular ou da câmera com megabytes de lixo virtual que nunca mais será usado, que é pra isso mesmo que se gasta algumas centenas de reais a mais num aparelho com mais capacidade de armazenamento?
 
Não há lógica nenhuma nisso, e foi com algum constrangimento que fiquei parada tentando entender – o mesmo constrangimento que arrebata a alma humana quando diante de uma obra muito mais complexa que sua própria compreensão.
 
Saí dali tocada, sinal de que a obra alcançou seu objetivo. Fiquei apenas pensando que talvez todos aqueles grandes fotógrafos que passaram pela exposição estivessem alheios ao fato de que eram parte de uma das mais intrigantes obras surrealistas de Dalí.
 
Não, provavelmente não se deram conta, se tão concentrados em fotografar para conseguir alguns likes às custas do trabalho de um certo pintor catalão.
 
Se isso não é surreal, eu não sei o que é.
 
***
 
Seguem spoilers da exposição, se você não mora em São Paulo ou não tem saco para enfrentar longas filas (claro, lembrando que a exposição é recomendadíssima se você curte ver gente tirando foto de tudo):

 
Monumento Imperial a La Mujer Niña

 
Autorretrato cubista, porque pau de selfie é para amadores


 
El Sentimiento De Velocidad


 
El Pe de Gala

 
É isso que tem dentro da sala com uma fila gigante pra entrar: uma réplica da sala com o rosto da atriz Mae West


Você também pode colar uma foto sua na frente dessa imagem de Salvador Dalí. Ninguém vai reparar que você, na verdade, não esteve lá – porque ninguém se importa

O signo do ácaro

 


Quem reclama da vida nas grandes cidades deve invejar a morada que aquele ácaro arrumou para viver: as cerdas de uma vassoura.
 
À primeira vista parece um lugar inóspito, pouco acolhedor, mas se você é um ácaro, é um lugar razoavelmente bom. Não tem muitos vizinhos, não há a preocupação de ser despejado ou ficar sem alimentos – se a vassoura é exatamente feita para passar pela poeira, sujeira e detritos que fazem o ácaro se sentir em casa –, tem vista para o chão, é escuro e tranquilo.
 
Ácaros são uma lição de humildade e adaptalidade, pois são capazes de viver em praticamente qualquer lugar. No tapete, debaixo do colchão, até dentro das páginas de uma revista Veja em consultório de dentista.
 
O que nos interessa, no entanto, é a breve história desse ácaro específico que estamos vendo, galopando pelas cerdas de plástico duro de uma vassoura encostada na parede da área de serviço.
 
Este pequeno ácaro nasceu sob o signo de capricórnio, o que faz dele uma criaturinha determinada capaz de resistir às situações mais extremas para cumprir seu objetivo (no caso, a sobrevivência). 
 
Apesar de muito calmo e resistente, quem olha (por um microscópio) não consegue imaginar que é um fatalista diante de situações difíceis. Se qualquer coisa dá errado, mergulha numa vórtice de pessimismo e “ain como minha vida é difícil, ain nada dá certo pra mim nessa vassoura” etc etc.
 
Isso também tende a acontecer porque é muito apegado à estabilidade e à tranquilidade, ficando estressado com qualquer mudança que ameace a sua existência – e talvez o seu ascendente em touro tenha algo a ver com isso.
 
Você pode estranhar tão detalhada descrição zodiacal para um mero ácaro, um bicho que você acharia repugnante se conseguisse enxergar andando aí no teclado do seu computador, mas por quê? Ora, nasceu no mesmo planeta que você, de modo que, se você tem um signo, um ascendente, um mapa astral e a porra toda, o ácaro também pode ter.
 
O fatídico disso tudo é que o ácaro não acredita no horóscopo e não tem a nossa mania de se achar especial o suficiente para ter um destino e personalidade definidos por corpos celestes gigantescos e brilhantes a milhares e milhões de anos luz daqui (talvez acharia se fosse leonino).
 
Mas claro que os astros não definem nada, claro que no máximo influenciam nossas escolhas, alguém mais sabido em astrologia pode argumentar; é verdade, eu irei concordar. Mas que tipo de escolha pode ter um ácaro?
 
Se é possível observar a força espiritual e cósmica do universo determinar algum destino, que seja a de um organismo microscópico sobre o qual o ruído do livre arbítrio não consiga interferir.
 
E esse felizardo no caso é o nosso ácaro capricorniano, mexendo suas pinças despreocupadamente em meio a pó, restos de pele, bactérias e tufos de cabelos embaraçados em meio às cerdas de uma vassoura.
 
Seco, seguro e determinado – até uma enxurrada de desinfetante e água atravessar a floresta de cerdas e fazê-lo rodopiar vassoura adentro. Na correnteza, uma multidão de bactérias e outros seres repulsivos passava com violência e quem podia se agarrava às cerdas.
 
Alguém usava a vassoura para lavar o banheiro. O ácaro não sabia disso, assim como não teve como saber que o seu horóscopo do dia recomendava cuidado, que uma reviravolta inesperada poderia sacudir o seu cotidiano (previa também a possibilidade de conhecer gente nova).
 
Num escritório não muito longe dali, um capricorniano cético tomaria um gole de café e pensaria “que bobagem, eles nunca acertam”, enquanto o pobre ácaro escorria pelo ralo do banheiro, carregado pela correnteza da tal virada inesperada que, dito e feito, virou seu cotidiano de cabeça para baixo de forma irreversível.
 
Sem a possibilidade de ter se precavido de tão trágico acidente, só restaria ao ácaro chorar a fatalidade e se sentir vítima de alguma força maior que o estivesse fazendo passar por tantas provações: “ain, essas coisas só acontecem comigo, ain como sofro, ain perdi tudo o que eu tinha, oh que azar”.
 
Típico de capricorniano, tsc.

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"Não é o medo da loucura que nos vai obrigar a hastear a meio pau a bandeira da imaginação”, diz o Manifesto Surrealista e eu subscrevo, fazendo dessas minhas palavras finais nesta primeira newsletter de 2015.
 
Menos medo do estranho e mais disposição para imaginar: me parece a única postura possível se o que buscamos é algo novo. A realidade e a lógica já tem espaço demais.

(pelo visto, não por aqui)

 
 
Beijos esquisitos,
 
Aline.

 

Copyright © 2015 Aline Valek :: Escritora, Todos os direitos reservados.


 
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